27/04/14

a canonização dos Papas.


A Igreja Católica canonizou hoje dois Papas, de perfis bem diferentes entre si. Como me interesso por todas as coisas que influenciam a vida pública, nacional e internacional, especialmente aquelas que configuram a ideologia corrente, interesso-me por este caso. O meu interesse neste caso resulta da forma como ele exibe com clareza algumas das contradições fundamentais do catolicismo no momento presente. Explico-me.

1. Acho normal que a Igreja Católica faça santos. Cada comunidade tem os seus heróis, os santos são os heróis desta comunidade, não alinho com aqueles que julgam que "fazer santos" seja um arcaísmo.

2. A ideologia dos heróis é, muitas vezes, uma ferramenta usada para as lutas de poder dentro das comunidades. Também assim é neste caso: João Paulo II é canonizado à pressa, uma pressa lançada pelo seu sucessor Bento XVI, que foi o principal teórico e principal polícia do pensamento durante o papado do homem que veio do Leste, e esta pressa tem o fito de prolongar o rasto das ideias do candidato à santidade. O mediatismo de João Paulo II tem continuidade na pressa da canonização, algo muito raro ou mesmo insólito. Esta pressa vai frontalmente contra a habitual gestão do tempo na Igreja Católica, onde se costuma pensar que o que realmente tem valor resiste ao tempo longo. Esta pressa, como cedência ao estilo corrente da comunicação, é, afinal, no seu carácter moderno, uma contradição com uma certa resistência à modernidade que era típica de João Paulo II (vai, assim, contra uma das coisas que até me eram simpáticas em João Paulo II, que era a ideia de que "ser moderno" não é necessariamente garantia de "ser bom"). Já João XXIII, o Papa que tentou trazer a Igreja para o mundo com o Concílio Vaticano II, andava por lá esquecido e só entra nesta canonização porque o Papa Francisco fez um pouco de batota para equilibrar as coisas (fez "batota" porque o dispensou da prova de um milagre, que faltava - o que é natural, porque o estilo de João XXIII não despertava seguidores do género de andarem por aí a "ver" milagres convenientes).

3. O panteão dos santos católicos revela distorções que deveriam fazer pensar no que vale o catolicismo no mundo. Como diz Maria João Sande Lemos (do Movimento Internacional Nós Somos Igreja) ao Público de hoje: "Também alguma coisa não está certa quando analisamos as estatísticas: 85% dos canonizados são do sexo masculino e destes a grande maioria pertence à classe clerical." Mas há outras perguntas legítimas: canonizar um Papa não é canonizar apenas uma pessoa pelas suas virtudes interiores ou pelas suas qualidades de ser humano, há-de ser também um louvor e um elogio ao seu pontificado impecável. Ora, o Papa João Paulo II cometeu gravíssimas falta no exercício da sua função de chefe da Igreja, faltas que deveriam ser considerados pecados graves e de enormes consequências. Citando outra vez Maria João Sande Lemos: "Para além de tudo o que de positivo realizou, o percurso do Papa João Paulo II levanta muitas questões que, a nosso ver, não deveriam permitir esta canonização tão célere, a saber: a inacção da Igreja a nível central face aos gravíssimos casos de abuso sexual por parte de alguns membros do clero, que foram denunciados em todo o mundo; o apoio facultado ao Padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, mesmo depois de se saber que ele era não só um abusador sexual mas também um escroque; a forma como permitiu que fossem acusados de desvios doutrinais para cima de cem teólogos e teólogas não lhes dando sequer a oportunidade de serem ouvidos/as." Quer dizer: se os nossos heróis dizem quem nós somos, é preciso ter atenção a quem elevamos ao estatuto de heróis. E premiar a forma como João Paulo II governou a Igreja é esquecer os erros graves que cometeu em questões fundamentais.

4. Como várias vezes tenho escrito, o papado de João Paulo II foi um mandato de intolerância dentro da Igreja Católica, com as armas da repressão do pensamento todas viradas para o esmagamento das ideias de renovação, a par de uma notável tolerância com as correntes mais reaccionárias. Bento XVI, o teórico dessa intolerância, aproveitou a circunstância de ser ele próprio Papa para promover a beatificação e a canonização rápida do seu antecessor, com quem tinha feito equipa. Não me parece bonito. O Papa Francisco, com alguma diplomacia e com a sabedoria de quem reconhece não poder resolver tudo da melhor maneira, meteu dois Papas muito diferentes no mesmo barco e amaciou o sabor da cerimónia. Apresenta, assim, a face plural da Igreja Católica, premiando ao mesmo tempo correntes muito diferentes. O Papa Francisco deu, assim, um exemplo de tolerância: essa tolerância que foi um valor pesado de formas diferentes por cada um dos novos santos de hoje.




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