10/02/11

quando as instituições se põem a pensar (ou um certo mea culpa do FMI)


O FMI tem um serviço para fazer avaliações independentes do funcionamento do próprio FMI. Ontem, esse serviço publicou um relatório acerca das razões pelas quais a organização não antecipou apropriadamente a crise financeira e económica em que estamos mergulhados. (Está aqui.)
Dominique Strauss-Kahn, o patrão, já admitiu as boas razões do relatório e enuncia em que sentido as coisas poderão caminhar para acolher as recomedações.
Não tendo tido tempo sequer para dar uma vista de olhos ao relatório, li o editorial de ontem do Finantial Times sobre o assunto. Um dos aspectos aí realçados é o das "falhas intelectuais" do funcionamento do FMI como causa da "cegueira". Essas falhas intelectuais consistem, essencialmente, em dogmatismo e ortodoxia. Dito de forma diplomática, como o FT prefere, claro. Mas não deixa de ficar claro que nessas "falhas intelectuais" consta o facto de muitos dos analistas do Fundo estarem "agarrados" por um único paradigma, ignorarem a contaminação que as "aventuras" financeiras poderiam trazer ao resto da economia, e serem "convidados" a seguir o rebanho: os que viam as coisas de forma diferente eram sujeitos aos "incentivos" apropriados para baixarem a voz.
O FMI estuda porque falhou como instituição, ao não ver o que aí vinha. Em Portugal, quando os reguladores falham, há uma chusma de vozes baratas que pensam calar a realidade tentando culpar um só homem pela fracasso do sistema. Lembram-se do que falo: aquela ideia de culpar Vítor Constâncio por não ter comprado uma bola de cristal suficientemente esperta. Quando, no máximo, ele era a expressão de um sistema de pensamento pouco habituado às duras espertezas do capitalismo corrente. O que não o desculpa, intelectualmente - mas não tem nada a ver com incompetência profissional. Mas obriga a ver o seu exercício no quadro dos muitos "companheiros de estrada" que, pensando o mesmo que ele antes da borrasca se declarar, depois o quiseram sacrificar para tentar esconder a sua dívida intelectual e política para com o país.

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