16.11.13

A lista de Bergoglio - ou o Papa Francisco na ditadura argentina.

15:33


Como cidadão, não como católico ou crente (que não sou), tenho-me interessado pelo conjunto da actuação do Papa Francisco. Logo após a sua eleição, estive atento à acusação de que ele teria sido colaborante (pelo menos por omissão) com a brutal perseguição aplicada pela ditadura argentina aos suspeitos de oposição, desde o golpe de Estado de Março de 1976, do qual emergiu a liderança do general Jorge Videla. Não é, pois, de estranhar que me tenha precipitado para a leitura do livro “A lista de Bergoglio”, da autoria do jornalista italiano Nello Scavo, disponível em português desde o passado dia 11 (editora Paulinas).

O livro conta uma investigação, apresenta e enquadra testemunhos e chega a uma tese: há uma “lista de Bergoglio” (um paralelo com a “lista de Schindler”), quer dizer, uma lista de pessoas salvas das garras da ditadura pela acção de Jorge Mario Bergoglio, o então padre provincial da Companhia de Jesus naquele país, que veio a tornar-se papa com o nome do santo de Assis. Há, também uma tese adicional: o Papa pediu aos seus amigos para não se empenharem em dar publicidade a esses factos, logo a seguir à eleição, para não cair no que pareceria uma campanha de marketing do Vaticano.

O então padre Jorge não é apresentado como um revolucionário, um esquerdista ou um activista contra a ditadura. É apresentado como o líder dos jesuítas na Argentina que tomou a seu cargo, desde logo, defender os membros da sua Companhia. Aparentemente, cada líder tratava especificamente de defender os seus: cada bispo tratava dos da sua diocese, cada responsável de uma organização autónoma tratava dos que pertenciam a essa organização. Pelos relatos reunidos, protegia também outras pessoas, nomeadamente jovens, que se dirigiam a ele em situações de aperto, acolhendo-os (escondendo-os) nas suas instalações e preparando-lhes planos de fuga. Dos relatos extraímos ainda outra conclusão: a sua actividade não era meramente reactiva, não se limitava a enfrentar os casos à medida que apareciam. Parece que tinha uma forma sistemática de analisar a situação, compreender o modo de operar dos repressores (tanto legais como ilegais), extraindo daí estratégias para os contornar e conselhos a dar aos que perigavam. Um pragmático: aspecto importante para perceber o actual Papa, julgo eu. Um aspecto a que dou muita importância: sendo um razoável conservador do ponto de vista teológico, não terá nunca tentado mudar a opinião ou a acção daqueles que eram perseguidos por causa das suas opções mais radicais. Protegia as pessoas sem esperar em troca que elas deixassem de ser quem eram. Por exemplo, dava conselhos sobre como fazer chegar artigos ao estrangeiro a pessoas que escreviam numa linha teológica que não era a dele.

Há vários aspectos específicos que ressaltam do livro e acho útil sublinhar.

Em primeiro lugar, o então Arcebispo de Buenos Aires compareceu como testemunha perante um tribunal argentino criado expressamente para investigar crimes da ditadura. Foi interrogado, nomeadamente, pelos advogados de activistas dos direitos humanos. Importa saber que a justiça argentina, considerada a mais diligente do subcontinente na reparação dos crimes das ditaduras, nunca julgou ter encontrado mancha no comportamento de Bergoglio. Importa saber isto, porque há sempre quem ache que as suas opiniões privadas são mais argutas do que o funcionamento da Justiça. (O livro contém uma transcrição parcial do interrogatório.)

Em segundo lugar, o caso que alimentou as acusações ao Papa logo após a sua eleição, o caso dos padres Jalics e Yorio, foi averiguado e desmontado. O sobrevivente Jalics (Yorio já faleceu) desmente qualquer acusação ao então Provincial dos Jesuítas. E, analisando a origem das acusações, é razoável acreditar que alguns terão caído na conversa dos próprios militares para desacreditar Bergoglio (“pistas” insidiosas deixadas cair para “sugerir” suspeitas). Os que originalmente deram essas notícias tiveram muito eco – mas, sabe-se lá por quê, tiveram menos eco as notícias de que o balão tinha esvaziado.

Em terceiro lugar, é impressionante a relevância dos testemunhos recolhidos – que convergem, todos, na defesa do papel desempenhado naqueles tempos negros por Bergoglio. Desde o prémio Novel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, até uma juíza não crente perseguida pelo seu empenho na defesa dos direitos humanos, passando por um sindicalista de esquerda uruguaio, um jornalista, uma ministra de Cristina Kirchner e, claro, também religiosos e religiosas – não estamos a falar de pobres diabos facilmente manipuláveis, mas de testemunhas qualificadas e responsáveis.

Em quarto lugar, o livro contém boas indicações de que Bergoglio usava os seus contactos internacionais (os ramos da Companhia de Jesus noutros países da região e na Europa) para dar solidez e continuidade à sua acção na Argentina (quando os perseguidos só encontravam descanso no exterior).

Em quinto lugar, cabe notar que a posição de Bergoglio não era a única no seio da Igreja Católica argentina: havia cúmplices activos da repressão, como foi demonstrado em tribunal. Não se trata, portanto, de meter tudo no mesmo saco (guiados por simpatias ou antipatias ideológicas), mas de fazer justiça a cada situação pelo que ela realmente foi.

Enfim, isto é apenas uma recensão escrita ao correr da pena. Quem se interesse verdadeiramente pelo assunto deve ler o livro. O livro, além de ser esclarecedor sobre este assunto em concreto, tem outra valia: dá um contributo para compreender a personalidade do actual Papa como homem da Igreja Católica. A leitura consolidou a minha opinião geral: teologicamente conservador, não fará grandes revoluções doutrinárias – mas, com base nas suas preocupações pastorais, tenderá a ver de modo muito mais aberta (pragmática, descontraída) a relação entre as igrejas e os crentes que se tenham desviado das suas orientações. Para quem está de fora (como eu) isso pode parecer pouco; para quem tem fé católica e procura outra forma de vida na comunidade dos crentes, isso pode ser de grande valia existencial. Mas, sobre isto, escreverei noutra altura.

ménage à trois.



Era um curioso par de senhoras.

Uma, que em certo sentido era a linha da frente desse pequeno conjunto, era super controlada. Podia perfeitamente esconder o que lhe ia na alma retirando-o da sua expressão na face, podia perfeitamente sorrir quando queria chorar, podia perfeitamente chorar quando queria sorrir, podia perfeitamente mostrar desinteresse quando estava interessada, podia perfeitamente mostrar desinteresse quando estava distraída, e o desinteresse e a distracção são coisas diferentes, podia perfeitamente mostrar simpatia quando apenas sentia pena, e a simpatia e a pena são coisas diferentes, podia portanto mostrar deliberadamente uma aparência não coincidente com o seu real estado de espírito. Essa senhora era a linha da frente, a vanguarda, desse pequeno conjunto de duas senhoras.

A fraqueza da camuflagem desse pequeno grupo de duas senhoras era a outra senhora. Era a senhora que constituía a retaguarda. Na melhor das hipóteses, o grosso da coluna, por assim dizer. Essa segunda senhora era mesmo a senhora segunda: nunca por ela mesma tinha interesse e, portanto, nunca por ela mesma não mostrava o seu interesse. Nem tão-pouco desinteresse. Nunca por ela mesma sentia hostilidade face aos outros, e portanto também não mostrava hostilidade. Nem sentia inveja e portanto não mostrava inveja. Nem sentia desejo e portanto não mostrava desejo. Por ela mesma nada mostrava e camuflava perfeitamente, porque não tinha nada para camuflar, porque nada sentia por si mesma, para si mesma, em relação aos outros. Ou, ao menos, tinha aprendido a esquecer esses desvarios.

Mas quando este pequeno conjunto de duas senhoras, constituído por uma vanguarda e por uma retaguarda (ou por uma vanguarda e o grosso da coluna, e em todos os casos é sempre o grosso que suporta o mundo) – dizíamos, quando este conjunto de duas senhoras era exposto ao sexo oposto, esta dupla perfeita funcionava maravilhosamente mal. Porque a senhora de vanguarda não mostrava nada do que não queria mostrar e mostrava só aquilo que queria que se visse, mas a senhora de retaguarda era um espelho, um espelho límpido, não da sua própria alma, que não tinha, mas da alma da sua vanguarda. Como ela sabia o que a sua vanguarda, a outra senhora, queria, saber que lhe advinha do constante convívio amigável, ela reagia, de forma completamente despudorada, isto é, sem qualquer protecção, sem qualquer disfarce, sem qualquer filtro, ela reagia de acordo com o que sabia serem os interesses profundos da sua vanguarda, da outra senhora. Se a outra senhora estava perante um homem que ela queria hostilizar, essa senhora da vanguarda podia não o hostilizar, mas a outra senhora, a senhora segunda, hostilizava mesmo sem querer, porque expressava com todo o seu ser tudo aquilo que ia na alma que ela conhecia, a alma da senhora primeira, a única que verdadeiramente dispunha de uma alma. Se a senhora primeira estava perdidamente apaixonada pelo homem que tinha em frente, mas queria, por subtileza, por táctica, por estratégia, por decoro, por educação, por pudor, queria evitar mostrar a sua louca paixão por aquele homem que tinham em frente, a senhora segunda, completamente consciente da louca paixão, mas paixão com pudor, da primeira senhora, a segunda senhora mostrava-a à transparência. Não mostrava a sua própria alma, mostrava a alma da senhora primeira. A senhora segunda não mostrava a alma da segunda senhora. A senhora segunda mostrava a alma que tinha, a alma da primeira senhora, completamente reflectida nas suas águas. Se o homem pelo qual a primeira senhora se sentia ora apaixonada aparecia e as olhava, a segunda senhora não sentia nada por esse olhar, mas mostrava em toda a largueza da sua face, em toda a liberdade da sua boca, na evidência dos seus gestos corporais, o que sabia estar na alma da senhora primeira. Essa paixão. Nesse sentido, neste pequeno conjunto de senhoras, de suas senhoras, uma vanguarda e uma retaguarda, uma estava permanentemente traída, a primeira, enquanto outra estava permanentemente traidora, a segunda. Porque a primeira senhora escondia tudo, maravilhosamente, isto é, com uma eficácia admirável, e só deixava transparecer aquilo que queria que entrasse na sua verdade oficial, e normalmente queria que a verdade oficial estivesse para a verdade como a razão de Estado está para a razão. Mas a segunda senhora, que não aspirava nem deixava de aspirar a transmitir de seu o que quer que fosse, por si própria não encontrando dentro nada de assinalável, ignorando com valentia o problema do reflexo facial do mundo interno de dramas íntimos que não reconhecia, espelhava inteiramente o interior da outra senhora na sua própria face.

E perante este cenário, sendo eu o terceiro nesta relação desigual, sendo eu o homem à conversa com aquele conjunto de duas senhoras, eu falava com a senhora da vanguarda com os olhos postos na cara da senhora da retaguarda, guiando os meus passos exploratórios, os meus avanços e recuos, dispondo as minhas interpretações e recolhendo as minhas pistas, não pela cara, pela fala ou pela disposição corporal da senhora que me interessava compreender, mas pela cara, face e disposição corporal da acompanhante. Porque a acompanhante me mostrava, em toda a magnífica transparência da sua candura, se as minhas recentíssimas falas à primeira senhora eram do seu agrado ou não eram. E isso eu via-o na cara da segunda senhora. Se uma frase minha tivesse tocado a carne da primeira senhora, que era a senhora que eu queria tocar, eu podia avaliar o alcance desse toque ou o seu fracasso, não na cara da carne tocada, mas na cara da carne intocada. Involuntariamente assustando o carácter incerto da primeira senhora, obtinha uma retracção no corpo da segunda senhora, e pura impassibilidade em toda a região da primeira senhora. Obtinha medo na intocada, e intocabilidade na assustada, numa perfeita correspondência entre uma alma e um corpo, embora de dois seres diferentes.

(Os nomes das personagens são fictícios.)



15.11.13

coisas independentes.

17:40

Um dos fenómenos das últimas eleições autárquicas foi uma certa proliferação das listas independentes. Já aqui apreciei (de um ponto de vista basicamente funcional) esse fenómeno, mas o que quero agora lembrar é outra coisa. Um certo autarca independente pôs-se de fora da movimentação para constituir os independentes como uma força própria na associação dos municípios. Explicava-se: fazer uma espécie de bloco de independentes não tinha base nenhuma no programa e na atitude com que essas listas se apresentaram ao eleitorado e, de certo modo, traía de forma infeliz essa mesma independência. Essa movimentação parecia uma tentativa de criar uma espécie de “partido dos independentes” , o que parecia uma contradição nos termos. Confesso que achei pertinente a observação.

Olhemos, agora, para outra “coisa independente”. O Ministro Crato, o tal que gostaria de implodir o Ministério da Educação (e que parece levar muito a sério esse seu programa), faz tudo o que pode para transferir realidade da escola pública para as escolas privadas – mesmo que isso implique atacar os sagrados mandamentos da troika (destinando mais dinheiro ao ensino privado). A sua demanda é ideológica: em vez de cuidar de que a escola pública seja cada vez melhor espaço de liberdade e de construção de oportunidades iguais, quer aumentar as reservas privadas de felicidade para poucos, as quais, em média, atendendo à experiência passada, serão sempre mais conformes ao redil ideológico do Ministro. A sua última invenção-copiada são as “escolas independentes”: escolas arrancadas à escola pública para serem geridas por professores. Apesar de discordar desses planos para retalhar a escola pública (a ideia final destes ideólogos é sempre a mesma: esburacar tanto a rede pública que esta se torne efectivamente dependente dos privados), ainda acho que poderíamos discutir uma troca razoável. Eu aceitaria as escolas independentes se o financiamento das escolas-polvo (empresas proprietárias de escolas várias numa lógica de polvo) fosse transferido para escolas realmente independentes.
Chamo escolas realmente independentes a escolas que resultem de iniciativas locais de cidadãos interessados numa oferta educativa alternativa, que tenham outras razões que não o lucro para esse interesse. Por exemplo, sendo encarregados de educação e querendo juntar-se para dar mais aos seus educandos, ou sendo professores e querendo construir formas novas de ensinar. Essas escolas realmente independentes poderiam, também, ter enviesamentos ideológicos ou culturais, como é o caso com a maioria dos colégios privados, mas não seriam polvos-em-rede ao serviço de “reservas de elite”: sendo locais, assentes em iniciativas de base, em vez de cogumelos plantados ao sabor das estratégias de certas corporações, poderiam tornar-se em fonte de pluralidade, diversidade, entusiasmo, experimentação – algo que poderia beneficiar a educação em Portugal no seu conjunto.
Eu estaria disposto a olhar com simpatia para estas escolas independentes, se elas fossem realmente espaço de pluralidade – em vez de serem máquinas de fazer dinheiro ou instrumentos de arregimentação ideológica em larga escala. Mas, para isso, as “escolas independentes” não poderiam ser uma contradição nos termos, como o “partido dos independentes” dos autarcas, de que falámos a começar.


14.11.13

marmeladas, ministros e jornalistas.

12:24

O jornalista André Macedo conta hoje, em público, uma história de jornalistas e políticos. Descreve, em breves traços, uma reunião, em algum momento do ano de 2011 antes de Vítor Gaspar apresentar o orçamento de Estado.
Cito:
[Gaspar] não adiantou uma medida que fosse do Orçamento. Limitou-se a descrever "os buracos colossais" e, quase no fim, perguntou o que achávamos do que aí vinha. Espantou-me o convite descarado para uma espécie de sessão de male bonding sem imperiais e futebol, em que Sócrates seria o bombo da festa e o Governo, ainda engomado, a governanta, a precetora que nos iria corrigir.

Perguntar a jornalistas o que acham é como oferecer margaridas a um enxame de abelhas. Baixei a cabeça como os alunos cábulas e esperei que outros avançassem. Porque o fiz? Por desconfiança. Tudo aquilo me pareceu incómodo. Gaspar não dissera nada sobre o Orçamento para 2012, por que raio queria vincular-nos ao nada? Os outros seguiram em frente, passaram um cheque em branco ao ministro que veio do frio. Pediram rigor, exigiram dureza, mesmo sem saber do que estavam a falar. Ajoelharam-se no altar da austeridade e pediram outra reguada.

A primeira pergunta que se me ocorre é esta: como podem estar tão corrompidas as relações entre os jornalistas e o poder para isto acontecer?
A segunda é mais geral: onde estão os que se preocupavam tanto, há uns anos, com a "asfixia democrática"?
A terceira é capaz de irritar os leitores mais inclinados a aceitar o que o tempo nos traz: pode uma democracia sobreviver a uma comunicação social que, em vez de ser dominada pela ideia de servir a missão pública de informar, é dominada pela procura do lucro das empresas detentoras dos órgãos de informação? Na medida em que as coisas não são completamente diferentes na comunicação social pública, a resposta não pode ser escorada apenas na oposição público/privado. Aliás, como quase em todos os domínios: a noção de interesse público tem de ser refinada para escapar às armadilhas das categorias ultrapassadas; um novo papel para a sociedade organizada fora do aparelho de Estado tornou-se necessário.
Era nessas coisas que era preciso pensar quando se pensa em reforma. Mas não: vivemos todos descansados quando alguém vem contar-nos como jornalistas e ministros se reunem em sessões de marmelada que deviam fazer vergonha a todos. "Male bonding sem imperiais e futebol", como diz o André Macedo, pintando um retrato da nossa Roma decadente.

13.11.13

quem.

18:04


quem se atreverá no mundo a medir com régua única

a dor da mãe
pela perda de um filho,
a dor de um filho
pela perda de sua mãe

quem empreenderá comparar ?

alguém,
decerto alguém será disponível

sabemos disso desde que começámos a ouvir
teorias sobre a rarefacção das coisas

sob a forma de ode à frugalidade dos velhos.

sinto-me impotente.

15:56


Leio (aqui) que um deputado de esquerda, uma pessoa que até acho das mais razoáveis que andam pelo parlamento, um ex-governante, usou o adjectivo "frígida" para falar da ministra das finanças num artigo de jornal.

A ministra senta-se ao lado do deputado quando vai à respectiva comissão parlamentar, porque ele preside à dita. Como já não estamos em tempo de bengaladas, o que eu gostava mesmo é que a ministra tivesse estaleca para lhe dar uma indirecta que deixasse a comissão parlamentar a rir-se na cara do deputado. E que todas as televisões passassem nos noticiários das vinte e que todos os espectadores se rissem a bom rir. E que o deputado ficasse três meses com vergonha de sair à rua, tal a risota. É que estes machos latinos só percebem pela chacota.

E digo isto, notem, de uma pessoa que considero das mais bem preparadas e das mais decentes que ali andam. É isso que me dói.

12.11.13

uma campanha por Portugal.

15:12

A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.

Várias iniciativas têm sido tomadas ao longo do tempo para "vender lá fora" uma imagem de Portugal que seja mais positiva do que a resultante de sermos um dos PIIGS. Este vídeo, por exemplo, já tem uns meses.

Sem ter a pretensão de avaliar o impacte dessas campanhas, proponho outra, bastante diferente.

Que tal pegar no Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira - mais precisamente, numa versão em inglês (que já existe) - e, pondo-a ao cuidado de um actor cujo gesto e voz e atitude seja pelo menos aproximada do que sabe o nosso grande Luís Miguel Cintra, fazer ouvir esse magnífico e tão actual texto, na íntegra, em Bruxelas, talvez no espaço público em frente do simbólico edifício estrela, e, digamos, em Berlim, talvez no tão historicamente carregado espaço junto às portas de Brandenburgo?

Provavelmente, alguns dos passantes não compreenderiam o significado de tal texto. Mas os que não compreendem o Sermão de Santo António aos Peixes talvez sejam o alvo de outras campanhas de propaganda. Esta acção seria um apelo a outros tipos de inteligência, a outras formas de sensibilidade. E não precisamos nós, urgentemente, de apelar a outras inteligências e a outras sensibilidades, falando-lhes exactamente nos lugares públicos onde se passeia aquela inteligência que não entende e aquela sensibilidade embotada?

E depois, pelo menos em Berlim, podia a sessão terminar com música levando palavras em alemão, com a sugestão que deixo em vídeo (legendas em inglês, a ver/ouvir até ao fim).





11.11.13

o PS entrou na tropa do Comendador Henrique Monteiro ?


Está em desenvolvimento - na vida real, sempre muito mais rica que a ficção - o enredo do próximo filme de Manoel de Oliveira: a fusão à la Frankenstein‎ entre o Comendador Marques de Correia e o jornalista Henrique Monteiro. A novela até já mete o recurso às novas tecnologias em formatos tão conhecidos de alguns alunos do secundário (a "tecnologia" de citar sem mencionar a fonte).

Por estranho que pareça, ainda algo me consegue surpreender nisto tudo: o mar onde o Comendador Henrique Monteiro vai pescar aliados na grande guerra filosófica contra Sócrates, o Parisiense. Vejam, na imagem abaixo, o Secretário Nacional do PS, velho companheiro de estrada do SG, o camarada Álvaro Beleza a "bater palmas" ao esforço heróico do Comendador contra o diabólico socratismo (ao qual nem sequer falta o vade retro contra o "blogue governamental" Câmara Corporativa). (Para os que não praticam o Facebook, esclareço: estou a falar do "gosto" que o camarada Beleza apôs ao textinho de Henrique Monteiro.)

Ou será que piratearam a conta do camarada secretário nacional do PS no Facebook e, parafraseando Bocage, alguém virá declarar: "o 'gosto' que aquele camarada deu, não foi o Álvaro que o deu, fui eu" ?