23.2.13

o capuchinho vermelho e o lobo.

21:51

A questão não se me põe pessoalmente, porque não estarei dentro das fronteiras no dia das próximas manifestações contra a troika.
Mas vejo que a técnica de mobilização volta a ser a mesma de outros tempos: quem não for é um canalha, um vendido, provavelmente recebeu um envelope por baixo da mesa vindo do Gaspar. Ah, claro, e quem disser publicamente que não vai é um fascista, encapotado ou não.
Pois, olhem, revolucionários de trazer por casa: essa agitação toda faz um imenso favor ao Passos, ao Relvas, ao Gaspar e ao Portas. É que o renascer desse espírito de intolerância, essa tentativa de levarem a verdade no bolso, essa eterna tendência para tentarem meter o monopólio da mudança necessária no vosso bolsinho partidário ou grupal, dá sempre o mesmo resultado. E o resultado é este: muita gente acaba por ter mais medo do capuchinho vermelho do que do lobo.

22.2.13

maus exemplos.

17:23

"D. Januário Torgal Ferreira diz não ter elementos que contradigam as acusações de assédio sexual que recaem sobre D. Carlos Azevedo."

Suspeito que a campanha eleitoral (subterrânea, mas campanha eleitoral mesmo assim) para a eleição do próximo Papa explica o aparecimento agora de uma capa da Visão sobre a sexualidade do bispo Carlos Azevedo, incidindo sobre putativos factos que não são de todo recentes, segundo a própria informação da revista em causa. O bispo Carlos Azevedo, sendo muito próximo de um dos papabili, pode servir para atingir o seu "candidato" (para já não falar nas suas opiniões sobre a necessidade de um novo método de eleição do Papa, que, segundo declarações que terá proferido, não deveria caber apenas aos cardeais, mas às conferências episcopais, bispos, de todo o mundo).
De qualquer modo, aquela "reportagem" da Visão teve já efeitos notáveis. Um deles consiste em fazer confundir, na opinião pública, mais uma vez, homossexualidade com pedofilia, isco em que caíram alguns mata-frades mais apressados. Outro efeito notável, mas talvez mais raro, consistiu em dar a perceber melhor a finura do pensamento do bispo das forças armadas, Januário Torgal Ferreira, que, de uma penada, coloca de pernas para o ar um princípio básico de qualquer sistema judicial num estado de direito, quando sugere uma inaceitável inversão do ónus da prova. É que não interessa nada se o senhor bispo tem ou não tem "elementos que contradigam as acusações de assédio sexual que recaem sobre D. Carlos Azevedo"; o que interessa é se ele tem elementos de prova de algum crime ou acto censurável de alguém; se não tem, o que devia era, no mínimo, calar-se - mas, em todo o caso, o que nunca devia era colocar o ponto de esforço na necessidade de contradizer as acusações. As acusações é que têm de ser provadas, não é a respectiva contradição que tem de ser sustentada.
Claro, alguns acham que isto é coisa "de padres, eles que se entendam". Não acho: isto é mais um tijolo do apodrecimento da palavra no espaço público.

relvismo ao cubo.


Constato, sem grande surpresa, que alguns dos que dizem muito mal de Relvas fazem tudo o que podem para mostrar que têm tanta falta de cultura democrática como o próprio Relvas. Basta ver o furor "revolucionário" com que diabolizam toda a gente que discorde do tipo de boicotes que têm estado a ocorrer.

21.2.13

os equívocos dos boicotes.

14:59

Que pensar, enquanto democratas, dos boicotes às aparições dos ministros por esse país fora?
Como já escrevi antes, sou por princípio contra esses métodos, embora - assumo a contradição, que é uma contradição entre o lado emocional e o lado racional - às vezes nos falhe a determinação institucional e acabemos por sentir (sublinho: sentir) "toma que é para perceberes".
De qualquer modo, tendo eu expressado publicamente esse estado indesejável em que os princípios são abalados pela voragem da vida ("quem sabe do desespero dos outros?"), não posso agora fugir a acrescentar dois pontos à reflexão sobre os acontecimentos que se têm sucedido.
Em primeiro lugar, a justificação fácil de que "o Relvas é um bom alvo", quer dizer, o ministro Relvas não tem moral para andar por aí a pregar - é uma justificação que fica muito curta quando o procedimento se generaliza. Especificamente, quando o ministro da saúde, Paulo Macedo, também é boicotado, é claro que a justificação "moral" não pega. Pode não se concordar com nada do que ele tem feito, mas o seu perfil político e comportamental é de recorte bem diferente do que se pode imputar a Relvas. Fica à vista, assim, que a "desculpa Relvas" é curta: não resiste à qualidade do alvo. E não resiste à generalização, porque um acto isolado, espontâneo (?), uma fúria que foge ao nosso padrão democrático, pode ser explicada ou entendida - mas a repetição, a insistência, a adopção do boicote como método, é outra coisa e é condenável.
Em segundo lugar, cabe analisar a acusação de que esses boicotes "limitam a liberdade de expressão" do ministro atingido. Parece-me essa acusação perfeitamente disparatada: qualquer um dos ministros boicotados tem muitos meios e locais para apresentar todas as suas opiniões, de forma perfeitamente audível para os auditórios restritos que testemunharam os boicotes ou para auditórios mais vastos. Usar e abusar da acusação de "limitação da liberdade de expressão" é apenas um truque.
O que está em causa, a meu ver, é outra coisa: é o respeito pelos espaços institucionais e sociais de confronto de ideias. Uma canção, uma berraria, uma pateada, uma vaia, podem perfeitamente servir para incomodar, mas não servem para expor a força das ideias alternativas. Eu perceberia melhor se aproveitassem sessões públicas para dirigir, intempestivamente que fosse, perguntas incómodas aos ministros. Obrigar um ministro a responder - ou a exibir a não resposta - a uma pergunta significativa, a uma pergunta que mostre os silêncios da governação sobre aspectos gritantes da realidde, que exponha as contradições entre o pragrama e a prática do governo, que obrigue a pensar nos efeitos da governação e confronte os responsáveis. Acho que isso seria mais democrático, não constituiria nenhum ataque à pessoa do ministro (o que é, de facto, inaceitável), colocaria as questões no plano da cidadania (abrir espaços de debate que não respeitem o formato escolhido pelos governantes para falarem) e, suponho, seria compreendido mais favoralmente pelas pessoas que não querem que o seu desespero seja instrumentalizado como "campanha preparatória" para manifestações ou quaisquer outras acções, por muito legítimas que sejam.
Quando, em 1969, Alberto Martins, presidente da Associação Académica de Coimbra, se dirigiu ao presidente da república a pedir a palavra, em nome dos estudantes, numa sessão solene que não estava para ouvir os estudantes, provocou um efeito duradouro na história da resistencia à ditadura - mas esse efeito não se deveu a nenhuma agressividade no gesto (o seu pedido foi educadíssimo), antes se deveu ao seu sentido profundo e à sua justeza. Não seremos capazes de reinventar gestos de protesto mais claramente relevantes pelo seu conteúdo do que pela agressividade explícita que exibem?

20.2.13

uma lágrima pelos reservistas com mal usadas cautelas.

12:23

Uma simples frase batida explica os boicotes: a política tem horror ao vazio. Se nada preenche a falha, a falta de uma visão alternativa credível, abrangente e mobilizadora, as pessoas não aguentam ficar suspensas sobre o abismo da inevitabilidade do actual estado de coisas. Os políticos não podem pensar que têm o direito de apresentar propostas para sair daqui. O que eles têm é o dever de o fazer. O dever, não o direito. Apressem-se, porque isto é uma urgência. As reservas da República que não se deixem distrair: se pensarem demasiado sem agir, passarão directamente da reserva para o caixote do lixo da história. E os que mergulharem em sangue, suor e lágrimas (talvez em vão), farão o monumento à excessiva cautela politicamente criminosa.

19.2.13

a espuma dos dias que nos afoga.

19:36

Francamente acho uma pena que a oposição aos ministros mais apalhaçados deste governo tenha de passar por boicotes aos seus aparecimentos em público. Nunca pensei que a receita que os relvas deste país receitaram em períodos anteriores passasse tão rapidamente a ser-lhes aplicada. Mas, apesar de tudo isto me desgostar (sempre combati a política do ódio), começo a não ter forças intelectuais para me opor a esta guerrilha.
Por quê?
Porque esta guerrilha é, de facto, a resposta a uma agressão brutal a que estamos a ser submetidos. Já só podemos sonhar em sobreviver, parece ser o que nos repetem cada dia. Concretizar projectos pessoais, profissionais? Nem pensar; tudo comido pela voragem da limpeza em curso. A verdade é que o descaramento de alguns destes governantes é tão grande, a lata com que falam de um país que não existe ao mesmo tempo que parecem ignorar o país que realmente existe, esta guerra civil em curso tem sido tão promovida pelas constantes mentiras e hipocrisias da malta que nos governa, que falha a determinação para estar contra o boicote.
(Mas, claro, deve haver por aí quem me acuse de ser mais um privilegiado a tentar contrariar o impulso reformista destes estadistas.)

Face a tudo isto, há sempre os intelectuais de serviço ao comentário. Penso, neste momento, em particular, numa técnica de comentário aos boicotes, protestos e vaias a membros do governo que consiste em sugerir mais ou menos isto: "ah, essa malta que aparece nos protestos não estão nada desesperados com a situação, é tudo faz de conta e política".
Nem me dou ao trabalho de comparar essa conversa com a técnica salazarista de dizer "quem está contra é por ser comunista".
Apenas vos pergunto: quem sabe do desespero dos outros? Tal como se fala de "pobreza escondida", também se pode falar de "desespero escondido", sabem?
Há muito projecto de vida que anda por aí atirado para o canto, substituído por qualquer coisa como "sobreviver".
Projectos profissionais irremediavelmente assassinados por adiamentos fatais.
Pais que têm de prescindir de "gozar a reforma" e investir os seus tostões a ajudar os filhos aflitos. E avós a ajudar os pais dos seus netos.
Velhices douradas em perspectiva substituídas por dias de aperto e viagens até à janela.
"Empreendimentos" travados pelos dias de chumbo, pela incerteza, pelos parceiros retraídos, pelas contas apertadas.

Claro, os que fazem as contas ao desespero dos outros, os que dizem que os desesperados não fazem boicotes (também o "povo bom" antigamente não tugia), acham com toda a certeza que é melhor deixar de viajar do que deixar de comer, é melhor deixar de comprar livros do que deixar de comprar pão, é melhor deixar de ir ao teatro do que deixar de beber leite, é melhor deixar de ir ao cinema do que deixar de comer sopa. E, se calhar, também é melhor deixar de ir à universidade do que morrer de fome.

Estou farto desses que escrutinam com arrogância o desespero dos outros. E absolvem com tanta e irresponsável leviandade os que avançam sobre toda a folha sem qualquer consideração pelo desespero real que campeia. E é que campeia mesmo.

18.2.13

postal para os mais papistas que o papa.

16:15

Na sua crónica habitual de Domingo no Público, Frei Bento Domingues, O.P. ("O.P." quer dizer "Ordem dos Pregadores", mais conhecidos como Dominicanos), produziu ontem uma reflexão sobre a resignação de Bento XVI e sobre como deveria ser entendido o papado como parte dessa comunidade humana que é a Igreja Católica. Trata-se de um artigo com o título "Venha o novo Papa."

O autor usa palavras de Bento XVI para balizar a questão: em que devem pensar os eleitores quando se puserem a escolher o novo Papa. E as palavras são estas: "Procurar alguém que perceba o ritmo deste tempo de rápidas mudanças e seja capaz de identificar quais são as questões, de grande relevância para a vida da fé, no governo da barca de S. Pedro e no anúncio do Evangelho." Depois, além da questão "programática", coloca a questão das condições pessoais e institucionais para o exercício do cargo, escrevendo: "o Papa, bispo de Roma, não deveria poder ser escolhido por tempo indeterminado, nem ultrapassar a idade de 75 anos, aquela que está marcada para todos os bispos".

Temos, portanto, uma reflexão de dentro da Igreja que é feita em termos perfeitamente compreensíveis por uma pessoa não participante dessa mesma igreja, que é o meu caso. Acho saudável que, desde o lado de fora, se possa olhar para dentro dessa comunidade e compreender o que dizem os que estão a procurar uma saída para esta situação.

Entretanto, queria chamar a vossa atenção para a frase final deste texto de Frei Bento Domingues: "A Igreja não pode ser uma monarquia absolutista e vitalícia." Completamente de acordo. Pena que os mais papistas que o papa costumem tratar como vozes do diabo quem quer que diga - ou seja suspeito de dizer - isso que Frei Bento Domingues O.P. assim com meridiana clareza fez estampar nas páginas do Público.