09/05/14

revolucionários, radicais e assim.


Para decidirmos se gostamos ou não de revolucionários é preciso saber que não há só revolucionários de uma cor. Há revolucionários de esquerda, há revolucionários de direita. Até há revolucionários religiosos.

Acontece a algumas pessoas pensarem que gostam de revolucionários por só se darem conta da existência de uma cor de revolucionários. Por exemplo, há pessoas que admiram Che Guevara sabendo bem quem foi Che Guevara e o que fez. Mas também há pessoas que admiram Che Guevara porque sabem pouco de algumas coisas que ele fez. Na verdade, algumas pessoas, se pensassem que alguém lhes poderia fazer o que Che Guevara fez a algumas pessoas, deixariam logo de gostar de Che Guevara.

A maior parte das pessoas de esquerda que admiram os revolucionários de forma simples, desconhecem os perigos dos revolucionários de direita. Ou melhor, desconhecem que há radicais de direita que são tão revolucionários como os seus comparsas de esquerda. E vice-versa, para a direita.

Uma das coisas interessantes, por assim dizer, com aspas, no actual estado do país, é que temos um governo radical de um certo tipo de direita (que, tradicionalmente, seria abominado por certa outra direita, por exemplo, pela democracia cristã) e só agora é que algumas pessoas estão a descobrir que não há só radicais de esquerda - também há, afinal, radicais de direita! Radicais no pensamento e nos métodos. E, vejam lá, têm pouso e sede no governo.

Os revolucionários, ou radicais, têm sempre admiradores. Gente que é capaz de descrever o mais insensível dos "chefes" como uma cândida branca flor. Para conhecerem uma dessas afinidades electivas, leiam o texto que vos deixo em "link": Obrigatório ler.

4 comentários:

Jaime Santos disse...

É curioso que a origem da palavra radical vem de raiz, os radicais eram liberais que exigiam reformas de tipo disruptivo que deveriam ir à raiz dos problemas. Em grande medida, devemos-lhes muitas das nossas liberdades fundamentais... Por isso, acho um pouco abusivo o uso deste termo para classificar quem nos governa. E não acho de todo que sequer a palavra revolucionários se lhes deva aplicar. Estamos antes a falar de contra-revolucionários, porque visam, isso sim, o reestabelecimento de privilégios. As revoluções procuraram sempre o alargamento das liberdades, mesmo se para isso tivessem acabado em banhos de sangue (e a desqualificação dos fins pelos meios é naturalmente um problema fundamental). O Corey Robin argumenta mesmo que a característica que unifica o movimento conservador é precisamente o seu carácter contra-revolucionário, e que contrariamente às tretas habituais de o conservadorismo ser a ordem contra a ideologia, a moderação contra o radicalismo e a reforma contra a revolução, na verdade este movimento não tem pejo em utilizar os métodos do adversário e tem mesmo uma queda para o recurso à violência... Por isso, se me permite o preciosismo, acho que se está a fazer o jogo do adversário ao utilizar termos como radical ou revolucionário para classificar esta Direita. É que eles bem querem ser vistos como progressistas, reformistas, etc... Melhor seria falar de extremismo de Direita... Mas, linguagem à parte, entendo claro o seu ponto de vista. Relativamente à fascinação por Gaspar, creio que ela é mais um exemplo desse fascínio pelo extremismo que existe dos dois lados da barricada, aliado, claro, à orfandade intelectual em que as pessoas de Direita pensam que vivem (contrariamente a esse mito conveniente, uma grande parte da nossa cultura tresanda do Capitalismo, como não podia deixar de ser)...

Porfirio Silva disse...

Jaime,
Eu prefiro usar os conceitos de modo a que eles não dependam das nossas simpatias.
Dizer que "eles" são contra-revolucionários (em vez de revolucionários) por terem tal e tal objectivo, parece-me confundir a questão do método com a questão da substância. Eu uso "revolucionário" para falar de um método - e esse método é "ir por fora ou contra as instituições".
O seu uso, Jaime, reserva "revolucionário" para coisas em princípio boas, mesmo que degenerem. Não concordo e acho que esse uso nos pode impedir de perceber a lógica revolucionária de alguns a que nos opomos.
E, sim, eu oponho conservadorismo a revolução, mas acho que há conservadores de direita e conservadores de esquerda, tal como há revolucionários de esquerda e revolucionários de direita.
Julgo que esta categorização é mais útil para a análise do que aquela que o Jaime apresenta.
E acho que perceber como revolucionários de direita estes tipos que nos governam é útil: isso faz-nos perceber que eles estão dispostos a desmantelar todas as instituições para alcançar os seus objectivos. Perceber o método deles é mais importante do que deixá-los de fora de conceitos que achamos simpáticos.

Jaime Santos disse...

Porfírio, se se trata apenas de classificar como 'revolucionário' alguém que é anti-institucionalista e como 'conservador' alguém apegado às instituições, então concordo consigo. Só que, por um lado, os ditos 'Conservadores' não são por vezes muito 'conservadores' como a história de violência da América Latina bem documenta, por exemplo. Por outro lado, nesse sentido, o PCP bem pode ser hoje considerado como o mais 'conservador' de todos os partidos portugueses (mesmo se em 75 era bem 'revolucionário'). Acho que estas palavras adquiriram uma conotação ligada à História dos Movimentos que se reclamaram como 'Conservadores' e 'Revolucionários' e que o seu uso para classificar a metodologia da ação política não é adequado, porque fere essa Memória Histórica (e o esquecimento da História é apanágio das tiranias). E repare, a título de exemplo final, que a Direita Portuguesa está sempre a declarar-se como Progressista (e volta e meia, fala da desadequação da divisão Esquerda/Direita), muito simplesmente porque defende o progresso material... Mas, se por um lado, tal posição até pode ser considerada em alguns casos como Anti-Progressista (o progresso material pode atentar contra o Meio Ambiente, por exemplo), por outro lado, a Direita não se preocupa com a distribuição dos frutos desse mesmo progresso...

Porfirio Silva disse...

Jaime, o que eu estava a fazer (o que costumo fazer quando falo de "revolucionários) era tentar separar a questão do método político da questão da substância/projecto. A sua forma de ver pode fazer todo o sentido, mas não casa com esta minha abordagem. Para a minha pessoal organização das ideias, esta minha maneira de tomar a noção de "revolucionário" como uma questão de método dá-me jeito...