9.11.13

onde se começa por coisas sérias e se acaba no humorismo (e coisas ainda mais sérias).

15:30

Acredito sinceramente que temos o dever, não só de combater os políticos que fazem ao nosso país coisas que nos parecem erradas, mas também o dever de denunciar aqueles que tratam com desconsideração a cidadania. É tão importante combater o Moedas, o Maduro, a Maria Luís e o relações públicas deles todos (Portas), como denunciar aquela escritora (não coloco aspas, porque não sou crítico literário e nunca li nada dela) que acha uma indecência que as pessoas se manifestem em lugar de estaram quedas e caladas a "deixar que nos mandem".

Ao mesmo tempo, acredito sinceramente que não é chamando "merdas" e "lixo" a qualquer uma daquelas personagens mencionadas no parágrafo anterior que se faz o combate democrático. O insulto, mesmo no FB, ou nos blogues, ou mesmo a coberto de humorismo, leva quem o pratica a descer ao nível do insultado.

Colocando isto noutro plano, e já que estamos a falar de escrutínio das intervenções civicamente relevantes no espaço público, julgo que fazemos mal em dispensar o humorismo deste escrutínio. O humorismo, com ou sem graça, é - e ainda bem que é - um elemento do debate público em sentido lato. É claro que o humorismo não pode ser escrutinado com as mesmas regras com que olhamos para os discursos políticos, mas cabe perguntar: o humorismo não tem regras? Acho que tem. Há uma distância abismal, em graça e em decência, entre a rábula do Gato Fedorento à hipocrisia do comentador Marcelo sobre o aborto (aqui há uns anos) e o Bruno Nogueira a chamar merdas à tal escritora que eu não sei como escreve porque nunca li. E, no limite, o humorismo pode ser tão boçal como as opiniões de alguém que gostaria que o povo ficasse em casa a deixar-se mandar até novas ordens.

Aliás, nunca achei graça ao sentimento de impunidade que parece afectar alguns escribas que se julgam com graça. É bem exemplo do que quero dizer um tal Comendador Marques de Correia (também conhecido por Henrique Monteiro), que escreve todas as semanas no Expresso - por ter graça? Não; para poder dizer, a pretexto da graça, aquilo que seria indefensável se fosse assumido em nome próprio. Mas sempre o Comendador na mesma linha opinativa do jornalista, porque as graçolas não são para cair em saco roto e querem-se bem afinadas no tiro ao alvo. Claro: sempre resguardadas pelo escudo invisível da graçola: ninguém vai responder à figura literária do Comendador, que assim pode dizer o que bem lhe der na gana. Gabo a paciência a José Sócrates que, na sua nova liberdade e à-vontade, se deu ao trabalho de escrever (hoje no Expresso) uma crónica de um Comendador Anónimo a explicar como era rasteirinha uma anterior crónica do Comendador Henrique Monteiro a tentar menorizá-lo a coberto do seu humorismo duvidoso. Confesso, contudo, que a cereja no topo do bolo foi a resposta do Jornalista Marques de Correia: foi mesmo incapaz de esconder que tinha enfiado o barrete!

Memórias. Berlim, 1989, um dia como este, um muro como qualquer outro.




Na noite de 9 de Novembro há 24 anos, o governo da então chamada República Democrática Alemã anuncia de forma desastrada (por não corresponder exactamente ao que queriam fazer, que era uma liberalização cautelosa das saídas para o estrangeiro), anuncia, dizíamos, que os cidadãos desse país poderiam atravessar as respectivas fronteiras (de dentro para fora...) livremente. Em consequência, logo nessa noite, cerca de vinte mil alemães de leste atravessaram o posto fronteiriço de Berlim Leste para Berlim Oeste. No dia 11, as máquinas começaram a abrir mais passagens através do muro da vergonha, já que os postos normais não davam vazão à enchente dos que queriam experimentar o sabor dessa nova liberdade. Logo foram anunciadas conversações para a abertura da simbólica Porta de Brandemburgo, que só viria a tornar-se uma ampla passagem entre dois mundos em Dezembro desse ano. No fim de semana seguinte à abertura, cerca de dois milhões de alemães orientais visitaram Berlim Ocidental.
Tive a sorte de estar nessa Berlim esfuziante por esses dias. Tinha ido à conferência "Security in Europe: Challenges of the 1990's", organizada pelo Politischer Club Berlin e pela Amerika Haus Berlin,  que decorreu entre 15 e 17 desse mês, tendo ficado mais uns dois ou três dias. A conferência acabou na tarde de sexta-feira (17) e, desde aí até ao regresso no domingo, deambulei como uma esponja pela cidade que era nessa altura o centro do mundo. Havia, além do povo que estava a fazer a sua história, uma multidão de jornalistas por todo o lado, especialmente postados em frente à Porta de Brandemburgo, por haver então a expectativa de esse local histórico ser aberto imediatamente.
Descobri há algum tempo duas folhinhas que escrevi na altura, "do lado de lá", no meio da agitação. Estão a ficar roídas pelo tempo. Antes que desapareçam, transcrevo-as para este arquivo-pessoal-público.

Folha 1. "Aqui é a Marx-Engels Platz, em Berlim Leste. Hoje são 17 de Novembro de 1989. O Muro já tem aberturas mas ainda falta muita coisa. Aqui está a ocorrer uma manifestação (ou concentração) de estudantes (pelo menos parecem, pela sua juventude, apesar de também haver gente mais velha). Vim para aqui directamente da estação de metropolitano, onde comprei o meu visto e troquei os obrigatórios 25 DM por 25 marcos da DDR. Do lado de lá vale, não 1 para 1, mas 1 para 10 ou ainda mais. Há o pequeno pormenor de que tenho a máquina fotográfica da Guida ao ombro, mas não consigo tirar nenhuma fotografia. Até o azar pode ser histórico... Outro pormenor é que está um frio danado, que entra por todo o lado apesar de estar com dois pares de meias calçados, camisa, camisola de gola alta, casaco de inverno e gabardina. São aqui 15.50H."
Folha 2. "No mapa, tenho aqui uma indicação sobre a Igreja de S. Nicolau, no centro histórico de Berlim. Fui para entrar, vi que se pagavam entradas e que havia um museu. Como não estou com grande tempo para museus, fui perguntar se também se pagava para ver a igreja. Resposta: «Isto não é uma igreja. Isto é um museu.» Entendi: estamos, realmente, no Leste. São 16H 13M."

Memórias das minhas ingenuidades, pois. Como se vê, ainda havia muita coisa por mudar. Eu não falava uma palavrinha de alemão, mas recolhi um comunicado da SPARTAKIST - Herausgegeben von der Trotzkistischen Liga Deutschlands, com o título "Für eine leninistisch-trotzkistische Arbeitpartei!". E em baixo de página: "Für den Kommunismus von Lenin, Luxemburg und Liebknecht!". Ainda tenho uns jornais, uns autocolantes, uns "alfinetes de peito", desses dias. E, claro, umas pedrinhas pequeninas que eu próprio rapei do muro, à unha, enquanto outros já andavam em cima dele com picaretas.

O mundo, realmente, mudou muito. Nem tudo correu bem, como se sabe. Só que ninguém, sabendo do que fala, pode desprezar o valor da liberdade - haja o que houver, com todos os defeitos que as democracias possam ter. Isso sentiu-se naqueles dias (e ainda se sente) em Berlim. Claro, ainda há quem, por cegueira ideológica, ache que tudo não passou de uma operação das forças reaccionárias conspirando por todo o mundo. Por hoje, a esses nada a dizer.

(republicação)


Laura, um retrato.



Senhora Directora, o táxi já chegou. Desço já. Não desceu. Entrou em espera. Já estava desligado o computador, arrumada a carteira, ajeitado o cabelo ruivo selvagem sofisticado a dizer bem com os olhos verdes e a dar luz aos seios pequenos bem colocados numa figura alta e rendilhada como um monumento manuelino. Há minutos que, apesar da azáfama no gabinete, estava pronta para descer, mas não desceu. Entrara na fase um daquele ritual de espera que chegava sempre com dia marcado. A longa espera pelo fim de uma batalha. Senhora Directora, o táxi diz que se vai embora. Oh, homem, os táxis não falam; diga ao taxista que pago a espera. Estou a descer. Desceu. Os dois andares pelas escadas, apesar do elevador. Apesar do ligeiro descaimento do ombro esquerdo e, por ele, de todo o corpo, que lhe ficou, estrutural, da lesão na perna. A vontade de Laura manda mais do que a perna e a lesão juntas. Avançando bem direita, uma linha da terra ao céu, e não o contrário, mostra a vontade e esconde o descaimento do ombro. Até amanhã, Senhor João. Até amanhã, Senhora Directora.
Boa tarde, o senhor desculpe a demora. A espera paga-se, minha senhora. E já é boa noite. Seja. É para Santa Catarina, se faz favor. Sim, senhora. Olha pela janela e vê o cenário. Tanto trabalho aqui. E a Joana à espera. Que maçada: parece que vir a minha casa é passar férias e eu que nem férias tenho. Pronto, senhor, cinco euros a mais pela espera. Disse cinco mas deu dez. Com propósito. Obrigado, senhora, e boa noite. Boa noite.
Olá Joana, minha querida, está tão bonita, mas que é isso, está cheia de pêlo no casaco. Trouxe a Olívia, foi a Olívia. A Olívia? A gata? A Joana trouxe a gata? Atira a pasta para o sofá. Quer dizer: por cima do sofá, quase atingindo a Olívia. A Olívia, a Olívia, não lhe faças mal. Foi sem querer, querida. Eu ia lá fazer mal à Olívia, querida. Pois, pois, pois. Estava já tão cedo a começar a batalha. Vamos fazer o jantar, querida. É num já que se atira à tarefa, ninguém pode saber que Laura teve uma lesão na perna, Laura a super mulher já está a abrir o frigorífico, uma embalagem metalizada com abertura fácil, três embalagens plastificadas encetadas, dois boiões, tudo em cima da bancada, Laura abre as embalagens, as mãos fazem todos os gestos à velocidade e com a precisão de uma linha de montagem, como se Laura fosse uma máquina de preparar pratos rápidos, tempera rigorosamente o conteúdo das embalagens com o conteúdo dos boiões e com mais uma boa meia dúzia de pós e pequenos grãos que estão ali dispostos e que fazem a bancada de cozinha parecer um toucador requintado de uma dama complexa. Que ela é. Requintada e complexa. Tudo para o micro-ondas, uma mulher com sete mãos e olhos que chegam para tudo, sete minutos isto, três minutos aquilo, a setecentos e oitenta isto, a quatrocentos e cinquenta aquilo, está pronto, querida, vamos para a mesa, a Deolinda deixou a mesa preparada, vamos comer, temos fome as duas, não temos, querida. Tenho, sim. Não comemos bife com batatas fritas, pois não. Não, querida, aqui não se comem essas coisas. Comemos terrine de figos com chèvre fresco e chèvre meio curado, amaciado com iogurte natural, e depois comemos lentilhas com ovas de salmão e azeite de trufas. Mas eu não sei gostar de nada disso. Mas aprende, querida. É isso mesmo, aprende. É como dizem os franceses “je ne sais pas aimer ça”, “eu não sei gostar disso” quer dizer “eu não sou capaz de gostar disso”, quem não sabe não pode, quem sabe pode, e eu quero que a querida possa, por isso a querida tem de saber, a querida tem de aprender. Coma para aprender a gostar. Se o seu pai não lhe mostra o mundo, alguém tem de lho mostrar, não é querida.
Pronto, critiquei o pai e tive o prémio: não disse palavra o resto do jantar, e eu a perguntar-lhe pela escola, e pela amiga Maria, e pela Rosa, e pelo ballet, e que obrigação tenho eu de aturar esta miúda, e contra todos os meus princípios a perguntar-lhe pelos namoradinhos, e eu a ir buscar o melhor bolo de chocolate do mundo em fatia grande, e ela nada, tinha desligado, e eu a ligar a televisão connosco ainda à mesa, coisa que eu detesto e ela adora, e ela não cedeu, ela não cederia de maneira nenhuma, e estava decidido: eu tinha perdido mais uma batalha, tinha-lhe criticado o pai e ela castigava-me como sempre fazia não falando mais o resto do dia ou da noite. Não valia a pena. Desisti, pedi-lhe que se deitasse e fui lá dar-lhe um beijo de boas noites. Ela retribuiu, sempre em silêncio, com uns olhos zangados, que não tristes. Tem agora oito anos e desde os quatro que faz isto. Se fosse assim fácil calar toda a gente…
Vodka negra o resto da noite, isto é, até à uma, espalhada no chão da sala a mexer apenas as convoluções cerebrais, a ouvir a quinta sinfonia de Mahler interpretada pelo Uri Caine, uma magnífica gravação, moderadamente surrealista, que ouviu três ou quatro vezes, até desistir de permanecer acordada, de pensar na Joana e no pai dela. O que vale a espera quando não se está à espera de nada. Dormiu mal, dentro da cama mas fora de si, e acordou às oito horas do dia seguinte, quinta-feira, dia de reunião da administração do banco com todos os directores, usualmente às oito e trinta da manhã, acordou às oito da manhã com a Deolinda a chamar: Senhora Doutora, a menina vai sair, está lá em baixo o pai para a levar à escola, ela quer despedir-se. Anda cá, minha querida. Estou atrasada. Também eu, querida, tanto. Adeus, mãe, até para o ano. Esta espera acabou por ora.

8.11.13

coisas da democracia formal.

18:41

Há uma certa maneira de encarar os regimes políticos que se caracteriza por desprezar o lado formal da democracia. Lembram-se, claro, do desprezo "revolucionário" pela democracia formal, como se a formalidade fosse um adereço sem importância, talvez até mesmo prejudicial - algo que empatava o "avanço da história". Das coisas que, mais cedo na minha vida, me fizeram perceber que eu não passava de um "pobre de um social-democrata" (para não dizer como o outro, "um merdas de um moderado") foi, precisamente, aderir à ideia de que sem "formalismos" a democracia não resistiria muito tempo em lado nenhum: morreria às mãos dos apressados, que sempre aparecem para impor o seu último entusiasmo brilhante e tresloucado a todos os cépticos que não querem jogar a única vida que têm numa roleta russa.

Esse desprezo do formal sobrevive: aliás, continua muito vivaço. Em larga medida, por causa de uma persistente e generalizada incompreensão de um facto central da vida pública: para que haja democracia, não basta que a maioria mande. É preciso que "mande" segundo as regras. O tal "formal". Ora, precisamos, cada vez mais, de dar atenção às tais regras "formais" e respeitá-las.

Um exemplo recente. O PS diz que só aceita debater a tal ideia do "compromisso nacional" no parlamento. Alguns comentadores (ou entrevistadoras...) passam por essa questão como cão por vinha vindimada, como se isso não tivesse importância nenhuma. Assim como quem diz "mas se ele quer chegar a acordo, porque precisa de o negociar no parlamento?". Pois, nesse elemento "formal" vai enorme substância. Em primeiro lugar, que se discuta no parlamento faz com que se discuta à frente do país, permite à cidadania acompanhar e intervir: aspecto muito importante neste tempo actual de desconfiança generalizada face aos representantes. (Isto não quer dizer que eu descarte, sempre ou por princípio, negociações discretas; não descarto.) Em segundo lugar, uma discussão centrada no parlamento não poderá ser limitada ao PSD, ao CDS e ao PS - como pretendem os que fazem uma fronteira entre o "arco da governação" e a esquerda da esquerda parlamentar, impondo uma restrição à democracia que não se pode aceitar. Portanto, um requisito formal apresentado pelo PS - que o debate de um "compromisso nacional" se faça no parlamento - é um requisto carregado de substância e muito relevante para a defesa da democracia, hoje muito atacada por forças que fazem dos "formalismos" (nomeadamente legais) uns berloques irrelevantes na óptica das suas cruzadas ideológicas.

Pena é que o PS não tenha sido tão previdente, nesta matéria, na anterior edição da rábula do compromisso nacional, tendo, então, negociado fora do quadro parlamentar. Felizmente, desta vez lembrou-se a tempo do "formalismo". (Alguém se lembra de quem, na altura da anterior edição desta história, disse com clareza que o PS devia exigir o enquadramento parlamentar para a negociação, acrescentando que não devia aceitar a exclusão a priori do PCP e do BE?)



7.11.13

Alberto João, pioneiro da nova cultura política.

15:03

Jardim desmentido por ofício do chefe de gabinete. Despacho confirma que Alberto João Jardim mandou mesmo executar as dívidas de eletricidade das câmaras perdidas pelo PSD nas últimas eleições.


Alberto João Jardim é, mais uma vez, pioneiro.
Explico-me.
O Governo da República, em lugar de usar os impostos como instrumento para equilibrar as contas com critérios de equidade e progressividade, usa os cortes em grupos escolhidos para aplicar a estratégia "dividir para reinar" - e para arranjar uma desculpa (culpar o TC).
O Jardinismo leva a estratégia mais longe: se é preciso cobrar as contas em atraso, para conter os brutais desequilíbrios das finanças regionais, vamos cortar só nos municípios geridos pela oposição. É uma estratégia brilhante: usa a máquina do Estado para servir os seus interesses partidários (aperta financeiramente as câmaras que lhe não são afectas, favorecendo comparativamente as câmaras do PSD) e, ao mesmo tempo, recolhe alguma receita.
Ficamos à espera das modalidades que tomará esta inovadora radicalização da estratégia "até arrancar olhos" quando transposta para "o continente". Sim, porque, em tempos extraordinários, vale tudo: se podemos atropelar a Constituição em nome da crise, por que não adoptar medidas "mais arrojadas" para punir os malfeitores (as oposições) e, do mesmo passo, "sacar mais algum" ?

6.11.13

Barroso critica Passos em público.

19:17

Chumbo do TC pode pôr em risco regresso aos mercados, diz Barroso. Mas acrescenta que nunca criticou o Tribunal Constitucional.

Durão Barroso diz que o chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional pode fazer perigar o regresso de Portugal aos mercados.
Mas, agora, acrescenta que isso não era uma crítica ao Tribunal Constitucional. Sublinha, mesmo, que nunca criticaria qualquer tribunal.
Então, só pode estar a criticar um governo que não é capaz de fazer nenhum Orçamento de Estado sem ilegalidades (inconstitucionalidades).

Se até já Durão Barroso critica o nosso governo, onde vamos parar ?

afinal, também há alemães bons...

19:01

Segundo leio, «O Partido Socialista congratula-se com a designação, hoje confirmada, de Martin Schulz como candidato do Partido Socialista Europeu (PSE) à presidência da Comissão Europeia.» Isto resulta da ideia, que fez caminho nos últimos anos, de que as famílias políticas europeias devem anunciar previamente quem apoiarão para presidente da Comissão na sequência das eleições para o Parlamento Europeu.

Este apoio não é propriamente uma novidade e também não esperava que o PS pudesse fazer diferente. De qualquer modo, cabe notar que este cenário pode trazer futuras dificuldades (mormente, eleitorais) ao Partido Socialista. Se a Alemanha, como se espera, vier a ser governada proximamente por uma "grande coligação" (CDU/CSU-SPD), o partido de Martin Schulz passará a ser co-artífice da governação alemã, passando a constar na mesma fotografia que Merkel na política europeia. Não é difícil imaginar que isso possa ter custos, principalmente se o SPD não tiver capacidade para impor algumas modificações relevantes na política europeia da Alemanha, designadamente no que toca à forma de conceber a solidariedade com "o Sul". Contudo, isso pode nem ser o mais complicado de gerir para o PS. Suponhamos que a "grande coligação" passa por uma cláusula (eventualmente, secreta até ao desfecho das eleições europeias) que faça de Martin Schulz o candidato da Alemanha (e, portanto, da senhora Merkel) a comissário ou a presidente da Comissão Europeia. Nesse caso, Martin Schulz passará a ser, ainda mais claramente, o "homem de Merkel" na Europa. Grande desafio. Por quê recear um cenário destes? Porque vários líderes socialistas e socialdemocratas têm chegado ao poder e frustado as expectativas que os eleitorados tinham de que conseguissem mudar alguma coisa, nos seus países e na Europa. Se essa decepção se repetir com a Alemanha, um tsunami abater-se-á sobre todos os "partidos irmãos". E, então, também sobre o PS português. A maldição da múmia (quando chegam lá, não conseguem mudar nada) tornar-se-ia (sublinho a forma verbal: tornar-se-ia) uma peste devastadora para as esquerdas moderadas e pró-europeias em todo o continente.

Bem entendido, temos de ter alguma esperança de que o SPD, chegado ao poder na Alemanha, consiga mudar alguma coisa na governação alemã e europeia. Mas a vida tem demonstrado que nem todas as esperanças nos dão saúde.

recomendo.

10:11

Luís Quintais, Depois da Música (Tinta da China)


*

SOBRE ÁRVORES

Rui


Li toda a poesia, e esqueci.

Uma parte habita o tecido da biografia,
e sobre isso nada posso dizer
que não seja destituído
de som e perigo.

Outra parte, guardei-a,
crença imprudente,
antepassado sem nome,
fantasma comovido
movendo-se, iluminando
todos os lugares
de metal frio como o sangue.

É fim de tarde, caminho em direcção a casa,
o vento destrói certezas
sobre árvores físicas bem reais.


5.11.13

será que Bernardino Soares levou os arquivos para Loures?

19:56

Segundo o SOL, «O PCP anunciou hoje a apresentação de uma apreciação parlamentar do novo estatuto do Ensino Particular e Cooperativo para impedir a sua aplicação no atual ano letivo, recusando que o dinheiro público "alimente negócios privados".» (aqui)

Curioso.

Em Dezembro de 2010, o CDS-PP apresentou um projecto de lei para garantir que os contratos de associação entre o Estado e as escolas particulares e cooperativas tivessem a duração de um ciclo de escolaridade (aqui). Trocado por miúdos: para impedir que o governo do PS fizesse uma revisão do financiamento às escolas privadas, acabando com a renovação automática dos contratos todos os anos, depois de relatórios terem mostrado que havia situações inadmissíveis em prejuízo da escola pública. A renovação teria de passar pela análise da especificidade das situações. O PS votou contra a proposta do CDS, isolado, sendo o projecto de lei viabilizado (votação na generalidade) pelos votos a favor do CDS-PP e do PSD somados à abstenção do PCP, do BE e dos Verdes. (Oposição impõe aprovação de diploma do CDS para duração contratos de associação com ensino particular e cooperativo). Mais tarde, o BE mudou de posição (passando a opositor da proposta do CDS) e o processso não teve exactamente o desfecho pretendido pelo CDS.

Mas, entretanto, o PCP já tinha mostrado a solidez da sua ideia de defesa da rede pública de ensino, numa guerra que envolveu o candidato presidencial Cavaco Silva a prometer conter os ímpetos do governo socialista, aparentemente com as mesmas preocupações dos comunistas. Nessa altura, como hoje, a direita vai direita ao assunto: Crato continua seguro de que é melhor cortar no público do que no privado, fazendo o papel da raposa dentro do galinheiro. Pelos lados de uma certa esquerda, depende...

obra do vice-PM para os briefings.

12:45

A entrega da pasta dos briefings de Lomba, e da comunicação de Maduro, a um vice-primeiro-ministro formado no argumentário das feiras, teve vários efeitos políticos imediatos. Um deles foi o ressuscitar da tese segundo a qual a política seguida pelo governo é uma inevitabilidade que esta maioria teve de engolir, a contragosto, por causa das circunstâncias e da troika. Na verdade, esse discurso é uma mistificação. Esta maioria está a fazer aquilo que Passos Coelho quis ter a oportunidade de fazer, como, aliás, o próprio explicou.
A prova mais cabal do que acabo de afirmar nem é o célebre "ir além da troika". É o assumir de um certo programa político. No final de Janeiro de 2012, Passos Coelho, presidente do PSD e já então primeiro-ministro, afirmou sem rebuços que o seu partido tem um "grau de identificação importante" com o programa acordado com a troika e quer cumpri-lo porque acredita nele. Nas suas palavras: "(...) o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional". Ainda segundo o presidente do PSD, "executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido". (fonte)
Agora, vistos os custos sociais da operação, regressa a desculpa de que "foram obrigados". Mas é mentira: para PPC e seus seguidores, realmente a crise foi uma oportunidade. Oportunidade que estão a aproveitar para os seus fins programáticos. Foi, aliás, nesse sentido que foram incluindo novas medidas nas revisões do Memorando, apresentadas como exigências da troika, mas, na realidade, exigências a pedido para consolidar o programa eleitoral de PPC: não o que ele apresentou em público, mas aquele, bastante diferente, que tinha em mente. (Tratando-se de PPC, devo esclarecer: na frase anterior, a palavra "mente" não é uma forma do verbo mentir.)

3.11.13

as facturas, os sorteios, os carros e o resto.

19:21

Vai por aí uma grande indignação por querer o Governo lançar uns sorteios periódicos de bens valiosos (automóveis?) a benefício daqueles que tenham pedido factura nas suas transacções.
Quer-me parecer que o grosso da coluna desses indignados é gente de esquerda.
Espanta-me. Espanta-me essa esquerda. Essa esquerda faz-me lembrar aquela gente que acha que o Estado não tem nada que se meter na vida das pessoas. Espanta-me essa esquerda, pois, se o Estado não se pode financiar sem que os impostos sejam pagos; se os que pagam, pagam demais para compensar os que não pagam; se o insuficiente financiamento do Estado acaba sempre por prejudicar primeiro os mais fracos - como se pode defender, com tanta esquerda na voz, os que fogem aos impostos?
Dir-me-ão: ah, mas o actual nível de impostos é injusto, temos que resistir. Pois, até pode ser, mas sempre direi: primeiro, que seria mais justo equilibrar o orçamento por via dos impostos do que por via de cortes que seleccionam as vítimas por grupos (é assim que pensa a esquerda social-democrata e aparentada em todo o mundo); segundo, que defender o desrespeito pelas obrigações fiscais (defender os que fogem aos impostos) é defender um Estado enfraquecido, incompatível com um Estado social forte; terceiro, que os que fogem aos impostos encobertos no facto de nós não pedirmos factura não são, em geral, os mais penalizados por uma carga fiscal desequilibrada (se este for, de todo, o ponto).
Julgo que é uma medida de esquerda desincentivar a fuga aos impostos. Julgo que a esquerda faz mal em esquecer isso e embarcar no coro populista contra a mencionada medida. Estar contra o governo não pode justificar tudo.