Contudo, a democracia representativa congelou numa separação
excessiva entre representados e representantes. Secaram os espaços de
participação. Exemplos evidentes: a escassez de participação na gestão das
escolas, no secundário e no superior, bem como as recorrentes tentativas de
enfraquecer o papel dos sindicatos e das comissões de trabalhadores, porque “as
empresas são dos patrões” (isto é, o trabalho é uma mera mercadoria e a
mercadoria não vota). Até há bons exemplos de participação, mas o discurso
valorizado no espaço público não dá importância nenhuma à participação cívica e
política.
Essa separação excessiva entre representantes e
representados agudizou-se com a transformação do debate político numa arena de
confronto permanentemente berrado, numa espécie de (para usar uma expressão de
um treinador futebol há uns anos) mata-mata, onde a genuína argumentação cedeu
todo o terreno à mentira, à mistificação, ao espetáculo imediato.
António José Seguro veio, sem o dizer, mostrar que uma outra
postura política pode ser bem recebida pela cidadania. O seu afastamento prolongado
do campo mediático, um período significativo em que fez a sua vida pessoal e
profissional sem pretender que fosse necessário pronunciar-se sobre todas as
voltas da vida política (contrariamente ao impulso da generalidade dos políticos,
que adoram microfones abertos – e, se possível, câmaras), mostrou, quando decidiu
regressar, que os portugueses podem não preferir os políticos sempre-em-pé. Não
ser político no ativo durante décadas seguidas pode ser o perfil de político
que as pessoas compreendem como mais próximo da normalidade democrática.
Talvez, face à epidemia de ruído, as pessoas estejam mais disponíveis para quem
não fale em demasia. Um político que vive bem com dez anos de recato pode,
afinal, ser mais tranquilizador para aqueles que encaram como negativa uma excessiva
separação entre representados e representantes. Enquanto esteve discreto,
esteve mais parecido com um “representado” do que com um “representante”.
O estilo de António José Seguro não servirá (não terá
servido) para todos os contextos. Não alinho nem na hipocrisia nem no
revanchismo de alguns por estes dias. Não alinho na hipocrisia, na medida em
que não escondo, e não tenho vergonha de o dizer, que não apoiei a sua liderança
partidária, porque entendi na altura (sem ter nenhuma responsabilidade
partidária, sendo apenas militante de base) que as suas escolhas levariam o PS
a um labirinto onde acabaríamos por ser comidos pelo minotauro. Isto é: a excessiva
proximidade à leitura passista do programa da troika iria descaracterizar o PS
e ser encarada pelo eleitorado que sofria o radicalismo da PàF como conivência,
o que arriscava tornar-nos tão irrelevantes como os nossos irmãos gregos. Nada
dos últimos anos, de Portugal e do mundo, me fez mudar de opinião nessa
matéria. Ao mesmo tempo, não me encolho perante o revanchismo, porque acho
simplesmente risíveis as tentativas de alguns para confundir o plano partidário
das “guerras” passadas (segurismo ou costismo) com o que esteve em causa nesta
batalha presidencial, como se os apoiantes de Seguro no passado partidário tivessem
por esse facto qualquer mérito especial nesta batalha presidencial.
Mas, estava eu a dizer: o estilo de António José Seguro não
servirá para todos os contextos, mas, nesta campanha presidencial, num país cheio
de gritaria, onde a promoção do ódio se tornou o quotidiano da extrema-direita
e dos que bebem da mesma água, onde as televisões se deixam levar pelo recorrente
truque do protofascista de se fazer filmar à saída da missa, foi compensador ver
como os portugueses acolherem com simpatia a sua exibição de uma serenidade
contrastante com a selva circundante. O candidato da esquerda democrática não tentou
ser um herói: talvez as pessoas tenham começado a realizar que os que se vestem
de heróis andam apenas a usar pijamas coloridos deslocados da realidade.
Precisamos de mais pessoas “normais” na política e, a gosto ou a contragosto,
António José Seguro foi, nestas Presidenciais 2026, o candidato que mais
pareceu, às pessoas normais, uma pessoa normal. Que bom seria que isso passasse
a ser um trunfo a valer.
Se bem se lembram, o primeiro impacto dos inícios da presidência
de Mário Soares foi a sua forma “normal” de agir. Agir como as pessoas que
vivem a sua vida sem quererem parecer especiais. Lembram-se daquele jogo da
seleção nacional de futebol que ele viu à vista do país, dessacralizando a
função em troco da imagem de homem como os outros homens? Precisamos de mais
políticos-gente-normal, a falar como se fala na rua e não aos berros como os
inimigos da democracia.
Para o encontro de vontades (e também de circunstâncias) que
permitiu eleger António José Seguro contou, e muito, o Partido Socialista.
Alguns comentadores (incluindo alguns que seriam mais leais se fizessem
declaração de interesses em relação à vida do PS) estão a gostar da tecla de
que o PS não contou nada para esta eleição. Porque o homem começou sozinho, porque
teve muitas resistências de outros socialistas, porque o apoio foi tardio, … Enfim:
os socialistas, pelo menos aqueles que acompanham o partido há décadas, sabem
que Mário Soares teve a intenção de ser candidato muito antes de isso ser
pacífico no partido, sabem que Jorge Sampaio se apresentou de surpresa para não
ser boicotado por quem mandava no partido – e também sabem que o PS nunca foi
um partido monolítico, que sempre foi um partido que fez grande parte dos seus debates
na praça pública, que é um partido cuja grandeza se faz da sua pluralidade e
diversidade. Por essa razão, nunca há automatismos nos processos de decisão no
PS: há processos coletivos, com mais ou menos desencontros, onde a fase de
deliberação interna acaba por ser o motor da força com que, depois, agimos face
ao país. A novela de saber se José Luís Carneiro devia ter ido às Caldas na
primeira volta, e depois de saber se devia ter ido na segunda volta, e depois a
de saber se devia ter ficado para o discurso, e se mais dirigentes deviam ter
aparecido na campanha da segunda volta… é, enfim, algo que fica para o
anedotário nacional. Talvez valesse a pena lembrar, por outro lado, quem colocou
claramente na agenda do PS a necessidade de termos um candidato que representasse
o socialismo democrático na contenda presidencial…
(A imagem é da capa do Público de hoje)

