29.5.10

perdi a de Lisboa, ganhei a de Madrid

Princípio Potosí


O Museo e Centro de Arte Rainha Sofia, aqui em Madrid, está desde 12 de Maio e até 6 de Setembro com uma exposição pouco habitual: anticapitalista, antiglobalização, pró-direitos humanos, anti-religião na medida de ser anti-colonial, anti-poderes mafiosos na Rússia, anti-anti-anti. Título: PRINCIPIO POTOSÍ - Como podemos cantar el canto del Señor en tierra ajena?

A exposição é, antes de mais, uma espécie de anti-exposição-habitual-num-museu-sério: por exemplo, é servida por um exaustivo guia de mais de 30 páginas, o qual, ao sugerir vários percursos intrincados pelo espaço, e ao pedir idas e regressos sobre diversos momentos, auto-denuncia que está a boicotar o princípio da máquina-de-fazer-visitantes-como-quem-faz-salsichas: tanta volta induzida pelo guia prejudica a fluidez da visita e, consequente, a eficiência "chupa clientes" dos grandes números de que se orgulha o museu.

Depois, a exposição, usando extensivamente arte "colonial" da América Hispânica, quer mostrar que é tola a pretensão das vanguardas modernistas ocidentais: arte de vanguarda é a da América dos séculos XVI e XVII.

Ainda mais, usa esses materiais, especialmente os de origem sacra, para mostrar como a religião foi uma farda ideológica ao serviço da exploração colonial.



O título da exposição vem da cidade boliviana de Potosí, que tinha no século XVII mais habitantes do que Londres ou Paris, em cujos montes se situavam as maiores minas de prata de todo o mundo, cuja riqueza provocou o efeito secundário de aumentar a procura local de imagens (especialmente religiosas), sendo tais imagens em parte um meio de catequização dos índios e sendo essa catequização em larga medida associada ao controlo político desse alfobre de mão de obra. Há mesmo imagens que misturavam a representação de figuras religiosas com a representação dos locais das minas.


A tese da exposição também inclui a ideia de que o mesmo tipo de fenómenos existem hoje em dia noutras partes do mundo, como o Dubai, a China ou a Rússia. Daí a denúncia dos atropelos aos direitos humanos na China, incluindo os dos migrantes internos (fotos acima e abaixo).


O uso de uma linguagem de tipo marxista, sem retirar validade aos dados apresentados, parece ser mais um recurso retórico do que uma convicção programática. Tem, contudo, a vantagem de mostrar que certa informação transmitida resiste perfeitamente ao invólucro aparentemente muito marcado ideologicamente. A nudez da realidade não se perde sequer numa retórica fora de moda.

Este quadro reproduz a seguinte citação d' O Capital: The discovery of gold and silver in America, the extirpation, enslavement and entombment in mines of the aboriginal population, the beginning of the conquest and looting of the East Indies, the turning of Africa into a warren for the commercial hunting of black-skins, signaled the rosy dawn of the era of capitalist production.

Este projecto é co-produzido com a Casa da Cultura de Berlim, fazendo jus à resistente capacidade da cultura alemã para continuar engajada num discurso político-cultural de uma grande radicalidade, mesmo quando essa radicalidade é quase "perseguida" pelo mainstream académico bem-comportado na maior parte do mundo ocidental.

Uma forma interessante de entrar mais profundamente na problemática do "Princípio de Potosí" é ler o resumo da conferência “Principio Potosí. Sobre la relación entre producción de imágenes, hegemonía y violencia”, de Alice Creischer, Eduardo Schwartzberg e Max Hinderer na Universidad Internacional de Andalucía, que teve lugar a 1 e 2 de Abril de 2009.

28.5.10

isto é falar claro

21:51

E falar à esquerda. Porque a Europa pode servir para alguma coisa. Resta é saber para quê.

Daniel Cohn-Bendit, lembram-se?

Francisco Oneto postou no Ladrões de Bicicletas e eu lá o encontrei. Legendado em português.



oi, gente, 2+2= 4, né ?!



Alex Antas, Cloud formations


Sócrates mantém tudo o que disse ao parlamento, mas não desmente SMS de Vara, espanta-se o Público, parece que inspirado no Sol. Como explica o Miguel, a historieta não tem pés nem cabeça. Antes revela que há gente que não as pensa.

Os meus pais ensinaram-se a pensar antes de falar. Nunca acharam necessário acautelar-me contra escrever sem pensar. Também, nunca lhes passou pela cabeça que eu viesse a ser jornalista: nesse caso, teriam dedicado mais lições ao assunto e a várias derivações possíveis do mesmo.

mordem, os cordeiros mansos | teatro

17:20


A companhia Histrión Teatro, de Granada, estreou, em Outubro de 2009 no Teatro Central de Sevilla, e pode ver-se agora em Madrid, mais uma vez no âmbito do Festival de Otoño en Primavera, a peça "Los Corderos", ou, mais exactamente, "Del maravilloso mundo de los animales: Los corderos". A peça foi escrita e encenada por Daniel Veronese, um homem de teatro com uma carreira volumosa e saliente, Director do Festival Internacional de Teatro de Buenos Aires e membro fundador do mítico grupo Periférico de Objetos, e é uma paródia dura à sociedade moderna nos aspectos em que ela nos colhe na suposta intimidade.



Ponto de partida: Gómez aparece amarrado e vendado na casa de Berta, sua ex-mulher, à qual não vê há vinte anos. E não compreende a que vem isso. E também não vai ser fácil explicar-lho. E, contudo, …

Em Los Corderos, essa parte do “maravilhoso mundo dos animais”, os “reencontros familiares” podem ser falsos e afinal reproduzir “cá dentro” a ferocidade do mundo de “lá fora” e a degradação das relações humanas em campo social aberto. A violência da dissolução, o simulacro preenchido com desamor, indiferença e desconhecimento, quando não incesto e violência, não são mais fáceis do que o bairro cheio de olhos críticos disfarçados de vizinhos acolhedores.


Num muito pequeno espaço (2,5 metros quadrados, seria?), uma espécie de sala mal enjorcada, ali mesmo à nossa frente sem nenhum tipo de intervalo arquitectónico, actores como se fossem gente real, uma violência nada gratuita, uma companhia que já andou pelos clássicos e desde há algum tempo se dedica a entrar pelas frigideiras dentro. Foi isto. A pressão era aliviada, de vez em quando, com um traço de humor: que algum do público, significativamente, aproveitava logo. A malta ria-se porque estava mesmo com medo de sobrar para os espectadores... (parecia).

Lisboa chama-me

15:01

O artista é BLU, desta vez em Lisboa, na Fontes Pereira de Melo.
Tomada de telemóvel pelo Nuno. Obrigado, sr. dr. filho!

versões


Então, comecem por ouvir Canon & Gigue de Johann Pachelbel (1653-1706), aqui em instrumentos da época.



E, agora, vejam o que este senhor faz com a guitarra eléctrica.




à atenção de várias brigadas do reumático

memória


Na Puerta del Sol, em Madrid, ontem.






27.5.10

publicidades



A Galp Energia realizou hoje uma acção publicitária, com base em Madrid, que incluía o primeiro anúncio televisivo incorporando um directo. O directo, de pouco mais de meio minutos, que passou em várias cadeias de TV por volta das oito e meia da tarde, cobria o lançamento nos céus da capital espanhola, a partir da Praça do Oriente, de 56.000 balões de látex cor de laranja. Enquanto pré-jantava no Café do Oriente vi os preparativos; depois, a caminho do Teatro Español, na Praça de Santa Ana, vi os balões a sobrevoar a Porta do Sol.


o PS e as presidenciais


Casamentos artificiais.


LIFE, 20 de Novembro de 1970

cartas magnas para aqui e para acolá, também tenho uma a propor


Empresários criam carta magna para defender limites à despesa, à dívida e ao défice públicos a longo prazo
. (Público)

Concordo. Espero que criem, também, uma outra carta, pelo menos tão magna como esta, para eliminar a pobreza. Pelo menos, para começar, já que não se pode esperar tudo de uma carta tão magna, para eliminar a pobreza dos que são pobres apesar de trabalharem ou terem trabalhado quando podiam. Que lhes parece, senhores empresários, seria um belo empreendimento, não lhes parece?

Sweet Nothings, pelo londrino Young Vic

11:24

O texto original (Liebelei, de 1895) é um clássico do vienense Arthur Schnitzler (que também escreveu, na mesma atmosfera de Freud, o texto de onde Stanley Kubrick tirou o filme Eyes Wide Shut). A nova versão foi escrita por David Harrower. O encenador Luc Bondy levou-a à cena no londrino Young Vic, numa co-produção com o Wiener Festwochen (de que precisamente Bondy é director) e com o Ruhrfestspiele Recklinghausen.
Nós entramos no barco em Madrid, em mais uma estreia em Espanha devida ao Festival de Otoño en Primavera. Falamos de Sweet Nothings, uma história de amor e de temor, de adultério e complicações-ilusões.


A pergunta que me coloco é esta: como posso gostar de um espectáculo de teatro que, à primeira vista, é sobre a tolice de rapariguinhas pobretanas se meterem nos braços de ricos meninos? Vejamos.

O primeiro acto, que originalmente era para ser uma apresentação demasiado longa e fastidiosa da situação, torna-se nesta versão uma corrida moderna em/de cavalos nervosos, muito flirt, muita brincadeira, muito movimento, muito cheiro a sexo prometido embora não devido, um ambiente geral de sobreaquecimento. Esse é o conteúdo da bastante liberal festança que proporcionam o afinal ingénuo, embora atrevido, Fritz, e o seu cínico amigo Theo. O álcool e o desejo às vezes combinam bem como motor e, desta vez, esses ingredientes chegam perfeitamente para fazer rodopiar a romântica Christine e a sua mais calculista amiga Mitzi. Fritz e Christine emparceiram, mas não são suficientemente iluminados para perceber e assumir que carne é carne (e diverte) e espírito é espírito (e só complica as coisas). Theo e Mitzi também emparceiram, mas sem o peso dos projectos e de ideias elaboradas acerca dos pulinhos das hormonas: é agora, é já, é o que dá, depois acaba-se e vamos andando que a Terra não pára. A coisa complica-se com a entrada de um estranho, sombrio cavalheiro, que desafia Fritz para um duelo e começa a baralhar as coisas: o marido da mulher de vestido de veludo preto quer a desforra a tiro. Pistola nem sempre rima bem com sensualidade e a sombra cai sobre a festa e muda a cor do mundo (sim, aquilo é o mundo) e do segundo acto. Os ingénuos acabam sempre por ter pernas demasiado curtas para se aventurarem nas selvas caseiras – mesmo quando, ou especialmente se, afinal, até têm sentimentos.


O segundo acto começa, pois, sombrio, na casa dos subúrbios onde Christine vai enfrentar certas consequências das coisas que lhe vieram à rede sem serem peixe. Ele é a vizinha que encarna o puritanismo de subúrbio e lhe mostra em vão o caminho da redenção; ele é o pai viúvo, testemunha da falta da mãe; ele é a tia também recentemente falecida a aumentar o cinzento da meteorologia local. A vida nunca foi fácil para as costureirinhas que se metem nos lençóis dos filhos de família – e aqui não se abre excepção. O hedonismo do primeiro acto já vai muito longe: consegue-se aqui muito eficazmente esse aprofundamento do horizonte. Os que passaram da brincadeira à pretensão de que ela podia ser amor, Fritz e Christine, dão-se mal com isso. A situação, basicamente imaginada para a Viena da transição do século XIX para o século XX, parece um bocado esquemática para os nossos olhos do século XXI, quando andamos a ler nos jornais as notícias do homem chinês que foi condenado pela justiça do capitalismo vermelho por organizar uns divertimentos entre casais lá em casa. Mas, segundo alguns, uma das coisas que Schnitzler queria originalmente mostrar é que não é o sexo que traz complicações – mas o amor.


O que é incrível, para mim, é isto: como podemos embarcar numa historieta destas? Uma parte substancial da resposta é a interpretação, especialmente dos quatro jovens actores, um deles no seu primeiro papel profissional. Alcançam um nível de subtileza, no pequeno gesto, no furtivo olhar, na entoação, no silêncio ligeiramente deslocado do seu local natural para produzir um efeito completamente diferente, que realmente muda tudo. Começamos a pensar que não vamos poder acreditar em nada daquilo, acabamos a acreditar que aquilo ainda poderia afinal existir: se eles o fazem!

A outra parte substancial da resposta é a encenação, a cargo do suíço Luc Bondy: muito gráfica, entra-nos pelos sentidos dentro como uma certa BD à antiga ou uma certa linguagem de publicidade requintada. O colorido do prazer e o escuro das penas são visualmente plasmadas pela encenação no nosso sentir imediato. Das cores fortes da excitação em crescendo passa-se ao branco dos espaços de doença; do caos da festa passa-se ao espaço ordenado da hora de sofrer. Aprecio a transparência da encenação: nada de meter fumo entre nós e as personagens. Nada de impedir os actores de nos fazerem sentir implicados na embrulhada: o que eles fazem muito bem, como se simplesmente estivéssemos no zoológico a ver os animais naturais a viver. Apenas fechados na jaula da sala de teatro. Mas sem terem perdido nada do seu nervo selvagem. Fazendo-nos sentir que, se sairmos do nosso lugar de espectadores e dermos um passo em frente, vamos ser comidos. Ou, pelo menos, mastigados pela vida que eles estão a levar ali mesmo à nossa frente.

De facto, o teatro cria vida à nossa frente. A velha Viena à nossa frente no século XXI, afinal existe.

provérbios croatas


Merkel, "ingénua" e "autista", ouviu de Barroso aquilo que muitos só ousam pensar.
Acrescentava o Público: «Numa entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung publicada no início da semana, o presidente da Comissão Europeia notou que, "nos últimos anos, não se ouviram muitas vozes na política alemã a explicar à opinião pública até que ponto era importante para a Alemanha ter o euro". Barroso acusou, por outro lado, implicitamente Angela Merkel, chanceler alemã, de ter agravado a crise do euro por causa das suas hesitações sobre o apoio da eurolândia à Grécia. "O nosso processo de decisão durou tempo de mais, e os mercados viram demasiados sinais contraditórios."»

Confesso que, quando li as declarações de Barroso, pensei que desta vez ele tinha razão. Agora, a ajudar a uma melhor reflexão, atendendo ao papel de Barroso na peça toda, recebo uma mensagem de um amigo de Zagreb.

Segundo ele, há, e aplica-se, o seguinte provérbio croata: «A coruja criticou o rouxinol de ter um pescoço gordo».



M.S. Lourenço : filósofo

09:40

Estarei em caminho, não poderei comparecer. Com pena. É que M.S. Lourenço foi um filósofo de categoria mundial. Entre nós, parece ser só para iniciados. Tendo sido aluno durante dois anos nos seus  (na altura pouco concorridos) seminários de Mestrado, tive a oportunidade de compreender um pouco melhor como funcionava a sua raridade.
Para quem não conheça, sugiro um aperitivo: a entrevista, concedida a Miguel Tamen, que faz parte do volume A. M. Feijó & M. Tamen (eds.) A Teoria do programa. Uma homenagem a Maria de Lourdes Ferraz e a M. S. Lourenço, Lisboa, Programa em Teoria da Literatura, 2007, pp. 313-64, e que se pode ler em linha aqui.
A página de M.S. Lourenço, mesmo após o seu passamento a 1 de Agosto de 2009, continua disponível.


26.5.10

a austeridade é boa...


... porque faz crescer... o tórax.

(Cartoon de Marc S.)


presidenciais

12:27

Será verdade que, segundo afirma a TSF, "Sócrates diz que será ele a escolher candidato apoiado pelo PS"?
É que, a ser verdade, tenho pena pelo PS. E isto não tem nada a ver com a escolha que venha a ser feita. Tem, "apenas", a ver com a democracia interna dos partidos.
Não ouvi as declarações, o título pode estar errado. Mas, se Sócrates disse, ou quis dizer, aquilo, é uma má lição que está a dar. E temos o dever de não engolir más lições.

o polvo Sócrates...


... também tomou conta da OCDE. Irra, que já é demais, todos vendidos.

OCDE prevê crescimento de 1 por cento este ano em Portugal. (Público)

«A OCDE lançou hoje uma previsão de crescimento de um por cento da economia portuguesa este ano, acima dos 0,7 por cento previstos pelo Governo no PEC, bem como da previsão do Banco de Portugal e do FMI.»

(Ressalva: não julguem que eu julgo que isto é o nosso amanhã que canta.)



será a física a mãe de todas as ideologias?


«Seria, sem dúvida, uma forma esplêndida de aferir a confiança dos economistas nas suas próprias ideias exigir que as pusessem à prova à custa da própria carteira. Se isto fosse um critério de publicação, um cínico poderia esperar ver uma redução significativa da literatura sobre previsão de mercados. Em 1995, o cientista francês Jean-Pierre Aguilar teve a coragem rara de apostar o seu dinheiro na tese de que existe física na economia. Foi persuadido por um modelo de quedas de mercado, baseado na física, a comprar opções na conta de uma empresa de gestão de fundos que negociava com base nesses modelos. O modelo previa uma queda de obrigações do tesouro do governo japonês em Maio desse ano. Nunca aconteceu e Aguilar teve de se envolver numa contranegociação delicada para evitar perder a sua participação.»

Philip Ball, Massa Crítica, Gradiva, p. 285


25.5.10

a crise é tramada (capítulo 1 : começar por baixo)


O jornal i partiu em busca dos efeitos da crise no bolso dos portugueses. E concluiu o seguinte:
- há famílias que, em relação a 2009, vão pagar a mais, de IRS, cerca de 145 euros em 2010 e cerca de 265 euros em 2011;
- há famílias que vão pagar a mais cerca de 269 euros em 2010 e cerca de 415 euros em 2011;
- há famílias que vão pagar a mais cerca de 1423 euros em 2010 e cerca de 2323 euros em 2011.

Trágico, de facto. Estão a falar de famílias com rendimentos de, respectivamente, 5.787 euros mensais, 10.000 euros mensais, 20.000 euros mensais.

A esmagadora maioria dos portugueses está danada com estes números. Acham que o principal problema do país é que haja gente a pagar tanto de IRS.


o sacana do Sócrates...

BD por Espanha


Sou um ignorante da BD que interessa em Espanha. Cheguei recentemente a alguns títulos premiados em terra de nuestros hermanos. Dou hoje conta do álbum Arrugas (rugas) do valenciano Paco Roca (editora Astiberri, 2008), que foi Premio Nacional del Cómic 2008.


A obra é sobre a velhice abandonada em "instituições". Em particular sobre os que padecem de Alzheimer. Têm razão os que dizem que este álbum de banda desenhada prova o poder deste meio de expressão, ao mostrar o que só escrito não nos chegaria tão completo. O desenho é um tanto ingénuo e adocicado, a história é o que já se sabe, mas o tema faz o sucesso do trabalho. Para não dar as imagens mais cruas - e mais importantes -, ficamos pela sequência mais poética do conjunto. A ilustrar uma das características da doença focada nesta obra.

Clicar nas imagens permite vê-las melhor.




ao tempo que eu não ouvia estes


Lembrado pelo Paulo.

The Penguin Cafe Orchestra - Air à Danser [When in Rome]




24.5.10

à atenção de Nuno Crato, de Medina Carreira e do impagável João Duque

23:29

O MFerrer, do Homem ao Mar!, escreve-lhes uma cartinha muito gostosa.
Começa assim:
«Vossas Senhorias têm-se desdobrado em esclarecimentos e não poucas recriminações sobre as malfeitorias do Governo de Sócrates. Digamos que, em especial, em tudo. Ora eu, que bebo da água das fontes, ando inquieto. Já pensei até que seria melhor, como têm sugerido, ir ao banco e levantar a massa. Bastaria tê-la lá, não era? Mas não. Tenho que me contentar com as insónias os outros. Fui, foi tratar de ver onde poderia colocá-la, caso tivesse.»
E depois vem a explicação em detalhe.

fascista é a tua tia, pá

14:38

Um conjunto de escolas em Aveiro quer comemorar o Centenário da República fazendo as crianças participar numa reconstituição histórica das várias fases dos tais 100 anos. A uma das escolas cabe representar o período do Estado Novo. Um deputado do BE vem dizer que é revivalismo. Salvo uma clara demonstração de que a realização implica qualquer tipo de apoio às ideias do período histórico em causa, demonstração que cabe ao deputado acusador, teremos que dizer que estamos perante um acto tresloucado do deputado do BE. Era bom que parassem de poluir tudo o que se tenta fazer neste país, de conspurcar o trabalho de toda a gente que não se deixa atolar na rotina. A táctica de vampirizar tudo por motivos políticos é um nojo - não encontro outra palavra para o dizer.

idas de ir

Mais uma obra premiada de Rui Herbon: A Chave, Prémio Branquinho da Fonseca de Conto Fantástico, 2009. Editada pela Parceria A. M. Pereira.
Lançamento amanhã, 25 de Maio, pelas 18:30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos.


a natureza do escorpião e as PPP

12:39

Portugal é o país da UE que mais recorreu a contratos de Parcerias Público-Privadas. (Público)

Agora toda a gente vê grandes defeitos nas PPP. Cabe lembrar que elas fizeram furor entre nós no âmbito de um endeusamento do privado em confronto com o público. Era preciso meter privados em tudo para aumentar a racionalidade de tudo, porque supostamente tudo em que o Estado se metia acabava mal, era mal gerido e aplicava mal os nossos dinheiros. Agora, que está claro que a harmonização entre o interesse público e o interesse privado não é automática, dá trabalho, custa dinheiro e implica riscos, fazem (alguns) de conta que isto é um problema gestionário. Não é. É político. É político, porque não podemos gastar o que não temos à pala de atirar a factura para a frente. É político, porque não é possível reduzir a complexidade do mundo a uma tabela Excel. Nem mesmo a um contrato de parceria, quando nessa parceria os interesses públicos são colocados no mesmo plano do lucro empresarial. (Isto não é condenar as empresas nem o lucro: é defender que essa realidade deve estar num plano diferente do interesse público.)
No caso do escorpião, a explicação estava na sua natureza. Mas em democracia, quando os dogmas da economia dominante passam por realidades, o problema não é da natureza. É da ideologia.

a fonte universal

11:18

Quem conhece as teorias de Pacheco Pereira - e eu só conheço de ver as figuras públicas que ele faz - compreende que ele chegou ao cume da montanha dos seus desejos.

(um quadrinho de Les Aventures de la Fin de L'Episode, de Trondheim & Le Gall)


Num assunto de Estado (que ele acha que é de Estado, embora seja apenas mais um episódio da estratégia pidesca contra Sócrates), o caso TVI segundo a última (em data) comissão parlamentar que se debruça sobre o não-caso, JPP já não quer ter apenas um dos títulos de que ele habitualmente já se entende detentor. Exemplos, seguem-se. O único lúcido perante a burrice de todos os outros. O melhor colector de papéis ao cimo da Terra (tirando os serviços de higiene urbana de New York). O mais brilhante analista, capaz de furar o próprio nevoeiro na entrada da barra. A JPP já não basta ter (ser possuidor de) um programa de TV só para elaborar o seu index pessoal das opiniões proibidas. Tudo isto agora é nada, face ao novo estatuto de JPP.

JPP é, agora, a fonte universal. Acabou-se a questão de saber como é que este jornalista soube deste segredo, como é que aquele político penetrou nos canhanhos guardados a sete chaves por juízes impolutos. JPP, agora, está na ímpar situação de que só ele viu, só ele sabe, só ele pode contar. Não importa se, de facto, mais alguém viu, sendo isso pormenores: ele é o único com estatuto para disfrutar desse miradouro. Quer dizer: JPP transformou-se na fonte universal acerca da relevância política das escutas. Ele, que até já sabia as conclusões da comissão de inquérito antes do deputado Semedo, o que é coisa de monta sendo certo que Semedo também já as sabia antes da Comissão dar um pio, acedeu ao estatuto epistemológico da omnisciência auto-produzida. Pacheco viu mais luz no cantinho de consulta às escutas do que viram os três pastorinhos em Fátima no tempo da revolução russa e do medo dos vermelhos. Pacheco encontrou, finalmente, o lugar apropriado para a sua visão da política: ele é a fonte universal. No ver dele, será a primeira experiência de autêntica democratização da comunicação social. Uma première mundial.

23.5.10

visto de Espanha

18:40
(um quadradinho de Megalex, por Jodorowsky & Beltran)


Há uns dias o primeiro-ministro de Portugal veio a Espanha. Entre outras coisas deu uma entrevista num programa televisivo matinal de análise política, no qual falou em espanhol. Nesse programa há sempre um painel de comentadores para escrutinar o que dizem os convidados. Desta vez, o facto do PM ter falado em espanhol foi elogiado logo pela entrevistadora e depois pelo painel de comentadores. Os comentadores elogiaram a entrevista, a compreensão dos problemas que o chefe do governo português mostrou, a dimensão europeia de Sócrates, o facto daquele discurso de um responsável português não ter qualquer sombra dos costumeiros complexos face aos espanhóis. Os comentadores elogiaram a convergência entre o governo e o maior partido da oposição num momento de aperto em Portugal, acharam que a imagem do "são preciso dois para dançar o tango" é uma boa maneira de explicar a situação, mostraram até alguma inveja por isso não se ter feito em Espanha. Em suma, acharam um êxito aquele momento televisivo do PM português.
Vejo, pelo que posso acompanhar em linha do que se diz em Portugal, que os do costume - em Portugal - acham horrível tudo o que aqui se achou excelente. Há até um enorme investimento em tentar ensinar espanhol a Sócrates e ao mundo, de um momento para o outro. Que pensar?
Penso, francamente, à primeira vista, em provincianismo.
Depois, pensando melhor, acho que é demasiado estruturado para ser espontâneo. O provincianismo não costuma ser tão diligente, usa ser mais passivo. Eu, que até detesto teorias da conspiração, começo a perceber a história das "centrais de intoxicação". Que, então sim, exploram todas as energias escondidas do provincianismo. Puxam pelo que de pior há em nós. E ainda falam, nas horas vagas, de racionalidade dos agentes...