30.12.11

e que é que Cristo tem a ver com isto?

15:00

Em alguma blogosfera da esquerda lusa, durante o dia de ontem, houve uma certa comoção por António Pinto Leite, presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), ter defendido que a lei deve permitir cortes salariais por mútuo acordo entre empresas e trabalhadores. Muitos blogues sublinharam o escândalo de quem assim fala ser dirigente de uma associação cristã (no género: "Imagine-se se não fosse uma associação cristã..."). Em alguns casos, a notícia até era apresentada truncada: o homem teria dito que a legislação laboral deveria ser alterada para permitir às empresas baixarem salários. Ponto final, parágrafo, deixando para depois do link a questão do mútuo acordo requerido na tal sugestão.
Com o devido respeito, esta forma de abordar o assunto é ligeira e simplista - e deixa passar por entre os dedos a verdadeira questão. O ponto é que há sistemas de regulação do trabalho em que a defesa dos direitos dos trabalhadores está mais entregue à negociação e acordo entre as partes do que à legislação. É o caso dos nórdicos, na Europa, onde quase tudo se pode fazer por acordo entre empresas e representantes dos trabalhadores, ficando a eficácia da legislação, muitas vezes, para o continente das ausências de acordo. Não se pode dizer que o sistema nórdico seja o pior da Europa para a parte mais desprotegida.
A questão é a das condições em que esses acordos podem ser feitos. Designadamente, é preciso impedir a pulverização das negociações, o que prejudicaria a parte mais fraca: se a empresa negociar directamente com um pequeno grupo de trabalhadores, pode ter meios de coacção para levar a um falso acordo; se tiver de intervir o sindicato, ou uma representação organizada dos trabalhadores, apoiada em meios apropriados para avaliar as alternativas, poderá ser mais justa a negociação.
É, portanto, a questão do modelo que uma sociedade oferece para que as discussões entre trabalho e capital sejam justas e produtivas, em vez de acentuarem os desequilíbrios, que está em causa. E é, também, a questão das unhas que têm os nossos empresários e os nossos trabalhadores para entrarem num caminho desse tipo. Essa era a discussão que merecia a proposta de António Pinto Leite. As piadolas sobre o seu "cristianismo" são mais uma peça desta arte, que está entre nós a tornar-se universal, de desviar sempre as atenções para o lado anedótico das questões que precisamos discutir seriamente.


prendas para 2012.

11:50

Impiden a un indignado subir a bordo de un avión por llevar carteles anarquistas.

Se isto for verdade (não creio que esteja ainda claro o que realmente aconteceu), e práticas deste tipo ("prevenção do terrorismo" visando pessoas que divulgam as suas ideias acerca do tempo actual) se espalharem em 2012, voltamos à trincheira onde se discutem as liberdades básicas. Não os direitos sociais e coisas assim sofisticadas, mas o mínimo de podermos comunicar o que pensamos. Note-se: nada disto depende de estarmos de acordo com esta ou aquela leva de "indignados". Está em causa, tão-somente, que sem a liberdade de expressão de ideias diferentes das minhas, são as minhas ideias - as minhas liberdades - que entram no inferno. Está em causa o terrorismo empresarial: empresas que se chegam à frente para discriminar cidadãos com certas ideias, em nome do sossego da clientela. E comunidades políticas que aceitam isso. Vergonhosamente.

29.12.11

e eu acredito em duendes.



Não.
Nada se cumpre pela boa ordem do mundo.
É preciso meter as mãos.
Que, por vezes, resultam sujas.
Humanamente sujas.

27.12.11

quem nos salva dos salvadores?

18:57

Ataque mais recente dos Anonymous divide grupo de hackers.

Dentro da lógica de "milícias populares" a fazerem "justiça por suas próprias mãos" - mais intelectuais que as milícias do Norte que atacavam "ciganos" sob o aplauso do Dr. Portas, mas igualmente longe de qualquer controlo democrático - mais tarde ou mais cedo isto havia de acontecer. Hackers acusam outros hackers de serem puros criminosos escondidos sob a máscara de puras intenções políticas.Kilgoar, um dos Anonymous, terá afirmado sobre esta acção: “[Estas] não são acções de anarquistas justos, mas de criminosos oportunistas”. Está em causa quem se ataca (em geral, os hackers acham que lhes cabe definir as fronteiras do bem e do mal), está em causa o uso que se faz da informação roubada (é normal usarem os dados bancários para fazer "doações" forçadas de terceiros?), está em causa a legitimidade da "justiça popular".
Nada disto é surpreendente. A lógica das milícias populares leva sempre ao abuso. O abuso pode parecer mais romântico por ser praticado em nome da democracia, da anarquia, ou da transparência - mas não deixa de ser abuso por isso. Quem se engana acerca disso não aprendeu nada, para não ir mais longe, com as desgraças que o século XX sofreu às mãos de ideias românticas.

26.12.11

vale tudo.


Uma notícia que vos dou tardiamente, mas que não quero ocultar, para que se acautelem com as doenças da cabeça que, temo, podem atacar qualquer um. "É assim": Popota vai dirigir jornal Metro.