6.9.07

Para que serve fomentar a desconfiança e o desalento (Lendo Teodora Cardoso - 3)

Quem quiser compreender para que servem as permanentes campanhas de poluição do debate público nacional com questões menores e laterais, a desviar os escassos recursos cívicos que deviam ser consagrados ao debate sério e profundo das verdadeiras encruzilhadas que este país à beira mar plantado tem de enfrentar, deve ler Teodora Cardoso. Neste caso, na sua coluna no Jornal de Negócios, edição de 3-07-07, sob o título "Confiança", de que destacamos apenas isto:

«Os portugueses são desconfiados. Desconfiam dos estrangeiros e desconfiam uns dos outros. O Norte desconfia do Sul e o Sul do Norte (para não falar da Madeira). Os patrões desconfiam dos empregados e os empregados desconfiam dos patrões.
Mas, pior que tudo isso, os portugueses desconfiam de si mesmos e esperam secretamente que um benfeitor ou um político providencial lhes resolva os problemas sem lhes pedir esforço, iniciativa e sobretudo sem os obrigar a assumir riscos.(...)
Como todas as generalizações apressadas esta é profundamente injusta, mas tem também um fundo de verdade que todos reconhecemos. O que a torna relevante na situação actual é o facto de estarmos a assistir a um ataque sistemático à pouca confiança que nos caracteriza, o que tem por resultado natural reduzir ainda mais o diminuto "capital social" de que dispomos. A expressão "capital social" é aqui usada na acepção que lhe dá Robert Putnam, em especial num livro que devia ser de leitura obrigatória para os políticos portugueses: Making Democracy Work. Civic Traditions in Modern Italy.»

A falta de confiança paralisa. Por isso ela é fomentada por tantos, à custa dos verdadeiros debates sobre as reais questões.

5.9.07

Ibéria, Saramago, Cavaco

09:40

Cavaco julga absurda a ideia do iberismo. Comentando Saramago. "À luz da história", diz ele. De qual história, já agora? Isso é uma condenação da élite portuguesa, incluindo cabeças reinantes, que a certa altura tudo fez para a União Ibérica, por a julgar indispensável ao sucesso dos mais altos projectos portugueses (designadamente a grande expansão dos descobrimentos)?
Não seria melhor não invocar a história pátria de forma unilateral - e desinformada - como se a vida de um povo, de uma nação, de um Estado, fosse algo que se encontra escrito nas estrelas para todo o sempre, em vez de ser algo que se vai fazendo em cada fase segundo as forças que fazem as dinâmicas?
Não é preciso ser a favor da União Ibérica para ser contra os simplismos políticos que se movem segundo a música das conveniências. E talvez até das antipatias pessoais.

Já que falamos de Estado (Lendo Teodora Cardoso - 2)

Comecemos então por afastar todos os factos, porque eles nada têm a ver com a questão.
J-J.Rousseau, Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes (1755)

[Deixado no estado primitivo], o homem não conheceria as artes, as letras ou a sociedade; e a sua vida seria solitária, pobre, vil, brutal e curta.
Thomas Hobbes, Leviathan (1651)

Depois de começar pelas citações acima, escreveu Teodora Cardoso, na sua coluna no Jornal de Negócios de 17-07-07:

«As campanhas políticas entre nós estão a adquirir – talvez a retomar? – uma perigosa inclinação para se situarem num plano que agrega o que de pior resulta das opções materialista e idealista de interpretação da realidade. Um dos elementos mais salientes dessa propensão consiste, não em afastar simplesmente os factos, como o idealista Rousseau, mas em os desrespeitar, seleccionando-os e deformando-os. O outro opta por deturpar o pensamento de Hobbes, o autor do Leviathan, mais conhecido entre nós pelo "monstro" e identificado com o Estado gigantesco e ineficiente que impede a sociedade de desenvolver-se, mas que, pelo contrário, o autor definia como a entidade a quem os homens teriam de confiar a responsabilidade pela ordem e bem-estar sociais, por forma a saírem do estado primitivo descrito na citação acima.»

4.9.07

O facilitismo, doença infantil dos radicais da palavra (Lendo Teodora Cardoso - 1)

Teodora Cardoso escreveu na sua coluna regular no Jornal de Negócios (31-07-07), sob o título "Mudança Estrutural":

«A economia portuguesa está a mudar na direcção certa, com base no seu próprio esforço de adaptação e não só no acesso a fundos externos e a endividamento, como sucedeu na década de 90.O crescimento e a diversificação das exportações, o abrandamento das importações, a aceleração do investimento empresarial e o crescimento da produtividade total dos factores são indicadores seguros dessa evolução, que tem vindo a acentuar-se desde 2005. O último dos indicadores apontados – a produtividade total dos factores – é especialmente interessante dado que mede a variação do produto que não é devida nem à variação do stock de capital nem à do emprego, reflectindo, portanto, alterações de natureza tecnológica e organizacional, ou seja, acréscimos de eficiência da estrutura produtiva, que terão de constituir a fonte essencial de aumento do rendimento e bem-estar num país cuja população está estagnada, ou mesmo em declínio, e que tem de competir internacionalmente com países com grande abundância de mão-de-obra e custos de produção muito baixos.(...)
Não admira (...) que a opinião pública esteja mais consciente dos aspectos negativos da evolução – exemplificados pela persistência do desemprego, pela quase estagnação do consumo, ou pela correcção das expectativas quanto à evolução da idade da reforma e do valor das pensões – do que do seu lado positivo. As reformas necessárias em áreas chave das políticas públicas, como a educação (desde o ensino básico às universidades), a formação profissional, a saúde ou a segurança social tendem a acentuar essa percepção negativa, não porque reduzam a qualidade dos serviços prestados, mas porque – exactamente para a melhorar – são obrigadas a inverter o facilitismo que caracterizou o período de abundância financeira.
Desse facilitismo resultou, demasiadas vezes, a opção por falsas soluções (...).»

Comentários que valem a pena

No período em que de facto eu já estava de férias do blogue (apesar de continuarem a pingar por aqui certas banalidades que deixei a escorrer), houve dois comentários interessantes a um texto aqui publicado anteriormente e que dera polémica. Para que não se percam nas profundezas do passado, permito-me passar à respectiva indexação.

A posta que motivou esses comentários intitula-se "Mesmo num filósofo, mesmo num amigo, o atrevimento da ignorância é uma vergonha", diz respeito ao ensino profissional e está, incluindo as peças principais da polémica, aqui.

SL, depois de passada a excitação inicial (minha e do Desidério), veio acrescentar o que se pode ler aqui.

Vitor Guerreiro, logo a seguir, vem também com uma contribuição interessante que se encontra aqui.

Não é que eu concorde com tudo o que se escreve nesses comentários, mas eles denotam, pelo menos e isso é essencial, algum conhecimento e sensibilidade para o que está em causa, em vez do simplismo redutor de certos porta-preconceitos. Por isso achei que devia desenterrar esses comentários das "caixas de comentários", precisamente.

3.9.07

A genética do mosto


Os jornais noticiavam há poucos dias um feito científico que ligava o vinho e a genética. Na versão de O Público, o título rezava assim: "Cientistas traçam o mapa genético da casta Pinot Noir". E continuava: "Não é preciso ter olfato, nem paladar apurado. Um geneticista olha para a cartografia e vê os genes associados a aroma e sabores."

Por mim, que não estou agora para comentários de filosofia da ciência acerca das ilusões da genética, fico-me pelo comentário proporcionado pelo Marc S., no primeiro cartoon dele que aqui se publica na nova estação.




(Cartoon de Marc S.)
(Clicar para aumentar.)