11.5.07

O confuso Médio Oriente

09:49

10.5.07

A última proposta de Carmona Rodrigues


Fontes extraordinariamente informadas (note-se que não digo "bem informadas", mas apenas "informadas") dizem-nos (note-se que não escrevo "informam-nos", mas apenas "dizem-nos", o que também pode significar "mentem-nos") que Carmona Rodrigues deixou a última reunião da vereação da câmara de Lisboa sem cumprimentar ninguém, não por mera falta de educação, mas por estar muitíssimo revoltado com o facto de não ter sequer conseguido agendar aquela que, no seu íntimo, sempre esteve pensada como a sua última proposta em qualquer circunstância. Tratava-se, podemos escrever, de uma proposta para uma homegagem póstuma a si mesmo: uma estátua que os nossos criativos, a partir dos esboços do próprio Carmona, recriam no boneco que publicamos abaixo.

Segundo a sua ideia a estátua deveria intitular-se "Dinamismo Realizador".


(Budapeste, Março de 2006. Foto de Porfírio Silva)

9.5.07

Leviathan de trazer por casa

09:46

Parece ter-se generalizado o discurso de que o nosso país vive em gravíssima falta de liberdade. Em sufoco. Debaixo da pata controladora de uma só pessoa. Com a imprensa (quase) amordaçada.

Uma única qualificação encontro para esse discurso: ridículo. Esse discurso vem, as mais das vezes, dos que sentem os seus privilégios ameaçados. Daqueles que pensavam que todos podiam ser alvos de políticas públicas, excepto eles próprios.

Há neste país quem não tenha acesso à palavra. Há, sim senhor. Mas são os mesmos de sempre: os pobres, os velhos, os que trabalham até se esquecerem de que a liberdade existe, os pequeníssimos agricultores dos recantos esquecidos, as vítimas das redes de imigração clandestina e do tráfico de seres humanos. Por exemplo. Esses não têm acesso à palavra. Estão tão radicalmente desprovidos de palavra que nem pensam em falar.

Esses não podem escrever nos jornais todos os dias que não têm acesso à palavra. Mas não é nesses que pensam os que se queixam de falta de liberdade.

Cuidado com gritar pelo lobo...

8.5.07

Corrupção e cidadania

09:45

Que o governo pretenda chamar a atenção dos funcionários públicos para o facto de que a corrupção de servidores do estado existe, não pode ser tolerada, tem de ser combatida; que o governo tenha o projecto de "ensinar" os servidores do estado a reconhecer quando possa estar a acontecer corrupção daqueles que devem proteger (profissionalmente) o bem comum; que o governo assuma que esse flagelo tem de ser combatido pela denúncia da prevaricação - tem sido apontado por uma casta imensa de comentadores moralizantes como pidesco, bufaria, estímulo do espírito delatório, etc. etc. etc.

Confesso a minha estupefacção. Não me refiro à questão de sermos legalmente obrigados a denunciar um crime de que sejamos testemunhas. Não é uma questão legal o que aqui me traz. Refiro-me à ideia de civismo. Proteger o bem comum. Agir contra os que minam os fundamentos da vida comum. Contrariar os que roubam do bolo que é de todos. Impedir que interesses particulares ilegítimos assaltem a máquina humana que deve servir a comunidade. Obstar a que aqueles que são pagos para servir, em vez disso se sirvam a si mesmos por caminhos ínvios. Refiro-me à ideia de que o que é de todos deve ser protegido por todos. Para não ser "bufo" tenho de ser cúmplice dos que roubam e dos que atraiçoam a confiança que a comunidade neles deposita? Para não ser "pidesco" tenho de olhar para o lado quando alguém atraiçoa a sua missão de "servidor público"?

Estranha noção de comunidade é esta que subjaz a tais teorias: cada um que se safe, legal ou ilegalmente, desde que as autoridades (polícia, tribunais) não consigam incriminar-nos. Um povo que tem essa noção do funcionamento das suas insituições é realmente um povo pobre: pobre, porque lhe falta qualquer noção de comunidade civilizada, de bem comum, de dever partilhado, de responsabilidade, de coisa pública. Os teóricos do "fecha os olhos e deixa roubar quem rouba" são os teóricos da barbárie, da incivilidade, do salve-se quem puder. Os teóricos da selvajaria colectiva vestem as roupas da moralidade individual. Não é novo.

Mapa do mundo online

XKCD oferece este mapa das comunidades online.

Este pode ser visto clicando aqui e a partir daí podem encontrar-se outros.

7.5.07

Duas derrotas


1. Ségolène perdeu. Em França é quase sempre assim. Raras vezes a esquerda tem chegado ao topo do poder de estado. Os barões socialistas logo começaram a morder na senhora. Isso também é habitual em França: não há qualquer pudor em entrar nos barcos das vitórias quando elas existem, tal como ninguém se inibe de morder os derrotados como se o mundo estivesse todo nas suas mãos e eles perdessem necessariamente pela sua incapacidade intrínseca. Havia, talvez, um candidato melhor do que Ségolène: Strauss-Kahn. Mas, mesmo os homens que talvez sejam grandes, deviam perceber que a história passa por outras coisas maiores que as suas cabeças brilhantes. Neste caso, a vitória de uma mulher para presidente, pelo lado da esquerda, teria um significado próprio. Por uma razão simples: porque é uma entorse à democracia que isso nunca tenha acontecido. Mas "homens inteligentes" como certos dirigentes socialistas franceses são incapazes de perceber isso, são incapazes de compreender que a mudança não se faz só com "ideias", "projectos", "renovações social-democratas". Que a mudança tem de acontecer com "acontecimentos". E seria um acontecimento que uma mulher "quase normal", esposa e mãe, tivesse completado a sua carreia política com a presidência. Hilary Clinton talvez lá chegue, quem sabe.

2. Jardim venceu. Não tenho fígado para falar muito nisso. Mas uma coisa tem de se dizer: aquilo não é uma democracia e é uma vergonha que os órgãos próprios do Estado, a começar pelo Presidente da República, olhem para o lado e façam de conta que não vêem nada. Tal como é uma vergonha que o PS "de Lisboa" ainda venha saudar a vitória do ditador. Que asco. Se aquilo fosse o ambiente que nos tocasse a nós viver, aqui no continente, suportaríamos essas palmadinhas nas costas? Aqueles que criticam com tanta facilidade o distante presidente da Venezuela calam-se a isto. Isso prova que Jardim há muito tempo começou a exportar o terror das suas ilhas para o continente: exporta os silêncios obrigados, os medos, a auto-censura, a conivência com o inaceitável. Tudo começa sempre assim.

Que domingo!