4.9.09

o terremoto de Lisboa



O terremoto, seguido de maremoto, de Lisboa, em 1755, desencadeou uma crise tremenda no pensamento teológico e filosófico da época. A questão estava na dificuldade de compreender como pode acontecer o mal num mundo bem ordenado criado por Deus. Como pode Deus deixar que aconteçam coisas más? Como pode Deus, ainda por cima, deixar que sejam vítimas dessas coisas más aqueles que são bons, tais como as criancinhas e demais inocentes? Se Deus é benevolente, se Deus é todo-poderoso, como poder haver todo este mal no mundo?

Não foi fácil, nesse tempo, identificar onde estava o defeito do raciocínio. Ou pelo menos admitir onde tinha obrigatoriamente de levar a resposta: ou Deus não existia, ou não era todo-poderoso, ou não era benevolente. Resolver o problema passava por considerar outros factores que não o "culpado óbvio" com os poderes "óbvios" e a psicologia "óbvia".

É assim em muitos dos "escândalos" fabricados nesta campanha eleitoral. Perceber o que eles significam passa necessariamente por olhar para outros lados que não o "culpado óbvio". O terremoto de Lisboa não tinha nada a ver com Deus. Que "Ele" fosse o culpado óbvio era culpa de uma má compreensão do problema. Também assim nos casos ... (enumeração a cargo do leitor).

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Prisa nega interferência na suspensão do Jornal Nacional de Sexta da TVI.


Cui bono?


A ex-deputada do CDS/PP, Manuela Moura Guedes (MMG), esticou a corda na TVI.
Jornalista na mesma casa onde existia um chefe muito dedicado, José Eduardo Moniz (JEM), MMG levou até ao extremo uma “linha editorial” particularmente interessada num só homem e num só partido. Recentemente tornou-se óbvio que poderiam ocorrer modificações importantes na estrutura accionista da empresa. Pressão político-mediática, exercida para tentar envolver o PS nessas modificações accionistas, acabou por impedir uma empresa com capitais públicos de fazer o seu negócio nesse caso. Outra empresa aproveitou a circunstância e comprou uma fatia interessante da TVI. Entretanto, JEM saíra da TVI, com uma indemnização razoável. MMG apressou-se a esclarecer que isso não a afectava nada. Mas é claro que o quadro de “estabilidade protegida” de que gozava MMG podia vir a ser afectado. JEM reconheceu que sempre sentira dificuldades (manifestações de desacordo) por causa da linha editorial da estação, incluindo o jornal de MMG. Mesmo na TVI, qualquer espectáculo acaba por cansar: o Big Brother também teve os seus momentos de glória. A ex-deputada do CDS/PP, MMG, gosta de fazer acontecer, em vez de esperar que chegue o seu dia. Acrescentar algum vinagre na ferida podia dar bons resultados: uma ideia interessante seria provocar, talvez mesmo insultar, os seus patrões. Declarou: “Só se fossem muito estúpidos é que me tiravam do ar”. Provavelmente poucos patrões engoliriam o desafio. E provavelmente isso foi calculado.
Os resultados começam a aparecer. A primeira parte já está: a vingança política. Servir à oposição a oportunidade de mais uma calúnia é a primeira fatia. A oposição aproveita sem qualquer pudor: não se sente obrigada a fundamentar nada do que diz, só lhe interessa poluir. Mas talvez MMG possa esperar mais resultados. Uma indemnização, um destes dias?
A pergunta a fazer é sempre cui bono? Quem beneficia com isto? Quem precisa de que a campanha eleitoral seja isto, em vez de discussão dos programas e da obra de cada um? Quem quer calar os sinais de que Portugal é um dos países que melhor enfrentaram a crise? Quem acha que só pode ganhar com uma campanha de calúnias?

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Sócrates admite que fim do jornal de Moura Guedes pode prejudicar PS nas eleições.

TVI: Prisa nega qualquer interferência de Madrid e garante decisão tomada em Lisboa
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Emídio Rangel nega ter sido contactado para ocupar cargo na TVI.

Prisa nega interferência na suspensão do Jornal Nacional de Sexta da TVI.

3.9.09

notícias com cores



Juan Muñoz @ Serralves 2009 (Foto P.S.)


As estimativas de crescimento económico hoje apresentadas pelo EUROSTAT confirmam que Portugal cresceu no 2º trimestre de 2009, em comparação com o trimestre anterior, 0,3%. Na UE (a 27) só dois países apresentam um desempenho melhor que Portugal (Eslováquia e Polónia) e três países um desempenho igual (Alemanha, Grécia e França). É um sinal que aponta para a recuperação da economia portuguesa. É pouco? Mas é um indicador positivo como mostra, de forma impressiva, o título da notícia no DN: UE caiu 0,2%, Portugal subiu 0,3 no último trimestre.

Gabinete de José Sócrates acusado de ameaçar gestor do PSD.


Suspenso o Jornal Nacional na TVI.

Acualização: O meu pedido de desculpas ao Eduardo, do Absorto, a quem roubei a notícia rosa - sem o mencionar.

empregados que falam demais para o gosto do patrão

vejam Berlusconi para perceberem o que os seus amigos podem fazer


«En apenas una semana de trabajo como "desenmascarador de moralistas", Vittorio Feltri, director del periódico de la familia Berlusconi, Il Giornale, ya se ha cobrado su primera víctima. Se trata de Dino Boffo, el director de Avvenire, periódico de la Conferencia Episcopal Italiana (CEI).
Boffo ha dimitido hoy de su cargo de forma irrevocable a través de una carta enviada al presidente de la CEI, Angelo Bagnasco, en la que explica que su vida y su familia han sido "violadas por el ataque desmesurado, capcioso y feroz de Feltri", y afirma que deja el puesto "para evitar que la guerra continúe".
La semana pasada, Il Giornale publicó, basándose en un informe anónimo, que Boffo es homosexual y que había sido condenado a una multa de 516 euros en 2004 por acosar telefónicamente a la esposa del hombre con quien mantenía una relación sentimental.
Aunque Boffo ha negado esas acusaciones y había recibido todo el apoyo de la CEI y de la Santa Sede, no ha soportado la creciente presión ejercida por los medios berlusconianos. Este miércoles, la revista Panorama, incluida en el imperio Mondadori, remató la faena iniciada por Feltri con un reportaje que daba más detalles de la oscura historia.»
Aqui.

não era xeque-mate, era bluff


Manuela Moura Guedes tomou-se por intocável. O seu truque até era simples: é tão evidente que está em campanha contra um partido e contra uma pessoa que, sendo esse partido o partido do governo e sendo essa pessoa o primeiro-ministro, ninguém lhe tocará por receio das especulações.
O seu único erro foi ter exposto o truque: declarando, sobre os seus "patrões", que seriam estúpidos se a tirassem do ar, mostrou que a sua cruzada pessoal estava acima dos interesses da sua empresa. Que é uma empresa privada e que pode não estar interessada em tornar-se demasiado obviamente num peão eleitoral.
Mas, claro, os amantes das inventonas queriam garantir a toda custo que a senhora Guedes se manteria no posto enquanto fosse útil. Só falta explicar-lhes que estão a levar longe demais a tentativa de "nacionalizar pela turba" uma empresa privada.

Claro: Moniz considera cancelamento do Jornal de Sexta "um escândalo". Que espanto.


os suspeitos do costume



Manuela Moura Guedes confirmou hoje ao PÚBLICO a demissão da direcção de informação da TVI depois da suspensão do Jornal Nacional que apresentava e coordenava e que amanhã regressava depois de um período de férias
.

E lá vem o coro do costume a apontar o dedo ao PS. Como de costume, sem nada a suportar a sugestão. Porque já não acham que devam sequer suportar as suas acusações. Acham-se no papel de inquisidores, que não agem na base de qualquer dado objectivo, apenas "convicções".

Aqui há uns anos, quando a Prisa chegou à TVI, houve muitas profecias de que era uma manobra (internacional) dos socialistas para controlar a informação. Foi o que se viu. Mas, claro, o fracasso das profecias não desmobiliza os crentes em teorias da conspiração. Só por que sim, claro. Porque parece muito efectivo jogar com aparências.

E porque alguns acham que podem controlar uma empresa só pelo jogo do barulho mediático. Madame Moura Guedes estaria protegida pelo bruaa dos que vivem politicamente do seu "jornal".

notícias do povo da lama

professores / eleições / discursos

13:15

(Schuitten & Peeters, As Cidades Obscuras)

Aparentemente, a abordagem eleitoral do PS à hostilidade de largas camadas dos professores, relacionada com a acção do Ministério da Educação (ME), consiste numa variante de humildade e delicadeza a que se dá o nome de “dificuldades de comunicação”. Isso, como não podia deixar de ser, está a ser interpretado como um arrependimento tardio. Na verdade, para quem quer continuar a governar numa linha reformista, esta linha de campanha não ajuda a abrir os caminhos do futuro.
Em primeiro lugar, é significativo – pela negativa - que alguns tentem reduzir a acção do ME a questões ligadas à carreira docente. Esta legislatura foi daquelas em que mais se fez pela escola pública em Portugal: organizando-a melhor e dando-lhe mais meios para cumprir o seu papel; focando-a nas necessidades dos alunos, das famílias e do país; contrariando um certo acomodamento anterior à ideia de que a boa escola só poderia vir dos privados. Secundarizar isso face a certos aspectos da carreira docente – é um erro de perspectiva. Não podemos consentir nesse erro. O que há a dizer sobre os professores só faz sentido no quadro do que há a dizer sobre a escola pública ao serviço das pessoas e do país.
Isso não nos impede de reconhecer que, por serem as pessoas o fermento de qualquer organização de qualidade, as questões ligadas à carreira docente têm lugar de destaque na promoção da escola pública. Mas, e este é o meu segundo ponto, aqui é preciso dizer: o real objecto da contestação de muitos professores não foram certos aspectos dos modelos propostos, mas as ideias de base de uma carreira profissional moderna. Houve erros na concretização do acesso à titularidade, tal como nem tudo estava certo no modelo de avaliação proposto. Contudo, seria ingenuidade ignorar que o cerne da contestação é a própria existência de uma carreira diferenciada e a própria existência de uma avaliação com consequências. Ora, nenhuma carreira profissional altamente qualificada e estratégica, como é a carreira docente, dispensa esses elementos: diferenciação pelo mérito e o desempenho; avaliação com consequências. Não vale a pena evitar dizer isto claramente.
Então, o que devemos dizer? Esse é o meu terceiro e último ponto. Devemos dizer que o PS não abdica de fazer avançar a escola pública e que o PS quer os professores no cerne desse avanço. E que para isso a carreira docente tem de ser modernizada. E que isso passa pela diferenciação no interior da carreira e por uma avaliação exigente e com consequências. E que isso, se pode parecer uma ameaça aos professores, é antes a oportunidade de os professores terem uma escola mais qualificada, onde a sua realização profissional seja mais completa e o seu papel seja revalorizado. E isso pode ser feito com os professores que aceitem o repto do empenhamento e ultrapassem o estádio da contestação político-sindical manipulada, onde os dirigentes sindicais se acham à vontade para enunciar objectivos de cariz partidário para a luta dos professores e os professores se acomodam a isso.
E devemos dizer que um governo do PS quererá negociar com os professores e aceitar o seu contributo – desde que sem tentativas de ultimatos a quem detém a legitimidade política para reformar. Lembrar que as estruturas acordadas e criadas para acompanhar a implementação da avaliação, e para encontrar soluções para as dificuldades concretas, foram boicotadas porque os sindicatos promoveram uma linha de ruptura e confronto. O PS deve dizer que um seu governo quererá, como sempre quis, negociar – mas que para isso precisa de parceiros à altura.
O PS deve dizer aos professores que o seu próximo governo não vai deitar fora o que fez até agora. E que, se quiserem aceitar o repto de fazer ainda mais e ainda melhor, colaborando no desenho concreto das soluções, o seu contributo é necessário e bem-vindo. E continuar a salientar, porque é verdade, que os professores serão um dos grupos ganhadores deste esforço. Claro, isto não convencerá os professores que só querem que não toquem no seu quintal. Mas esses estão bem acondicionados nas mãos da coligação negativa [PSD, CDS, BE, PCP] que explora o conflito e o medo. Acredito que devemos falar preferencialmente para os demais: os muitos que querem aceitar o desafio de avançar.

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2.9.09

confusões


Sócrates foi sem dúvida superior a Portas no primeiro dos frente-a-frente das Legislativas 2009. Mas disse um disparate imperdoável. Segundo ele, a democracia cometeu o erro de acabar com o ensino profissional. Mas está errado: a democracia acabou com um sistema discriminatório, que negava ao ensino profissional as mesmas oportunidades que dava ao ensino liceal. Sistema esse que estava desenhado para perpetuar a estratificação social herdada. Um PM não deve permitir-se estas pérolas. Ou deixou-se contagiar pelo nível e os chavões do oponente de circunstância?!

Sócrates / Portas

Portas / Sócrates

porcarias



Debates televisivos. PS tentou impor as suas regras, mas os temas ficam nas mãos das televisões.


Como é sabido, todos os partidos procuram que a organização dos debates lhes seja o mais desfavorável possível. Só o PS procura influenciar o modelo de debate de acordo com o seu interesse. É assim, não é? Ou isto é apenas o sr. Fernandes em mais uma das suas porcarias? Como se lhe pagassem para fazer campanha eleitoral. "Como se", sublinho.


é preciso descaramento



O quotidiano i acolhe uma série de reacções à entrevista de Sócrates à RTP1 ontem à noite. Paula Teixeira da Cruz, uma das comentadoras, consegue em meia dúzia de linhas revelar (por sectarismo) a mais pura falta de discernimento.
Escreve: «Em primeiro lugar, não deixa de ser curioso que o primeiro-ministro tenha aquele tempo de antena no canal oficial do regime.» Queria o quê? Proibir Sócrates de ir à RTP? Ou isto é só para desviar as atenções da mal disfarçada cumplicidade de Judite com Manuela na anterior entrevista desta série?
Escreve também: «É particularmente negativo que o primeiro-ministro tenha afirmado que tem juízes amigos. Um primeiro-ministro não pode ter juízes amigos ou inimigos. A magistratura é independente.» Pura deturpação: ter amigos que são juízes (aquilo de que falou Sócrates) é inconfundível com a situação de ter juízes que fazem favores e que não fazem jus à sua condição. A deturpação é gratuitamente ofensiva. Cola bem com o estilo actual de certa maneira de fazer política à portuguesa: jogar baixo.


31.8.09

alicerces

em defesa da escola pública

11:14


João Rodrigues escreve hoje, na sua habitual crónica no quotidiano i, que o recente alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano (uma medida de esquerda, reconhece), pode ser posto em causa pelo desvirtuamento da escola pública. Nesse desvirtuamento envolve o actual governo socialista. Trata-se de uma nova moda: como se tornou impossível esconder as políticas de esquerda do actual governo, ataca-se de cernelha. Assim: as medidas tal e tal até são de esquerda, mas, na falta de outras medidas x e y, estas afinal não são bem de esquerda.

Ora, mesmo à primeira vista, o artigo de João Rodrigues (que muitas vezes escreve coisas muito pertinentes) tem vários vícios lamentáveis.

Primeiro, parece ignorar o enorme investimento político (e material) feito por este governo na escola pública. Em muitas áreas, uma aposta sem precedentes: aulas de substituição como princípio de um reforço da oferta; concretização do princípio da escola a tempo inteiro; reestruturação da rede do básico; modernização do parque escola; generalização do ensino do inglês, da música e da actividade desportiva no 1º ciclo; reforço do ensino artístico; alargamento do acesso à acção social escolar; forte desenvolvimento do ensino profissional. Exemplos, apenas. Exemplos do fortíssimo investimento deste governo na escola pública. Tudo isso é passado em branco.

Segundo, o artigo de João Rodrigues cede à tentação do imediatismo eleitoral fácil. Quando diz que o modelo de avaliação dos professores faz parte de um ataque à escola pública. Podem ter-se variadas opiniões sobre o modelo que em concreto foi proposto, o qual, certamente, não é perfeito (como nada na vida é perfeito). Mas esquecer que a avaliação do desempenho docente, e que essa avaliação deve ter consequências, é um elemento central de uma política de promoção e defesa da escola pública – é um esquecimento demasiado grave. O “deixar andar” é que seria conveniente para os que esperam que a escola pública arraste os pés – para deixar espaço crescente aos privados. Repito: qualquer que seja a opinião sobre esta avaliação, não é sério meter essa iniciativa na gaveta do ataque à escola pública.

Terceiro, João Rodrigues, para promover a escola pública, propõe acabar com o financiamento (directo e indirecto) ao ensino privado. Aqui temos uma amostra excelente da insensibilidade social das opiniões pretensamente radicais. Saberá o autor do artigo o que isso significaria, por exemplo em termos da oferta de ensino profissional? Ou em termos de oferta educativa para sectores com necessidades específicas, por exemplo deficiências? E, já agora, abrangeria também o ensino cooperativo nessa “expulsão”? E tem a noção do que isso significaria para milhares de famílias? Ou isso não interessa nada à sua “cruzada”?

Este texto de João Rodrigues é um bom exemplo de quão inquinados andam os debates à esquerda. Talvez o PS se tenha distraído mais do que o aconselhável de certas preocupações a que dão voz outras forças de esquerda. E até uma interessante esquerda académica que por aí anda. Mas a ligeireza com que certos pensadores, que se pretendem da esquerda da esquerda, atiram para cima da mesa com distorções da realidade e com versões mal embrulhadas de velhas tentações de engenharia social – mostra que essa “esquerda da esquerda” tem ainda de fazer um esforço de concentração no real. Porque o real nunca é tão simples como as tentações ideológicas querem fazer crer. Por muito necessárias que sejam as ideologias. Que são.

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para perceber o que disse Sócrates ontem



Coisas que Manuela Ferreira Leite disse e agora alguns pretendem que não disse.


1. MFL: Casamento é para procriação





2. MFL: O desemprego que as obras públicas combatem é o desemprego da Ucrânia e de Cabo Verde





3. MFL: Suspender a democracia por seis meses




Ler o atento Carlos Santos, neste "as provas".


30.8.09

Nossa Senhora da Praia


A procissão da Nossa Senhora da Praia entra no mar na Praia das Maçãs. Hoje. Reportagem fotográfica um pouco mais completa um destes dias.