26/01/11

irritações de um cidadão

David Bresó, Inocência Perdida

Confesso que há coisas que, tomadas com o café da manhã, me fazem começar o dia mal-disposto.
Leio uns blogues onde encontro quem aponte o dedo acusador aos que, na esquerda, ou na área do socialismo, não deram o litro por Alegre nestas presidenciais. Embrulhadas as acusações, veladas ou às claras, em considerações relativas à história recente do PS, ao "socratismo" e a quejandos pecados e pecadores, parece que qualquer simpatizante do PS que não se tenha apresentado para pagar o tributo de sangue merece ser rotulado de traidor para pior.
Pois eu, que não fiz nenhuma campanha presidencial, excepto contra Cavaco, que nunca escondi o disparate que considerava estar aninhado nesta candidatura de Alegre, só posso rir-me dessas vozes para evitar a vontade de chorar com tão brutos democratas. Alegre, que há tempos se candidatou contra o candidato do seu partido, reclamando (e bem) os direitos e deveres de cidadania mobilizados nessa opção, foi por isso por muitos muito louvado. Bizarro é que, dos mesmos lados, venham agora contra quem, não sendo poeta mas tendo também direitos de cidadania, e consciência e tudo, entendeu pensar e fazer diferente do que os "órgãos competentes" decidiram que era a "posição oficial". Quem ontem primava pelas delícias do desvio, hoje quer bater com as armas dos alinhados.
Parece que alguns paladinos da cidadania, ou, pelo menos, useiros e vezeiros em encher a boca com tais proclamações, só gostam que cada um pense pela sua cabeça quando pensa o mesmo que tais porta-estandartes. Mas ficam amofinados quando os outros exercem os mesmos tão proclamados deveres de cidadania, um dos quais há-se ser a auto-determinação no pensar e no agir quando se trate de procurar o bem comum. Mais depressa se apanham os falsos profetas da cidadania do que um coxo, essa é que é essa.
Mesmo assim, por muito previsível que fosse a manobra, ela não deixa de ser irritante. Publicada em blogues ou sussurrada entre "adeptos".


4 comentários:

Anónimo disse...

Também há que reconhecer que as 2 últimas candidaturas presidenciais do PS não correram bem, a começar pela escolha do candidato.

António Lopes

Porfirio Silva disse...

António, concordo. E acho que há responsáveis por isso. Politicamente, o "pragmatismo" pode ter as suas vantagens às vezes, quanto mais não seja para temperar os excessos de dogmatismo. Mas esse mesmo "pragmatismo" é muitas vezes cego aos factores especificamente políticos - com péssimos resultados.

Micael Sousa disse...

Não podia concordar mais. Infelizmente a liberdade e pluralidade só é defendida quando "interessa". Tristes dias os da falha da democracia. A apontar o dedo, só o faria aos militantes com cargos nas estruturas, caso não se tenham envolvido e feito envolver os demais militantes na campanha. Ao militante comum – actor individual desta tragédia -, fazendo jus à democracia do nosso socialismo, não podemos exigir outra coisa se não a liberdade de escolha.

Porfirio Silva disse...

Eu, por mim, que tecnicamente nem sou militante de nada, nem ao mais alto general criticaria a liberdade de opinião, desde que praticada com reciprocidade e coerência.