8.8.09

"a ideologia dos robôs"



No Robotizando, blogue do Expresso da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Robótica, há uma fresquíssima entrada com o título "A Ideologia dos Robôs", da autoria de Pedro Lima, actual presidente daquela Sociedade. Começa assim:

«Um candidato às últimas eleições presidenciais portuguesas declarou, numa das actividades de campanha, que "duas pessoas sérias na posse da mesma informação não podem senão ter a mesma opinião". Não vamos discutir aqui, por não ser o espaço próprio, se tal afirmação pode ser considerada uma verdade insofismável numa sociedade humana - mas garantimos que no mundo dos robôs há teorias e práticas que a põem em causa, sem margem para dúvidas! »

Vale a pena ler o resto: aqui.


o precipitado anúncio da morte do Estado Social

18:02

Piter Saura, Cabeza Soñadora V


Alexandre Homem Cristo, no Diário Económico de ontem, em texto intitulado "Irreal social", descascava nos defensores do Estado Social: "O Estado Social aguarda que alguém lhe passe a certidão de óbito". O governo socialista é acusado de não ver isso (aparentemente, por esse governo se guiar por "números e estatísticas", em mais uma instância do argumento do geocentrismo).

Ora, vale a pena sugerir a Homem Cristo a leitura de uma notícia da edição de hoje do Expresso, intitulada "Estados Unidos - Saúde será vitória histórica". Aí se explica que o presidente daquele país trava uma luta política gigantesca para criar um sistema nacional de saúde pelo menos digno dessa designação. Parece que Obama anda distraído e se tem esquecido de ler a prosa ilustrada de Homem Cristo. A notícia destaca uma das verdadeiras razões para os Republicanos se oporem a esta reforma estrutural: "ela será tão popular que custará o poder aos republicanos por uma geração". Parece que o anúncio da morte do Estado Social é um pouco exagerada.

Mas, pronto: Obama e a sua administração podem ser esplendidamente menos informados da máquina do mundo do que um colunista à procura de argumentos para atacar o PS neste jardim à beira-mar plantado durante uma campanha eleitoral. Essas coisas acontecem. Contudo, mais curioso ainda, é que o texto de Homem Cristo dá uma explicação económica para o óbito do Estado Social: não há dinheiro. Nem caminho por onde arranjar como financiar o reforço do Estado Social. Portanto, lá está, o óbito é o resultado da falência. Concordamos num ponto: os sistemas públicos que configuram concretamente o Estado Social devem ser geridos de forma a não desperdiçar o dinheiro dos contribuintes. E não podemos governar como se o dinheiro caísse do céu.

Entretanto, a notícia diz ainda outra coisa interessante: os Estados Unidos, apesar de estarem relativamente mal colocados em cuidados de saúde a nível mundial (muito atrás de Portugal, por exemplo), gastam muito mais do que outros que fazem melhor: Portugal gasta 10% do seu PIB em saúde, os EUA gastam 16%. Por culpa de o sistema de saúde dos EUA ser muito generoso? Não; por praticamente não existir, potenciando um verdadeiro desbaratar de recursos em seguros privados que em geral não garantem uma protecção minimamente adequada. Dirão: mas não é o Estado que assim gasta, são os privados. Esse seria um curioso argumento, especialmente se viesse do lado dos que vêem a "sociedade civil" como oposta ao Estado e mais digna do que os mecanismos públicos. Portanto, mesmo por razões económicas, seria conveniente ter cuidado com o anúncio da morte do Estado Social. Cuidar da sua viabilidade: isso, sim, parece razoável - mas dificilmente compatível com o espírito liquidacionista.

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comédias



Continuam alguns a querer alimentar polémicas insanes, colocando-se em bicos de pés (caso do Público) ou metendo-se nas competências de outros órgãos do Estado.
Veja-se mais esta "notícia" do Público, onde o sr. Fernandes há muito esqueceu qualquer pingo de decência: «Nova formação do Conselho de Bioética pode favorecer o Governo». Ora, como explica Sofia Loureiro dos Santos, no Defender o Quadrado, neste apontamento intitulado Intrigas palacianas, trata-se de cada órgão do Estado fazer a sua parte, de acordo com a lei. E seria saudável que deixasse de haver tanta gente, a começar no Palácio de Belém, a confundir os negócios do Estado com a defesa de supostos amigos políticos. O que se queria? Que Cavaco nomeasse gente para órgãos onde a legislação não prevê tal coisa? Haja decência.


7.8.09

emprego, mentiras e coisas a fazer



Daniel Amaral escreve hoje no Diário Económico:
«No programa para as legislativas que viria a ganhar, o PS fixou como objectivo criar 150 mil novos empregos. Entre Março de 2005 e Junho de 2008, foram criados 134 mil, numa trajectória que, a manter-se, elevaria aquele número para 165 mil em 4 anos. Mas sobreveio uma crise do tamanho do mundo e o emprego foi por água abaixo. Leitura das oposições, do CDS ao PCP: Sócrates é mentiroso e o Governo é incompetente. Eis um exemplo paradigmático do grau zero a que o debate chegou.» (Integral aqui: O emprego.)

[Entretanto: Recessão já atingiu o ponto mais baixo, garante OCDE.]

a estratégia da infantilização

10:00





Na secção "crime" da edição de ontem do i pode ler-se o título “Professor que matou os irmãos estava perturbado com o novo modelo de avaliação”. O professor que, segundo a notícia, matou os irmãos no quadro de uma discussão de heranças, há dez anos que era seguido por um psiquiatra, teria falta de tempo para as funções docentes (talvez por ter de gerir uma padaria com avultada dívida à Segurança Social), tendo chegado a contratar outra professora para fazer parte do seu trabalho docente durante vários meses (uma espécie de substabelecimento do "negócio"?). Mesmo assim, o título que o quotidiano acha apropriado é o que liga o crime à avaliação de desempenho dos professores.

Deveríamos achar extraordinário – se não evidenciasse quão longe foi a estratégia de infantilização dos professores, que alguns deles toleram vá lá saber-se porquê. A coisa não é nova. Daniel Sampaio (Pública, 16/11/08) escreveu que “a avaliação fomenta problemas interpessoais entre professores”, como se eles fossem incapazes de fazer da avaliação um exercício profissional (como fazem tantos outros profissionais altamente qualificados) e só pudessem cair na armadilha de fazer disso uma questão de conflito pessoal. Lídia Jorge (Público, 09/01/09), apesar de algumas considerações sábias, também achou que esta avaliação seria “um sistema que transforma cada profissional num polícia de todos os seus gestos, e dos gestos de todos os outros”. A confusão entre relações profissionais e relações pessoais, misturada com uma concepção paternalista das relações de trabalho, foi chamada a alimentar a revolta da classe profissional – como se alguma classe pudesse ser valorizada com atestados de menoridade.

A estratégia de infantilização serve estratégias de bloqueio, serve as coligações negativas assentes no medo e na recusa sem alternativa, serve a árvore que prefere secar a mover-se. A estratégia de infantilização serve para paralisar tanto o avanço como a verdadeira negociação e o compromisso e, como tal, é a estratégia do vespeiro (cf. Eduardo Pitta no Diário Económico de ontem). O problema dessa estratégia é que o vespeiro em fúria voa em círculos mas não avança. E precisamos mesmo de continuar a avançar.

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mas Cavaco não queria aliviar as suas férias?



Cavaco "estupefacto" com a não-recondução de João Lobo Antunes ao Conselho Nacional de Ética.


O Público, fazendo-se eco do Sol, escreve: «“A Casa Civil do Presidente da República está estupefacta. Não apenas pelo facto de o nome de João Lobo Antunes não figurar na lista das pessoas designadas pelo Governo para fazerem parte do Conselho, como também por, até ao momento, sobre o assunto não ter sido dada nenhuma explicação à Presidência”, reagiu ao semanário “Sol” fonte oficial de Belém.»

JLA estaria naquele lugar por nomeação do Governo, segundo a notícia. Sendo assim, o que teria o PR a dizer sobre isso? Ou está prevista uma caução presidencial a essa nomeação governamental, e o Público não a menciona? Cavaco devia estar mais sossegado. Já bem basta vir a público queixar-se de que leva muitos dossiers legislativos para despachar em férias. Devia até estar agradecido por o governo não o sobrecarregar mais pedindo-lhe opinião sobre nomeações governamentais.
Ou será que Cavaco entende dever, enquanto presidente de todos os portugueses, proteger especialmente os seus mandatários em tempo eleitoral? Ou terá Cavaco saudades de quando fazia nomeações governamentais? Já não basta que as listas do PSD pareçam ter sido feitas com recurso às velhas agendas do antigo primeiro-ministro?

3.8.09

alertas



Já havia o Alerta Laranja. Agora também há o Alerta Vermelho. Pelo magnífico João Coisas. Clicar nas imagens. Via SIMplex.



(tres)leituras de ferias

cuidar dos vivos


Daniel Bessa, no suplemento Economia do Expresso, no sábado passado:
«Sou dos que defendem que, neste século, a economia portuguesa cresceu bem. Cresceu pouco, desesperadamente pouco, mas bem: orientada para o mercado externo, com crescente intensidade tecnológica, suportada por trabalho qualificado, conhecimento e inovação.
As empresas de que nos chegam as boas notícias são na sua maior parte deste tipo. A balança tecnológica (...) tornou-se positiva. Algumas empresas a que ainda chamamos industriais, das mais bem sucedidas, são hoje empresas de engenharia e de desenvolvimento de novos produtos.
Há, é claro, um lastro de empresas mais tradicionais, algumas delas grandes, em grande dificuldade, e que reclamam protecção. Cada uma destas empresas que cais pode valer, momentaneamente, muito mais do que várias das acima referidas. Por isso estamos em tanta dificuldade, e crescemos tão pouco. (...)»

Este texto de Daniel Bessa ilustra de outro modo, o que está errado com que chamei o argumento do geocentrismo na actual política portuguesa. É preciso compreender mais do que aquilo que está mesmo à frente dos nossos olhos.

o argumento do geocentrismo

16:18



«Os mais recentes historiadores da ciência entendem que, se se começar com a experimentação sem pressupostos teóricos, é mais provável que se descubram os mecanismos de Aristóteles que os de Galileu. Kant atribui as revoluções da ciência moderna à coragem de Copérnico em contradizer o testemunho dos sentidos.»
Susan Neiman, Evil in Modern Thought, 2002 (tradução portuguesa na Gradiva)


Um certo número de intervenientes no debate público do estado da nação tem-nos proporcionado um delicioso torcidinho estilístico, uma corda para salvação dos aflitos, um salve-se quem puder de última hora para quem não consegue evitar olhar para a realidade através do filtro do seu próprio pessimismo (mesmo quando esse pessimismo é puro artifício). Essa flor do estilo consiste em opor as estatísticas (frias e inertes, supõem) ao calor da sensação imediata (o verdadeiro saber, pretendem). Exemplo: “ A escola está melhor nas estatísticas, mas nós vemos que as escolas estão pior, porque o sentimos, basta visitá-las.” Em geral, o que incomoda esses debatentes é que, em muitíssimos casos, aceitar as estatísticas é ter evidência de quanto este governo do PS fez avançar o país. Embora, com frequência, adorem estatísticas quando elas mostram o que falta fazer.
O capitão daquela frota de argumentos sensacionistas é a acusação de que “o governo trabalha para as estatísticas, mas as pessoas não são números”. Não vale a pena tentar explicar a quem assim opina que as estatísticas e os indicadores são, as mais das vezes, o fruto (imperfeito, claro, mas que se espera perfectível) de um trabalho aturado, longamente refinado em comunidades ao mesmo tempo mais ou menos especializadas e mais ou menos alargadas, distribuídas por muitos lugares deste mundo, com o fito de tentar ver mais longe e mais fundo do que a espuma dos dias. E com o fito consequente de nos ajudar eventualmente a fazer melhor. Agir a longo prazo e não apenas para amanhã. Mas eles não, eles querem é as sensações do que está à frente dos seus próprios olhos. Sem números pelo meio.
Bastaria dizer-lhes que, pela bitola que usam, a Terra ainda é o centro do universo e o Sol gira à nossa volta. Não é isso que, cada dia, os nossos olhos vêem claramente?

[outra versão no SIMplex]