1.6.07

ELIZA, o seu psicoterapeuta automático para este fim de semana


Um dos temas deste blogue (como se lê no cabeçalho) é filosofia da ciência (o que, para nós, também passa por alguma história). Designadamente, no que toca a uma família de abordagens científicas a que chamamos "ciências do artificial". Sim, computadores e essas coisas, especialmente quando querem pô-los a imitar ou a emparceirar com os humanos.

Nesse quadro, vamos de seguida (nos próximos dias) deixar algumas notas acerca de um dos episódios mais curiosos da história da Inteligência Artificial. É uma história da década de 1960 e envolve um psicoterapeuta automático, quer dizer, um computador programado de forma a "fazer de conta" que é um psicoterapeuta.

O ELIZA, o tal programa, deve "conversar" numa língua natural (neste caso, o inglês) com um humano, sendo que o humano deve comportar-se como se estivesse numa consulta expondo os seus problemas do foro psíquico. E deve obter, do ELIZA, o comportamento correspondente ao do psicoterapeuta.

Diremos mais sobre isto para a semana, mas para já deixamos duas versões do ELIZA que estão disponíveis na rede.




Para interagir com qualquer das versões deste psicoterapeuta automático:

- escreva a sua frase (com pontuação) no espaço respectivo e faça ENTER;

- tem de escrever em inglês;

- procure escrever frases completas, ou até mais do que uma frase completa de cada vez;

- tente adoptar o estilo (nomeadamente os temas) de quem está a falar com o seu psicoterapeuta.

Se quer obter algo interessante, não vale a pena tentar enganar a máquina: isso é fácil e só dará resultados pobres. Tente colaborar com a máquina. Não estamos a tentar convencê-lo de que ela funciona bem: apenas queremos proporcionar a experiência de interacção com um exemplar histórico da saga da Inteligência Artificial.
Um exercício interessante poderia ser tentar as mesmas "falas" nas duas versões e comparar os resultados.


E, quanto ao resto, para a semana falamos.


A causa longínqua (ou "epístola aos deterministas")


De Chirico, O Grande Metafisico (1916), Neue Nationalgalerie, Berlim


Dedico este excerto de uma obra de Jorge Luis Borges a todos aqueles que acreditam que o mundo é uma grande máquina, com peças muito bem encaixadas umas nas outras, em que, causa após causa, tudo o que nós fazemos (melhor, tudo o que nos acontece) é determinado pela longa sequência de tudo o que aconteceu antes, de tal modo que a nossa liberdade é pura ilusão (e assim deverá ser, também, a nossa responsabilidade).



A causa longínqua.


Em 1517, o padre Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos factos infinitos: os blues de Handy, o êxito alcançado em Paris pelo pintor doutor oriental D. Pedro Figari, a boa prosa bravia do também oriental D. Vicente Rossi, o tamanho mitológico de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra da Secessão, os três mil e trezentos milhões gastos em pensões militares, a estátua do imaginário Falucho, a admissão do verbo linchar na décima terceira edição do Dicionário da Academia, o impetuoso filme Aleluya, a forte carga de baioneta conduzida por Soller à frente dos seus Pardos y Morenos no Cerrito, a graça da menina Fulana, o mulato que assassinou Martín Fierro, a deplorável rumba El Manisero, o napoleonismo corajoso e encarcerado de Toussant Louverture, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cabras degoladas pela catana dos papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe.

Além disso: a culpável e magnífica existência do atroz redentor Lazarus Morell.


Jorge Luis Borges, História Universal da Infâmia (1935).
(Primeira secção de “O atroz redentor Lazarus Morell”. Tradução portuguesa de José Bento, in Jorge Luis Borges, Obras Completas, Volume I (1923-1949), Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, pp. 295-355)

31.5.07

Mulheres na Lua...

Morte, saudade e esquecimento

Chegaram ao fim. Morreram. Finaram-se. Quebraram-se, simplesmente. E deixaram-me momentaneamente perdido. Às cegas. Foi ontem. Já foram substituídos. A saudade que ainda ontem sentia por eles já morreu. Acontece muito.



José Eduardo Agualusa


José Eduardo Agualusa, um enorme escritor angolano que este Portugal bem conhece, terá o seu novo romance, "As Mulheres do Meu Pai", publicado entre nós pela Dom Quixote (onde sai a 20 de Junho). O blogue A Origem das Espécies está a pré-publicar desde ontem essa obra. É serviço público.É de ir lá começar a antecipar o gozo.



O Império Romano e a União Europeia (3/3)

12:53

Em que é que a queda do Império Romano do Ocidente pode contribuir para uma reflexão sobre a União Europeia? O que é que interessa que a queda do Império Romano do Ocidente tenha tido como consequência um abaixamento dos níveis de conforto e de sofisticação da vida de largos estratos da população?


A queda do império romano do ocidente não foi, como vimos ontem, apenas um abalo para as elites políticas, sociais e culturais. Representou um retrocesso no conforto material da esmagadora maioria da população. Já para não falar de que desapareceu assim o instrumento do maior período contínuo de paz (500 anos) vivido na região mediterrânica. Talvez seja útil reflectir nisto: o progresso e o bem-estar (material e espiritual) não estão nunca garantidos. Podem sofrer atrasos profundos e duradouros se não soubermos preservar e melhorar as formas sociais e políticas que são as suas condições de possibilidade.


O império romano durou muitos séculos e foi finalmente abalado e destruído. E demorou muitos séculos a recuperar o que se perdeu. A “nossa Europa” tem 50 anos e há nela ainda muito por fazer. E também ela não está garantida para todo o sempre, dependendo da sabedoria com que soubermos ajustá-la continuamente às novas necessidades. Estaremos conscientes disso quando alimentamos o cepticismo, ou mesmo a indiferença, face a essa realização comum de paz e de progresso? Estaremos cientes de que nenhuma realização das sociedades humanas pode sobreviver à indiferença dos seus principais beneficiários?


Quererá isto dizer que devemos aceitar a UE como o melhor dos mundos possíveis? Aceitar sem crítica as suas políticas (e os seus políticos)? Não. Quererá isto dizer que a UE é intrinsecamente boa? Que devemos prescindir de tentar torná-la mais útil aos seus povos e aos outros povos do mundo? Não. Isto quer apenas dizer que nada está historicamente garantido e que, se não assumirmos (individual e colectivamente) a nossa quota-parte de responsabilidade pelo futuro comum, as consequências podem ser desagradáveis.

30.5.07

Greve geral

12:52

Hoje é dia de greve geral. Apenas duas breves reflexões sobre isso.

(1) O direito à greve tem de ser protegido. As múltiplas formas usadas para o tentar limitar, escoradas na antipatia que muitos sentem pelos incómodos causados, são um retrocesso civilizacional. Um país desenvolvido precisa de contar com os seus trabalhadores e precisa, portanto, que eles possam expressar o seu descontentamento. Uma dinâmica positiva de desenvolvimento precisa dos trabalhadores e das suas organizações, fortes e intervenientes. Se queremos que os trabalhadores se mobilizem não podemos pensar nisso só quando se trata de pedir mais produtividade, temos de respeitar a sua expressão também quando ela é de protesto.

(2) Esta greve geral é apenas uma expressão negativa, de rejeição. É pena que se ouça pouco acerca do contributo positivo que os sindicatos estão dispostos a dar para o desenvolvimento do país. É tempo de os sindicatos serem menos "oposição" e mais "proposição". É tempo de os sindicatos serem mais claros acerca da necessidade de partilhar responsabilidades em matéria de competitividade da economia. Isso tem de vir a par de mais democracia nas empresas, de maior participação dos trabalhadores, de melhor compatibilização da vida pessoal e familiar com a vida profissional, de melhor qualidade da vida profissional. Mas isso não se alcança apenas pela via da contestação. É preciso distribuir melhor a riqueza, mas também é preciso criar mais riqueza. Os sindicatos e os trabalhadores ganhariam muito em que se compreendesse melhor como eles se esforçam nesse sentido.

O Império Romano e a União Europeia (2/3)

12:52


O que Bryan Ward-Perkins procura mostrar, em “A Queda de Roma e o Fim da Civilização”, é que a queda do império romano do ocidente representou um retrocesso na vida material da maioria da população. Vejamos alguns dos seus exemplos.


Os romanos produziam bens de uso corrente (não apenas de luxo), de qualidade muito elevada, em enormes quantidades, e depois difundiam-nos largamente, sendo por vezes transportados por muitas centenas de quilómetros para serem consumidos por todos os grupos sociais (não apenas por ricos). A existência de “indústrias” muito desenvolvidas, funcionando com trabalhadores razoavelmente especializados, produzindo em grandes quantidades e vendendo para zonas remotas do império, suportadas em sofisticadas redes de transporte e de comercialização, era possível graças à infra-estrutura de estradas, pontes, carroças, hospedarias, barcos, portos de rio e de mar – e à burocracia imperial, incluindo um exército numeroso, para enquadrar e proteger todo esse fervilhar. Exemplos concretos são como seguem.


A cerâmica, utilizada para o armazenamento, preparação, cozedura e consumo de alimentos, era de alta qualidade, tanto em termos práticos como em termos estéticos. O nível de sofisticação da cerâmica romana usada para preparar e servir alimentos só volta a ser observado alguns 800 anos depois, pelo século XIV. Também as artes da construção de edifícios, que os romanos tinham sofisticado quer para casas luxuosas quer para casas vulgares, em vastas regiões do antigo império perderam-se e deram lugar a povoados construídos quase inteiramente de madeira, onde antes se construía de pedra e tijolo (para já não falar das casas mais sofisticadas com aquecimento por baixo do chão e água canalizada). Já a fundição de chumbo, cobre e prata, que permitia a realização de muitos utensílios sofisticados, também entrou em queda com o desabar do império e só nos séculos XVI e XVII terá voltado a atingir os níveis da época romana.


Enquanto no império as moedas de ouro, prata e cobre eram perfeitamente acessíveis e largamente utilizadas nas trocas económicas, o que veio depois foi o desaparecimento quase total da utilização diária da moeda, a par com o desaparecimento de indústrias inteiras e de redes comerciais. Os produtos de luxo continuaram, em maior ou menor grau, a ser produzidos para os mais ricos, mas os produtos de uso mais geral e de qualidade é que escassearam ou desapareceram. Em certas zonas do antigo império, certos aspectos da economia e do bem-estar material regrediram para níveis da Idade do Bronze. Mesmo muitas economias regionais foram destroçadas pela instabilidade política e militar.


Os benefícios do império também se estenderam à agricultura. Um exemplo curioso: até o tamanho médio do gado aumentou consideravelmente no período romano, graças à disponibilidade de pastos de boa qualidade e de forragem abundante no Inverno. O tamanho do gado regrediu, depois da queda do império, para níveis pré-históricos.


E que é que isto tem a ver com a União Europeia?


(conclui amanhã)

29.5.07

O Império Romano e a União Europeia (1/3)

12:51

Muitos creditam à União Europeia (ex-CEE) 50 anos (1957-2007) de paz e prosperidade a benefício dos povos europeus. Contudo, mesmo entre os que foram intensamente financiados por outros mais prósperos (como os portugueses), parece haver uma moda de indiferença ou até desconfiança face a essa “casa comum”. Parece pairar a convicção de que o que temos está garantido e não nos pode ser tirado, mesmo que demos largas aos egoísmos nacionais e cuidemos pouco de participar na construção europeia. Será assim? Procuremos contribuir para uma resposta com um paralelo com o império romano e a sua queda.


Poderíamos sempre tentar uma resposta “cultural”. Por exemplo, lembrando que ferramentas culturais básicas se ressentiram: a capacidade de ler e escrever, muito difundida no império romano devido às necessidades burocráticas e económicas, não apenas entre as elites mas também nas “classes médias”, regrediu no período pós-romano até ao ponto de mesmo grandes reis ocidentais terem sido analfabetos. (O clero foi, em larga medida, uma excepção importante.) Mas nesse campo poderíamos apontar, após a queda do império romano, o florescimento de formas superiores de cultura, por exemplo aquelas que foram protegidas e praticadas nos círculos religiosos. Por exemplo nos mosteiros e nas catedrais. Mas não vamos por aí. Vamos às coisas “menores”, à vida material quotidiana.


No auge da sua extensão o Império Romano incluía quase toda a Europa ocidental, largas faixas em redor do Mediterrâneo, bem como regiões mais orientais, desde os Balcãs à Grécia, Egipto, Ásia Menor, chegando à Síria e fazendo a oriente fronteira com a Pérsia e com as regiões caucasianas. A queda do Império a Ocidente, em 476 d.C., deu lugar a um longo período de retrocesso sócio-económico, como escreve Bryan Ward-Perkins, em “A Queda de Roma e o Fim da Civilização”: “o domínio romano, e sobretudo a paz romana, trouxe níveis de conforto e sofisticação para o Ocidente que não tinham sido vistos anteriormente e que não seriam vistos de novo durante muitos séculos”. Veremos, amanhã, o que quer isso dizer mais em concreto.


(continua amanhã)


28.5.07

"Ainadamar", de Osvaldo Golijov, uma ópera que chega por mão amiga



Federico García Lorca escreveu que a maior tragédia da história de Espanha foi a expulsão dos judeus desse país.

Osvaldo Golijov é argentino, descendente de judeus europeus, e escreveu a ópera “Ainadamar” (“fonte das lágrimas “ em árabe) sobre Lorca e o seu assassinato pelos franquistas, um dos gestos mais fundos da guerra civil espanhola.

O meu Amigo JPS veio oferecer-me um CD com essa ópera, “literalmente saturada de música espanhola”, em particular o flamenco, mas com muitas outras influências. Liturgicamente ouvimo-la logo ali, na íntegra. JPS usou uma sua provocação habitual (habitual nele, claro) para, pensando ele o que pensa em termos políticos, me oferecer uma ode a Lorca. Diz ele que o seu lema é “governo de direita, cultura de esquerda”, porque, acrescenta, “a inversa é uma catástrofe”. JPS, já pensaste que muita esquerda, secretamente, até concorda contigo, por ser mais cómodo?

Obrigado, JPS. Volta sempre.



Para ouvir legalmente alguns excertos:
http://www.deutschegrammophon.com/special/video.htms?ID=golijov-ainadamar

Indígenas


"Indigènes" no seu título original, "Dias de Glória" na versão portuguesa, é um filme francês sobre a história relativamente recente da França. Como os colonizados franceses do norte de África foram chamados a combater por esse país, cujo solo continental nunca tinham pisado, contra os alemães invasores. Como foram depois esquecidos. Como, depois das independências, viram mesmo perdidas as suas pensões de ex-combatentes. Uma pequena contribuição para que se comprenda que o racismo europeu não é uma invenção de uns poucos, mas uma realidade histórica concreta. Um filme que alguns franceses consideraram anti-francês. Porque em todo o lado há os que julgam que a verdade só deve ser dita salvas as conveniências. Chegou a Portugal e deve ver-se, para nossa ilustração - até porque não é maniqueísta e deixa que apareçam algumas das contradições que operam em tal cenário.