21.8.09

Ousar governar

11:21

No tempo da União Soviética, uma anedota resumia o impasse social visto pelos trabalhadores: “Eles fingem que nos pagam, nós fingimos que trabalhamos”. Cá, a receita nacional para um equilíbrio perdedor é a narrativa dos "direitos adquiridos" em visão estática. Como se o melhor das nossas vidas tivesse de ser o passado.
Para enfrentar esse derrotismo temos duas vias. A primeira é neo-teológica, substituindo a providência divina pela mão invisível, pelo proletariado ou pela metafísica do agente racional. A segunda reconhece a contingência: o progresso não está escrito nas estrelas; são os humanos, em sociedades concretas, que fazem a sua história. Só esta via, não determinista, reconhece autonomia e responsabiliza os agentes.
No mundo do trabalho, essencial à realização da maioria dos portugueses, isto pede o reforço do diálogo social. Dois cinismos ameaçam esta opção. Um aponta para casos de evidente manipulação de lutas laborais para depreciar a representação dos trabalhadores. Outro pretende que a existência de empregadores autoritários e fracassos negociais são obstáculo universal à negociação.
O problema é que o cinismo custa caro. A abordagem da direita teve a sua ilustração no descalabro da contratação colectiva em 2004, com uma quebra (face a 2003) de 53% no número de convenções e de 60% nos trabalhadores abrangidos: os valores mais baixos em vinte anos. Sem quaisquer ganhos para a competitividade. Já o governo PS visou renovar as relações de trabalho e abrir-lhes novas perspectivas: impedir a caducidade acelerada dos contratos colectivos; melhorar os mecanismos de arbitragem; submeter os aspectos críticos da adaptabilidade à negociação colectiva e não individual. Os resultados positivos começam a sentir-se: apesar da crise, os primeiros meses de 2009 estão entre os melhores períodos homólogos deste século, (convenções publicadas e trabalhadores abrangidos), podendo ser activados processos antes bloqueados.
É saudável que o programa de governo do PS, propondo um pacto para o emprego, aposte no aprofundamento desta via. Porque há que partilhar o esforço e os resultados dos sucessos para potenciar equilíbrios dinâmicos progressivos.
Os lobos podem atacar os cordeiros e isso constituir um facto social básico para ambas as espécies. Mas nem os lobos nem os cordeiros podem reconfigurar a sua vida social. Nós podemos, se soubermos. Se soubermos que "ousar governar" não é um desafio para alguns, mas uma responsabilidade para todos a muitos níveis. E quem não souber reconhecer as diferenças acabará por favorecer os profetas das oportunidades perdidas.

[Publicado hoje no Diário Económico (p. 2), na coluna dos autores do SIMplex.]

sentido de Estado


Manuela Ferreira Leite, ontem à RTP1: "Eu não quero saber se há escutas ou não, eu não quero saber se há retaliações ou não, o que é grave é que as pessoas acham que há."

MFL diz tudo e o seu contrário, já se sabia. Mas esta talvez seja nova: esta direita torta já nem sentido de Estado tem. Não lhe interessa se o PR é escutado ou não? Qualquer dia já nem lhe interessa saber se sim ou não fazem waterboarding no Palácio de Belém a assessores desbocados.

é melhor pescar sem cana?



Há um computador por cada 5,6 alunos nas escolas
.

E há os que dizem: ter um computador não chega para aprender. Pois não: ter um avião também não chega para voar. Mas ajuda.
É que a história do peixe e da cana de pescar... precisa da cana, não é?

Claro: os que desvalorizam o interesse da democratização dos computadores normalmente escrevem contra isso em computadores. Que tiveram meios para comprar. Será que querem evitar concorrência futura?

Domitílias há muitas (mesmo com outros nomes)


Hoje, na primeira página do Diário Económico:
«Domitília dos Santos, gestora de fortunas em Nova Iorque, nasceu pobre, no Algarve. Trabalhou, estudou e quando quis voltar a Portugal, a Bolsa recusou-a por "falta de habilitações".»
O jornal traça-lhe assim o perfil: «Hoje trabalha com milhões e dedica-se ao voluntariado. É gestora de fortunas, está entre as 100 mulheres mais poderoas da alta finança.»

Em discurso directo:
«Diário Económico - A Bolsa de Lisboa é uma brincadeira de crianças?»
«Domitília dos Santos - Só sei que fui recusada por falta de habilitações. Apesar de toda a experiência que tenho, não posso trabalhar lá porque me falta um curso de cálculo.»

Já perceberam qual é o espírito da criticazinha "doutoral" ao programa Novas Oportunidades?

20.8.09

política de verdade

que tipo de mentiroso é Pacheco Pereira?


Pacheco Pereira escreve isto na Sábado em linha (aqui):

«Soube-se esta semana que havia gente paga pelo PS em blogues “espontâneos“, [aqui tem um link para o SIMplex] e que foram ingénuos ao ponto de admitirem que o faziam profissionalmente, “até porque não iam votar PS…”. A questão é que o autor da frase aparece como “autor” na lista dos membros do blogue, donde que legitimamente se pensava que isso se devia à sua militância. Eu não sei se o outro blogue do lado de lá do espelho também teve a colaboração de um “art-director” profissional, o que sei é que não está certamente disfarçado de seu autor. E sei-o porque entre os que o assinam nenhum dos nomes é pseudónimo.»

JPP é mentiroso sabendo que o é, por pura má formação ou por estilo político, ou mente apenas por ignorância e falta de tempo para se informar?

Outra pergunta ainda seria: Pacheco Pereira aprendeu a técnica da lama no seu actual partido ou nos tempos de "ML"?

o reizinho e as férias grandes demais para a sua imaginação



Bandeiras monárquicas em Cascais servem para mostrar alternativas políticas, explicam autores.

«Dois elementos do grupo que colocou bandeiras monárquicas na zona da Cidadela de Cascais hoje de madrugada explicaram que a acção se destinou a alertar os cidadãos para a necessidade de "olhar por vários caminhos" a nível político.»

Ponto 1. Estes senhores sabem o que lhes aconteceria se, durante a Monarquia, fossem fazer o mesmo com bandeiras republicanas? (É só para saber se têm alguma ideia da diferença que faz o país em que vivem hoje.)

Ponto 2. O que estes senhores têm para propor como "caminhos a nível político" é uma bandeira? (É só para saber se acham que esse é o debate de que o país necessita hoje.)

Costumo dizer a um amigo meu (monárquico): se eu vivesse em Espanha teria mais em que pensar do que em militância republicana. Por achar que é preciso saber quais são os problemas de uma comunidade em cada momento e agir nesse sentido - sem divertimentos nem distracções. Isso resume o que eu penso destas "acções". (Que, bem vistas as coisas, são apenas propaganda a certos media semi-informais. Mas se ao menos assumissem isso...)

o PS é mesmo igual à direita?

15:28

Há dois partidos, que se reclamam do espaço da esquerda, a procurar afanosamente mostrar que o PS é igual à direita. Não é mera treta eleitoral. É, isso sim, pura irresponsabilidade. Basta ver os mais recentes cartazes do CDS/PP, que mostram onde esse partido fará exigências para ir para o governo com o PSD, para avaliar. Brincar com o fogo é perigoso. Se o PCP e o BE pensassem mais no país do que na glória de mais uns votos, ou pelo menos não desligassem uma coisa da outra, não arriscariam entregar o país a esta gente.



N-O-J-E-N-T-O



O "Avante!" é o órgão oficial do Partido Comunista Português. Lemos lá hoje, em linha, pela pena de Leandro Martins, chefe de redacção do "órgão": «Já nem falamos do antigo arguido no processo da Casa Pia, Paulo Pedroso que, recebido na Assembleia com palmas dos seus correligionários, após ter ganho a sorte grande no segundo recurso para a Relação, vem agora, qual galinho da Índia, dar conselhos ao seu partido.» (aqui)

É este o "ser de esquerda" de que fala o PCP? Não vou dar-me sequer ao trabalho de mostrar em que medida isto decorre de uma mentalidade fascista. Tentar mostrar que para um certo PCP profundo o Estado de direito é uma abóbora, seria chover no molhado. Na circunstância basta dizer que isto é nojento. N-O-J-E-N-T-O.

Depois ainda há quem se escandalize quando dizemos que certos partidos tão de esquerda enveredaram pelo mais abjecto populismo.

(Paulo Pedroso responde com nível, aqui.)

19.8.09

política interior



Notícia do Sol: aqui.




ainda o espírito Pulo do Lobo




«PGR diz que não recebeu queixas da Presidência sobre alegadas vigilâncias», titula o Diário Económico de hoje.

Bruno Proença, Director-adjunto do mesmo DE, escreve em coluna de opinião:
«A situação [económica]é suficientemente séria para exigir bom senso, cuidados redobrados e sentido de Estado aos principais actores políticos. Por isso, a notícia sobre as suspeitas de que os assessores do Presidente da República estão a ser vigiados é difícil de compreender. É uma notícia que não tem meio-termo. Se é verdade, é um caso gravíssimo. Está-se perante um problema de Estado que tem de ser comunicado às autoridades judiciais. E a Procuradoria-Geral da República informa que não recebeu qualquer denúncia de Belém. Se é mentira deve ser prontamente desmentido. Por isto, o silêncio da Presidência da República é ensurdecedor.»

E temos agora mais qualquer coisa, no Público: «Procurador afasta hipótese de investigar suspeitas de escutas a assessores da Presidência». Explicação: «Em declarações ao PÚBLICO, Pinto Monteiro disse entender que “neste momento, não há lugar a qualquer tipo de averiguação, visto que não existe nenhum facto concreto”.»

Cavaco não tem emenda. Continua a imitar-se a si mesmo num momento específico: quando veio, com hipocrisia ao quadrado, explicar a hipocrisia com que falara quando disse que não sabia de nada do assunto X por que tinha estado no Pulo do Lobo.

Cavaco tem assessores a falar mal, em público, de políticas sectoriais de que foram ministros. Tem assessores a ir para os tribunais contra ministros deste governo. Não pareceu muito espantado quando o Semanário publicou, já a 7 de Agosto, que o programa eleitoral do PSD estava a ser feito com assessores de Belém. E o PSD também parece ter gostado da notícia, já que o repetiu em site da sua responsabilidade. Mesmo assim Cavaco quer que o vejamos com isenção e quer que acreditemos na sua novela de espionagem.
Teremos de perguntar como André Macedo, hoje no jornal i: «Cavaco quer ser árbitro ou jogador, presidente ou primeiro-ministro?».


18.8.09

Fernando Manuel Ilídio

16.8.09

democracia: quem a percebe e quem não



Vasco Pulido Valente, na sua habitual dose de ódio cego, no jornal habitual do ódio cego ao PS, escreve: «E quando Sócrates nos resolve impingir a sua apologia sob forma de um artigo de jornal, a dúvida [saber se o PS enlouqueceu] aumenta.»

O mesmo Público noticia: «O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, continuou a ofensiva na sua “guerra” pela reforma do sistema de saúde norte-americano, com um texto de opinião publicado domingo no "The New York Times".»

Se eu quisesse ser tão ridículo como VPV diria que Obama copia Sócrates de perto. Em vez disso digo apenas que é preciso estar muito perturbado para não compreender o interesse de que os líderes políticos expressem a sua opinião na comunicação social. Nos EUA ou cá.


há quem não aprenda nada com a história?

a candura da senhora Manuela