13/05/10

um cientista português no coração da Alemanha nazi


José Pedro Castanheira dispensa apresentações. (Pronto, é repórter principal no Expresso, jornalista premiadíssimo, autor de inúmeros bons livros que resultam do seu jornalismo de investigação à séria, criador de um texto que já foi levado ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, ... e ficamos por aqui que o espaço não chegaria para a biografia.)

Mas vale a pena apresentar aqui o seu novo livro, Um cientista português no coração da Alemanha nazi. Editado pela Tenacitas.



Tomo um texto usado na divulgação:

Em plena II Guerra Mundial, o médico português José Ayres de Azevedo esteve durante dois anos e meio nos principais centros científicos da Alemanha nazi. Primeiro, na Universidade de Frankfurt e depois no Instituto Kaiser Wilhelm, em Berlim, o mais reputado dos centros científicos não apenas da Alemanha mas de todo o mundo. Aluno brilhante, assistente promissor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, obteve bolsas de estudo do Instituto para a Alta Cultura e da Fundação Humboldt, com o objectivo de preparar uma tese de doutoramento sobre higiene racial e biologia da hereditariedade. Identificado pela PIDE como ligado a sectores de extrema-direita, germanófilos e críticos de Salazar, propôs-se aprofundar matérias ligadas à eugenia - a ciência do aperfeiçoamento da espécie por via da selecção genética. Na Alemanha nazi, estudou e trabalhou com os principais cientistas que deram um suporte à política racial de Hitler, cujos efeitos mais conhecidos foram o holocausto.
Tendo como inspirador e mestre o barão Otmar von Verschuer (um dos cientistas que mais influenciaram a política racial do nazismo), especializou-se na análise dos grupos sanguíneos dos gémeos, numa perspectiva de aferição dos sinais da hereditariedade. Colaborou na principal revista científica de eugenia e participou na elaboração de numerosos pareceres solicitados pelos tribunais nazis, sobre matérias relacionadas com a determinação da paternidade (normalmente de alegados judeus), ou com a esterilização, designadamente de deficientes.
Em 1943, trabalhou no mesmo instituto, com o mesmo mestre e sobre a mesma área científica que o famoso médico Josef Mengele, o conhecido "anjo da morte" do campo de extermínio de Auschwitz.
Com Berlim a ser bombardeada diariamente pela aviação aliada, o português foi obrigado a regressar ao Porto, onde ultimou a tese de doutoramento. Com data e júri marcados, a dissertação não chegou a ser discutida. O Conselho Escolar, órgão máximo da Faculdade, acabou por expulsar Aires de Azevedo da docência. Ao mesmo tempo, era suspenso pela Ordem dos Médicos. Desiludido e amargurado, largou em definitivo a investigação e a medicina...


O livro, muito bem escrito, com a fluidez habitual no José Pedro Castanheira, vale realmente a pena. É muito interessante, para os nossos olhos, que nos ajude a reflectir sobre as relações entre ciência e sociedade - até para acalmar as peneiras daqueles que juram a pés juntos, mas com os olhos fechados, que a ciência é o caminho, a verdade e a vida. A obra só tem um ponto aborrecido: à custa da profusão de "pequenas biografias", dada em rodapé, de gente como Hitler, Salazar, Goebbels, ... , ficamos com uma ideia do nível de cultura geral que o Autor espera para um certo número dos seus leitores. Infelizmente, ele é que é capaz de estar certo.

O Professor João Lobo Antunes considerou a obra "um trabalho exemplar”. Concordamos.

A ler, a ler.

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