25.7.12

a guerra dos sexos na versão sociologia de praia.


Miguel Araújo - Os Maridos Das Outras


E depois o "pay back":

Si Menor - As mulheres dos outros


postal para Rui Tavares.

11:28

Rui Tavares tem andado a escrever uma série de artigos no Público, subordinados ao título genérico “Uma refundação democrática?”. O “volume” de hoje é sobre a União Europeia e deixou-me de boca aberta.

Embora eu não tenha nenhum telemóvel com fichas dos políticos e outras personalidades que por aí andam, tenho ideias gerais sobre certas pessoas com intervenção no espaço público. Considero Rui Tavares um deputado europeu honesto e uma pessoa em geral sensata, sem que esta minha opinião seja melindrada pelas vezes em que discordo dele. Esta consideração suave, que é quase o máximo que consigo dar a “pessoas públicas”, hoje tremeu com a sua ideia para a refundação democrática da Europa.

Basicamente, o que Rui Tavares propõe é que o embaixador que chefia a Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER) passe a ser eleito pelos portugueses, como são eleitos os deputados europeus. A sua justificação radica numa teoria sobre o papel do Conselho (órgão que reúne os governos dos Estados Membros) nas instituições comunitárias. Como, no Parlamento Europeu, os países populosos têm muito mais deputados do que os países pequenos (o que está certo), encontra-se uma compensação numa espécie de “Câmara Alta”, um Senado, onde a representação é estadual e tendencialmente igualitária. Actualmente, o Conselho é uma espécie de Senado da UE, mas dominado pelos governos. Então, avança Tavares, o REPER deveria passar a ser eleito pelos portugueses – um avanço político que este deputado europeu compara à eleição dos senadores americanos directamente pelos eleitorados estaduais e não indirectamente pelos parlamentos de cada Estado federado. Segundo Tavares, assim se dava um passo para transformar o Conselho num Senado eleito.

Confesso que me espanta que uma pessoa como Rui Tavares possa escrever isto. Fundamentalmente por ser uma colossal demonstração de ignorância. Quem representa Portugal nesse tal “Senado” (Conselho e Conselho Europeu) não é o embaixador REPER: são os ministros e o primeiro-ministro. O REPER é um funcionário: um alto funcionário, mas um funcionário. O REPER serve a política do seu país, tal como definida pelo governo do momento, seguindo as respectivas instruções. Qualquer proposta sobre a transformação do Conselho na Câmara Alta do Parlamento Europeu, além de estar muito longe de ser nova, só pode incidir sobre os políticos que aí representam alguma coisa, não sobre funcionários. Esta confusão, lamento dizê-lo quando está em causa Rui Tavares, é colocar a ignorância ao serviço de uma proposta popularucha.

Para levar o que Rui Tavares propõe às suas últimas consequências, os portugueses deveriam eleger, suponho que por voto directo, o embaixador chefe da missão de Portugal junto da ONU, já que ninguém duvida que ele anda por lá perto de quem manda. Ou, ainda, os portugueses deveriam eleger o director-geral de impostos, já que o seu cargo é tão importante para a nossa vida. Não, Rui Tavares, a política democrática não se faz com tiro ao alvo contra os “burocratas” que servem o país, gostemos ou não gostemos deles. O tiro ao alvo contra a diplomacia pode servir os instintos básicos dos que têm uma concepção caseira da política democrática, mas não tem nada a ver com uma refundação democrática. Cavar na ignorância é, pelo contrário, uma verdadeira “afundação” da democracia.

24.7.12

libelinhas.


Já ninguém ouve álbuns da primeira à última canção. Já ninguém lê livros da primeira à última página. Mesmo nas escolas pululam as fotocópias de capítulos, como quem vai ao retalho comprar um quilo de feijões. Filmes, aparentemente sim: para lá dos visionamentos na televisão, compatíveis com toda a espécie de distracções e interrupções, ainda se vêem filmes completos nas salas de cinema, porque as pessoas se sentam na sala escura e ficam lá até ao fim (quase, porque saem antes da ficha) – mas, na verdade, lêem e mandam mensagens curtas durante o filme (os mais boçais falam mesmo ao telemóvel), tratando a fita como uma colecção de vídeos do YouTube.
Quando digo “já ninguém…” quero dizer “há uma prática generalizada e que se tornou padrão de comportamento e de avaliação”. Quero dizer: entranhou-se (mesmo que depois de se ter estranhado).
Podemos tecer muitas considerações sobre vários aspectos dessa questão. Uma linha de considerações seria pedagógica: quando ensinamos, o que ensinamos implicitamente por dizer às pessoas que podem colher um raminho aqui e um raminho acolá, sem grande atenção ao conjunto, como se estivesse ao nosso dispor fazermos um grande caldo de “pacotinhos de informação”, mesmo que esses pacotinhos desgarrados tenham perdido todo o sabor daquilo que os autores quiserem originalmente dizer? Esta forma de fazer as coisas está, penso eu, intimamente ligada à desafeição que cursos de toda a espécie deixam naqueles que os frequentam em relação às pérolas que os deviam ter marcado a fogo. Uma secção ou um capítulo de uma obra não é necessariamente uma obra propriamente dita, mesmo que permita fazer um exame e dizer que já se leu fulano ou beltrano. E alimenta-se a síndrome da libelinha.
Mais em geral, voando mais afastado das coisas práticas, esse estilo libelinha peca por não nos ensinar a consideração. Consideração de uma obra no que ela tem a dizer como intervenção no mundo, não apenas um pedaço de informação sobre isto ou aquilo que aparece a páginas tantas. Consideração de um autor que escreve um livro, realiza um filme, compõe uma obra musical, não para ser “fonte de informação”, mas para dizer qualquer coisa sobre a sua e nossa humanidade. Consideração de uma obra, de uma visão, de um grito que seja. Comer isso cortado em fatias é uma aberração, uma falta de consideração, uma forma obtusa de nos desgarrarmos dos outros e do seu significado como habitantes deste mundo.
A generalizada desatenção ao que tem significado de algum lado virá.

23.7.12

a fluidez nos professores.

18:33

Adormeceram professores e acordaram sem turmas.

Respigo do testemunho de Cecília Lourenço: "O pior é sentir que nunca mais vou ser a mesma. Pode parecer exagero. Mas é mesmo assim: eu, que não tinha medo, não voltarei a sentir-me segura. Não apenas na escola, mas no país."

Isto explica-se? Explica.
Deixo-vos uma citação, sem comentários, para reflexão:
A fluidez: tocamos aqui na essência da estabilidade das democracias-mercados. Esta fluidez só pode funcionar através de uma química social capaz de exercer uma pressão permanente, presente em toda a parte e em parte nenhuma, uma espécie de polícia obstinado em seguir cada Robinson-partícula como se fosse a sua própria sombra.
Este gendarme pacífico, silencioso, permanente e sobretudo gratuito estava ao alcance da mão: era a fome! Bastava pensar nisso... e muitos eram os conservadores que, como o Bentham do tempo da revolução industrial, se maravilhavam com o facto de a Natureza regressar a galope até ao social e se encarregar ela mesma de produzir o que era exigido à época pelo mercado de trabalho: uma grande massa submissa e embrutecida pela fome!

A citação é de Gilles Châtelet, Vivermos e Pensarmos como Porcos, Temas & Deabtes, pp. 69-70

Não anda muito longe do que escrevi aqui.

No meio disto tudo, as pequenas trapaças dos corredores são apenas epifenómenos (embora digam alguma coisa da qualidade humana de certos intervenientes).

inversão de valores.

14:09

Marcelo: Sócrates “qualquer dia” estará transformado numa vítima do Freeport.

Concretamente, citando o Público: «José Sócrates, "qualquer dia está uma vítima e começa a ser pagante" e poderá mesmo falar numa "perseguição pessoal".»

A ver se nos entendemos: o que preocupa Marcelo não é que José Sócrates tenha sido vítima do caso Freeport, quer dizer, que esse caso tenha - sem nenhuma base substantiva - servido para o conspurcar, para lhe dificultar a acção política, para apimentar a política de ódio contra ele, para o fazer perder tempo, para animar as hostes da oposição toda junta que de outro modo até teria vergonha de se juntar tão juntinha. O que preocupa Marcelo não é que José Sócrates tenha sido vítima, tenha sido alvo de uma perseguição pessoal, porque Marcelo está-se a marimbar para as vítimas em política, desde que não sejam do seu regimento. O que preocupa Marcelo é que qualquer dia toda a gente, mesmo os muito distraídos, mesmo os muito cegos pela raiva, vão perceber que José Sócrates foi uma vítima, deste caso e de outros parecidos, porque de uma montanha de nada se fez toda esta novela infinita.
Claro, não se trata dos que têm amigos disponíveis nos serviços secretos: esses provavelmente há muito tempo que perceberam como essas coisas se fazem. Trata-se de entrar pelos olhos dentro de toda a gente aquilo que Marcelo quereria que poucos compreendessem. É isso que preocupa Marcelo. O que ele quer dizer é: "companheiros, vamos largar este osso antes que toda a malta perceba quem tramou isto".
O miraculoso professor dos domingos não está preocupados com as vítimas. Está preocupado é com os autores morais. E com os beneficiários.