04/07/12

se os bosões pudessem pensar.


Descoberta nova partícula que pode ser o bosão de Higgs.

Para alguns pensadores da ciência, esta é a circunstância cimeira do fazer boa ciência: conseguir encontrar no mundo algo que se estava à procura porque a teoria dizia que devia lá estar. Fazer experiências científicas não é andar pelo mundo à toa a ver se se encontra alguma coisa. Aliás, dado que experiências como esta só são possíveis graças a investimentos gigantescos em determinados equipamentos e organizações, em geral só se encontra aquilo que se procura intensamente - ou, pelo menos, só se encontra onde se procura, mesmo que se procure uma coisa e se encontre outra.

Pode dizer-se que nem sempre assim é. Há várias teorias sobre a descoberta da América: se tiverem razão aqueles que pretendem que a descoberta (ocidental) foi acidental, pode pensar-se que aí não havia exactamente uma teoria a orientar a procura. Mesmo assim, embora num sentido mais vago do termo "teoria", os navegadores só se fazem ao mar com certas ideias acerca do mundo, da Terra, do oceano, do que é navegar e do que isso pode trazer. No caso da descoberta de novas partículas previstas pelo Modelo-Padrão, a coisa é um pouco diferente: é como se o mapa dos navegantes dissesse "aqui, em tal latitude e tal longitude, tem de haver uma ilha". A teoria é mais densa, mais estruturada, mais sistémica.

É sempre interessante comparar estas descobertas físicas com o que se passa nas ciências da sociedade, especialmente nestes tempos em que há batalhões de economistas a fazer previsões - e a falhar previsões. Os cientistas das ciências "duras" têm, muitas vezes, a tendência para tomar isso como sinal de que as ciências "moles" são pouco científicas. (É por isso que muitos economistas se querem fazer "duros", isto é: matemáticos, só para falharem ainda com mais estrondo do que os outros). Acham eles que se trata de uma fraqueza das ciências que estudam os humanos e seus modos de viver. Felizmente, alguns entre os melhores percebem que a dificuldade é outra: os humanos e as suas sociedades é que são uma matéria extremamente complexa. Como parece ter dito uma vez Murray Gell-Mann, prémio Nobel da Física em 1969 pelos seus trabalhos precisamente sobre partículas elementares: «Imaginem como seria difícil a Física se os electrões pudessem pensar».

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