18.5.07

Cientistas e filósofos: haja decoro


No (repito) excelente blogue De Rerum Natura, Carlos Fiolhais publicou ontem uma posta intitulada Um Filósofo sem Razão. Trata-se de um texto sobre o filósofo da ciência Paul Feyerabend. Tal como Fiolhais lembra, trata-se, no essencial, de um texto publicado na imprensa diária no início dos anos 1990. Tendo sido publicado há tanto tempo, Fiolhais bem podia ter revisto a matéria, para evitar repetir os mesmos disparates com tantos anos de intervalo.

Como a generalidade dos que falam de Feyerabend sem o terem lido seriamente, ou sem o terem compreendido, Fiolhais acusa Feyerabend de ser “um dos modernos inimigos da ciência”, de ser um anarquista, de ser “uma espécie de Vasco Pulido Valente da ciência” que (apenas) “vê o que dizem os outros e defende, com visível talento, a opinião contrária”. Tudo isto só pode ser dito por quem não foi capaz de ler (com olhos de ver) Feyerabend.

Em primeiro lugar, Fiolhais faz de conta que conhece a obra de Feyerabend, comentando vários livros seus como se os tivesse estudado e soubesse o que eles valem. Contudo, o que Fiolhais diz é demasiado ligeiro e demasiado insustentável nos textos para ser mostra de conhecimento. O Professor parece pensar que Feyerabend começou a pensar a sua filosofia da ciência com a publicação do livro Contra o Método e diz que ele “passou o resto da sua vida a justificar o que aí tinha escrito”. Fiolhais ganharia alguma coisa em saber que essa obra é apenas um “resumo filosófico” de muitos trabalhos anteriores sobre filosofia da ciência, trabalhos muito mais técnicos e detalhados e que dão um fundamento sólido ao principal argumento deste livro. Este livro é o fecho de um argumento e não o princípio. Se Fiolhais conhecesse os estudos anteriores ganharia algo em compreensão, evitando dizer, por exemplo, que Feyerabend é um anarquista. A forma como Fiolhais fala de diversas obras de Feyrabend mostra a sua superficialidade. Diz que Adeus à Razão é uma obra mais séria, quando essa obra é a recolha dos piores textos (dos textos mais relativistas) de Feyerabend, aquela obra onde melhor se nota que o gosto excessivo pela polémica pode levar ao disparate. Diz que “a conversa do Diálogo sobre o Método é por vezes fiada, ainda que parecendo afiada”, com a qual “não vale a pena perder muito tempo”. Fiolhais teria ganho mais em perder algum tempo a compreender as matérias sobre as quais se pronuncia. Na verdade (embora na versão portuguesa falte um dos três diálogos originais), é nessa obra que Feyerabend esclarece o que se pode chamar “o desvio relativista” de um certo momento do seu percurso. Mas isso é feito com a subtileza de um diálogo filosófico, com muitas referências para a obra anterior, e isso escapa ao apressado Fiolhais. É típico: muitos leitores arrogantes têm tropeçado em muitos exemplares de diálogo filosófico.

Em segundo lugar, Fiolhais faz de conta que Feyerabend é um “habilidoso”: diz que se trata de “um provocador culto”, que “estudou história das ciências” e que “sabe escrever escorreitamente”. Não: Feyerabend tinha formação científica de nível superior (em física) e essa foi uma das razões do seu impacte em filosofia da ciência: sabia do que falava. Além do mais, para quem tenha tendência para querer defender os cientistas dos pretensos ataques de Feyerabend, convém que se perceba que Feyerabend se dedicou principalmente a atacar certos filósofos (por inventarem teorias disparatadas sobre a ciência), muito mais do que a "atacar" os cientistas. A sua grande tese, nesse ponto, é que a maioria dos filósofos da ciência não percebem o que os cientistas fazem. Mas essa parte Fiolhais não captou.

Fiolhais não é o primeiro, nem será o último, a falar de Feyerabend sem perceber o que ele escreveu. Inúmeros comentadores marginais (isto é, que falam de certos assuntos pela rama, por ouvir falar, e não por verdadeiro estudo) consideram que Feyerabend é partidário de um anarquismo epistemológico, que isso o leva a ser contra o método científico e que, portanto, propõe como princípio metodológico para a ciência a consigna "vale tudo". Os mais apressados citam frequentemente o seguinte excerto de Contra o Método: “existe apenas um princípio susceptível de ser defendido em todas as circunstâncias e em todas as fases da evolução humana. O princípio: vale tudo.”
Ora, na verdade, o que escreve Feyrabend é o seguinte: “a ideia de um método fixo, ou de uma teoria fixa da racionalidade, assenta numa visão demasiado ingénua do homem e das condições sociais que o rodeiam. Para os que têm olhos para a riqueza do material histórico, e não pretendem empobrecê-lo a fim de satisfazer os seus instintos mais baixos, a sua fome de segurança intelectual sob a forma de clareza, precisão, "objectividade", "verdade", é evidente que existe apenas um princípio susceptível de ser defendido em todas as circunstâncias e em todas as fases da evolução humana. O princípio: vale tudo.”
Pretendem alguns que Feyerabend defende aqui o princípio metodológico “vale tudo”. Mas quem assim pretende não percebeu o que lá se diz. O que aí se diz é que o princípio "vale tudo" se torna inevitável no caso de se pretender que o método seja válido em todas as circunstâncias e em todas as fases da evolução humana. Ora, o início da declaração mostra que Feyerabend não alinha nessa pretensão. Trata-se, portanto, de afirmar que o método científico muda. Como escreveu Fernando Gil, em Provas: “Feyerabend quer sobretudo sublinhar a variedade (mais do que a irracionalidade) dos procedimentos da prova”.
Conviria, portanto, ler com cuidado. Mas, especialmente para aqueles que são académicos, poder-se-ia pedir, sem exagero, que, se têm dúvidas, sigam o autor que citam e criticam e, assim, tomem precauções contra a precipitação. Feyerabend explicou, mais tarde, com mais pormenor, o significado dessa declaração. Faz isso logo em 1978, em Science in a Free Society (Londres, New Left Books, 1978), em vários pontos. Quase no início (pp. 39-40): “Note-se o contexto da declaração. "Vale tudo" não é o princípio de uma nova metodologia recomendada por mim. (...). Se a minha descrição está correcta, então tudo o que um racionalista pode dizer acerca da ciência (...) é: vale tudo”. Pode concordar-se ou não, mas o que se lê é uma crítica aos racionalistas (seja o que for que Feyerabend quer dizer com isso, não vamos discuti-lo aqui). Acrescenta: “(...) "vale tudo"não expressa uma convicção minha, é um resumo jocoso do predicamento do racionalista: se queres padrões universais, se não podes viver sem princípios que se apliquem independentemente da situação, da forma do mundo, das exigências da investigação, das peculiaridades do temperamento, então eu dou-te tal princípio. Será vazio, inútil e ridículo — mas será um "princípio". Será o "princípio" "vale tudo"”. (p. 188) Quanto ao pretenso projecto de Feyerabend para "acabar com o método", para continuar apenas na mesma obra: “as regras e padrões não são abolidos — não podemos encetar a investigação sem qualquer equipamento metodológico — mas são usadas à experiência e mudadas quando os resultados não são os esperados” (p. 166).

Em resumo: um blogue excelente como o De Rerum Natura devia cuidar do que lá se escreve. Não deveria vender-nos gato por lebre: não nos deveria dar textos pretensamente bem informados quando eles afinal não passem de comentários apressados sobre coisas que os seus autores apenas contactaram de forma muito superficial.
Já agora, se o Carlos Fiolhais achar que lhe faz jeito, posso até oferecer-lhe o meu livro A Filosofia da Ciência de Paul Feyerabend (Piaget, 1998). Lá encontrará estas coisas explicadas com muito maior detalhe.

"Darwin" ou "homenagem rocambolesca a Palmira F. da Silva"


Ponto 1) Palmira F. da Silva publicou, no excelente De Rerum Natura, um post intitulado Dawkins e as más companhias.

Ponto 2) Hoje fui ao teatro, ver a peça Darwin e o canto dos canários cegos, de Murilo Dias César, que está n'A Barraca.

Ponto 3) O texto da peça é tão revelador que gostaria de o publicar aqui na íntegra. Como isso é impossível, publico um texto do encenador, Helder Costa, que A Barraca distribui como parte da “introdução” ao espectáculo.

Ponto 4) Está contra todos os pontos da orientação editorial deste blogue publicar textos tão longos, mas desta vez não resisto a mostrar que, quanto a más companhias, cada um tem que aguentar com as suas. Segue-se, pois, sem tirar nem pôr, transcrição do texto “As ideias e as armas”, de Helder Costa, para o espectáculo "Darwin e o canto dos canários cegos", que vai n'A Barraca.



Darwin, o genial cientista a quem Marx dedicou o 1º volume de “O Capital”, tinha razão quando receava o impacto da sua teoria sobre a origem das espécies.

Não teve a morte de Giordano Bruno nem sofreu as perseguições e humilhações de Galileu, Newton, Lamarck e tantos outros, mas foi achincalhado, desprezado, e ainda hoje há quem o considere um sinistro “anti-Cristo”.
No fim do século XIX Engels escreveu um pequeno texto fascinante - ”O papel do trabalho na transformação do macaco em homem” -, onde provava que o esforço de procurar alimentação ou a necessidade de defesa iam criando adaptações à mão, o que demonstrava que o trabalho era o verdadeiro motor do desenvolvimento. E foi com trabalho, com a observação, o empirismo, que os nossos antepassados primitivos descobriram a arte de semear e cultivar, o movimento das marés, da lua, inventaram o calendário, o dia, o mês, o ano, e mais investigação e mais estudo desenvolveram a Ciência, e assim reinventaram a vida.

Neste novo milénio, algo de surpreendente está a acontecer: o reaparecimento do Criacionismo!

Os milhares de estudos que acabaram por provar que os seres vivos existiam devido a mudanças, transmutações, evoluções, e tudo tinha sido criado por fenómenos físicos, materiais, foram miraculosamente enterrados na poeira do tempo e substituídos por um acto misericordioso, inacessível, não comprovável, de um Deus desconhecido.

Essa “teoria” tomou novo folgo pela mão da Administração Americana do Bush (que os cartoonistas desenham com fácies e trejeitos simiescos, o que é evidentemente um insulto para os macacos). De repente, naquele país que simbolizou – até certo ponto – os sonhos da democracia moderna, desabou uma hecatombe do reaccionarismo mais retrógrado: em alguns Estados o criacionismo é estudado nas Universidades e Darwin ou é proibido ou é posto a par dessa dita “teoria científica” que defende que a criação do mundo é ipsis verbis a descrição do “Génesis”! Este é um dos sinais mais importantes da estratégia de dominação mundial do imperialismo Americano: as armas, os satélites espiões, o napalm, a corrupção de Estados lacaios, a tortura, a droga, o gaz mortífero, tudo isso se revela insuficiente como provam as derrotas do Exército USA um pouco por toda a parte. Então, o que é necessário? Atacar as ideias, destruir os avanços da civilização, restaurar a boçalidade e o primitivismo, apostar na ignorância, no misticismo, no esoterismo. Para, mais facilmente, se manipular o povo marionette.

Felizmente essa ofensiva contra a inteligência não está a fazer o seu caminho. Pelo contrário, despertou as consciências de cientistas, artistas e profissionais de todos os sectores para uma verdade indiscutível: a História não segue um caminho linear, e é frequente o reaparecer da barbárie e da amoralidade.

Já Darwin, citando Heraclito, escrevia “no mundo tudo se transforma”. E é essa a lição para hoje e para o futuro: na esteira de Darwin e milhares de outros, o nosso TRABALHO é esclarecer, discutir, polemizar, impedir o renascimento do obscurantismo.

Para prevenir a PAZ, ao contrário de prevenir a GUERRA, basta saber que a IDEIA é mais importante do que qualquer ARMA.

Hélder Costa


Esta é a minha "homenagem rocambolesca a Palmira F. da Silva".

17.5.07

Isabel Durão Pires Barroso de Lima

No passado dia 17 de Abril publiquei aqui uma posta (Jaime Durão Gama Barroso) onde mostrava o meu espanto por Jaime Gama, alto dirigente do PS e por esse partido indigitado para presidente do Parlamento, apoiar a renovação do mandato de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia. O meu espanto derivava do seguinte: dada a conjugação das regras e das práticas institucionais da União, isso significa que Gama deseja que a direita vença as próximas eleições para o Parlamento Europeu.

Tenho de vir hoje aqui reafirmar a minha posição, porque parece ter pegado a moda, entre alguns socialistas, de desejarem perder as próximas eleições europeias. Hoje é a ministra da cultura, Isabel Pires de Lima, que diz apoiar a reeleição de Durão Barroso. Tudo com o devido destaque no Diário Económico.
Em boa verdade, isto não me fez gostar menos da senhora, porque nesse pano já não restava muito para cortar...

Pataxó Hã Hã Hãe

12:38

Como seria belo este mundo se a nossa capacidade de estimar a diversidade que nele existe não fosse tão pequena...

Na Bienal do Livro de Salvador tivemos a oportunidade de ver alguns índios do povo Pataxó Hã Hã Hãe, que lá se encontravam para lançar um livro feito com os seus próprios testemunhos. Apesar de termos ficado contentes com esse quase-contacto esporádico, ele fez-nos ter um pouco mais de consciência da nossa ignorância. Nada sabemos desse povo, nem dos muitos outros povos índios do Brasil. Assim não podemos de facto usufruir da rica diversidade humana do nosso mundo.

Por isso daremos aqui, em futuras ocasiões, algum testemunho dos nossos esforços para tentar compreender um pouco dessa realidade.


(Índios Pataxó Hã Hã Hãe na Bienal do Livro de Salvador, onde foram lançar um livro seu. 18 de Abril de 2007. Foto de Porfírio Silva.)

16.5.07

Energias renováveis


"Sinto nostalgia do período anterior à economia pós-combustíveis fósseis e pós-urânio!"
(Cartoon de Marc Schober)
(Clicar sobre a imagem para aumentar.)

15.5.07

Homenagem a Bronislaw Geremek e ao bom senso comum

12:36

A história mais ou menos recente está cheia de casos destes: quando um regime iníquo e opressor é substituído por um regime democrático, coloca-se geralmente a questão de saber o que fazer aos expoentes do regime deposto, ou, pelo menos, aos seus agentes que tenham tido responsabilidades pessoais directas nos actos mais condenáveis. Em Portugal essa questão colocou-se com o 25 de Abril. Apenas um punhado dos principais líderes do regime deposto se viu forçado ao exílio e poucos membros da polícia política foram incomodados. Há sempre os que clamam, em nome da justiça, por vingança. E há sempre os que, mais interessados no futuro do que no passado, clamam por clemência em nome da convivência. Mais recentemente, certas transições optaram pela clemência, mas acompanhada de processos de reconhecimento público das tropelias antigas: é o caso das “comissões de verdade”, como teve a África do Sul depois do fim do apartheid.

Normalmente não chegamos a poder fazer a experiência de como seriam as coisas se tivéssemos optado pela outra via histórica. Mas por vezes isso torna-se possível. A direita extrema e irresponsável que actualmente toma conta da Polónia deu-nos a oportunidade de verificar para o que podem servir os processos que, em nome da justiça, promovem a vingança do passado. A “lei da descomunização” obriga muitos milhares de pessoas, mais exactamente cerca de 700.000 (nomeadamente todos os que tenham funções públicas) a declarar por escrito que não colaboraram com a antiga polícia política, sob pena de destituição dos seus cargos. Cumulativamente, os arquivos são usados para perseguir pessoas que supostamente colaboraram e para ameaçar todos os declarantes de que podem vir a ser apanhados em falso. Apesar de se saber que muitos dos documentos “comprometedores” são falhos de credibilidade, por terem sido originados por situações de coacção exercida pelas autoridades comunistas (a "colaboração" não era sempre espontânea). O processo tem servido para instalar uma enorme tensão na sociedade polaca – e em particular para os partidários do poder instalado amedrontarem todos aqueles que não se vergam aos seus ditames. Esse é, aliás, o perigo geral destes processos.

O caso mais gritante foi o de Bronislaw Geremek. Geremek, hoje com 75 anos, teve um papel importante na democratização (antigo comunista, foi conselheiro de Lech Walesa no sindicato Solidariedade, que representou nas negociações para passar do regime comunista ao regime demcrático) e, não tendo nada a esconder do seu passado, recusou, por uma questão de princípio, subscrever a tal declaração. Tendo sido ministro dos negócios estrangeiros da Polónia pós-comunista entre 1997 e 2000, sendo agora deputado no Parlamento Europeu, viu a Dieta (parlamento polaco) votar que, por tal recusa, o seu mandato de deputado europeu deveria ser cassado.
Agora, o tribunal constitucional daquele país acaba de declarar parcialmente inconstitucional a lei que permitia tais abusos. Veremos como evolui a situação. Contudo, e desde já, uma coisa é certa: aqueles que pensam que chafurdar no passado é necessariamente a melhor via para preparar o futuro devem reflectir nesta situação. Aqui, o passado foi ressuscitado para fins mesquinhos de política imediata, para amedrontar a sociedade como um todo, para fazer reviver as feridas antigas e trazer de volta as velhas divisões, para colocar os arquivos do estado no papel de guilhotina ao serviço da vingança. Esse risco, julgamos nós, está sempre presente neste tipo de processos.

14.5.07

Estrangeirados de estimação


Por razões que não vou aqui explicar, há dois blogues (um recente, o outro recentemente reactivado) que actualmente me servem de olhos emprestados para ver o mundo. Sendo que esses olhos emprestados se abrem hoje em coordenadas diferentes daquelas em que de momento encontro poiso. Não sou eu que vou dizer aqui o que não dizem lá os dois donos desses olhos expatriados, nem vou fornecer chaves de leitura que poderiam ser apenas formas de estreitar o que eles podem significar. Nem vou explicar os meus gostos e as minhas solidariedades. Mas deixo os endereços dessas duas gazetas de novos futuros estrangeirados:

Uma Rua ao Frio

Uma Alfacinha em Paris

Política racional

12:33

O que é uma "política racional"? Será uma "política geométrica", com régua e esquadro mas sem pessoas, sem atenção ao concreto, às feridas que doem na carne?

Então, será de seguir o seguinte exemplo. Na figura abaixo temos um esquema, apresentado num relatório à Assembleia Nacional francesa em 1789, sobre as bases da repartição proporcional. Apresenta-se, e é isso que vemos na imagem, um esquema do que seria uma divisão "idealmente regular" do território da França em quadrículas iguais. Será assim a política racional?