5.1.10

o drama da enxada no Homem do Farol

16:50

Viram o filme Torre Bela, de Thomas Harlan, que se passa no já longínquo país que é o Portugal de 1975? A nota de divulgação, aquando da reposição (salvo erro em 2007), rezava assim: «Documento único e extraordinário sobre a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril. A 23 de Abril de 1975, cinco semanas depois do 11 de Março e dois dias antes do aniversário da revolução dos cravos, ex-trabalhadores agrícolas, prisioneiros políticos libertados e rufias invadem a herdade, propriedade do duque de Lafões, numa acção rara por decorrer no Ribatejo (quando a maioria das ocupações se passavam no Alentejo e o Ribatejo permanecia refúgio da Direita) e por não estar, ao contrário das outras, ligada ao Partido Comunista. Realizado por Thomas Harlan e produzido por Paulo Branco, é um acutilante olhar político sobre uma época, uma utopia e as suas contradições.»

Ora, esse filme tem um diálogo de antologia, que parece ser acerca da propriedade de uma pequena ferramenta agrícola, mas que é afinal sobre os mais complicados recantos da mente humana, da luta entre o que sonhamos ser e o que tememos que o mundo realmente seja. Um diálogo entre utopia e realismo. (Abaixo fica um excerto.)

Agora, o Homem do Farol está a dar o episódio em novela ilustrada. Começa aqui. Vamos vendo.




missiva


O ministro dos Assuntos Parlamentares enviou hoje uma carta aos partidos para aferir da sua disponibilidade para dialogar previamente com o Governo sobre a proposta de Orçamento de Estado para 2010.

Caro Ministro,

A fim de considerarmos a possibilidade de aceitação de alguma proposta sua, mas não querendo precipitar-nos na mera colocação da hipótese de essa possibilidade ter algum sentido, gostaríamos de saber se está a ponderar o cenário de vir a fazer-nos alguma proposta propriamente dita. Não está em causa, de momento, o conteúdo de qualquer avanço: o procedimento para uma eventual aproximação dessa fase superior da batalha não está sequer ainda à vista no nosso horizonte. Tão-só desejamos saber se fará sentido da nossa parte declarar uma disposição de princípio favorável a ouvir o que tem para nos dizer, já que não podemos, sem perder a face, declarar uma disposição para ouvir quem não tenha explicitado uma intenção de falar. Imagino que, da sua parte, Senhor Ministro, também existirá alguma relutância em se dispor a falar para quem de todo não admita querer ouvir. Para que isto não caia num impasse, sugerimos que o Senhor Ministro declare que, ao nível de um pensamento estratégico ainda apenas informal (que não informe), concebe a possibilidade de vir a falar com quer queira ouvir, desde que quem quer ouvir admita, ainda que num estado inicial de apreciação da questão, que não é de todo surdo. Isto seria, e digo isto apenas como ilustração, assim como aquela cena do "Vexa sabe que eu sei que Vexa sabe que eu sei". (A vantagem desta ilustração é que há já vários partidos que dispõem dos recursos humanos capazes de a interpretar, uma vez que os pertinentes "recursos humanos" viajam assiduamente de candidatura para candidatura.)
Em alternativa, Senhor Ministro, se isto lhe parecer muito complicado, poderia simplesmente cada um dizer ao que vem e depois falarmos.
Seu,
(assinatura ilegível)

Da Literatura



Caro Eduardo Pitta,

Chego sempre atrasado às festas. Às festas dos dias 1 de Janeiro de cada ano, mais do que atrasado: meio entorpecido. Não pela excitação do réveillon, que não tem sobre mim esse poder, mas meio entorpecido precisamente pela estranheza de não perceber bem onde está a magia do momento (Thomas Mann põe muito bem no pensamento de Hans Castorp a imagem de que o ponteiro dos segundos avança sem por qualquer modo distinguir quaisquer marcas especiais no mostrador) e de nunca ter dominado aquela técnica de combinar doze passas com doze badaladas. Em suma, o atraso às festas de 1 de Janeiro é um atraso gordo, sempre.
Neste caso, chego atrasado à festa dos cinco anos do Da Literatura, o blogue que agora é só para lavoura das tuas mãos e artes, um blogue colectivo de um conjunto de um só elemento (pouca matemática basta para saber que isto é correcto, independentemente de ser ou não politicamente correcto, coisa que não te importará muito), um blogue que não podemos facilmente guardar numa gaveta definida. Um blogue desintoxicante. O órgão pouco oficial de (terás de que desligar esta expressão do título do livro, porque não quero aqui misturar nenhuma hermenêutica) - dizia eu, o órgão pouco oficial de um exército de um homem só. (Não é o homem que é só; é o exército que é de um homem só.)
Chego atrasado à festa, mas não perco a festa. A festa continua. No Da Literatura. Agora, oficialmente, "o blogue de Eduardo Pitta".
Um abraço, também de parabéns, Caro Eduardo.



constitucionalistas de emergência

10:31

Segundo Rui Crull Tabosa, no Corta-Fitas, «o referendo não é apenas um instrumento de democracia directa, mas sim a mais nobre e autêntica manifestação da soberania popular no processo de formação da vontade política nacional a respeito de um determinado assunto concreto».
Pelos vistos, a democracia representativa deve ser para "assuntos não-concretos". Assuntos abstractos, provavelmente. O resto devia ser por referendo.
A conversa ali é sobre casamentos gay. Mas não está, para mim, em causa a diversidade de opiniões acerca dessa matéria concreta. O que me interessa aqui é a capacidade para torcer toda a argumentação, qualquer argumentação, em nome de qualquer interesse de momento. Falar do referendo como resposta universal aos problemas da formação de decisões colectivas numa democracia representativa, deixando de fora apenas os "assuntos abstractos", seria facilmente entendido como uma piada de café, nunca como uma proposta reflectida - não fora o espírito do "vale tudo, incluindo arrancar olhos, para defender o nosso ponto de vista". Espírito que, infelizmente, se tornou muito popular. Ou popularucho?