14.3.09

revisão da matéria dada (primeira lição da primeira classe)


Nada de novo. Só materiais que convém ter à mão na hora de fazer os trabalhos de casa. Tópico: a crise, esse monstro.



12.3.09

uma experiência de pensamento (variante)


Aventámos anteriormente, aqui, a possibilidade de uma experiência de pensamento consistente em imaginar o que aconteceria se, durante quinze dias, não consultássemos o correio electrónico. (Acrescentámos aqui alguns ingredientes.) Essa experiência, na forma considerada, supunha um carácter temporário: depois desses quinze dias, tudo voltaria ao normal. Lidemos agora com uma variante mais fantástica: de hoje em diante, apenas consultarei o meu correio electrónico de quinze em quinze dias. De hoje em diante. E faço saber dessa minha intenção. (Não interessa a quem faço saber essa intenção: só estarão nesta versão da experiência aqueles que tiverem sido notificados.)
O que podemos imaginar que aconteceria neste caso?
Passaria a receber mensagens muito extensas, antecipando para meu putativo proveito todas as notícias deste mundo e do outro que deveriam normalmente ser-me comunicadas a conta-gotas nos quinze dias seguintes, ou se calhar num prazo alargado até ao mês por precaução contra as dificuldades das previsões a largo prazo?
Passariam a telefonar-me mais, como medida de contenção dos efeitos daquela decisão?
Colocariam bilhetinhos debaixo da porta do meu gabinete com versões impressas de mensagens electrónicas entretanto enviadas mas (supostamente) não recebidas?
Enviariam cartas pelo correio interno para o meu cacifo que eu só verifico casualmente?
Convidar-me-iam mais vezes para tomar café (ou para almoços simpáticos mas rápidos), podendo aí dizer algumas das coisas que não entravam agora no caminho electrónico?
E para não dirigir interrogações apenas aos outros, mas questionar também a mecânica interna do meu próprio agir e intencionar: quanto tempo duraria este comportamento, esta determinação? Quanto tempo poderia eu razoavelmente fazer durar esta experiência?
Até ao fim da minha vida?
Até deixar de haver correio electrónico?
Até à reforma (prazo, quem sabe, mais alargado do que o anterior)?
Até ao próximo terramoto em Las Palmas, altura em que quebro a minha regra para saber se o escritor português que se preparava para regressar de avião à pátria tinha ou não sido afectado e estava moribundo, morto ou a escrever?
Até ao próximo terramoto em Lisboa, quando a destruição quase completa das infra-estruturas retira objecto à minha determinação concernente ao correio electrónico?
Ou até ao dia de uma grande solidão, quando se revela imensamente refrescante poder oferecer um ramo de rosas a um quase desconhecido na rua por pura ternura pela humanidade, poder comunicar com toda a gente, especialmente com os que dizem coisas que importa ouvir, a ver se os entendemos, sem regras inventadas, impostas, ou herdadas?

11.3.09

notícia do prémio de ensaio filosófico


A edição 2008 do Prémio de Ensaio Filosófico, promovido pela Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF), com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e em colaboração com a Revista Portuguesa de Filosofia, foi dedicado à Filosofia da Mente e colocou a concurso a seguinte questão: Tem a intencionalidade de poder ser reduzida a alguma coisa?
O júri desta edição do Prémio teve a seguinte composição: Ricardo Santos (Presidente da SPF, Universidade de Évora), João J. Vila-Chã (Editor da Revista Portuguesa de Filosofia, Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa), Sofia Miguens (Universidade do Porto), António Zilhão (Universidade de Lisboa) e Pedro M. S. Alves (Universidade de Lisboa).
O prémio teria uma componente monetária e incluiria a publicação do ensaio na revista colaboradora.
A SPF acaba de divulgar os resultados. O júri decidiu por maioria não atribuir o prémio e decidiu atribuir uma Menção Honrosa ao ensaio com o título Intencionalidade: Mecanismo e Interacção, da autoria de Porfírio Silva.
O ensaio encontra-se disponível no topo da coluna da direita deste blogue, aqui ao lado. Também pode ser lido e descarregado aqui (para o download terão de registar-se).

a quinta frase


Desafiado para correntes, as mais das vezes faço-me desentendido. Não é por nada, apenas por preguiça. Quando o desafio vem do Eduardo Graça, não me permito essas preguiças. Pelo menos sempre vou matando saudades à distância.
A primeira parte do desafio consiste em dar a quinta frase da página 161 do (de um) livro que se tenha à mão. Tenho vários, naturalmente (para alguma coisa hei-de ter várias mãos, não é assim?). Permito-me, por isso, dar várias respostas.
«There may be truth in each of these stories.» [autores vários, Socializing Metaphysics. The Nature of Social Reality]
«Substantial proportions of livestock are expended for food and sold for ready cash.» [autores vários, Foundations of Human Sociality, um livro que me acompanha há vários anos]
«A segunda forma de fornecer o bem colectivo é o surgimento no seio do grupo duma organização (chame-se-lhe associação), que faça a provisão directa do bem.» [Paulo Trigo Pereira, O Prisioneiro, o Amante e as Sereias. Instituições Económicas, Políticas e Democracia]
A segunda parte do desafio consiste em passar a palavra a outros cinco. Passo aos seguintes: Espelho dos Sentidos, ALI_SE, (a)Mar Pedra, Persona, A Matemática Anda Por Aí.



uma experiência de pensamento (continuação)


Vamos supor que a experiência de pensamento ontem aqui ventilada [durante quinze dias consecutivos não consultar o correio electrónico, a ver no que dá] é realizada, não apenas por mim, mas por um significativo número de pessoas, constituindo uma amostra representativa da população residente em Portugal. Poderíamos, então, considerar várias categorias e apurar que percentagem de experimentadores cairia em cada uma dessas categorias. Segue-se uma lista de categorias possíveis, de acordo com o que cada um entenderia seriam para si as consequências daquela aventura. Vejamos.
Teríamos os que já se viam despedidos em consequência de tamanho desplante.
Os que seriam meramente admoestados.
Os que teriam na próxima inspecção um mero Bom, com consequências desastrosas para a sua carreira profissional, em tudo o resto brilhante.
Os que se imaginam a trabalhar melhor do que nunca, afastados de desvios, tentações, disparates ou meras minudências gastadoras de tempo.
Os que fariam batota, lendo o seu correio electrónico atenta e pontualmente, mas não respondendo a mensagem nenhuma e, cuidadosamente, recusando todos os avisos de recepção.
Os que criariam várias contas-fantasma de correio electrónico e enviariam mensagens de si para si com segredos tamanhos inventados na vigésima quinta hora, para compensarem o vício da sensação de comunicação universal contínua.
Em vez dos habituais “não sabe/não responde”, e até dos menos habituais “não sabe mas responde na mesma”, teríamos aqueles que simplesmente não sabem o que é correio electrónico.
E ainda os que não sabem o que é uma experiência de pensamento.
Bem como os que não sabem sequer o que é o pensamento.
E, até, os que não sabem que o pensamento é muito mais ágil do que o correio electrónico.

10.3.09

Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais


O Ciclo de Conferências "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificias" (edição 2009), organizado pelo Instituto de Sistemas e Robótica (Instituto Superior Técnico), prossegue amanhã, quarta-feira, 11 de Março, a partir das 14:30, com o programa que seguidamente se relembra.

"O Papel da Selecção Natural de Darwin em Heterarquias Biológicas e Sociais"
Por Luís M. Rocha, School of Informatics and Cognitive Science Program, Indiana University; Director do FLAD Computational Biology Collaboratorium, Instituto Gulbenkian de Ciência


"Decision-theoretic and game-theoretic approaches to decision making in collectives"
Por Matthijs Spaan, Instituto de Sistemas e Robótica (Instituto Superior Técnico)


"Emoções, uma ponte entre a natureza e a sociedade?"
Por Rodrigo Ventura, Instituto de Sistemas e Robótica,Instituto Superior Técnico


Mais informações: no sítio das conferências

Indicações de localização dentro do campus da Alameda do I.S.Técnico: clicando aqui

Entendam isto como um convite!

uma experiência de pensamento


Vamos supor que durante quinze dias consecutivos não consulto o meu correio electrónico. Que consequências posso esperar? (Que consequências penso que posso esperar: é uma experiência de pensamento, eu não vou mesmo fazer isto.)

Vejamos tópicos para uma contabilidade.

Quantos trabalhos se interrompem. Quantos desses irremediavelmente.
Quantos avisos dos serviços administrativos, do fisco, do banco, do círculo de leitores, apodrecem com a carência de uma leitura distraidamente atenta. E em quantas dessas falhas de leitura quem vai pagar as favas sou eu.
Quantas correcções deixam de entrar nos meus textos.
Quantas chamadas para apresentações em conferências prestigiosas ficam relegadas para uma consideração lamentavelmente fora de data.
A quantas reuniões falto sem me dar conta.
Quantas perguntas ficam sem resposta.
Quantos anúncios de oportunidades espantosas falha a minha atenção.
Em quantos almoços e jantares deixo a cadeira vazia.
Que quantidade de coisas novas e incríveis, algumas delas descobertas há mais de duzentos anos, deixo de aprender em palestras que me escapam.

E ainda:
Quantas respostas ficam sem pergunta.
Quantos insultos de leitores deste blogue falham, não apenas o alvo, mas o próprio destino.
Quantas palavras, avisadas, ficam retidas nos pensamentos dos seus autores.
Quantos ramos de rosas se transviam.

Alguns destes tópicos, entre muitos outros, haveriam de entrar na contabilidade dos resultados, consequências, efeitos, produtos, de uma experiência social consistente em, durante quinze dias consecutivos, não consultar o meu correio electrónico. Quer dizer: quinze dias é uma eternidade. Pelo menos no meu correio electrónico – o qual está, certamente, longe de constituir um tipo de experiência universal.



9.3.09

Wittgenstein ilustrado




Um docinho para filósofos. Wittgenstein ilustrado. Ver a coluna da direita, lá mais para o fundo.

Ou mesmo já aqui.



da ditadura à ditabranda: uma polémica sobre revisionismo no Brasil

15:32




O revisionismo, consistente em "reler" o passado segundo novos critérios para servir opiniões actuais, tem dado um debate interessante no Brasil já há algum tempo. Temos seguido a polémica no História em Projectos. Para começar, um sítio apropriado é este post. E depois é seguir as pistas.
O blogue de Maria Frô também tem acompanhado o assunto. Pode começar-se por aqui, por exemplo.
O caso da ditabranda no Brasil é interessante para estudar vários aspectos da questão do revisionismo histórico. Por isso aqui o destacamos.

8.3.09

saudades dos amigos


Zagreb, Dezembro de 2007. Foto de Porfírio Silva.

os clamorosos erros de português no magalhães

para que não digam que não me lembrei do dia da mulher, mas para que também não possam propriamente dizer que o comemorei, dou a palavra a uma rosa


Sofia Branco no Público, escreve, a propósito do Dia da Mulher, um texto que vem com o título Mais metódicas, implacáveis, rigorosas, ambiciosas e ágeis do que os homens? Que retórica, minhas senhoras. Se o título fosse propriamente um apontador de verdade, este título não seria de uma mulher. Digo eu.

Não querendo ofender ninguém, mas querendo dizer algo "próprio" neste dia, não encontrei nada melhor do que falar pelas palavras de outra pessoa. Neste caso, uma mulher. Encontrei uma pré-comemoração a este "dia" que acho que vai mais com as minhas perguntas do que aquele elenco acima. Vem no (a)Mar Pedra e já tem uns dias. Do gozo das nuvens cinzentas.
Não perder a antologia de postas para que aqui se aponta - é um imperativo.