16/09/11

adenda a "uma história pouco católica"


Vou copiar para aqui algo que escrevi num comentário ao meu post anterior, uma história pouco católica. Trata-se, apenas, de uma explicitação desta frase que aparece quase a terminar aquele meu texto: «Espero, com franqueza, que a minha posição sobre qualquer dos tópicos da questão “religião” não mude por causa deste episódio pessoal. Sempre tentei, e quero continuar a tentar, esse mínimo de liberdade que consiste em sermos capazes de pensar no mundo sem darmos demasiada importância às nossas contingências particulares.»

Reza assim:

Desejo que fique claro que eu não mudei de posição relativamente à religião e às igrejas por causa deste assunto. Não me tornei um fanático anti-religioso, que nunca fui. Continuo a pensar que certas abordagens "de esquerda" à religião estão erradas, mormente por descurarem a necessidade de uma compreensão antropológica do sagrado, que não se reduz à política imediata. Continuo a discordar radicalmente de certas orientações actuais da Igreja católica, no que acompanho insignes teólogos que Roma calou, proibiu de ensinar e/ou de publicar. Continuo a aborrecer o laicismo extremista, que tenta reduzir a expressão da religião ao interior de cada um ou ao espaço privado - tal como continuo a abominar o uso político que é feito da religião. Continuo a pensar que o actual estado da Igreja católica não está inscrito na sua essência, tal como os Papas ostensivamente debochados existiram e não fazem parte da essência da Igreja - mas não aceito que me proíbam de criticar isso. Ainda penso que a questão da existência de Deus não é uma questão científica, não é uma questão que possa ser decidida de forma certa por raciocínios filosóficos - por isso não sou ateu. Continuo a pensar que, no mundo concreto em que vivemos, a tolerância religiosa (entre crentes e não crentes, entre crentes de diversas crenças) é importante para a paz e a liberdade, razão pela qual me interesso por questões como o diálogo inter-religioso. Em suma: tudo o que me parecia complexo antes deste caso, continua a parecer-me complexo; não me radicalizei por causa disto, continuo a não ter respostas para tudo - mas tenho uma ideia da história das igrejas cristãs e sei que muito do que está em causa não vem de nenhuma "alta entidade", vem apenas do entendimento que certos homens fazem do papel que lhes cabe. E não prescindo de discutir isso.

11 comentários:

Ricardo Alves disse...

Porfírio,
acredite que digo sem ironia que aprecio quem se demarca de dicotomias, recusando o que lhe parecem ser dois extremos (como faz quando recusa o «uso político da religião» e o «laicismo extremista» - seja isto o que for). Mas tenha em atenção que um dia chega em que há que ter uma posição construtiva, não digo uma síntese dos dois pontos, mas uma posição de equilíbrio...

Porfirio Silva disse...

Ricardo, não sei bem a que equivale essa "posição de equilíbrio". Equilíbrio sobre quê?
Sobre a existência de Deus, recuso os argumentos "científicos" a favor ou contra, acho-os falaciosos. Admito os argumentos filosóficos, mas nenhum é decisivo e final, sendo que muitas vezes assentam em pressupostos que recuso por razões epistemológicas mais gerais. E, além do mais, a posição sobre a religião não é derivada directamente da posição sobre a existência de Deus ou de deuses, tem de ter em conta outros factores.
Quanto ao papel da religião e das igrejas na sociedade, penso que lhes devemos aplicar critérios iguais aos critérios que usamos para regular a expressão de outras convicções, tradições e comunidades de prática. Por exemplo, não me passa pela cabeça proibir manifestações de comunistas, não me passa pela cabeça proibir manifestações de católicos, não grito contra as greves por elas perturbarem o quotidiano, não critico os católicos por ocuparem a rua.
Em questões concretas, a minha opinião sobre certos assuntos não depende nada da posição de qualquer igreja: a posição da Igreja católica sobre o preservativo parece-me absurda, mas não penso isso para ser contra a Igreja; a posição da Igreja católica sobre a ordenação de mulheres é uma sobrevivência de preconceitos culturais muito enraizados, e acho desonesto querer justificar isso teologicamente, mas sei que essa discriminação não existe só nas religiões; concordo basicamente com a posição da Igreja católica sobre a causa palestiniana, mas suspeito que ela tem, no fundo, motivações que historicamente podem ser aproximadas de pulsões anti-semitas. Mas analiso cada caso pelo caso, sem estar a tentar aproximar-me ou afastar-me da Igreja. E, além do mais, quando reflicto sobre ideias não me autorizo, por isso a julgar pessoas: há católicos que muito admiro pela forma como vivem a sua fé e religião. Sendo que o mesmo é verdade para outras "categorias" de pessoas.
Agora, é possível resumir isto a uma "filosofia geral"? Eu não tenho esse trabalho feito, não é aquilo de que me ocupo, embora me interesse por ser tema de grande relevância neste tempo que vivemos.

António P. disse...

Boa tarde Porfírio e um abraço solidário.
E acho bem o que contaste e não quereres entrar pela via jurídica.
Bom fim de semana

Jorge Pires Ferreira disse...

Por um lado, compreende-se a posição do professor. Como não se há-de criticar o que se bem entender? Por outro lado, é mais do que compreensível a posição da UCP. Como aceitar como professor alguém que critica a Igreja, não sendo sequer católico?

É claro que, sendo professor de filosofia, terá, de certeza, de ensinar filósofos ateus. Mas como ter na própria instituição alguém que não se identifica com ela? Poderá parecer estranho que a UCP não o queira como professor (para isso não deveria ter chegado a classificá-lo em primeiro no concurso), mas também deveria causar alguma esquizofrenia a Porfírio Silva querer ser professor de uma instituição de que manifestamente - é ler o blogue - não gosta.

Para mais, a Católica é criticada em muitos sectores eclesiais por ser pouco católica, principalmente em áreas como a gestão e a economia. E há mesmo que diga que a católica não devia ter professores ateus. Não sei se tem algum, mas dizem que sim.

http://tribodejacob.blogspot.com/

Porfirio Silva disse...

Caro Jorge Pires,
Compreendo a sua opinião. Manifestamente, não pensamos o mesmo acerca do que é pensar e do que é liberdade. E, acima de tudo, é essa visão "de fortaleza" que dá argumentos aos que acusam a Igreja de querer ter a sua parte no espaço de todos, mas sem partilhar o seu próprio espaço com os outros.

Ana Paula Fitas disse...

Olá Porfírio,
Fiz link... deste e do post de que é adenda.
Um abraço amigo e solidário.

Jaime Santos disse...

A pergunta que eu coloco a quem critica a posição do Porfírio é se uma Universidade, que é financiada pelo erário público e que, espero eu, deseja manter um grau de qualidade científico-pedagógica comparável ou superior as instituições de ensino superior publico, deve escolher os seus docentes com base no mérito ou com base na obediência a uma determinada cartilha ideológica ou religiosa. O concurso decorreu como deveria decorrer, tendo o Porfírio sido considerado o melhor candidato com base no curriculum submetido onde constava, imagino eu, uma lista das suas publicações científicas, sendo portanto a temática da investigação dele bem conhecida dos avaliadores. Se, posteriormente, no exercício das suas funções docentes, o Porfírio tivesse porventura emitido opiniões críticas da UCP ou da ICAR, haveria razões para rescisão do contrato, já que um docente universitário que actue com profissionalismo atem-se ao programa das cadeiras que lecciona dentro das aulas, programa que não é decidido por ele, ou apenas por ele, e não faz das aulas sessões de propaganda sobre a sua visão particular do Mundo. Francamente, não percebo bem a referência a estas questões no contexto deste caso, já que o que aqui se passou foi muito diferente...

Ricardo Alves disse...

Porfírio,
não equipare a ICAR a um partido político ou a um sindicato. São organizações com origens diferentes e que perseguem fins muito diferentes. Essa é uma má maneira de começar a abordar estas questões.

Os partidos existem para exercer o poder, ao nível nacional, autárquico, ou etc. As comunidades religiosas existem para transmitir uma mundividência a quem interessar. Não existem, ou não deviam existir, com o objectivo de terem poder. Que o tentem é a mola que gerou todos os anticlericalismos.

O laicismo não é a defesa da extinção da religião ou da sua «clandestinização». É só tentar que não tenham poder.

Quanto à questão ciência vs religião, a verdade é que muitas confissões religiosas chocam directamente com o consenso científico actual. Caso extremo, o criacionismo dos evangélicos. Dir-me-à que esse não é «sofisticado», que isso não resolve a questão da existência de «Deus», e eu até posso concordar. Mas é só um caso extremo, e por isso o cito. Há dogmas da ICAR que contrariam directamente a ciência. Para ir à raiz: a «ressurreição». Mas se a «ressurreição» fosse uma possibilidade científica, não haveria necessidade da «fé».

Porfirio Silva disse...

Ricardo,
Não acho que eu tenha capacidade para discutir tudo isso numa caixa de comentários. Acho que me arriscaria a simplificar e a misturar coisas muito diferentes - o que, a meu ver, é o que acontece no seu comentário. Apenas lhe digo que não é por causa dos deuses que procuro ser prudente a pensar na religião: é por causa das pessoas. E por causa das pessoas não serem as maquininhas de calcular que os racionalistas julgam.
Mas também encontremos outras maneiras de conversar estas coisas, quem sabe.

Ricardo Alves disse...

Porfírio,
até posso concordar consigo. Mas deveria evitar fazer suposições sobre o que os «racionalistas» (ou outros) pensam ou acham. Ainda por cima com essa ligeireza. Não são só os crentes que merecem respeito, como concordará.

Porfirio Silva disse...

Ricardo,
Acho que não faltei ao respeito a ninguém. As palavras e os conceitos servem para alguma coisa. Um celibatário não é casado, não há dúvida nenhuma, não há ofensa nenhuma em usar a qualificação. Um racionalista concebe os humanos como fundamentalmente caracterizados pelas suas capacidades racionais, que são capacidades computacionais, num certo sentido. A ortodoxia neoclássica em economia é hiper-racionalista, porque reserva um lugar demasiado central às capacidades computacionais dos agentes económicos - e não há nenhuma falta de respeito em dizer isto. O que falta a um racionalista, na perspectiva de um institucionalista, por exemplo, é mais atenção aos processos históricos concretos e contingentes, para lá das "ideias". É isso que está em causa no que eu escrevi, onde não havia nenhuma falta de respeito.
Mas essa súbita "acusação", ou "suspeita", de falta de respeito confirma-me na minha ideia de que as caixas de comentários não são necessariamente os melhores sítios para certos debates.