24.5.08

é urgente qualificar os partidos

12:09

A propósito do Debate com os quatro candidatos à liderança social-democrata, ontem na TVI, e da pobreza de ideias que por lá campeou, repito o que escrevi antes: é urgente qualificar os partidos.


James Christensen, The Listener


A vida política portuguesa, como a de muitas outras democracias representativas, funciona mas tem debilidades estruturais sérias. Em minha opinião, essas debilidades estruturais explicam-se por um traço comum a muitos outros domínios da vida pública naciona: as instituições são fracas.


O que quero dizer com isto é que há, por todo o lado na nossa vida pública, instituições que deveriam cumprir certos e determinados papéis mas não têm os meios necessários, ou estão mal organizadas para o que deveriam, ou passam o tempo a cumprir tarefas menores em lugar de se concentrarem na sua missão central.

Um exemplo: quando um professor universitário passa grande parte dos seus dias em tarefas burocrático-organizativas, porque elas são necessárias às suas iniciativas fora-da-rotina e não há ninguém que as possa executar com fiabilidade, está a gastar tempo pago a "x à peça" numa tarefa que devia ser executada por alguém pago a "x/3 à peça". Esse é um sinal, mesquinho mas muito concreto, de fraqueza das instituições. Como demasiados polícias a preencher papéis. Ou autoridades inspectivas a fazer cumprir regulamentações obsoletas ou descabelhadas, que deveriam ser poupadas a montante por boa legislação em vez de legislação "por atacado".


Ora, a debilidade das instituições, sinal de um sociedade mal organizada, neste caso acompanhada por um Estado fraco que parece que ninguém quer que funcione, essa debilidade das instituições é muito visível também nos partidos políticos.


Só isto: para um partido fazer boa oposição, responsável e sã para o país, precisa de boa informação. Para poder concentrar-se nos assuntos importantes, em vez de se entreter com tolices baratas que chamam a atenção da comunicação social mas nada interessam ao futuro. Para um partido fazer boas propostas, tem de ter quem estude alternativas, quem alimente o debate, quem analise. Para um partido poder fazer promessas realistas em campanha eleitoral, e poder depois cumprir essas promessas sem prejudicar o país, precisa de meios para se preparar, para consultar os melhores, para estar informado do que se passa cá e do que se passa no mundo. E os partidos não devem estar dependentes dos seus amigos espalhados na administração para aceder a essa informação e a esses estudos. Mas, em Portugal, esse exercício é muito débil, inexistente quase.


Assim, se é preciso investir na qualidade da democracia portuguesa, é preciso investir na qualidade dos partidos como instituições capazes de criar alternativas de governação. A minha proposta é simples - e nem sequer é original (imita o modelo alemão). O Estado deve financiar, fortemente e sem dependência de calendários eleitorais, a criação e manutenção de um conjunto de fundações. Essas fundações teriam obrigatoriamente como objecto o estudo dos temas de política geral e das principais políticas públicas pertinentes para a governação. Seria apoiada uma fundação ligada a cada uma das principais correntes de opinião partidária representativas em Portugal (PS, PSD, PCP, CDS, BE). O partido do governo (no momento) teria também a sua, para não depender da espreitadela aos dossiers governamentais para se ilustrar. E todos os partidos da oposição teriam os meios para falar melhor, com mais credibilidade, dos verdadeiros problemas. Quanto mais não seja para não terem de "inventar" temas de oposição.


Aos muitos que clamariam contra "mais dinheiro para os partidos", nem chego a tentar responder. Não percebem o preço da barbárie.


23.5.08

somos todos prisioneiros


PS desdramatiza divulgação de voos que passaram por Portugal de e para Guantánamo .

Sempre pensei que uma das coisas que distinguia (na prática, não necessariamente em teoria) a direita da esquerda era a "razão de Estado": a direita mais disposta a opô-la aos direitos individuais, a esquerda mais "idealista" e menos atreita a fechar os olhos. Se, como parece, este governo e o PS se tornaram demasiado crédulos na "razão de Estado", e se isso ainda por cima implicar conivências com ilegalidades, temos um problema. Apesar de "o povo" não comer desses assuntos (fui hoje ao cabeleireiro à hora dos telejornais e ouvi os comentários), isso afecta - ou deveria afectar - este governo e o PS. Ou não?

21.5.08

os excessos do fisco e a alma nacional


[Fisco coloca à venda prédios por dívida de 236 euros.]

Como é que se passa de uma cultura dominante de laxismo para uma cultura de rigor?
Não duvido de que o nosso país reage mal à mínima ideia de ordem como respeito pelas regras estabelecidas. O país prefere ter leis e ignorar que elas existem e ignorar o desrespeito por elas. E isso tem de ser mudado e em alguns aspectos está a ser mudado. Mas será necessário passar às acções ridículas, como a descrita na notícia, para fazer isso? É que eu até concordo que, como não vamos lá por respeito intrínseco pelos outros, temos de ir lá constrangidos. Provocar o receio das consequências de prevaricar é uma das ferramentas da criação de uma ordem comum benéfica para todos. A impunidade tem de desaparecer. Mas, pergunto-me, tomar acções ridículas nesse percurso não prejudicará o próprio objectivo?

estado actual da corrida da senhora Clinton

20.5.08

The Trap: What Happened to Our Dream of Freedom, Episódio 1



The Trap: What Happened to Our Dream of Freedom é um documentário de Adam Curtis que passou pela primeira vez na BBC em Março de 2007. O documentário faz uma viagem por algumas ideias "bizarras" (embora muito "científicas") que estão presentes em ferramentas muito aceites como úteis para pensar a sociedade dos humanos. Trata-se, por exemplo, de reflectir sobre a "teoria dos jogos" como modelo da natureza humana em sociedade.
O documentário passou em três sessões de cerca de 60 minutos cada. Vamos aqui colocar, um de cada vez, esses três episódios (cada um dividido em 6 peças de cerca de 10 minutos cada). A publicação de cada episódio incluirá uma "introdução" ao mesmo, editada a partir daqui.

Vamos fazer isto espaçadamente, porque sabemos que os nossos leitores têm mais que fazer do que passar horas frente a este blogue - mas vale a pena, com calma, ir vendo este programa.


Primeiro episódio: "Fuck You Buddy"



Neste episódio é analisado o aparecimento da Teoria dos Jogos durante a Guerra Fria e a maneira como os seus modelos matemáticos do comportamento humano se infiltraram no pensamento económico. O programa traça a evolução da Teoria dos Jogos, com especial referência para o trabalho de John Nash, que acreditava que todos os seres humanos são criaturas egoístas e desconfiadas que se comportam constantemente de forma estratégica em relação aos outros. Nash, Nobel da Economia, inventou “jogos” baseados nas suas crenças sobre o comportamento humano, incluindo um chamado "So Long Sucker – Fuck You Buddy”, em que a única maneira de ganhar era traindo o seu parceiro de jogo (sendo daí que vem o título do episódio.

O que não era conhecida à época era que Nash sofria de esquizofrenia paranóide, sendo profundamente desconfiado de todos os que o rodeavam e estando convencido de que muitos estavam envolvidos em conspirações contra ele. Foi essa crença errada acerca das pessoas em geral que forneceu a base para as suas teorias.

O episódio analisa o modo como a Teoria dos Jogos foi utilizada para conceber a estratégia nuclear americana durante a Guerra Fria. É examinada a ideia de que o holocausto nuclear foi evitado pela existência do enorme arsenal nuclear americano (dissuasão).

Outra vertente deste episódio assenta numa entrevista com R.D. Laing, psiquiatra que modelou interacções familiares utilizando a Teoria dos Jogos. A sua conclusão foi que os seres humanos são intrinsecamente egoístas e astutos e estão sempre espontaneamente a gerar estratagemas nas interacções diárias. As teorias de Laing evoluíram para a ideia de que algumas formas de doença mental são meramente artificiais, etiquetas utilizadas pelo Estado para reprimir o sofrimento individual. Esta convicção tornou-se um item da contracultura durante a década de 1960. É feita referência à experiência Rosenhan, na qual falsos doentes se apresentavam numa série de instituições psiquiátricas americanas, tendo-lhes sido erroneamente diagnosticados transtornos mentais - enquanto instituições informadas que estavam a receber falsos doentes "identificaram" inúmeros supostos impostores que eram realmente verdadeiros doentes. Os resultados da experiência foram um desastre para a psiquiatria americana, porque destruíram a ideia dos psiquiatras como uma elite capaz de diagnosticar e tratar doenças mentais.

Todas estas teorias foram vistas como apoiando a crença de economistas, como Friedrich von Hayek, cujos modelos económicos não deixam nenhuma margem para o altruísmo e assentam exclusivamente no interesse próprio, um movimento que levou à formação da teoria da escolha pública. Numa entrevista, o economista James M. Buchanan procura desacreditar a noção de "interesse público", considerando que o “interesse público” não passa de um disfarce para o mero interesse próprio dos burocratas. Buchanan propõe também que as organizações devem empregar gestores que estejam motivados apenas por dinheiro. Ele descreve aqueles que são motivadas por outros factores, tais como a satisfação profissional ou um sentido do dever público, como "zelotes".

Da década de 1960 para a de 1970, as teorias da Laing e os modelos de Nash começam a convergir, produzindo teorias de que o Estado é simplesmente um mecanismo de controlo social que mantido de forma calculista fora do alcance das mãos do povo. O episódio mostra como estas teorias abriram caminho a teorias de desmantelamento do Estado como as seguidas por Margaret Thatcher.

O episódio sugerindo que esta sociedade, concebida segundo modelos matemáticos e de acordo com a crença no egoísmo humano, criou uma "jaula" para os seres humanos ocidentais. A natureza dessa "jaula" fica para o próximo episódio.





The Trap #1 - F&#k You Buddy (part 1 of 6)





The Trap #1 - F&#k You Buddy (part 2 of 6)





The Trap #1 - F&#k You Buddy (part 3 of 6)





The Trap #1 - F&#k You Buddy (part 4 of 6)





The Trap #1 - F&#k You Buddy (part 5 of 6)





The Trap #1 - F&#k You Buddy (part 6 of 6)