9.2.26

Reflexões soltas sobre uma eleição presidencial



 A democracia representativa é necessária, porque, em sociedades complexas como as nossas, não é praticável que cada um dos cidadãos de uma comunidade política se dedique todos os dias a estudar e a deliberar sobre toda a gama de matérias tocadas por decisões que relevam das políticas públicas. A democracia representativa constitui uma funcionalidade que permite que as nossas ideias genéricas acerca do que pretendemos que seja o rumo da comunidade sejam defendidas e aprofundadas por algumas pessoas que para o efeito escolhemos, podendo rever periodicamente as nossas escolhas nesse campo.


Contudo, a democracia representativa congelou numa separação excessiva entre representados e representantes. Secaram os espaços de participação. Exemplos evidentes: a escassez de participação na gestão das escolas, no secundário e no superior, bem como as recorrentes tentativas de enfraquecer o papel dos sindicatos e das comissões de trabalhadores, porque “as empresas são dos patrões” (isto é, o trabalho é uma mera mercadoria e a mercadoria não vota). Até há bons exemplos de participação, mas o discurso valorizado no espaço público não dá importância nenhuma à participação cívica e política.


Essa separação excessiva entre representantes e representados agudizou-se com a transformação do debate político numa arena de confronto permanentemente berrado, numa espécie de (para usar uma expressão de um treinador futebol há uns anos) mata-mata, onde a genuína argumentação cedeu todo o terreno à mentira, à mistificação, ao espetáculo imediato.


António José Seguro veio, sem o dizer, mostrar que uma outra postura política pode ser bem recebida pela cidadania. O seu afastamento prolongado do campo mediático, um período significativo em que fez a sua vida pessoal e profissional sem pretender que fosse necessário pronunciar-se sobre todas as voltas da vida política (contrariamente ao impulso da generalidade dos políticos, que adoram microfones abertos – e, se possível, câmaras), mostrou, quando decidiu regressar, que os portugueses podem não preferir os políticos sempre-em-pé. Não ser político no ativo durante décadas seguidas pode ser o perfil de político que as pessoas compreendem como mais próximo da normalidade democrática. Talvez, face à epidemia de ruído, as pessoas estejam mais disponíveis para quem não fale em demasia. Um político que vive bem com dez anos de recato pode, afinal, ser mais tranquilizador para aqueles que encaram como negativa uma excessiva separação entre representados e representantes. Enquanto esteve discreto, esteve mais parecido com um “representado” do que com um “representante”.


O estilo de António José Seguro não servirá (não terá servido) para todos os contextos. Não alinho nem na hipocrisia nem no revanchismo de alguns por estes dias. Não alinho na hipocrisia, na medida em que não escondo, e não tenho vergonha de o dizer, que não apoiei a sua liderança partidária, porque entendi na altura (sem ter nenhuma responsabilidade partidária, sendo apenas militante de base) que as suas escolhas levariam o PS a um labirinto onde acabaríamos por ser comidos pelo minotauro. Isto é: a excessiva proximidade à leitura passista do programa da troika iria descaracterizar o PS e ser encarada pelo eleitorado que sofria o radicalismo da PàF como conivência, o que arriscava tornar-nos tão irrelevantes como os nossos irmãos gregos. Nada dos últimos anos, de Portugal e do mundo, me fez mudar de opinião nessa matéria. Ao mesmo tempo, não me encolho perante o revanchismo, porque acho simplesmente risíveis as tentativas de alguns para confundir o plano partidário das “guerras” passadas (segurismo ou costismo) com o que esteve em causa nesta batalha presidencial, como se os apoiantes de Seguro no passado partidário tivessem por esse facto qualquer mérito especial nesta batalha presidencial.


Mas, estava eu a dizer: o estilo de António José Seguro não servirá para todos os contextos, mas, nesta campanha presidencial, num país cheio de gritaria, onde a promoção do ódio se tornou o quotidiano da extrema-direita e dos que bebem da mesma água, onde as televisões se deixam levar pelo recorrente truque do protofascista de se fazer filmar à saída da missa, foi compensador ver como os portugueses acolherem com simpatia a sua exibição de uma serenidade contrastante com a selva circundante. O candidato da esquerda democrática não tentou ser um herói: talvez as pessoas tenham começado a realizar que os que se vestem de heróis andam apenas a usar pijamas coloridos deslocados da realidade. Precisamos de mais pessoas “normais” na política e, a gosto ou a contragosto, António José Seguro foi, nestas Presidenciais 2026, o candidato que mais pareceu, às pessoas normais, uma pessoa normal. Que bom seria que isso passasse a ser um trunfo a valer.


Se bem se lembram, o primeiro impacto dos inícios da presidência de Mário Soares foi a sua forma “normal” de agir. Agir como as pessoas que vivem a sua vida sem quererem parecer especiais. Lembram-se daquele jogo da seleção nacional de futebol que ele viu à vista do país, dessacralizando a função em troco da imagem de homem como os outros homens? Precisamos de mais políticos-gente-normal, a falar como se fala na rua e não aos berros como os inimigos da democracia.


Para o encontro de vontades (e também de circunstâncias) que permitiu eleger António José Seguro contou, e muito, o Partido Socialista. Alguns comentadores (incluindo alguns que seriam mais leais se fizessem declaração de interesses em relação à vida do PS) estão a gostar da tecla de que o PS não contou nada para esta eleição. Porque o homem começou sozinho, porque teve muitas resistências de outros socialistas, porque o apoio foi tardio, … Enfim: os socialistas, pelo menos aqueles que acompanham o partido há décadas, sabem que Mário Soares teve a intenção de ser candidato muito antes de isso ser pacífico no partido, sabem que Jorge Sampaio se apresentou de surpresa para não ser boicotado por quem mandava no partido – e também sabem que o PS nunca foi um partido monolítico, que sempre foi um partido que fez grande parte dos seus debates na praça pública, que é um partido cuja grandeza se faz da sua pluralidade e diversidade. Por essa razão, nunca há automatismos nos processos de decisão no PS: há processos coletivos, com mais ou menos desencontros, onde a fase de deliberação interna acaba por ser o motor da força com que, depois, agimos face ao país. A novela de saber se José Luís Carneiro devia ter ido às Caldas na primeira volta, e depois de saber se devia ter ido na segunda volta, e depois a de saber se devia ter ficado para o discurso, e se mais dirigentes deviam ter aparecido na campanha da segunda volta… é, enfim, algo que fica para o anedotário nacional. Talvez valesse a pena lembrar, por outro lado, quem colocou claramente na agenda do PS a necessidade de termos um candidato que representasse o socialismo democrático na contenda presidencial…



  (A imagem é da capa do Público de hoje)


 Porfírio Silva, 9 de Fevereiro de 2026
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