9.5.08

2008, Ano Europeu do Diálogo Intercultural

09:06



O Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia, por proposta da Comissão Europeia, estabeleceram 2008 como o Ano Europeu do Diálogo Intercultural (AEDI).

Um lema representa bem, quer a própria UE, quer o AEDI: "Juntos na Diversidade" ou "Unidos na Diversidade". É que a própria UE é um mosaico de diferentes culturas, línguas, tradições, sistemas jurídicos - mas continua a tentar construir uma forma relativamente original de convivência num espaço onde coexistem uns 500 milhões de cidadãos. E, por isso, não nos é estranho que a UE seja, além disso, um espaço de cruzamentos de pessoas que vêm de outras partes do mundo. Uma parte das ferramentas que precisamos para lidar com a diversidade cultural que nos vem de fora é constituída por ferramentas que também precisamos para lidar com a diversidade que temos cá dentro.

O caso é que a forma de lidar com esta diversidade não é principalmente uma questão teórica no panteão dos temas esotéricos que tantas vezes povoam o "discurso europeu". Ela tem implicações práticas para milhões de pessoas. Basta pensarmos na concretude da vida de muitos milhões de migrantes. E, por esse lado, alguns dos tópicos que estão em consideração neste Ano são de relevância concreta: minorias, multilinguismo, religião, educação, trabalho.

Mas convém que, quanto ao diálogo intercultural, não renunciemos a enunciar claramente alguns princípios inalienáveis. Por exemplo, que a diversidade não pode ser justificação para o relativismo. A UE assenta em "valores comuns" e não no relativismo. E essa ideia de uma comunidade de valores até deu origem a um conceito vagamente jurídico, ou político-jurídico, muitas vezes invocado quando as negociações legislativas a nível comunitário chegam às grandes encruzilhadas: o das "tradições constitucionais comuns" dos Estados Membros. Nem sempre se consegue apurar de forma simples e directa quais são as fronteiras dessas "tradições constitucionais comuns", mas o princípio importa à ideia de que os valores comuns não estão à venda a troca de qualquer facilitismo relativista.

Contudo, e por outro lado, se os valores comuns fundam uma certa identidade a que não podemos renunciar, não podemos fazer da identidade uma arma de guerra. Apesar de o passado nos constituir sempre, até certo ponto, no que somos e não sabemos deixar de ser, acredito menos na identidade virada para o passado do que na identidade virada para o futuro, construída no desejo de construir um destino comum. Mas, mesmo assim, e isso define um princípio de abertura, porque nós também somos capazes de mudar e de acolher no outro valores que não eram nossos no passado, o que nos deve guiar é a vontade de um destino comum com os outros humanos que vivem no mesmo espaço que nós.

É preciso, mesmo assim, não nos deixarmos enredar nas armadilhas dos falsos profetas da tolerância. Devemos ser tolerantes com certas opções diferentes das nossas, mas devemos ser firmementes intolerantes com outras opções que são radicalmente estranhas a valores constitutivos da nossa forma de estar no mundo. Algumas pessoas vêm das suas terras distantes até à Europa também para poderem usufruir dos nossos valores e se protegerem dos valores das suas comunidades de origem. E não podemos defraudar essas pessoas com uma "tolerância" deslocada. A Europa dos Direitos Humanos não pode renunciar a eles em nome de qualquer tolerância relativista.

A Europa não é vítima do mundo. Alguns por vezes falam como se o diálogo intercultural fosse uma resposta a um problema importado. E esses apontam o dedo, por exemplo, aos imigrantes. Mas estão errados. A Europa tem uma história carregada de intolerância. Por exemplo, cristãos contra judeus. Ou, entre cristãos, católicos e protestante opondo-se uns aos outros. Por isso, não é "por causa dos outros" que este assunto é importante para os europeus. Ele é importante para nós por causa dos nossos próprios fantasmas - e das realidades presentes que podem ressuscitar tais fantasmas.

(Este apontamento serve de comemoração do Dia da Europa, neste 9 de Maio. E vem a propósito da minha participação, ao lado da Alta Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural, Dra. Rosário Farmhouse, e do Embaixador de Cabo Verde, Dr. Arnaldo Andrade Ramos, num colóquio organizado pela Câmara Municipal da Amadora no âmbito de uma série de iniciativas da Semana da Europa nesse Município.)


[Promulgação do Tratado de Lisboa por Cavaco Silva marca Dia da Europa]

8.5.08

eu estou n' A Missão


Estas coisas acontecem. Entrei numa "espécie de concurso de fotografia" promovido pela Canon.
Participo com uma foto, na categoria Macro, intitulada "estavas despindo o vestido que levaste à festa".
A dita cuja pode ser visualizada aqui .

Se, além de verem a foto, gostarem dela o suficiente para lhe darem um voto, sintam-se à vontade para o efeito. Para isso, terão de registar-se: mas não dói nada e é rápido. E permite votar na minha foto ou em qualquer outra que vos agrade mais !

Se acharem francamente má a foto, não digam nada a ninguém... Mas, se entenderem que vale a pena vê-la, sempre podem fazer saber tal coisa.

7.5.08

por Don Carlos, Infante de Espanha, voltar à Cornucópia




Entre dois espectáculos de Pina Bausch, entre Nefés e Masurca Fogo, saltando Café Müller, voltamos ao terreno em que verdadeiramente nos sentimos. Ao teatro. Especificamente, ao Teatro da Cornucópia. Como todos os meus amigos sabem (quem não sabe isso de mim, não me conhece realmente), a companhia em que pontifica Luis Miguel Cintra preenche, sem os perigos das revoluções que também dela se alimentam, a minha fome de metafísica.

Desta vez é Don Carlos, Infante de Espanha, de Friedrich Schiller (1759-1805), tra(du)zido directamente do alemão e poeticamente recriado por Frederico Lourenço, que nos é dado ver. A história (pouco preocupada com a exactidão histórica) de um rei que é o imperador do mundo (dos juntos impérios de Portugal e de Espanha), mas que é servo do seu séquito: do seu séquito de ministros e outros ajudantes de governar, e do seu séquito de inclinações pessoais.
Não costumo aqui fazer grandes apreciações aos espectáculos da Cornucópia, até porque fico sempre um pouco cego e embotado no espírito crítico quando lá vou, tamanho é o gozo que lá me permito. Mas sempre direi que, desta feita, até actores ou actrizes que às vezes me parecem menos densos(as) a interpretar, me surgem capazes de um sopro que nos faz crer que são verdadeiramente as suas personagens. Por outro lado, apreciando habitualmente as encenações que lá nos propõem, noto desta vez um uso mais refinado, e mais poderoso, do silêncio em cena. Há um ou dois momentos em que se prepara, e depois se serve fervente, um silêncio de cortar a noite naquela sala despida e tão cheia.

Escreve Cintra na introdução ao programa, comparando outros tempos (os da peça) com os nossos tempos: "Este teatro tem outra grandeza e inventa almas. Sem mesquinhez. Almas grandes como nunca vimos mas queríamos ser. Fala-se do bem e do mal. Nós já só conhecemos a indiferença mascarada de tolerância." (ênfase nosso.)

Indispensável.


4.5.08

"Ontologia e Epistemologia. Pensar o Realismo"


A terceira conferência do Ciclo "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais" terá lugar amanhã, segunda-feira, 5 de Maio, pelas 17:30. Intitulada "Ontologia e Epistemologia. Pensar o Realismo", será proferida por João Paulo Monteiro, Professor Catedrático Aposentado da Universidade de S. Paulo. Actualmente investigador do Instituto de Filosofia da Linguagem (Universidade Nova de Lisboa), foi Professor Catedrático Convidado da Universidade de Lisboa.

A conferência terá lugar no Anfiteatro do Complexo Interdisciplinar, Instituto Superior Técnico (campus da Alameda). Mais informação sobre localização aqui.

Mais informações sobre esta conferência, incluindo uma antevisão do conteúdo, aqui .


Enquadramento da conferência
"Ontologia e Epistemologia. Pensar o Realismo"



Porque é que a reflexão filosófica em questões de ontologia e de epistemologia pode interessar às ciências da computação e, também, aos engenheiros que trabalham com robots e "sociedades artificiais"? Porque é que esta conferência pode ser um exercício de diálogo entre filosofia e engenharia?

O projecto de sistemas computacionais envolve um domínio de problemas designado por “ontologia”, respeitante à estrutura representacional do sistema, incluindo questões como: que entidades são representadas, que relações existem entre elas, como é que elas apontam para o mundo dos utilizadores. Por exemplo, na fase de projecto de um software de gestão do sistema de reservas de um hotel, os informáticos e a direcção do hotel poderão discutir as consequências de fazer com que uma reserva seja considerada uma característica de um quarto, de um dia ou de uma pessoa. Esta actividade de “projectar uma ontologia” para um sistema computacional traduz certos “compromissos ontológicos” por parte do projectista – os quais, mais tarde, podem revelar-se diferentes ou mesmo conflituais com as expectativas do utilizador.

A questão da ontologia – “o que existe” – pode ser relacionada com a questão da epistemologia: “o que sabemos” ou “o que podemos saber”. E, aí, mais uma vez, a questão pode interessar ao projectista de sistemas computacionais. Por exemplo, nesta forma: o que supomos que o utilizador sabe “do que existe” para o sistema quando interage com ele? Se uma loja de livros on-line assumir que um cliente “sabe o que quer” quando vai fazer compras, não se esforçará por promover títulos específicos a clientes específicos. Contudo, sabemos que há sofisticados sistemas de “recomendação” que, com base no histórico de interesses de um indivíduo e na sua relação com certos perfis, dirigem a atenção do cliente para títulos que, de outro modo, lhe passariam despercebidos. Quer dizer, o “conhecimento do utilizador” não se pressupõe completo: procura-se orientar a sua construção.

As questões da ontologia e da epistemologia são também questões clássicas da filosofia. Esta conferência – filosófica – entra neste Ciclo como elemento de um diálogo acerca destas questões. Quando andamos a tentar implementar colectivos robóticos – e por vezes até nos permitimos pensar neles como formas de “sociedades artificiais” - será que podemos colocar-nos na “perspectiva do olho de Deus”, assumindo que conhecemos completamente o que existe no “mundo” desses colectivos robóticos? E, do mesmo passo, podemos assumir que compreendemos o que cada robot “pode saber” acerca do seu “mundo”? Ou teremos, em alternativa, de nos conformar com uma perspectiva relativista acerca do “mundo” e do “conhecimento” dos robots? Poderá ser o caso que existam coisas no mundo dos robots que não existem no nosso?

Esta conferência, sem pretender resolver estes problemas, constituirá uma oportunidade para introduzir elementos de reflexão vindos da filosofia num leque de questões que interessam aos que participam no design ou na reflexão acerca de “mundos”, “agentes” e “sociedades” artificiais.