05/11/13

obra do vice-PM para os briefings.


A entrega da pasta dos briefings de Lomba, e da comunicação de Maduro, a um vice-primeiro-ministro formado no argumentário das feiras, teve vários efeitos políticos imediatos. Um deles foi o ressuscitar da tese segundo a qual a política seguida pelo governo é uma inevitabilidade que esta maioria teve de engolir, a contragosto, por causa das circunstâncias e da troika. Na verdade, esse discurso é uma mistificação. Esta maioria está a fazer aquilo que Passos Coelho quis ter a oportunidade de fazer, como, aliás, o próprio explicou.
A prova mais cabal do que acabo de afirmar nem é o célebre "ir além da troika". É o assumir de um certo programa político. No final de Janeiro de 2012, Passos Coelho, presidente do PSD e já então primeiro-ministro, afirmou sem rebuços que o seu partido tem um "grau de identificação importante" com o programa acordado com a troika e quer cumpri-lo porque acredita nele. Nas suas palavras: "(...) o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional". Ainda segundo o presidente do PSD, "executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido". (fonte)
Agora, vistos os custos sociais da operação, regressa a desculpa de que "foram obrigados". Mas é mentira: para PPC e seus seguidores, realmente a crise foi uma oportunidade. Oportunidade que estão a aproveitar para os seus fins programáticos. Foi, aliás, nesse sentido que foram incluindo novas medidas nas revisões do Memorando, apresentadas como exigências da troika, mas, na realidade, exigências a pedido para consolidar o programa eleitoral de PPC: não o que ele apresentou em público, mas aquele, bastante diferente, que tinha em mente. (Tratando-se de PPC, devo esclarecer: na frase anterior, a palavra "mente" não é uma forma do verbo mentir.)

2 comentários:

Jaime Santos disse...

O que é triste é que a Imprensa, a Direita política (mas há alguma diferença entre as duas?) e alguma Esquerda aceite o 'Programa de Reforma do Estado' como algo mais do que a habitual trampolineirice de Portas. Como é que perdemos tempo a discutir algo tão inqualificável como um documento vazio, mal escrito em termos do Português e com uma bibliografia que faria um colegial corar de vergonha? O PS, se fosse Oposição a sério, exigiria a imediata demissão de Portas... Pedro Silva Pereira (não percebo bem porquê) e Marcelo Rebelo de Sousa (esse percebe-se muito bem porquê) são demasiado simpáticos ao qualificarem isto como um Manifesto Eleitoral... Isto é mais uma prova de que o Portas pós-Independente (ou seja o Portas respeitável, que não pode recorrer à calúnia, porque não está a vender jornais) é um gigantesco balão de ar quente, na melhor das hipóteses. Ao pé dele, PPC é um político carregado de substância (mesmo se a dita não seja de todo recomendável)... Uma das grandes mistificações da Direita é que só a Esquerda governa de forma incompetente. Este 'Programa' é a 'arma fumegante' que prova bem o contrário...

Porfirio Silva disse...

Jaime,
A esmagadora maioria (99,99999999%) das pessoas nunca vai ler o guião e vai sempre achar que recusar falar dele por ser mau é conversa "de políticos manhosos". A recusa simples em negociar tem esse risco, seria preciso um pouco mais de imaginação para enfrentar esta situação. Há por aó gente que tem dado pistas, mas é gente que certas direcções partidárias não querem ouvir.