30.3.12

identidades, nomes, sistemas informáticos.

o PS, o resto do mundo e arredores.

18:26

Em certos círculos apoiantes da actual direcção do PS vai um escândalo com o facto da deputada independente Isabel Moreira ter votado contra o Código do Trabalho. Parece que já ninguém se lembra que durante uma série de anos (não há muito tempo) houve um pequeno grupo de deputadas eleitas nas listas do PS que (escoradas na sua democracia-cristã) votavam sistematicamente contra a linha do partido em certas matérias ditas fracturantes. É claro que Isabel Moreira não ajudou muito quando, também por estes dias, decidiu opinar sobre as escolhas de Seguro para certos lugares partidários, sendo ela independente. Além do mais, deu a impressão de se juntar à confusão entre o que realmente interessa ao país e certas guerras partidárias que ao cidadão comum parecem guerras privadas. Mas também não se compreende por que diabo este escândalo com o voto divergente de uma deputada independente acontece precisamente com AJS, que sublinhou à chegada que pretendia aumentar a liberdade individual dos deputados. Já para não falar da campanha miserável que algumas pessoas estão a fazer no Facebook contra Isabel Moreira, usando fotos informais das suas férias e dos seus convívios para a ridicularizar (no mínimo).

Afinal, o PS parece cair que nem um patinho na manobra do PSD, que tanto falou de Sócrates como o diabo universal que conseguiu atrair uma parte dos socialistas para essa conversa da treta (sendo que os excessivos defensores do seu legado por dá cá aquela palha não fazem melhor pelo personagem do que os seus detractores). Entretanto, como se não bastasse, surgem no horizonte sinais de que o PS vai engalfinhar-se numa luta estatutária que será vista como uma tentativa de golpe de Estado interno para perpetuar Seguro o mais possível. Não precisava o PS de mais nada... O país que espere, parecem dizer-nos.

a ciência pode ser uma actividade de risco.


Demitiu-se o chefe da equipa que anunciou ter detectado neutrinos mais rápidos do que a luz.

«Mas em Fevereiro deste ano, surgiu a hipótese de tudo não passar de um erro de medição, devido a uma ligação deficiente entre um GPS e um computador que gerou um desfasamento temporal de 60 nanosegundos. Ora justamente, os neutrinos que aparentemente percorriam os 730 km de Genebra até Gran Sasso mais depressa que a luz, faziam-no em menos 60 nanosegundos do que estipula a teoria de Einstein.»

Millôr Fernandes.


Agora que já foi suficientemente ridicularizada aquela reacção à morte do jornalista e escritor barasileiro Millôr Fernandes que consistiu em copiar dezenas ou centenas das suas célebres frases, agora que esse tique de redacção de jornal já foi crucificado na praça pública, chegou a minha vez. Como não sou conhecedor bastante para fazer a minha escolha, dou uma pequena escolha de escolhas que outros fizeram.

A palavra a Millôr Fernandes:

«Nunca tantos deveram tanto a tão porcos.»

«O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é.»

«O capitalismo não perde por esperar. Em geral ganha 6% ao mês.»

«Toda lei é boa desde que seja usada legalmente.»

«Não devemos resisitir às tentações: elas podem não voltar.»

«Infelicidade: Nascer com talento melódico numa época em que o pessoal só se interessa por percussão.»

«Calúnia na internet a gente tem que espalhar logo, porque sempre é mentira.»



29.3.12

28.3.12

o analfabeto político

erros da natureza.

sobe e desce.

10:54

Não sei quem escreve a coluna "Sobe e Desce" da última página do Público. Mas essa coluna esta manhã deu-me vómitos.

Gil Canha, vereador do Partido Nova Democracia (PND) na Câmara Municipal do Funchal, bem como pessoas chegadas, estão a ser vítimas de repetidos actos de vandalismo: carros incendiados ou atacados de outras formas. Muitos pensam estar em causa um processo de perseguição política.

Ontem, na Assembleia Legislativa da Madeira, José Manuel Coelho acusou a bancada do PSD local de albergar o mandante desses actos, que considerou terrorismo político. Fê-lo no seu habitual estilo truculento e, suponho, fora da ordem normal dos trabalhos parlamentares. Foi mandado retirar da câmara, o que foi concretizado por funcionários bem alimentados da dita Assembleia; foi depois retirado à força da zona do público, onde continuava a intervir, pelas forças policiais.
De certo o estilo deste ex-candidato presidencial não é ortodoxo. Tenho, contudo, alguma dificuldade em dar lições de ortodoxia comportamental a alguém que, sem vocação para servo, tenha de viver sob a ditadura de Alberto João Jardim, este sim um palhaço perigoso que o país tolera há décadas como se um cancro no pulmão fosse uma constipação.
Estamos certos de que o vandalismo que "por acaso" toca à porta da família de Gil Canha é uma perseguição politica? Não estamos. Mas a obrigação de um deputado é saber mais e dizer mais do que aquilo que poderíamos provar em processo judicial. E o "terrorismo regional" pode estar de volta com este novo alvo, ninguém pode descartar liminarmente essa possibilidade. A gravidade do caso é tal que justificaria muita heterodoxia comportamental de qualquer deputado.

Perante esta situação, o jornalista do Público tem uma visão diferente. Escreve no Sobe e Desce: «José Manuel Coelho [seta vermelha para baixo]. O deputado do Partido Trabalhista Português na Assembleia da Madeira é recorrente em acções que podem ter grande exposição pública, conseguindo assim o seu objectivo, mas que não dignificam quem exerce funções semelhantes. Ontem, foi expulso do Parlamento por estar a perturbar os trabalhos. Coelho pede medidas que garantam "os direitos e liberdades dos deputados", mas esquece-se que o seu papel é representar quem o elegeu e produzir trabalho.»

Quem quer que tenha escrito isto é de um cretinismo atroz. Se aquilo que José Manuel Coelho denunciou é verdade, ele está a fazer exactamente o seu trabalho: denunciar, apesar do controlo brutal sobre qualquer meio que na Madeira sirva para denunciar o que quer que seja. Que um ou uma jornalista qualquer ache que isso não é "representar quem o elegeu" e "produzir trabalho", só pode querer dizer que o escriba ignora a realidade da Madeira e não tem noção nenhuma do valor da democracia e do que um deputado deve à defesa da liberdade. Dá-me vómitos ler a prosa pesporrenta de gente que confunde os alvos, atacando os que têm de fazer o pino para atrair as atenções para os que sofrem a violência dos ditadores, em vez de atacar os próprios ditadores violentos. Se começassem a queimar a propriedade dos seus familiares, repetidamente, talvez o/a jornalista em questão iniciasse um processo de auto-esclarecimento.

27.3.12

física da sociedade.



Murray Gell-Mann, Prémio Nobel da Física em 1969 pelo seu trabalho sobre a teoria das partículas elementares, afirmou um dia: "Imagine o quão difícil seria a física se os electrões pudessem pensar".


Fonte: Scott E. Page, “Computational models from A to Z”, in Complexity, 5 (1999), pp.35-41

dia mundial do teatro.


"Amor pela passiva" e "amor pela activa".
Filodemo, de Luís de Camões.
Auto. Comédia. Tragicomédia.
Do contraste entre amor platónico ("amor pela passiva") e amor fisicamente expresso ("amor pela activa").

***

FILODEMO - (...) é necessário que primeiro alimpeis como marmelo e que ajunteis pera um canto da estrebaria todos esses maus pensamentos vossos, porque, segundo estais, mal avinhado, danareis tudo o que agora em vós deitar. O caso é este. Já vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra que não é servir a senhora Dionisa; e ainda que a desigualdade dos estados o não consinta, eu não pretendo daqui outra senão não pretender cousa nenhua. O que lhe quero, consigo mesma se paga. É este meu amor como ave fénix, que de si só nasce e não de nenhum outro interesse.(...)

DORIANO - Eu vo-lo direi: porque todos vós outros, que amais pola passiva, dizeis que o amador fino como melão que não há de querer mais de sua dama que amá-la viva. E virá logo o vosso Petro Bembo, Petrarca e outros trinta Platões (mais safados destes hipócritas que uas luvas dum pajem d'arte) mostrando-nos rezões verisemelhantes pera homem não querer mais de sua dama que ver, até falar. E ainda houve outros inquisidores d'amor, mais especulativos, que defenderam a vista por não emprenhar o desejo. E eu faço voto a Deos, se a qualquer destes lh'entregarem sua dama entre dous pratos, tosada e aparelhada, que não fique pedra sobre pedra nem lugar sagrado em que se possa dizer missa daí a mil anos, nem lugar tão preveligiado em que a fúria da justiça não buscasse até os caminhos escaninos. De mim vos sei dizer que os meus amores hão de ser activos. E eu hei de ser a pessoa agente e ela a paciente. E esta é a verdade. Mas tornando a nosso prepósito... Vá vossa mercê com sua história avante.


está interessado em saber o que é "ir além da troika"?

Per Kirkeby, retrospectiva.


Em Bruxelas, no Bozar, Per Kirkeby (n. 1938), multifacetado (pintor, escultor, escritor) dinamarquês, numa retrospectiva que tivemos a feliz possibilidade de visitar no fim-de-semana passado. Um geólogo que trouxe o seu modo de ver para a pintura. (Não consigo, mesmo assim, encontrar na rede imagens dos quadros que mais gostei. Acho que vou mesmo ter de pedir que me comprem o catálogo...)

Per Kirkeby, Beatus-Apokalypse, 1989 (290 x 350 cm)


Per Kirkeby, Missing the World, 1997 (3000 x 500 cm)

Per Kirkeby, Cossus ligniperda, 1989 (290 x 350 cm)


26.3.12

episódios das guerras das ciências.



Robert Trivers, então um nome importante da sociobiologia, declarou à Times em 1 de Agosto de 1977: “Mais tarde ou mais cedo, as ciências políticas, o direito, a economia, a psicologia, a psiquiatria e a antropologia serão todas ramos da sociobiologia”.
A sociobiologia como uma tentativa de retirar legitimidade epistemológica às ciências sociais. Em nome de mais "cientificidade".
Afinal, apenas mais uma forma das tentativas de suprimir os cruzamentos pluralistas de disciplinas científicas, desta vez em nome de uma interpretação particular dos conhecimentos da biologia. Arrogância científica. Não foi a primeira, não será a última.

sindicalização e desenvolvimento.

25.3.12

Cosa è arte?


Ontem, visita ao Bozar. Entre outras coisas, a exposição de fotografias de Cy Twombly (de que deixamos exemplos abaixo). Ocasião para uma reflexão, que ali fiz e aqui deixo.

Ver arte é ver pelos olhos dos outros.
Fazer arte é antecipar que outros possam querer ver pelos teus olhos e, então, descobrires em ti outros olhos teus que se deixem ser olhos d'outros.
(Se todos víssemos o mesmo quando olhamos para uma cena; se fossemos como máquinas fotográficas; se fossem os nossos globos oculares a ver - não haveria arte. Poderia haver reportagem, mas não arte.)