17.3.12

o ministro informal para as privatizações está disposto a fazer tudo pela nação.

enigmas da nossa vida comum.

11:00

Porque é que os autores do blogue 31 da Armada, quando, a 10 de Agosto de 2009, subiram à varanda dos Paços do Concelho de Lisboa e hastearam a bandeira azul e branca, não restauraram a monarquia, como disseram ter feito, reclamando que foi precisamente com esse gesto que em 1910 foi proclamada a República?


Tem o leitor uma resposta pronta para aquela questão ali acima?
Não tem? Tem? Confronte a sua resposta, ou a sua ausência de resposta, com a minha.
Para isso, reproduzo os parágrafos 119, 120 e 126 do meu livro Podemos matar um sinal de trânsito? (Esfera do Caos).

***

119. A nossa mente anda pelo mundo, essa é a questão. Como diz Andy Clark, é preciso voltar a ligar cérebro, corpo e mundo. Dizemos nós: ligar matéria e pensamento na nossa história de pertença comum ao mundo.
Uma pessoa entra numa sala às escuras e quer ligar as luzes: o que tem a fazer é accionar o interruptor apropriado, que normalmente está colocado junto à entrada dessa sala. Como é que mudar a posição daquela lingueta naquela peça faz com que as luzes se acendam? Há toda uma preparação daquele recanto do mundo físico que é aquela sala, visando que aquele gesto tenha tal resultado. O circuito eléctrico que ali foi instalado permite que a corrente de electrões, ao passar pelo filamento de metal fino que está dentro da lâmpada, excite esse filamento de tal modo que é emitida a radiação intensa a que chamamos luz. O interruptor faz o que o seu nome indica: interrompe a corrente eléctrica, interrompe a excitação dos electrões e a libertação de fotões, evitando que “se faça luz”. Quando “ligamos a luz” no interruptor fazemos com que o interruptor deixe de interromper, fechamos (completamos) de novo o circuito e deixamos que aconteça o que estava preparado para que acontecesse. Essa preparação do mundo físico pode, em determinadas situações, colocar o interruptor a grande distância da lâmpada ou das lâmpadas que serão acesas.
É preciso notar o seguinte: modificar a posição da lingueta do interruptor, em si mesmo, não acende luz nenhuma. Nem apaga, claro. Parece estranho que se diga isto? Então, experimente ir a uma loja de material eléctrico, pegue num dos interruptores que estão lá à venda, accione-o: verá que não se acende luz nenhuma. Mesmo que esse interruptor seja igualzinho àquele com que acende as luzes da sala em sua casa. Isto quer dizer que accionar o interruptor, só por si, não acende as luzes. Accionar o interruptor só acende a luz se o interruptor estiver inserido numa certa organização de uma parte específica do mundo físico. Uma forma de falar do que aqui se passa é dizer que temos uma acção veicular e uma supra-acção. A supra-acção, aquilo que se pretende realmente que aconteça no mundo como resultado do que fazemos, é acender as luzes. A acção veicular, o que concretamente temos de fazer para que aconteça o que pretendemos, é mudar a posição da lingueta no interruptor. O que faz com que aquela acção veicule a supra-acção intencionada é uma certa organização do mundo físico externo naquele contexto (o funcionamento do circuito eléctrico). Note-se que não é preciso ser electricista, nem saber nada de electricidade, muito menos ter sido o técnico responsável por aquela instalação, para ser capaz de acender as luzes de acordo com todo este esquema – uma vez que ele tenha sido instalado por quem sabe, em mais uma manifestação da divisão social do trabalho.

120. Pensemos agora numa situação muito diferente. Um casamento. Mais precisamente, o casamento do Pedro e da Maria. Além dos noivos, estão presentes alguns amigos e certas pessoas que têm certos papéis específicos a desempenhar neste acto: testemunhas e (vamos supor que é um casamento católico) um padre, que (diz-se) é quem vai fazer o casamento. Como é que o padre casa o Pedro e a Maria? O padre diz certas palavras, previstas em certas disposições da igreja; pede aos noivos que digam certas palavras, também previstas nas fórmulas canónicas; executa um determinado conjunto de movimentos corporais (frequentemente combinados com palavras, como no caso daquilo a que se chama “bênção”), pedindo aos noivos que executem outros determinados movimentos; e depois declara que, pronto, estão casados. Aquele conjunto de movimentos e palavras, naquele formato, valeu, para aquelas pessoas ali presentes e para muitas outras que disso serão informadas daí para o futuro, como o ofício de casar Pedro e Maria.
Aquele conjunto de movimentos e palavras constitui a acção veicular que serve a supra-acção, que é o casamento daqueles noivos. Nesse sentido, aquelas palavras e gestos não casam ninguém: mexer no interruptor, só por si, não acende a luz. Aquele conjunto de movimentos, realizado por outras pessoas e noutras circunstâncias, poderia ser apenas uma encenação. Suponhamos que se tratava de um casamento muito importante, de um príncipe e uma princesa, por exemplo, e que a pressão para que tudo resultasse espectacular no momento da verdade, frente às câmaras, impunha um ensaio geral. No ensaio geral tudo é feito como no acto solene propriamente dito, salvo algumas interrupções para corrigir movimentos e palavras. Mesmo fazendo no ensaio geral tudo como será feito na verdadeira cerimónia, envolvendo os mesmos actores principais, o ensaio geral não é o casamento, das mesmas palavras e gestos não resultam os mesmos efeitos institucionais. Curiosamente, os ensaios gerais de certos acontecimentos sem este carácter institucional podem ser vistos de outra maneira: o ensaio geral de uma ópera, na véspera da estreia, não é a estreia – mas é a ópera. Pode ouvir-se a mesma música e o mesmo canto, sem tirar nem por, desta vez sem interrupções, sequer. Não é a estreia, porque “ser a estreia” é um efeito institucional; mas é a ópera, em todo o seu esplendor.
Temos, então, que aquele conjunto de gestos e palavras do casamento, realizado fora das circunstâncias apropriadas, pode ser uma mera encenação. Porque aquelas palavras e gestos não casam ninguém: mexer no interruptor, só por si, não acende a luz. Porque aquele conjunto de movimentos e palavras constitui apenas a acção veicular que serve a supra-acção, aquela que é verdadeiramente intencionada, que é o casamento daqueles noivos. Essa mera encenação pode acontecer numa cena de teatro onde se represente um casamento. No filme, de Manoel de Oliveira, “O Princípio da Incerteza” (2002), há uma cena de casamento. Um casamento católico. Naturalmente, na cena há um actor que representa o papel de um padre, o oficiante nessa cerimónia, e outros que representam os noivos, e outros ainda a assistência. Ninguém fica mais ou menos casado por ter participado como actor nessa cena. Contudo, um dos actores que representam essa cena é um padre. Mais precisamente, quem faz de padre nessa cena é realmente um padre, na vida real, fora do filme. Essa pessoa, que aí faz de padre, poderia casar aquelas pessoas noutras circunstâncias – mas do que se representa num filme não decorrem consequências desse tipo. Tudo o que se passou no filme é diferente de um verdadeiro casamento. A diferença não está em nenhum dos movimentos, em nenhuma das palavras, nem sequer nos poderes das pessoas envolvidas. A diferença está na preparação do mundo institucional que enquadra aquela acção. Daquele conjunto de pessoas no filme não se podia dizer que contassem com os mesmos aspectos externos que contavam os que participavam no casamento de Pedro e Maria. A diferença é o contexto institucional. A diferença é institucional.
Pode parecer que para fazer aquele casamento (dados os agentes que serão “objecto” do casamento) basta o padre, uma pessoa desempenhando um certo papel. O casamento parece um exercício de uma certa interacção directa entre certas pessoas, em que a supra-acção é realizada por uma única pessoa. Dá a ideia que as acções institucionais são acções envolvendo múltiplos agentes numa certa coordenação, mas em que a acção propriamente dita é realizada por um único agente. Esta é uma aparência enganadora. O paralelo com a inversão do interruptor para acender a luz esclarece o erro: o circuito eléctrico não está no local por acaso, nem pela ordem natural do mundo. Está no local porque outros agentes previamente prepararam o ambiente. Eles foram capazes de preparar assim o ambiente por antes terem aprendido como funcionam os circuitos eléctricos, e foi possível ensinar-lhes isso porque outros antes tinham descoberto como funciona a electricidade… e assim por diante. Pensar que basta accionar interruptores para fazer luz – é um exemplo da ilusão da interacção directa.

[...]

126. Mas este mundo onde podem acontecer coisas, em resultado das nossas acções, que de modo algum esperávamos que tivessem lugar (como no caso do caminho na relva), e onde podemos até certo ponto impor uma realidade institucional à realidade natural (como no caso da hora legal), é também um mundo que, noutras ocasiões, nos resiste. Um mundo onde não é fácil mudar as coisas. Atentemos neste caso. Na madrugada de 10 de Agosto de 2009, um grupo de membros do blogue 31 da Armada empreendeu uma “restauração da monarquia” em Portugal. O texto publicado nesse blogue pelas 15:00 horas desse dia rezava assim: “Daqui posto de comando do Movimento do 31 da Armada. Durante a madrugada de ontem, e apesar da forte vigilância policial, elementos do 31 da Armada (Darth Vaders) subiram heroicamente até à varanda dos Paços do Concelho [de Lisboa] e hastearam a bandeira azul e branca. Há 99 anos atrás, no dia 5 de Outubro, um punhado de homens, contra a vontade da maioria dos Portugueses, tinha feito a mesmíssima coisa proclamando assim a república. O resto do país ficou a saber por telegrama. Hoje, aproveitando as férias de verão e numa inédita acção de guerrilha ideológica, foi restaurada a legitimidade Monárquica. Podem permanecer calmos nas vossas casas: foi restaurada a Monarquia. E o país fica a saber pela internet. A acção foi devidamente filmada e o vídeo será disponibilizado ao final da tarde. É o contributo do 31 para as comemorações do centenário da república.”
Tratou-se, evidentemente, de uma bem sucedida acção de propaganda política – e, também, de publicidade ao blogue, que frequentemente agita as suas ideias com grande imaginação e brilho. De qualquer modo, não é para fazer publicidade aos ideais monárquicos que trago aqui este caso. Trago-o por ele ser uma oportunidade de aprendizagem do funcionamento do nosso mundo institucional. É claro que os autores da façanha sabiam o que estavam a fazer. Quando escreviam no blogue, numa comunicação posterior à acima citada, “Dizem-nos que a bandeira já foi retirada. Durante uma noite e uma manhã houve monarquia em Portugal”, sabiam, claro, que não tinha havido monarquia nenhuma durante aquelas horas que demoraram os serviços camarários a retirar a bandeira que fora de Portugal durante a monarquia. Segundo pude ler num espaço da Causa Monárquica, a acção foi elogiada por D. Duarte de Bragança, que disse estar com ela muito satisfeito. Parece que D. Duarte apenas queria apoiar o facto de a acção “reforçar o sentimento de patriotismo” e contribuir para a “divulgação do que é a história de Portugal”.
Só que, afinal, o que autoriza a pensar que a 5 de Outubro de 1910 a República foi proclamada com o hastear da bandeira naquele sítio e, agora, o hastear da bandeira do Portugal monárquico não restaura a monarquia? É que, quando Pedro e Maria foram casados por aquele sacerdote naquela circunstância, as outras pessoas (as que podiam interferir com esse facto) tinham sido mobilizadas para se comportarem de acordo com essa modificação do estatuto de Maria e Pedro. Se ninguém ligasse nenhuma ao que o padre, o Pedro e a Maria estavam a dizer e a fazer, e toda a gente continuasse a tratá-los como antes, e a ignorar quaisquer tentativas deles para se comportarem de maneira diferente em consequência daquele acto – não haveria casamento algum, como acontecimento dentro da sociedade. Seria como se Pedro e Maria e aquele sacerdote casamenteiro estivessem na cena do casamento no filme de Manoel de Oliveira: acabada a filmagem da cena, ninguém se comportava como se tivesse havido casamento. A 5 de Outubro de 1910 houve implantação da República, condensada naquele hastear da bandeira, não pelo hastear da bandeira como acto isolado, mas pelo vasto conjunto de acções que antecederam esse gesto – e, principalmente, pelos efeitos que teve no comportamento subsequente de milhões de pessoas. Nada disso se passou à volta do hastear da bandeira monárquica a 10 de Agosto de 2009 – e, por isso, não houve monarquia nenhuma durante essas horas.
Em boa verdade, tratou-se apenas de uma acção publicitária. Não chegou, sequer, a ser uma tentativa de falsificar uma restauração da monarquia.

***

Abordo muitos outros "enigmas" da nossa vida social e institucional, sempre com exemplos práticos apresentados de forma simples, neste livro:


16.3.12

um diagnóstico, não um projecto.


A filósofa Ana Paula Sena Belo escreveu um texto em que interroga alguns aspectos do meu livro “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”. Agradecido pelo interesse, prometi dar elementos para uma reflexão conjunta. Vou fazê-lo – mas, por hoje, para não me alongar demasiado, tocarei apenas uma das questões centrais suscitadas. Proximamente completarei esta minha fala deste diálogo.

A chave daquele aspecto do texto da Ana Paula que mais decididamente quero esclarecer é a sua afirmação de que eu apresento, com as sociedades artificiais – ou, mais precisamente, com a ideia de que as ciências do artificial pretendem “criar o novo verdadeiro”, “criar natureza”, “fabricar novas criaturas que desafiem a sofisticação das que encontramos na natureza” – a afirmação, dizia eu, de que apresento esse cenário como “uma visão de futuro a realizar”. Pois, não. Eu não proponho esse futuro como algo a realizar. Não é um projecto, não é uma orientação, não é uma proposta que eu apresente ou defenda. É um diagnóstico.
Aquilo a que chamo “sociedades artificiais” não é um cenário tecnológico: é um cenário humano, uma possibilidade que nos está sendo aberta como humanos. É um cenário social, uma forma de nos organizarmos colectivamente que está a tornar-se possível. Não defendo que aproveitemos todos os aspectos dessa possibilidade, não demonizo todas as possibilidades que esse cenário pode contar. A minha reflexão sobre sociedades artificiais não padece de nenhum determinismo tecnológico: não estamos condenados a usar todas as máquinas possíveis, nem as máquinas nos impõem certos usas delas mesmas. O que quero é que se perceba o que está a tornar-se possível, para que possamos decidir sabendo o que estamos a fazer. Podendo, queremos ter robôs a cuidar dos nossos velhos? A brincar com as nossas crianças? Queremos ter máquinas de julgar em vez de juízes e juízas? Queremos ter máquinas a substituir humanos em posições onde se afectam recursos escassos e vitais, como centros de alocação de recursos de emergência? Essas respostas vão depender de nós, porque o “sim” ou “não” vão ambos ser possíveis do ponto vista técnico e tecnológico.

Num texto recentemente publicado (revista Via Latina, edição em papel 2012), penso ter clarificado este ponto. Por isso, passo a citar:
Do que fica dito, respigando alguns momentos da história recente do Artificial, bem como algumas das interrogações que suscita, parece ser possível que as sociedades humanas venham a convergir para sociedades artificiais. Estão em marcha as experiências e as ideias que podem fazer isso. Podemos olhar para as máquinas como agentes. Podemos atribuir às máquinas os significados que são nossos – e deixar às máquinas a sua digestão. Podemos tornar-nos peças de máquinas computadoras. A questão que falta responder é: precisamos disso? É daí que virá a nossa realização como pessoas, em sociedades mais equitativas e mais livres? O sonho de que a sociedade se organize como uma grande máquina, a ideia de que somos todos um molho de máquinas mais ou menos bem reguladas e controladas, é um sonho velho. Nestes tempos de crise, onde parece que não somos capazes de nos organizar numa comunidade política, de fazer face ao mundo como grupo civilizado, aumentam as escapatórias. Uma das recorrentes vias de escape é a ilusão de que isso se fará tecnicamente, é o velho sonho da cibernética: a sociedade é uma máquina, tratemos de organizar o respetivo controlo, deixemo-nos tratar como peças dessa grande máquina, num esquema determinista que substitui a política e a democracia pela tecnicidade.
(…)
Saber se aceitamos esse horizonte é uma escolha de navegação. Aquilo que nos interessa quando falamos de sociedades artificiais está nos humanos: que o sentido do mundo não seja completamente soprado para longe das pessoas concretas, do que elas concretamente pensam e fazem umas com as outras. As sociedades artificiais não são uma fatalidade, são uma escolha. Viver ou não viver é sobre o nosso ser biológico. Navegar, navegar para onde, é acerca de como nos projetamos no que está para lá da nossa pele, no mundo. Querer ou não querer navegar rumo a sociedades artificiais é uma das escolhas em cima da mesa hoje.

Voltarei daqui a dias a outros aspectos da fala da filósofa.


rezas serranas.

12:09

Cristas diz que foi mais rápida do que Jaime Silva em 2005.

Não tenho agora tempo de me alongar, mas queria dizer apenas isto: ser oposição a sério deve ser uma canseira. Se o último ministro da agricultura de José Sócrates honrasse o lugar de deputado que agora ocupa na bancada do PS, estudaria os assuntos. Isso permitir-lhe-ia não ficar pela rama na desmontagem dos disparates da ministra, dar-lhe-ia condições para lembrar os dados, para fazer as perguntas que deviam ser feitas. Lamentavelmente, parece que o PCP e o BE se lembram melhor do que fez o ministro Jaime Silva do que António Serrano. O laxismo político que consiste em não conhecer a história política recente, ou preferir não a conhecer, é um cancro do PS que está a ser muito útil todos os dias a esta maioria. Assim, Cristas, se até agora rezava em lugar de fazer, qualquer dia até vai deixar de rezar... o PS rezará na sua vez. Piamente.
Temos direito a exigir aos deputados da nação, especialmente aqueles em quem votámos, que façam os TPC, ou não temos? Sim, porque não vale a pena andar a malhar no SG do PS, exigindo-lhe proezas oposicionistas que o momento talvez não aconselhe, se não alertarmos para estas quotidianas faltas de comparência que, dia a dia, são as verdadeiras falhas no necessário controlo parlamentar do Executivo. É que essa é, verdadeiramente, uma questão de regime.

15.3.12

pecados por atacado.

16:15

Gaspar trava pressão de Bruxelas para avançar com TGV ‘low cost’.

A Comissão Europeia não quer que Portugal deixe cair o projecto - e o dinheiro. Espanha não quer ser arrastada no disparate de deixar de fazer o que é preciso - e também não quer perder o dinheiro que está disponível para fazer, o qual é sempre importante em tempo de vacas magras. Então, o Presidente do Conselho em exercício, o ministro Gaspar, não quer a coisa por qual razão? Citemos: «Em Bruxelas, este responsável justifica as reticências do Governo com o "problema político" do TGV ter sido uma "ideia forte do anterior Executivo" e com o facto de, neste momento, ser "politicamente difícil explicar aos cidadãos a aposta numa obra desta envergadura".»
Dois pecados numa só penada: dar-se ao luxo de fazer opções políticas só para facilitar a propaganda contra o anterior governo; gastar na "austeridade" toda a força do verbo... e quanto ao resto encolher-se.

a galinha de Russell.


Bertrand Russell:

"E estas associações não se confinam ao homem; sabe-se que nos animais são também fortíssimas. Se acaso um cavalo, por exemplo, seguiu muitas vezes por um certo trâmite, ele opõe resistência a que o levem por outro. Os animais domésticos esperam comida quando vêem a pessoa que costuma dar-lha. Estas toscas expectativas de uniformidade, sabemo-lo bem, encontram-se sujeiras a decepção. O homem que regularmente alimenta o frango acaba um dia por lhe torcer o pescoço, mostrando quão útil seria ao frango o alçar-se a teorias de maior subtileza acerca das uniformidades do Universo. (...) Releva distinguir, por consequência, entre o facto de que as uniformidades passadas nos causam expectativas quanto ao futuro – e o problema de saber se há motivo razoável para atribuirmos valor às expectativas, desde o momento que se levantou a dúvida acerca da respectiva validade."
Bertrand Russel, in Os Problemas da Filosofia (1912), capítulo VI, sobre a indução

Pergunta: até que ponto o problema da incerteza forte (à la Frank Knight) deve ser entendido como um problema derivado do problema da indução?

percebem agora que "ser de esquerda" pode ser um rótulo inútil ?

14.3.12

escutai, oh gentes, escutai.

Clicando em cada uma das imagens navegará para mais informação sobre os eventos.








a propósito de criminalização da política...

14:15

... pergunto: quando um filho desvaria - por exemplo, quando um ainda adolescente comete um crime - o seu pai ou a sua mãe devem ser criminalmente responsabilizados por isso, a título de resultado da sua acção educadora?

É que, mutatis mutandis, é basicamente a mesma questão que está em causa na criminalização da política (criminalizar os maus resultados da acção política, coisa muito diferente de perseguir qualquer pessoa, político ou não, por actos que estejam previstos como crime nas leis).

o regedor da freguesia de Bruxelas.

11:21

Olli Rehn exclui CGTP de reunião com parceiros. O vice-presidente da Comissão Europeia excluiu a CGTP da reunião que irá realizar com os parceiros sociais, na quarta-feira à tarde.

Se isto é verdade, a Comissão Europeia ensandeceu de vez. O senhor Rehn, exposto à má influência de Barroso, até as "lições nórdicas" acerca do diálogo social já esqueceu. Não tenho de voltar a repetir que não preciso de nenhuma simpatia pela CGTP para escrever o que fica escrito acerca da "escolha dos parceiros" que o regedor da freguesia de Bruxelas vem fazer por cá.

(O facto de terem mudado os planos do Comissário, que vai receber a CGTP porque lhe fizeram notar que era excessivo o disparate de o não fazer, não retira um milímetro ao significado político das intenções iniciais.)

13.3.12

símbolos nacionais.


Cavaco Silva é tanto um símbolo da unidade nacional como "isto" é a bandeira de Portugal.



(Foto de Porfírio Silva)

o alarme público, o exagero, a razão. e o pecador arrependido?


“Gostaríamos de combater a ideia de alarme público”, diz António Barreto.
Com a criação deste portal [“Conhecer a Crise”, um portal de dados estatísticos que pretende fornecer um retrato actual e pormenorizado da realidade sócio-económica de Portugal], a fundação [Francisco Manuel dos Santos] pretende «contribuir para lutar contra alguns inimigos nossos. Um deles é o exagero, porque impede a razão. Gostaríamos de combater esta ideia de que há uma espécie de alarme público», reitera António Barreto.

Acho bem.
Só tenho pena é que, em "outros tempos", o tal alarme público tenha sido tão mesquinhamente usado para fins políticos imediatos. E António Barreto tenha sido, precisamente, um dos instrumentos desse "alarme público". Será que se arrependeu? Mais valeria tarde do que nunca.

"outra visão do mundo". sem dúvida.




Beja. Bispo apela à oração pelo fim da seca. Os agricultores têm mais esperança nos subsídios da comunidade europeia do que em Deus, lamenta António Vitalino.

Passo a citar:
«Noutros tempos já se teriam levantado súplicas ao céu a implorar a graça da chuva», mas agora, a população e os produtores agrícolas parecem acreditar mais «na previdência de Bruxelas» do que na «providência divina». «Algumas pessoas ainda falam da ajuda de São Pedro, mas parece que com pouca convicção», lamentou o prelado à agência Ecclesia. «Afinal as recomendações de Jesus no evangelho e de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima, pedindo oração e sacrifícios pela conversão dos pecadores e pela paz no mundo não encontram eco nos nossos ouvidos», adianta António Vitalino, ao constatar a pouca importância dada pelos católicos à Bíblia e à Virgem Maria.

Fonte. (12 de Março de 2012)


desigualdades e serviços públicos.

cálculos biliares.

12:15

Cavaco Silva consegue desiludir mesmo um tipo como eu que sempre o achou o representante específico do pior que há entre nós. E, ainda por cima, hipócrita. Consegue desiludir-me, porque julguei-o capaz de não estar sistematicamente a dizer e a fazer precisamente aquilo de que o país não precisa. Agora vem com este desenterrar extemporâneo da questiúncula com Sócrates pela (não) informação atempada acerca do PEC IV, que seria proposto a Bruxelas para tentar evitar que o país fosse lançado nos braços da "ajuda" externa.
Toco neste ponto para dizer duas coisas.

Primeiro, acho despropositado não reconhecer que Sócrates devia ter arranjado maneira de contar a coisa a Cavaco mais atempadamente. Num país normal, em condições normais, o PR tem de saber o que o governo está a fazer numa circunstância dessas. Claro que Cavaco citou mal a Constituição, fez interpretações abusivas acerca do facto (pressupondo que a delonga na informação é instantaneamente classificável como deslealdade) e fez-de de parvo acerca do que se estava a passar (Sócrates tinha razões para crer que Cavaco, quando soubesse, iria contar aos seus amigos políticos, provavelmente estragando o segredo necessário à concretização do plano). Claro que Cavaco esqueceu a sua própria atitude de continuada deslealdade para com o governo (o que, aliás, continua a ser a sua prática com o actual governo). De qualquer modo, não alinho com a tese de que Sócrates fez muito bem em não informar o PR. Sócrates terá tido, teve de certeza, razões para isso. As circunstâncias explicam o episódio, pelo menos em parte, aceito. Mas isso não justifica que se teorize, constitucionalmente e tudo, para dizer que é pão nosso de cada dia que o PR não saiba o que o governo está a propor de tão importante para o país num Conselho Europeu.

Dito isto, e vem o meu segundo ponto, mais uma vez Cavaco Silva mostra que tem uma visão da história e do país completamente centrada no seu pequeno umbigo. Muito mais importante para o nosso presente e próximo futuro é o facto de Passos Coelho, já então presidente do PSD, ter mentido (fazendo de conta que Sócrates não lhe tinha contado previamente do PEC IV) e ter usado essa mentira para "ir ao pote" e nos lançar a todos nesta triste desventura em que estamos. Se Cavaco fosse capaz, já não digo de olhar para o país e esquecer-se de si, mas pelo menos de se ver no quadro do país; se Cavaco fosse capaz de pensar a sua função como uma magistratura para o pais, o que ele teria lamentado no tal prefácio teria sido a sua incapacidade para promover um entendimento alargado que evitasse a crise política e mobilizasse o país para uma resposta justa aos desafios. A questão é que Cavaco não pensa assim, porque se pensa a si antes do país - além de que Cavaco, o campeão da deslealdade institucional, quer com o PS quer com o PSD, confunde os seus cálculos biliares com o cálculo do interesse comum.

por cá, o zé povinho não precisa.


Os ministros das Finanças da zona euro aceitaram ontem flexibilizar a meta para o défice da Espanha, de modo a ter em conta a degradação da situação económica.

«Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, causou a surpresa dos seus pares ao anunciar no início do mês um objectivo para o défice deste ano de 5,8% do PIB, em vez da meta de 4,4% assumida pelo anterior governo socialista.»

Já o nosso PM não causa surpresa nenhuma, passada a surpresa de termos percebido que a sua campanha eleitoral foi uma mentira pegada.

«Segundo Vítor Gaspar [continua o Público], a zona euro considerou que "o valor verdadeiramente importante e vinculativo" é a meta de 3% do PIB em 2013, sendo o resultado deste ano uma etapa intermédia.»

Já nós, valentões, não precisamos nem de mais tempo nem de mais dinheiro. As pessoas que apertem o cinto, que faz bem à figura; as empresas, que se tornem capazes de pressionar o governo para terem umas prendas tipo Lusoponte. Isto é: o zé povinho que se habitue à normalidade dos cortes extraordinários; os tubarões, façam pela vida e encontrem umas compensações extraordinárias. Só é pena que não haja pacotes de milhões de euros para todos.

12.3.12

aniversários do catano.


Passo a citar:
Faz hoje também um ano que Passos foi a S. Bento pela calada da noite falar com Sócrates a respeito do PEC IV. Saiu de lá com a decisão de viabilizar as medidas na defesa do interesse nacional, mas foi obrigado a mudar de opinião logo de seguida com a ameaça de ser a sua cabeça a rolar. O cocktail de “política de verdade” com “transparência com sabor a laranja” meteu Relvas a espalhar que Sócrates tinha apenas feito um lacónico telefonema para Passos e que nada tinha sido apresentado ao PSD e muito menos discutido previamente ao anúncio das medidas que se iam levar a Bruxelas para recolher aprovação europeia. Só em meados de Abril, depois do Governo ter caído e a maior operação de engano do eleitorado em Portugal estar em curso, é que Passos admitiu que o encontro aconteceu. De Sócrates, nunca se ouviu uma palavra sobre o episódio até hoje.

Daqui.

Crato não pode continuar a ser Ministro da Educação de um país civilizado.

17:06

O Ministro Crato é publicamente acusado de mentir. A acusação é baseada em factos: invocou um relatório para suportar afirmações suas quando o relatório não continha matéria para tal. Das duas uma: ou Crato mentiu mesmo, quer dizer, afirmou o que sabia não ser verdade; ou Crato não sabe ler, e/ou está assessorado por gente que não sabe ler. Em qualquer dos casos, Crato não pode continuar a ser Ministro da Educação de um país civilizado.

A mentira de Nuno Crato sobre a auditoria à Parque Escolar.

14:39

Daniel Oliveira, que nem é socrático nem nada (excertos):

«O PSD sempre foi, por preconceito ideológico, contra a renovação do parque escolar público. (...) se há investimento público que defendo, e que me parece óbvio ser económica e socialmente reprodutivo, é o que foi aplicado na renovação das escolas públicas, muitas delas sem obras há mais de cinquenta anos. Para além dos efeitos económicos e descentralizados deste tipo de obra (mais de 9.000 postos de trabalho, mais de 2.700 empresas envolvidas), a boa qualidade das instalações trava a degradação do ambiente nas escolas, melhora o desempenho de docentes e alunos, devolve a autoestima a toda a comunidade escolar e, mais importante, segura a classe média no ensino público, condição fundamental para garantir a qualidade de ensino e impedir a criação guetos sociais nas escolas.»

«Mas chegou, finalmente, o relatório da auditoria à Parque Escolar pedido pelo governo e elaborado pela Inspeção Geral de Finanças (IGF). As primeiras informações dadas por Nuno Crato à Assembleia da República, e repetidas acriticamente pela comunicação social, foram estas: "houve uma subida de custos muito grande". E precisou: a derrapagem de custo por escola intervencionada seria de 447%. Número brutal que Crato garantia estar no relatório. Mas uma mentira descarada que nos esclarece sobre a relação muito livre que este matemático parece ter com os números. Fosse um teste, e chumbava clamorosamente. Assim como os jornais que compraram os fantasiosos números como verdade indiscutível.
Quando finalmente tivemos acesso ao relatório o desvio era, afinal, de 66% de investimento por escola (está, preto no branco, no relatório em causa) que, segundo a IGF, "foi essencialmente devido ao aumento de área de construção por escola". O investimento médio por aluno aumentou 9,4% e o investimento médio por m2 aumentou 3,1% em relação ao inicialmente previsto (à frente se verá de onde vem então aumento da área de construção).
A derrapagem de custos das obras em relação ao valor contratado variou, nas escolas analisadas pela IGF, entre os 0,6% e os 6,7%. Em termos globais, os custos foram 70% superiores à estimativa de 2008. Caso todas as 332 escolas previstas fossem renovadas, mantendo exatamente os mesmos procedimentos, o desvio seria de 84%. Estimativa que a Parque Escolar contestou, por considerar, e parece-me que bem, se meramente teórica. Seja como for, tudo isto está a léguas dos 447% de que falou Nuno Crato, julgando que ninguém se daria ao trabalho de ler o relatório.»

«O desvio explica-se, antes de mais, com a alteração da escolaridade obrigatória, em 2009, que obrigou a um aumento da área média de construção por escola em 61%, já que a média de alunos previstos por escola passou de 800 para 1.230 alunos, um aumento de 52% em relação ao que se esperava em 2008. E esta é a principal razão apontada pelo relatório para o desvio financeiro a que se assistiu. Mas há mais: a mudança de legislação, por imposição comunitária, em matéria energética e ambiental, representaram um sobrecusto entre 15% a 25% no total das empreitadas. E a um esforço energético duas a três vezes superior ao anterior, o que é preocupante e, contra o qual, a Parque Escolar já terá feito várias propostas. O relatório refere ainda outras alterações educativas exteriores à Parque Escolar (PE), como a reorganização da rede escolar, o ensino com um único turno, a diminuição de número de alunos por turma, o reforço do ensino profissional e o desdobramento das turmas em disciplinas experimentais. Além da PE ter passado a garantir fornecimento de mobiliário, concretização do Plano Tecnológico nas escolas intervencionadas e instalações provisórias para as escolas durante as obras. Ou seja, se retirarmos os factores externos à Parque Escolar, os desvios são muitíssimo inferiores aos que aqui referi e até certo ponto justificáveis em obras de renovação que contam, como todos sabem, com mais imponderáveis que uma obra de raiz.»

«No entanto, lê-se no relatório [da Inspeção Geral de Finanças], o custo de construção média, por m2, "é significativamente inferior ao verificado em quaisquer países europeus versados no estudo, bem como no Dubai e na Austrália". Ou seja: mais m2 por aluno, menos custo por m2. Por fim, a conclusão sobre os ajustes diretos e a relação com as empresas fornecedoras: "Não foram detetadas ilegalidades na adjudicação das empreitadas e na aquisição de bens e serviços abrangidos pela amostra selecionada"

«Com este relatório, e esclarecidas as dúvidas levantadas por Nuno Crato, espera-se que as obras sejam retomadas. A auditoria foi feita por uma estrutura insuspeita do Estado. Estamos todos elucidados, apesar da vergonhosa tentativa de Nuno Crato nos atirar areia para os olhos. Agora é ser consequente e deixar de procurar desculpas para não assumir a verdadeira razão da suspensão destas obras.»

Texto integral aqui. A ler absolutamente.

(Mas, claro, isto não inibe a continuação da propagação do erro.)

democracia electrónica.

14:27

A secção "Cartas à Directora" do Público publica cada dia o seguinte esclarecimento: "As cartas destinadas a esta secção devem indicar o nome e a morada do autor, bem como um número telefónico de contacto." Prudência elementar.
Não obstante, logo ao lado temos uma espécie de secção associada, a dos "comentários online". Hoje aparece lá o seguinte, que reproduzo já com título e tudo: "PR pede fiscalização do crime de enriquecimento ilícito. Todos os políticos vão tentar boicotar esta lei, que nunca será aplicada. Em qualquer país decente há muito que estaria em vigor sem qualquer problema." Este comentário é "assinado": Anónimo, Mafra.
Quer dizer: para ir pelas cartas à Directora é preciso identificar-se e ser contactável; para ir pelos comentários, pode ser-se anónimo à vontade - e, apesar disso, ou precisamente por isso, pode ser-se ignorante à vontade, dizer disparates à vontade, imputar vícios aos "políticos" indiscriminadamente, simplificar demagogicamente problemas que são complexos e graves. Tudo isso sem que quem quer que seja possa pelo menos saber quem foi o autor do dislate.
Deve ser a isto que chamam democracia electrónica. O reino da estupidez emplumada.

neste dia de 1867 nasceu Raul Brandão.




A escota range no moitão e a grande vela triangular sobe, debate-se, enche-se de vento. A catraia mete a borda. Uma hesitação na marcha e logo nos entranhamos na agitação infinita, na noite infinita. À luz da lanterna remexem sombras indecisas. São os homens que se deitam nos bancos ou no fundo do cavername entre os baldes, os batedores, e o grande cabo do mar de oitenta braças, que serve para largar o ancorote quando a barra se fecha à entrada. Só o arrais continua agarrado ao leme, de olhos fixos na agulha de marear. Chego-me mais para ele... Água negra, respiração negra. Um frémito de vida, uma humidade que se cola à boca e às mãos, e a escuridão, mas a escuridão como um ser imenso que não distingo e de que sinto o contacto – um fôlego cego e vivo que remexe lá ao longe, cheio de mistério, de u – u – u desordenado e que desaba em montanhas e salpicos amargos. Vem até mim. Rodeia-me. Quase lhe vejo as mãos enormes. Escuto o negrume cheio de rumores, de vozes, de sombras movediças, que se debruçam para nós como um che... che... mais alto, mais baixo, que não cessa. Um grito parece vir de muito longe, da vida monstruosa e profunda em que me entranho. Mas já me não mete medo o mar. O lampião ilumina a cara do arrais, rude e grave, serena. E a meu lado a água escorrega no costado, chape-que-chape, sempre com o mesmo ruído monótono que adormece e embala.

Raul Brandão, Os Pescadores (1923)




via latina.


A edição 2012 em papel da Via Latina, uma revista cheia de história, inclui um texto meu, intitulado (por inspiração do tema geral) "Navegar em sociedades artificiais, é preciso?". Toda a revista está magnificamente editada, entre outras coisas com um grafismo exuberante e ilustrações poderosas e originais.
A ilustração do meu texto é da autoria de Julien Pacaud, cujos trabalhos se podem apreciar aqui. Deixo um exemplo da sua arte.