31/05/14

Bravo, Tsipras.



Alexis Tsipras, líder do Syriza na Grécia e candidato da Esquerda Europeia a presidente da Comissão Europeia, anunciou o seu apoio a Jean Claude Juncker para ter a prioridade a tentar formar uma maioria no Parlamento Europeu que suporte a sua eleição para chefiar o executivo.
Vejo que muitos camaradas e amigos meus estão espantados - e até chocados - com esta declaração de Tsipras. Parece que julgam que ele traiu as suas ideias por "apoiar" o candidato da direita. Eu estou espantado - e até chocado - é com essa reacção dos meus camaradas e amigos.
Explico-me.
No meu entender, não se pode ser de esquerda sem ser democrata. Juncker era o candidato a presidente da CE apoiado pelo partido mais votado. Todas as grandes formações políticas candidatas ao Parlamento Europeu apresentaram a figura que, a seu ver, deveria ser presidente daquele órgão - e todas defenderam que o candidato do partido mais votado devia ser presidente, desde que conseguisse formar maioria. Não vejo outro raciocínio democrático que não seja: temos que deixar os vencedores tentarem cumprir esse compromisso eleitoral. Juncker deve poder tentar formar uma maioria que o leve à presidência. Se isso não acontecesse assim, os partidos que entraram naquele compromisso estariam a desprezar o jogo eleitoral em que entraram livremente.
Eu não apoiei o partido de Juncker nas Europeias. Mas penso que ele deve ser presidente da Comissão se conseguir formar maioria para tal. E mais: espero que consiga formar essa maioria. Se acontecer de outro modo, ganharão os cínicos que viam naquele compromisso uma farsa. E aos eleitores poderá dizer-se: era só conversa, os lugares decisivos não dependem nada do vosso voto, a Europa nunca será democrática.
Tsipras explica bem: não apoia as políticas de Juncker, mas foi este que ganhou. Concordo inteiramente. E mais: o grego dá uma lição de democracia a outros que andam por aí a conspirar para que aquele compromisso eleitoral não sirva para nada.

A isto eu chamo ser de esquerda sem deixar de ser democrata. E não tenho de apoiar as suas propostas para aplaudir vivamente esta tomada de posição.

(Alexis Tsipras has announced he will support Jean Claude Juncker to seek majority for the EC Presidency.)

18 comentários:

Anónimo disse...

Ninguém na europa votou a pensar em Juncker ou Shultz portanto querer sugerir que os povos decidiram por Jucker (como poderiam ter decidido por Juncker) é uma mistificação.

O Syriza infelizmente alinhou nesta treta.

João.

Porfirio Silva disse...

João,
Os partidos assumiram um compromisso. Estão a tentar cumprir com ele. Vir agora este ou aquele dizer em que pensaram os eleitores quando votaram, ainda por cima para defender que não se cumpram os compromissos eleitorais, é dois em um: arrogância e cumplicidade com quem quer que se continue a decidir no segredo do Conselho Europeu.

Jaime Santos disse...

De facto, já ouvi gente responsável e supostamente europeísta como Timothy Garton Ash dizer que Juncker não entusiasma ninguém e que por isso é preciso escolher alguém como Pascal Lamy ou Christine Lagarde para a Presidência da Comissão. Sucede que não foi isso que foi dito antes da eleição. Portanto, há que cumprir as regras e não mandar o Sr. Rompuy à cata do candidato/a mais hábil, atraente, etc. Tal como diz o Porfírio, Tsypras dá uma bofetada de luva branca e uma lição de democracia às vozes do Conselho que queriam ignorar o resultado das urnas... Espero, contudo, que o grupo da Esquerda Europeia se mantenha como voz crítica e oposição construtiva à grande coligação PPE/PSE, porque de outro modo deixa essa oposição à Extrema-Direita. Mas, em ocasiões como esta, essa postura construtiva e defensora da democracia formal deve definitivamente ter primazia sobre o legítimo conflito das ideias políticas, estão a ouvir, PCP e BE?

Anónimo disse...

Porfírio,

veja que não foi claro que se estava a disputar o lugar de presidente da comissão. A meu ver para que isso fosse realmente democrático teria de haver um voto específico para os candidatos. Gente que votou PS poderia preferir o Juncker ao Shultz e vice versa com a malta da AP.

Depois com esse método de separar as coisas, um método que respeita a autonomia não só de cada país e seus eleitores em relação à escolha Comissário como ainda permite que surjam candidatos europeus de outras forças.

Quem vota CDU provavelmente não quer nem o Juncker nem o Shultz de modo que não ter um candidato específico de sua área não me parece lá muito democrático.

Claro que sabemos que um membro do grupo comunista da UE não ganharia mas poderia fazer campanha e receber votos.

A meu ver o homem do Syriza precipita-se com estas declarações porque aceitam, na prática, um status quo muito longe de ser democrático.

João.

Anónimo disse...

Há muito quem, no Conselho Europeu (CE), pretenda que o candidato à presidência da Comissão Europeia a apresentar ao Parlamento Europeu (PE) não seja nenhum dos cincos candidatos ao cargo que se apresentaram nestas eleições. O Tsipras está fundamentalmente a alertar para a tentativa em curso de alterar a regra a meio do jogo. E essa regra é que deve ser o candidato do partido mais votado o primeiro a tentar obter maioria no CE e no PE. Se não o conseguir, deve ser o candidato do 2.º partido mais votado e assim sucessivamente. O facto de o Tsipras se ter visto obrigado a vir a público afirmar o óbvio só mostra o "cozinhado" que a CE anda a preparar. Se mesmo depois dos resultados destas eleições mostram não ter aprendido nada, o que é que será preciso para que isso aconteça?

Porfirio Silva disse...

Não podemos colocar-nos na posição de achar democráticos só os métodos que transformam a falta de votos em poder.
O método que os "partidos europeus" usaram desta vez aumenta a relação entre o voto popular e o resultado institucional.
Claro que nunca reconhecerá isso quem acha anti-democrático que os resultados tenham sido estes e não outros. Mas isso é outro assunto.

Anónimo disse...

"Claro que nunca reconhecerá isso quem acha anti-democrático que os resultados tenham sido estes e não outros. Mas isso é outro assunto."


Ok. Você prefere desconversar. O que é anti-democrático é não haver uma plataforma para representantes de todos os grupos europeus apresentarem as suas propostas de modo a que sejam directamente sufragadas por cada cidadão e não por países.

Mas, se gosta de desconversar, eu também lhe posso dizer que como está, para um socialista co o o sr, ou seja, entreguista da soberania nacional, este método até que nem está mau porque finge que os povos escolherem mesmo o Juncker.

João.

Porfirio Silva disse...

João,

Quanto ao seu ponto:

"O que é anti-democrático é não haver uma plataforma para representantes de todos os grupos europeus apresentarem as suas propostas de modo a que sejam directamente sufragadas por cada cidadão e não por países."

a minha resposta é: isso é como dizer que as nossas legislativas são anti-democráticas por as votações serem por círculos (mais ou menos distritais) e não por um círculo nacional. Não estou nada a desconversar: estou a dizer que rejeito o estratagema de julgar com base em pequenas questões formais o carácter democrático ou não de democrático das eleições. Acho que isso são "desculpas de mau pagador" - ainda por cima quando servem para atacar um gesto de respeito pelo voto das pessoas, como foi este gesto de Tsipras.

Quanto a eu ser "entreguista da soberania nacional", digo-lhe simples e cruamente: quem acha que a soberania se protege com isolacionismo faz uma grande vénia ao pensamento de Salazar. Precisamente naquilo que ele tinha de mais irracional e de mais incapaz de compreender o mundo. Fingir soberania não é ter soberania. Ninguém tem soberania sozinho no mundo actual.

Já agora, se os povos não escolheram Juncker, como escreve, quem escolheram os povos, então? É melhor deixar a senhora Merkel e o senhor Cameron escolherem o presidente da Comissão, é?


Jaime Santos disse...

Eu acho que a Europa se tem vindo a tornar progressivamente uma Europa Alemã e que deveríamos fazer um balanço dos últimos vinte anos de integração. E note-se que quando digo Alemã, falo de uma Europa Alemã de Direito, onde é progressivamente imposta uma ordem Ordo-Liberal (ninguém com juízo argumenta que os Alemães têm tentações hegemónicas). Acho que os Socialistas portugueses, que têm responsabilidades neste processo, deveriam reflectir sobre a perda de escolhas ao nível da política económica, um dos aspectos essenciais da soberania. Se é possível reverter este processo num quadro de permanência no Euro e de reforma das instituições comunitárias, é algo em relação ao qual eu tenho cada vez mais dúvidas. Mas nunca chamaria entreguista de soberania a alguém, só porque apostou de boa fé num processo que correu mal... E sobretudo, acho irónico que quem defende a via soberanista seja uma Esquerda descendente de uma Movimento Operário Internacionalista, que está orfã desde o colapso da URSS. Tal como o Partido Comunista Chinês, também o Português se virou para o Nacionalismo, depois da falência económica do Marxismo-Leninismo (a falência moral deve remontar a 1917, pelo menos).

Porfirio Silva disse...

Jaime,
Uma parte do que correu bem na Europa foi resultado da "boa vontade" de alguns Estadistas. Melhor: de uma compreensão política dos grandes movimentos da história, sendo que essa compreensão não estava suficientemente plasmada nos tratados. Quando faltou isso, o que estava escrito não era suficiente para manter o comboio nos carris.
Temos de repensar tudo, por causa disso: a política e os tratados.

Estou do lado dos que foram acreditanto, estou do lado dos que procuram perceber como se pode mudar o que falhou. Não estou do lado dos soberanistas, que só podiam ter falhado mais miseravelmente do que falharam os europeístas.

Jaime Santos disse...

Porfírio, não sei se já reparou que defende uma refundação da Europa, no momento em que as forças centrífugas são mais fortes do que nunca. Lamento dizer-lhe isto, mas não acredito que isso aconteça, acho a sua posição idealista, mas no mau sentido. Aliás, note-se que até algo tão simples como a nomeação de Juncker (e o respeito da vontade das urnas, algo em que os Britânicos sempre insistiram) já leva Cameron pelos vistos a colocar a saída do Reino Unido da UE em cima da mesa (faz isso por desespero, suponho). O PS (de Costa) deveria muito claramente começar a estudar três cenários: renegociação da dívida com permanência no Euro, abandono do mesmo por Portugal, e mesmo o colapso do Euro e eventualmente da UE a curto prazo (alguns anos). Não digo que isto seja desejável, digo apenas que o otimismo da vontade e da ação tem que ser acompamhado por um (profundo) pessimismo da razão. Sabemos da História que a Europa é capaz do melhor, mas só raramente, e é certamente capaz de muito pior do que isto... P.S. Já quanto ao seu comentário sobre o que teria sido uma via soberanista, lamento dizê-lo, mas é uma hipótese do domínio do contra-factual e a História não é uma Ciência Experimental. A responsabilidade pelo estado da Europa é nossa, dos Europeístas. Argumentar do modo que argumenta, é como quem argumenta que se Sócrates tivesse tido o PEC IV, ter-se-iam seguido o PEC V e VI e depois um resgaste. É um argumento que desresponsabiliza as escolhas que realmente foram feitas...

Porfirio Silva disse...

Jaime,

(1) Escreve "não sei se já reparou que defende uma refundação da Europa, no momento em que as forças centrífugas são mais fortes do que nunca." Mas, então, eu devia defender uma refundação da Europa quando, quando tudo estivesse a correr bem?

(2) Quanto a Cameron: desejo que a táctica dele tenha o resultado de o UK sair da UE. Podemos viver com todos menos com os adverários que funcionam na lógica do cavalo de Tróia. Isto não é retórica: trabalhei alguns anos no Conselho e sei como as coisas funcionam na prática.

(3) A sua frase sobre o meu "comentário sobre o que teria sido uma via soberanista" parece-me infeliz: toda a política é contra-factual no raciocínio, porque pensa o que pode acontecer se acontecerem certas coisas que não aconteceram. Se não for assim, a política é puro voluntarismo. Todo o argumento político tem de usar o raiocínio contra-factual - desde que não se pense que se podem fazer demonstrações conclusivas com base em contra-factuais. Mas eu nunca acredito na política como coisa onde caibam demonstrações.

Jaime Santos disse...

Porfírio, a minha pergunta é se acha sinceramente que nas circunstâncias presentes existe boa vontade para refundar a Europa? Que ela precisa de ser refundada eu não discuto, isto é, sou a favor, a questão é do realismo da proposta, mais nada. Já aqui abordei aliás uma questão ligada a esta, o que acontece se um futuro Governo PS levar a mais que provável nega de Merkel e Cia? Aplica a austeridade e segue o caminho do PASOK? Quanto a Cameron, talvez tenha razão e talvez não seja má ideia que aqueles que estão na Europa com reserva mental se limitem a sair. Acho no entanto que o Reino Unido e sobretudo a mentalidade anglo-saxónica fazem falta à Europa. Foram os Ingleses e os Americanos que chamaram a atenção para os possíveis problemas do Euro e tinham razão, goste-se ou não. Quanto à política ser contra-factual, com certeza, por vezes as decisões não se tomam pelos méritos das soluções, mas pelos deméritos das alternativas. Mas, esse raciocínio implica uma cadeia causal plausível (e logo curta). Não é o caso no exemplo do PEC IV (envolve uma grande quantidade de hipóteses em cadeia que é preciso fazer) e a cadeia causal torna-se ainda menos plausível para a questão da construção europeia. Na realidade, é a cadeia contra-factual que o Porfírio propõe que me parece um longo jogo de xadrez (se eu jogar assim, a realidade joga assado, logo eu jogo cozido e assim por diante até à enésima jogada). A política consiste em navegação de cabotagem, orientada por valores. Sejamos honestos, a Europa construiu-se porque acreditávamos que o resultado final, a União dos Povos Europeus, seria uma coisa boa. Há pois que responder pelo dito resultado e pelos métodos usados, sem subterfúgios...

Porfirio Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Porfirio Silva disse...

Jaime, regresso (para terminar, por mim), ao ponto inicial do meu post: eu acho inadmissível que os partidos europeus não tentem respeitar um compromisso que assumiram em campanha. Aplaudi Tsipras por defender isso mesmo, apesar das diferenças políticas óbvias. E não posso aplaudir teorias rebuscadas para justificar que os partidos europeus lancem fora, sem mais, as suas promessas. Não percebo tanta conversa sobre o respeito pelos cidadãos para depois arranjarmos grandes desculpas intelectuais para defender que não se ligue nenhuma a um compromisso eleitoral. Era isso - e isso mantenho. Quanto ao resto, sim, há muito para discutir e para melhorar.

Jaime Santos disse...

Olá Porfírio, tem razão, perdemo-nos um pouco da questão inicial, o seu apoio a Tsipras pela posição de defesa de Juncker que tomou. Aí, verá do meu primeiro Post que assino o que disse por baixo...

Anónimo disse...

"E sobretudo, acho irónico que quem defende a via soberanista seja uma Esquerda descendente de uma Movimento Operário Internacionalista, que está orfã desde o colapso da URSS. Tal como o Partido Comunista Chinês, também o Português se virou para o Nacionalismo, depois da falência económica do Marxismo-Leninismo (a falência moral deve remontar a 1917, pelo menos)."

- Você acha irónico, porque não tem comentário interessante nenhum a fazer, então diz que acha irónico.

É evidente que dada uma união europeia onde a dimensão inter-nacional está a conduzir a um predomínio cada vez maior do capital e das rendas sobre o trabalho cabe aos comunistas defenderem a preservação o mais possível dos mecanismos de decisão política para o povo português - porque também, e não duvide disto por um momento, os alemães, os ingleses, os franceses, o vão fazer por eles, repito, por eles, não o vão fazer por nós.

João.

Porfirio Silva disse...

João,

Acredito que o Jaime ficou esmagado por V/ achar que o argumento dele não era interessante... (embora eu, pelo meu lado, não tenha percebido muito bem o que isso quer dizer.)

Agora a sério: estas conversas a um certo momento esgotam-se, não podemos passar aqui o resto da vida agarrados a um post. Assim, não leve a mal se não lhe responder mais nesta sequência.