15.2.13

receita para arrancar violentamente a farda de governante.


Alguns sentirão a sua passagem pelo governo, mesmo que seja "na cultura", como uma mazela. Fica, assim, o problema "como curar a mazela" - especialmente se dessa aventura não tiver ficado nenhum rasto digno de grande nota. Vejo agora que alguém julga ter inventado o tratamento - instantâneo - para essa maleita: escrever no próprio blogue a "ameaça" de que se mandará alguém - algum agente dessa potência do mal que é o fisco - a "ameaça" de que se mandará alguém "tomar no cu".

Pronto: o homem já não é ex-secretário de estado de Passos; agora é o "homem de cultura" que se propõe mandar não sei quem "tomar no cu".

É que já não há ** para estas palhaçadas.


*** Adenda ***

"Teoria Viegas" para uma saída pós-moderna do governo: só "quando você mandar tomar no cu pela primeira vez vai retomar as rédeas da sua vida nas suas mãos" (Cris Nicolotti).



(esta foi roubada ao Daniel Oliveira)

13.2.13

Entrevista imaginária com José Tolentino Mendonça.


Não sendo religioso (sou agnóstico), julgo que um dos focos de tensão social mais importantes em muitas partes do mundo actual (podendo, de futuro, vir a ser esse o caso em países como Portugal) gira em torno da religião. (Quer dizer: pode não ser exactamente a religião, mas antes as dinâmicas sociais e culturais que através dela se expressam.) Há quem tenha opções grupais muito definitivas nessa matéria: alguns fiéis desta ou aquela confissão religiosa vêem o resto do mundo (outras religiões e não crentes) como o inimigo; alguns ateus (ou, de alguma outra forma, não crentes) acreditam que a religião é o sumário de todo o obscurantismo. Discordo profundamente de qualquer uma dessas posições: a religião é às vezes causa de sofrimento e atraso, sendo noutros espaços e tempos factor de progresso e libertação.
Vem isto a propósito de um texto e de um homem: José Tolentino Mendonça, autor da peça O Estado do Bosque, em cena no Teatro da Cornucópia. Já aqui escrevi sobre o espectáculo de teatro daí resultante – o qual, aliás, aconselho vivamente. Esse texto interroga de forma muito relevante a nossa pertença ao mundo, tenhamos ou não algum interesse na questão religiosa – mas não se pode ignorar que José Tolentino Mendonça, neste magnífico texto poético para teatro, nunca deixa de ser um cristão e homem de igreja, sacerdote católico, ao mesmo tempo que exerce n’O Estado do Bosque a sua condição de intelectual, escritor e poeta, com uma forma própria de estar no mundo e pensar. Tudo isto nos levou a imaginar uma entrevista com o autor.
Nesta forma de “entrevista imaginada”, o que vos posso oferecer só tem perguntas, claro.

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Pergunta: Como leitor e espectador, lendo o seu texto e vendo a peça num ciclo intitulado “O Nome de Deus”, ao lado de um texto de Pasolini, ateu e comunista, vejo que “O Estado do Bosque” é integrado por Luís Miguel Cintra no renascimento da inquietação religiosa que ele vive, mas sempre como uma procura mais geral pelo sentido da vida, uma procura que, no dizer dele, não separa, antes junta, crentes e não crentes. No espectáculo, o poço está lá para assinalar essa ideia, a partir do Evangelho e do episódio da Samaritana, de que a verdade pode vir daquilo que, sendo impuro para os critérios oficiais, é autêntico. O que lhe pergunto é: qualquer um pode ir à procura? A personagem Peter era vendedor, gerente num stand de carros de luxo, e partiu em busca do bosque. E vai discutir mitologia grega com o guia. O que lhe pergunto é: os “guias” que temos aceitam partilhar a procura com qualquer um? Há muita gente convencida de que os que procuram o sentido da vida pela via da religião, especificamente pela via do catolicismo, nem sempre têm essa abertura. Nesse caso, o sacerdote e responsável católico que o José Tolentino Mendonça é, vê nisso um desafio de abertura?
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Pergunto-lhe: na peça há uma ONG, uma associação ambientalista, que toma conta do guia cego, ou, para usar a expressão do texto, “lhe dá algum apoio” desde que ele se estabeleceu como eremita à entrada do bosque. Sem aprofundar, o texto parece irónico nesta referência, como se dissesse “há sempre uns burocratas que querem tomar conta dos guias”. Para um sacerdote católico, de certo modo alguém que pode rever-se num guia à beira do bosque, que se expressa com grande liberdade sem deixar de pertencer e ter responsabilidades num colectivo que é uma igreja, há aqui ecos de uma reflexão acerca das muitas forma possíveis de combinar a liberdade e a pertença – não apenas na igreja, mas em muitas outras situações onde essa combinação não é linear?
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Pergunta: Na cena III, “o diálogo do poço”, irrompe um tema que se desvanece rapidamente, sem deixar rasto (ou, pelo menos, eu perdi-lhe o rasto) no resto do texto. É o tema da espera. A espera como preparação. Quem o diz é o guia (“PETER – Que preparação é essa? O que é que nos falta? JOHN WOLF – A espera.”) Em temas filosóficos, tendo a ler nesta espera o tema da passividade: nós não somos só actividade, não somos apenas agentes a impender sobre os outros, temos também de ser a passividade que absorve a influência dos outros, do mundo que nos entra pela pele dentro, do mundo que não depende da nossa constituição; precisamos que a actividade, ou o activismo, não capture a abertura, a receptividade. O que lhe pergunto é: que falta nos faz essa espera hoje e como podemos praticar a espera em tempos de urgência? Por outro lado, mais a pensar na sua condição de sacerdote, a espera pode ser contemplação? Ser-nos-á permitido, legítimo, hoje, no meio da precariedade generalizada, voltar a juntar a contemplação com a acção? E como?

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Luís Miguel Cintra fala sobre "O Estado do Bosque", de José Tolentino Mendonça:




12.2.13

América, Alemanha... e nós.


A edição americana da prestigiada revista (de divulgação) científica Scientific American publicou um artigo intitulado "The U.S. Could Learn from Germany’s High-Tech Manufacturing". Em poucas palavras, diremos que apresenta a seguinte tese: a Alemanha deve a sua robusta economia dos últimos anos, em parte, ao sucesso de seu sector industrial, desde materiais básicos a equipamento industrial. E a razão da sua competitividade, mesmo em comparação com as indústrias que dispõem de mão de obra mais barata na Ásia e em outras partes do mundo, é o bom uso das novas tecnologias.
O que queria era chamar a vossa atenção para dois comentários em linha, que traduzo tosca e livremente:
Gostaria de ver uma comparação das formações dos CEOs das empresas industriais alemãs com as dos CEOs das empresas similares nos Estados Unidos. Suspeito que nós (EUA) temos mais "gestores" e eles têm mais gente com formação em ciência e engenharia. Também seria interessante comparar os salários dos CEOs alemães e norte-americanos, expressos em múltiplos do menor salário nas respectivas fábricas.
Estou convencido de que o declínio da indústria americana começou com o aumento do número de MBAs a gerir as nossas empresas. Antes, a alta administração realmente entendia os produtos que tinha investigado e produzido. Agora, tudo é apenas números. Tornámo-nos uma nação de empresas virtuais. Produtos baratos, mas que rapidamente deixarão de ter interesse a qualquer preço.

Então... e por cá?

11.2.13

vem aí o PS ?

09:55

1. Então, parece que o PS está unido, em torno de António José Seguro, que saiu da Comissão Nacional com o "Documento de Coimbra" (título fantástico, de última hora, porque o proto-programa chegou lá com o título "Portugal Primeiro", a mesma palavra de ordem com que Passos Coelho ascendeu à liderança do PSD em 2010). O SG, em conferência de imprensa, jurou a pés juntos e muito hirto que o documento é seu e muito seu, pese embora ter ouvido muita gente para o elaborar (de passagem, como quem não quer a coisa, mencionou António Costa como um dos escutados, certamente com muito esforço da sua paciência, já que há muitos anos que Seguro não tem paciência para ouvir Costa). Já dei uma rápida vista de olhos ao documento (que não é ainda uma moção ao congresso do partido, nem um programa de governo, mas o ponto de partida dessas outras fases) e vejo lá novidades importantes relativamente ao que o SG tem andado a dizer quanto à natureza da crise - mas tenho a certeza que AJS escreveria lá o que fosse necessário para não deixar margem a uma candidatura de AC. (Não sejam maldosos, leitores: isso pode perfeitamente ser creditado à flexibilidade política de AJS e à sua vontade de abrangência.)

2. Pelo que tenho ouvido, pelo que sei da poda e pelo que imagino, deve haver muito choro e ranger de dentes em certos sectores do PS por António Costa ter deixado António José Seguro sozinho em campo. Compreendo. Até porque eu, não sendo propriamente um "compagnon de route" de nenhum dos dois, vejo em AC mais capacidade e melhores ideias para liderar o país do que as que vejo em AJS. Basta ler e ouvir o que AC disse nesta semana e pouco de "crise da unidade". Têm razão os que dizem que não seria nada desonroso para AC tentar e perder. Certo; mas há outros ângulos para ver a questão.

3. A capacidade de um partido para se mostrar plural e fazer disso uma força, em vez de uma fraqueza, depende da forma como todas as suas vozes se mostram interessadas no exercício concreto da pluralidade. Com uma onda de dirigentes nacionais do partido a usar, de forma manifestamente concertada (e, portanto, autorizada ou encomendada pelo SG) a acusação de deslealdade para invectivarem os suspeitos do crime de discordância, o que se prometia era uma batalha campal sem prisioneiros (só mortos). Se Seguro tivesse dito "precisamos de um congresso esclarecedor, convido todas as correntes a apresentarem-se de peito aberto ao próximo congresso para debatermos tudo e todos até ao fim, porque isso é que é saudável e não há que temer as diferenças", se Seguro tivesse abordado assim o problema, teria aberto o caminho para uma real clarificação, sem prejuízo nenhum para o desempenho autárquico do partido e com grandes vantagens para as batalhas seguintes. Desdramatizar as diferenças e valorizar o debate. Mas não, não foi nada assim que a direcção do PS colocou a questão, preferindo afiar as armas e proferir gritos de guerra que lhe dessem vantagem táctica na guerrinha interna. Nesse contexto, o surgimento de qualquer candidatura alternativa arriscava, de facto, prejudicar o partido, numa altura em que a militância local está antes de mais nada empenhada em ganhar a freguesia ou a câmara. Um confronto civilizado entre Seguro e Costa, bem focado nas questões nacionais e não na mercearia, teria sido útil para o PS - mas esse confronto civilizado foi impedido pela direcção do PS, que empolou e distorceu o imperativo estatutário de fazer um congresso este ano para apresentar a coisa como uma exigência estapafúrdia da "tralha socrática". Neste contexto, poucas alternativas restavam.

4. Nesta altura do campeonato, AJS e os seus apoiantes que gritaram "deslealdade" devem estar muito satisfeitos com a operação. Está garantido que liderarão o PS até às legislativas e, muito provavelmente, até ao governo. O próximo ciclo no PS só começará depois da derrota do próximo governo do PS. (Cada ciclo acaba sempre com uma derrota, é claro.) Resta saber como correrá tudo isso. O país precisa que corra bem. É que a democracia não aguentará muito mais choques como aquele que estamos a viver actualmente, em que o povo descobre que os seus governantes não faziam ideia do que diziam quando estavam na oposição e se fartaram de fazer promessas que não tinham nenhuma aderência à realidade. As democracias não resistem a tudo: se o próximo ciclo for tão decepcionante como este, não podemos estar certos de que não frutifiquem tentações perigosas.

5. Entretanto, tenhamos esperança. Pode ser que Seguro mude e mostre ser capaz de fazer uma síntese das contradições do PS, virado para o futuro mas sem conceder ao PSD a errada análise das causas da crise, como tem feito até agora. (Nesse ponto, lendo o "documento de Coimbra", espero para ver como será a peça interpretada quanto for levada à cena.) Enquanto a Terra gira, em torno do seu próprio eixo e à volta do Sol, vou-me contentando com ser eleitor em Lisboa, cuja Câmara Municipal continuará a ser um bom sítio para mostrar o que é fazer política concreta a pensar nos cidadãos. Felizmente, não voto em Cascais nem em Matosinhos, porque, aí, até nas autárquicas estaria a pensar em formas de fazer política que me desgostam.