15.7.11

depois da gravata, nova fase da campanha de poupança de energia


No ministério de Assunção Cristas já estão todos sem gravata.

Não sei se a medida tem condições para gerar um efeito relevante ao nível dos objectivos declarados. Veremos. De qualquer modo, e desde já, revelou a imensa capacidade de comentadores, comentaristas e comentadeiros de sítios de jornais e blogues para dizer mal de tudo e mais alguma coisa. Para já não falar na pergunta, que parece ser tomada como inteligente, "então, mas havia algum regulamento a obrigar a usar gravata?" - com a implícita resposta, também para ser julgada inteligente, "se não era obrigatória [a gravata], não faz sentido dizer-se que deixou de o ser". Enfim, personagens que escrevem torto por linhas direitas. Antes Cristas.

Aproveito para, dando o pouco apoio que posso ao governo de Portugal, sugerir uma modalidade de possível expansão da campanha governamental a favor de um fresco sem custos.

Joanne Gair shows off the tie-dyed shirt she painted on model Annelise Burton.
Photo by The New Zealand Herald.


traduções português-português


"desvio colossal" = "foram detectados desvios e a consolidação orçamental vai exigir-nos um trabalho colossal".

"fdp" = "eu sou um bom filho, prezo o respeito dentro da família e evito qualquer disputa".

Ministro de Estado, das Finanças e da Interpretação


Vítor Gaspar dá nova interpretação a palavras de Passos Coelho ("desvio colossal") e fala em “trabalho colossal”.

No tempo de Manuela Ferreira Leite havia vários dirigentes do PSD encarregues de dar interpretações do que ela dizia. Cada vez que a senhora presidente dizia mais um disparate, Pacheco Pereira, ou outro intelectual de serviço, dava uma "interpretação". A interpretação era o que a senhora poderia ter dito, mesmo que fosse irrelevante, em vez de, como fazia frequentemente, proferir insanidades. Mas, nesse tempo, a presidente do PSD era apenas uma senhora que gostava muito de Cavaco, odiava muito Sócrates - e estava disposta a dizer qualquer coisa que servisse essas duas paixões. Em conformidade, os interpretadores das palavras da senhora eram, simplesmente, outros bondosos dirigentes do PSD.
Agora, Passos Coelho, que se seguiu a MFL, também tem interpretadores. Só que, alcandorado à dignidade de PM, não pode ser qualquer um a dedicar-se a tão insigne hermenêutica. Por isso, o Ministro de Estado e das Finanças passou a acumular a pasta da Interpretação. Vítor Gaspar tem uma nova pasta, sendo agora Ministro de Estado, das Finanças e da Interpretação de Sua Excelência.

Note-se, contudo - e aqui socorro-me do vídeo divulgado pela Shyznogud - que Vítor Gaspar, depois de apresentar a teoria de que Passos Coelho não teria falado de "desvio colossal", e que essa expressão seria o resultado infeliz de terem rasurado uma série de palavras entre "desvio" e "colossal", explica, passo a citar: «“Esta versão é da minha pura responsabilidade. Eu não tenho nenhuma informação autêntica sobre as palavras que terão sido proferidas entre “desvio” e “colossal”. Mas esta versão agrada-me particularmente.”» Trocando por miúdos, o que o Ministro de Estado, das Finanças e da Interpretação de Sua Excelência, disse, foi o seguinte: «o PM disse um disparate; era bacano que tivesse dito, por exemplo, aquilo que eu acabei de dizer que ele disse, em vez de andar a dizer tolices».
Já nem o Ministro de Estado e das Finanças se contém.

abissal

10:11

Hoje, um poema de Manuel António Pina.

Atropelamento e Fuga

Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!

de Atropelamento e Fuga (2001)

14.7.11

alô, senhora ministra da justiça...

nem tudo o que parece um jornal é um jornal


Pode ser simplesmente um buraco de ódio a tentar usar a única receita que conhece.


reportagem da Madeira


Jardim só aplicou 29,5% das verbas recebidas na reconstrução Madeira.

Na imagem abaixo: o tipo do escafandro é só para impressionar (para dar a ideia de que a malta anda a fazer o seu trabalho). Na verdade, o resto do maralhal está sentado, envergando vestido longo, olhando ligeiramente para a direita.


Miss Bernhardt, full-length portrait, seated, facing slighlty right,
with person in deep sea diving gear standing alongside (c. 1880).

ainda a campanha interna do PS

16:25

Por boas razões, o que se passa dentro de um partido por ocasião da escolha de um novo líder interessa à generalidade dos que se interessam pela democracia. Por isso me interesso pela actual eleição para secretário-geral do PS, ainda mais sendo esse o partido com que me identifico na cena política nacional. É uma disputa na qual não apoio - nem deixo de apoiar - qualquer dos candidatos em presença, apenas por entender que é uma eleição onde nem todas as cartas foram colocadas em cima da mesa. De qualquer modo, há agora um "pequeno tema" sobre o qual entendo pronunciar-me, por me parecer relevante para lá dos muros deste ou daquele partido, a saber: os debates entre Seguro e Assis devem ser públicos (como quer Francisco) ou reservados aos militantes (como quer António José)?
As verdadeiras razões de cada um serão, suponho, tácticas. Assis quererá debates públicos para aumentar a repercussão das suas palavras, atrasado como está no contacto com as bases, que nunca foi muito a sua chávena de chá. Seguro preferirá jogar em casa, para não dar palco a Assis (um argumento que já foi usado outras vezes por políticos de outros quadrantes com altas responsabilidades), mas também para poder ter o discurso específico que os militantes querem ouvir para se sentirem afagados, discurso esse que poderia não ser o mais conveniente para debates televisionados, por exemplo.
Sobre as razões tácticas não me pronuncio: quer porque nunca fui bom nesse campo, quer por serem opções legítimas mas de mera oportunidade (sem alcance político geral, desde que a táctica não abocanhe tudo o que importa mais). Pronuncio-me, contudo, sobre as justificações públicas apresentadas.
Acho que Assis tem razão quando quer debates abertos. Como mostrou a campanha Sócrates/Alegre há uns anos, é uma oportunidade para mostrar ao público o vigor das ideias que fervilham dentro do partido. Ou, pelo menos, para ensaiar argumentos para o subsequente debate com outras forças políticas. Não há que recear que a "lavagem de roupa suja" ponha uns pingos na imagem imaculada do partidos: os partidos não têm imagens imaculadas, e aquilo que o "povo" em geral imagina que se passa "lá dentro" é muito pior do que realmente pode ser visto nestas circunstâncias eleitorais.
Acho, por outro lado, que Seguro tem razão em querer debates fechados. Os partidos são organizações, grupos humanos com interioridade, com espaço próprio, com solidariedades acrescidas ligadas a propósitos comuns, com reserva que confere liberdade, arenas onde se deve poder pensar alto sem entrar no circo mediático. Na minha concepção de um partido democrático, esse espaço de acrescida liberdade interna é uma necessidade. Se não for assim, os militantes só podem falar livremente com o parceiro do lado: quer dizer, só há debate sem constrangimento na secção local, porque fora desse espaço tudo é escutado pelo público em geral, pelos outros partidos. É como obrigar o treinador de uma equipa a dar a táctica para o jogo ao microfone, para que todo o estádio ouça. No fundo, isso equivale à lógica do "centralismo democrático", que é afinal uma lógica totalitária, porque os militantes só são livres de expressar a sua opinião na "primeira instância": daí para a frente, têm de ter cuidado com o que dizem para "não prejudicar o partido". E não me venham com a história da transparência: se um candidato a líder quer debater a estratégia da sua relação com os outros partidos, deverá fazê-lo na praça pública, mostrando as cartas todas aos outros partidos? Não me parece. Esta é, precisamente, a razão porque sempre achei errado que os congressos do PS tenham, há muitos anos, passado a ser completamente abertos à comunicação social: tornaram-se, assim, meros comícios.
Se concordo com Assis e concordo com Seguro, acho que deveria haver debates dos dois tipos. E há. Mas um único debate aberto ao público é pouco: é perder uma oportunidade de mostrar o pensamento dos socialistas ao país.

13.7.11

socialistas (again)

23:09

Um comentário interessante ao debate de ontem entre Seguro e Assis, assinado por Filipe Henriques, no blogue Real República.
Um excerto:
«Por fim a única discussão onde realmente existiu alguma diferença entre os candidatos: as primárias.(...)
Chegou a levantar-se a questão de “como se sabe quem é simpatizante?” ou “pode um militante do PSD ir votar nas primárias do PS?”. Sobre isso gostaria de apontar para os estatutos do Partido Socialista onde, no capítulo 2, encontramos o artigo 7º (que define a inscrição e registo no partido dos simpatizantes) e os artigos 13º, 14º e 15º (que indicam os direitos e deveres dos simpatizantes).
A existência de primárias não é nada novo, e também não é nada circunscrito aos Estados Unidos. O exemplo que gostava de aprofundar aqui é o de Espanha. Tal como defende Assis, no PSOE e no PSC podem votar nas primárias tanto os simpatizantes como os militantes, e nas recentes eleições municipais e autonómicas existiram duas grandes primárias: Madrid (região) e Barcelona.
No caso de Madrid a participação dos militantes e simpatizantes ultrapassou os 81% (o PSOE estava na oposição), e em Barcelona ficou-se pelos 34% (o PSC estava no governo, sendo que nos militantes a participação ultrapassou os 60%).
Em ambos os casos as sondagens mostraramm uma recuperação dos candidatos Tomaz Gómez e Jordi Hereu, devido à mobilização do eleitorado socialista provocada pelas primárias.
Conclusão: as primárias não matam o debate (pelo contrário), e mobilizam os eleitores rumo às eleições.»
Seria interessante, para o debate, que se evitassem as tentativas de tratar o adversário como "inimigo dos militantes".

gosto muito do Google maps

socialistas

18:59

Vi ontem à noite o debate entre Seguro e Assis, na qualidade de candidatos à responsabilidade de secretário-geral do PS. Acho que teve aspectos interessantes: revelou algumas diferenças entre os candidatos, projectou ideias relevantes acerca do caminho que os socialistas podem trilhar nos próximos tempos. Contudo, vi lá tiques que, para quem conhece os personagens há tantos anos, dão uma certa vontade de rir, pela previsibilidade. Não me parece que o conteúdo do debate tenha enfraquecido em nada o PS, até pelo contrário - e acho de mau gosto que apoiantes de um ou de outro tenham avançado, no rescaldo, para a tentativa de incriminar "o adversário" como responsável por afirmações prejudiciais ao partido. (Afinal, os congressos são abertos ao mundo e não se pode dizer tudo na televisão?) Não creio que o debate vá mudar o voto de muitos socialistas, pelo menos daqueles que já esperavam há muitos meses ou alguns anos pelo "seu" secretário-geral. A única nota amarga (para mim) é que fiquei a pensar, depois de desligado o aparelho (obviamente, não fiquei a ouvir comentadores que ouvem sempre aquilo que eu não ouço) que, se a memória não me falha, esta é a primeira corrida para secretário-geral do PS em que todos (ambos, neste caso) os candidatos foram dirigentes da JS e nunca tiveram uma ocupação profissional permanente fora da política.

12.7.11

mais seco que um cavaco

Sofia Copola é que percebeu Durão Barroso

Somewhere, de Sofia Coppola; cena de abertura.
(Volume a 90%, por favor.)

europas há muitas

16:25

Gabriel Alonso, O rapto de Europa, 2009

A "crise" veio atrapalhar duas concepções de Europa.
A esquerda soberanista (que está sempre a reclamar contra o imperialismo de Bruxelas) acordou para a realidade de que "a Europa tem de fazer qualquer coisa". Perceberam, finalmente, que sozinhos neste mundo estamos tramados. É bom que tenham percebido isso: podem deixar de lado o disco riscado do nacionalismo míope que usa(va)m para ganhar uns votos à família dos sociais-democratas, socialistas e trabalhistas. Podemos, em consequência, começar a pensar ao nível do continente (mesmo que sejamos, apenas, uma região periférica da Ásia).
Os federalistas, pelo contrário, podem ser vítimas do seu sucesso. Explico-me. Parece pouco provável que a Europa se safe desta tormenta sem acrescentar novos níveis de integração política ao que existia antes. Governo económico da Europa, a sério. Só que, ainda por cima quando chegamos lá com os "elos fracos" mais fracos do que nunca, é óbvio que quem paga vai esclarecer quem manda. Isto é: finalmente, a Alemanha vai compreender que não lhe interessa deixar cair os mais fracos e vai, com os outros contribuintes líquidos, aceitar pagar o preço de não sermos comidos pelos "mercados" - mas vai reforçar a sua capacidade para determinar o sentido da governação económica. Manda quem paga, paga quem manda. Vamos, para fazer isso, ficar mais parecidos com um Estado federal. Os federalistas (entre os quais me incluo) vão ter (em certa medida) o que andam a pedir há muitos anos - mas vão pagar a conta política mais depressa do que se poderia imaginar, porque será evidente que, partindo de onde partimos, uma Europa mais coesa será uma Europa mais centralizada. Assim, a partilha de soberania será mais desequilibrada do que poderia ter sido se tudo isto tivesse sido feito antes de estarmos com a corda na garganta.
E estamos fartos de saber que as cordas na garganta são argumentos tramados.

pequeno dicionário ilustrado para um presidente que nos manda calar e estudar


Iluminismo.



11.7.11

uma crise ao seu almoço


A "reunião de crise entre os responsáveis da zona euro", convocada por Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, com uma certa pompa e circunstância - até parecia que estava a apontar o dedo a Barroso pela incapacidade deste para tomar qualquer iniciativa relevante - afinal era um almoço, que o convocante diz que se faz muitas vezes. O almoço terminou sem conclusões oficiais e o fim das sobremesas à boca dos nossos queridos líderes foi anunciado no Twitter. Que finura.

eu agencio, tu agencias, ele agencia

16:43

A comissária europeia para a Justiça, Viviane Reding, propôs hoje o desmantelamento das três principais agências de rating norte-americanas, a Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch, em declarações ao jornal alemão Die Welt
.

Não percebo por qual razão os comissários europeus dizem coisas na imprensa que não se nota nada dizerem nas reuniões do colégio de comissários, onde as decisões para tomar iniciativas deviam ser tomadas. Ou será que eles até dizem, mas o inefável Barroso faz-se mouco? É que começa a ser pornográfico tão evidente "muita parra e pouca uva" nesta conversa.

Ao mesmo tempo, acho bizarro que se queira dar a ideia de todos os problemas serem culpa dos três gigantes americanos da notação. As agências de rating fazem aquilo que lhes pagam para fazer: qualificar a saúde financeira de instituições as mais variadas. É claro que, se eu quero fazer certos negócios com uma entidade que está do outro lado do mundo, tenho a opção de ir lá ver e estudar a respectiva saúde; mas isso é caro e difícil, pelo que, usualmente, se opta por exigir que uma agência destas dê a sua opinião. Num mundo onde se fazem tantos negócios a grande distância, estarão todos dispostos a renunciar a este serviço? Duvido.
Também acho uma certa graça à enorme esperança depositada numa agência europeia. Que resultados terá a sua acção? Em certos casos, nenhum: se a agência europeia disser, acerca de uma empresa ou país, coisas muito diferentes do que dizem as três grandes americanas, "o mercado" vai suspeitar e vai jogar pelo seguro. É como ter sistemas de alarme em casa: mesmo que os alarmes sejam ineficazes quando desafiados, os ladrões, podendo escolher entre uma casa com e outra sem alarme, jogam pelo seguro e atacam a casa sem alarme. Quando a agência europeia der boa nota a países ou empresas a que as três americanas dão má nota, a maior parte dos agentes preferirá jogar pelo seguro e acreditar que são melhores os que reúnem boa nota de todos. Por essa razão, só os que estejam predispostos a acreditar preferencialmente nos europeus é que darão crédito a essa agência. Só que, nesse caso, não se percebe porque não pode o BCE tomar essa responsabilidade a seu cargo. É que é um tanto bizarro - voltando à comissária europeia acima citada - falar de criar agências independentes na Europa e na Ásia. As agências consideradas americanas (uma das grandes até tem maioritariamente capital de um cidadão francês, parece) só não são independentes por terem sede nos EUA? Se mudassem a sede para a Europa passavam a ser independentes? Estranho. Como se "cria uma agência independente"? Independente de quê e de quem?

Tão mau como a Europa não fazer nada para se defender do ataque político que tem vindo a sofrer - é a Europa deixar-se envolver em falsos debates de ilusórias soluções. Nada compensa a falta de governo económico da Europa e a falta de coesão da zona euro - se continuarmos a não levar a sério que estamos todos no mesmo barco; se não se compreender que não vale de nada tentarem castigar os aflitos, porque esse castigo irá recair, cedo ou tarde, sobre todos.