6.10.12

pequena parábola.


O Joãozinho levou o monstro para o quarto, fechou portas e janelas para ele não fugir, e chegou-lhe fogo. Sentou-se de costas para a parede a ver o monstro arder, esperando pelo fim dos pesadelos. As labaredas levantaram-se até ao tecto e começaram a queimar oxigénio. Muito antes de o fogo ter acabado de consumir o monstro (que ainda não se sabe sequer se é inflamável) já o Joãozinho tinha morrido com falta de oxigénio, consumido pelas chamas que ele esperava matassem o monstro.

Esta é a história de um país imaginário empurrado para a pseudo-solução dos incendiários. Com a cumplicidade do monstro, é claro.

5.10.12

F.M.I. propõe nova bandeira para Portugal.




(Decoração de restaurante em Léon. Foto de Porfírio Silva.)



o direito ao protesto.

17:47

Temos direito ao protesto. Direito à indignação. A manifestar-nos.
Muitos estão desesperados. Vivem mal. Estão sem meios para dar aos seus filhos a educação que acham que eles precisam e merecem. Estão a comer mal. Estão com medo. Estão na corda bamba. Muitos mesmo.
E não podemos calar essa realidade. Não podemos, nem queremos calar.

Quererá isso dizer que qualquer pessoa desempregada, desesperada, desorientada, pode irromper por qualquer acto público oficial e interrompê-lo aos gritos? Respeitar o sofrimento das pessoas e lutar contra esta situação quererá dizer que qualquer pessoa em sofrimento tem de ser autorizada a invectivar o PR, o PM, qualquer figura do Estado, em toda e qualquer circunstância?

Não é politicamente correcto publicar esta interrogação, mas tem de ser feito.

Posso compreender o desespero de uma pessoa que não aguenta mais e tem um impulso irreprimível para dar largas à sua revolta perante um alinhamento de figuras do Estado. Não caio na insensibilidade de condenar essa pessoa, porque não acredito que se possa sempre acomodar racionalmente, ou estrategicamente, a dor funda de nos terem atirado para a valeta da vida. Compreendo essa pessoa, essas pessoas. Mas não compreendo, de modo nenhum, que se defenda que temos o direito de fazer isso, que esses actos são normais, que se critique a segurança que impede a consumação dessas abordagens. A demagogia feita à custa dos que sofrem é a demagogia mais abjecta que posso conceber.

Se misturarmos tudo, no mesmo espaço e no mesmo tempo, dizendo que o direito ao protesto significa que se pode protestar de todas as maneiras em todos os sítios e a todas as horas, as instituições deixam de funcionar. Isso será talvez uma boa notícia para aqueles que não percebem que sem instituições voltamos à selva. Para quem percebe que o que precisamos é de instituições melhores, mais capazes, mais entrosadas com a participação cidadã, mais focadas na realidade, não será difícil perceber que o cerco das instituições não vai resolver problema nenhum, só estragar o que já está mau. Espero que o país não caia na armadilha de estimular o cerco das instituições. Pagaríamos isso muito caro.

4.10.12

as unidades das esquerdas.

16:43

Estas notas soltas são, principalmente, sobre o PS, o PCP e o BE. Aos que trabalham afincadamente em definir uma linha que separa o PS da esquerda: podem parar por aqui, não tenho nada a dizer-vos. Aos que apelam à história (do "socialismo real" e dos "extremismos") para recusar qualquer diálogo com o PCP e o Bloco: podem parar por aqui, isto não vos interessa. Podem permanecer na sala aqueles que julgam que poderia ter alguma utilidade que aqueles três partidos tivessem um tipo de diálogo que, a nível nacional, nunca tiveram.

Julgo - desde sempre - que as várias formações políticas que se reclamam de alguma esquerda deveriam ser capazes de manter um diálogo estruturado. Esse diálogo deveria cruzar vários planos: o plano dos princípios (o que queremos mudar no mundo), o plano dos programas (que coisas concretas podemos fazer politicamente para tornar o mundo mais habitável, especialmente no caso daqueles que mais injustiças sofrem na actual forma do mundo), o plano do combate político (em que objectivos concretos podemos ir convergindo e como falamos disso). O PS poderia ganhar com isso mais possibilidades de formar maiorias políticas capazes de aplicar algumas das suas ideias, o PCP e o BE poderiam ganhar mais poder de moldar políticas governativas concretas.

O PS queixa-se da excessiva facilidade com que PCP e BE o erigem em inimigo principal. Julgo que o PS tem nisso razão: a esquerda da esquerda usa demasiadas vezes uma retórica política que esconde "o outro lado da questão" para apresentar versões simplistas dos problemas e representar defeituosamente a posição do PS. Muito do debate actual sobre a crise, por exemplo, é deformado se não se perceber que o PS é muito mais cioso do compromisso nacional com a União Europeia (que julga vital para o país a longo prazo), muito mais empenhado nas nossas responsabilidades comunitárias, por contraste com as correntes anti-europeístas que continuam a ter importância (intelectual e social) na esquerda da esquerda. E, na verdade, soa estranho que a esquerda da esquerda tenha, às segundas, quartas e sextas, muitas ideias acerca do que a UE devia fazer diferente para resolver a crise, mas tenha, às terças, quintas e sábados, um discurso de ruptura com a UE, pintando com cores atraentes soluções (como a saída do Euro) cujas consequências políticas nos poderiam tornar ainda mais marginais no continente. A questão europeia é, aliás, um dos obstáculos centrais a um diálogo mais profícuo à esquerda.

O PCP e o BE queixam-se das "políticas de direita" do PS. Num certo sentido têm razão: o PS, como outros partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas, na Europa e nem só, procuraram, nas últimas décadas, reciclar soluções "capitalistas"; procuraram usar ferramentas "de mercado" para enfrentar problemas que não tinham sido bem resolvidos com políticas que só faziam confiança no Estado. Havia boas razões para isso: muitas políticas estatistas mostraram-se um fracasso. Era preciso - e continua a ser preciso - procurar alternativas. A esquerda da esquerda, permanecendo afastada do poder, parece pouco alertada para essa necessidade - e mistura críticas operacionais com críticas ideológicas. (Por exemplo, as Parcerias Público Privadas são atacadas por terem sido mal negociadas, até eventualmente com dolo, mas essa questão é frequentemente associada à tese de que nada daquilo poderia alguma vez estar nas mãos dos privados. Ora, temos aí questões completamente diferentes.) Entretanto, a esquerda da esquerda abusa, com frequência, da confusão entre as políticas do PS e as da direita, confundindo uma função de "representação social" com aspectos programáticos. Por exemplo, para chamar aqui uma grande ferida da governação Sócrates, a "luta dos professores" contra certas reformas na Educação, que eram fundamentalmente motivadas por razões profissionais (justas ou não, não discuto agora isso) foi representada politicamente pela esquerda da esquerda como uma luta ideológica, como se fosse uma luta contra uma concepção "de direita" da Educação - o que, a meu ver, não cola nada com a verdadeira defesa da escola pública que era o programa da Ministra Lurdes Rodrigues. A confusão desses planos, apresentando como fundamentalmente ideológica uma discordância que era basicamente profissional (e deveria ser do campo de luta sindical), serve a luta política imediata da esquerda da esquerda, mas prejudica qualquer diálogo mais vasto com o PS. É um preço que o PCP e o BE têm mostrado grande facilidade em pagar.

Este é o quadro em que tem evoluido o afunilamento da esquerda. Por afunilamento quero dizer: intolerância crescente, incapacidade para considerar e discutir produtivamente alternativas variadas, redução de muito discurso político ao chavão.

A actual contestação à desastrosa política do governo Passos/Gaspar exemplifica o afunilamento da esquerda. Enquanto o PCP e o BE tendem para soluções politicas de ruptura com os credores, o PS tende para soluções enquadradas pela UE e que não impliquem nenhuma descontinuidade séria no nosso enquadramento internacional. A linha defendida pelo PS pode vir a falhar: assim será se a UE persistir nos principais erros que tem cometido na gestão da crise. Mas reconhecer isso é coisa bem diferente de, como fazem o PCP e o BE, vender a linha da ruptura ("não pagamos", "romper com a Troika") como se ela fosse indolor e de sucesso garantido. Neste contexto, o PS procura representar uma fatia dos portugueses, que querem outra política mas dentro de uma manobra conjunta europeia e sem ruptura - enquanto a esquerda da esquerda tudo faz para representar a posição do PS como "uma traição" e como cumplicidade com o governo e com os erros da Europa. A velha tentação salazarenta do "quem não está por nós, está contra nós" tem muito curso hoje em dia à esquerda - e esse é apenas mais um episódio do afunilamento da esquerda, que também cava no fosso da anti-política e do desprezo pela democracia representativa.

Muitos no PS julgam que esta conversa das esquerdas não interessa nada. No osso, o argumento é este: o PCP e o BE defendem programas perfeitamente desligados da realidade e um partido que quer ser governo não pode ligar-se a essas forças. Discordo. Desde logo, porque a realidade já não é o que era: estamos hoje, outra vez, a descobrir que o manhoso capitalismo fez de conta que queria civilizar-se, atraindo os socialistas em todo o mundo para "aproximações", e, depois de ter comido a fatia que lhe convinha, voltou à sua força bruta que tão bem compreende. Isso implica reequacionar instrumentos que estavam um tanto esquecidos: que nacionalizações para este tempo, por exemplo, é uma pergunta cada vez mais actual. Depois, porque não podemos pensar no PCP e no BE apenas como forças ideológicas: temos de os pensar como forças políticas, que representam pessoas, ideias, projectos, movimento, imaginação, desejos, necessidades - que podem ser mobilizadas para fazer coisas novas. E mais: o PS precisa renovar-se com gente sem hábitos de poder. É importante ter ex-ministros e ex-directores-gerais e ex-administradores, que sabem como as coisas pequenas de todos os dias se fazem. Mas também é importante ter gente que não foi ainda amaciada pelos corredores do poder, pelos almoços de negócios, pelas conveniências. A esquerda da esquerda tem, ainda, alguma coisa dessa força genuína (embora não sejam todos virgens, como nos querem fazer crer).

Esta reflexão (desordenada, ao correr da pena) não foi motivada pelas grandes iniciativas que por estes dias têm sido entendidas como oportunidades de diálogo à esquerda. Foi motivada por algo mais pequeno, mas que, a meu ver, faz a matéria das pequenas-grandes dificuldades/oportunidades. O PCP e o BE convergiram na censura ao governo (sem o meu entusiasmo, porque vi as moções serem, mais uma vez, embrulho para picadas ao PS). Convergiram a medo, cada um na sua bicicleta, mas convergiram. E fizeram saber que convergiram. Alguns dirão que isso interessa pouco. Adiante. O que quero dizer é que nunca haverá qualquer diálogo real entre a esquerda da esquerda e o PS enquanto o PCP e o BE não tiverem um razoavelmente sólido entendimento entre si. O PCP nunca dará ao BE o bónus de se aproximar sozinho do PS; o BE nunca dará ao PCP o bónus de se aproximar sozinho do PS. Por essa razão, um clima político menos abertamente competitivo entre PCP e BE é necessário a um diálogo mais descomplexado entre PS, PCP e BE. Sou favorável, em geral, a que os partidos políticos sejam mais capazes de negociar entre si, sem que isso afaste a necessária diferença e competição. Acho que "à esquerda" isso é ainda mais necessário. Sonho acordado? Provavelmente. Mas, ainda assim, gosto mais de sonhar acordado do que andar por aí a dormir na forma.




3.10.12

última hora: Gaspar não está morto.

16:53

Gaspar falou. E disse, principalmente, que está tudo a correr muito bem, mas que está tudo a correr muito mal. O ajustamento está na linha do desenhado, a despesa pública baixou (pois, a cortar nos salários e pensões, sabemos), o desequilíbrio externo também (é uma maravilha não termos dinheiro para importar, é o que isso quer dizer), mas vamos precisar de qualquer coisa como uma punção extra de 3% do PIB. Os impostos vão aumentar brutalmente, o valor do trabalho vai continuar a baixar, o desemprego vai continuar a aumentar, mas Alá é grande e, embora quase mortos, estamos mais credíveis. Mortos, mas credíveis.

Quer isto dizer que Gaspar se limitou a confirmar a expectativa geral - negativa - acerca dos próximos passos? Não me parece. Não sou economista e nem sequer percebo exactamente o que querem dizer algumas das afirmações que Gaspar produziu, mas julgo que esta intervenção promete luta política em direcções relevantes. Gaspar prometeu mais equidade na distribuição do esforço: pagarão mais os que ganham mais, tanto pessoas como empresas. Vamos ver as contas, que o diabo está nos detalhes, mas esse elemento é importante. No que toca a diversificar a base dos castigados, o imposto sobre as transacções financeiras ainda está no plano das ideias gerais, mas é uma reivindicação de esquerda - e Gaspar diz que ainda não tem detalhes por estar à espera para ver como fará a França dos socialistas. Estes elementos mostram que o Tribunal Constitucional andou bem e deu um contributo importante para obrigar a repensar elementos básicos da receita (Passos lá teve de engolir as críticas disparatadas que fez ao TC). (Por outro lado, Gaspar na prática dá razão a Borges quanto à TSU, apenas com mais diplomacia do que Borges, o que também não é difícel.) Além disso, o ministro promete que vão lutar na frente europeia por uma cooperação reforçada para avançar na imposição das transacções financeiras, uma matéria em que realmente só faz sentido legislar em conjugação com outros países. (Já agora, apesar dos protestos por Passos Coelho faltar ao 5 de Outubro, o PM vai a um encontro dos "Amigos da Coesão", um espaço que Portugal tradicionalmente frequenta para tentar reforçar a margem negocial dos Estados-Membros que beneficiam dos fundos de coesão, espaço que temos de cultivar quando se está já a caminho da negociação do próximo orçamento comunitário plurianual.)

Embalado pelo sucesso da operação de troca de dívida que ocorreu hoje (uma grossa fatia da dívida que vencia em Setembro de 2013 foi trocada por dívida que vence apenas em 2015, ainda por cima com melhor juro, o que alarga a margem para respirar se tentarmos voltar aos mercados no próximo ano), Gaspar manteve a confiança no essencial da sua política, a qual tem estado a matar o doente com o remédio. Mas, não nos iludamos, introduziu variações políticas que dão ao governo algum fôlego para as negociações dos próximos tempos. Essas variações foram pensadas para afagar a opinião pública moderada mas sedenta de alguma equidade na distribuição do esforço. O economista Gaspar não mudou nada, mas o ministro Gaspar evidenciou uma capacidade de manobra que o governo parecia ter perdido nos últimos tempos. Isto pode prometer um debate do orçamento mais interessante - e, quem sabe, mais útil para o país do que se estava à espera.

(Espera-se, entretanto, que Passos Coelho aproveite alguma coisa com a releitura das suas homilias passadas, como esta ou esta.)

à espera de Gaspar (III).

à espera de Gaspar (II).

Pedro Passos Coelho a 15 de Março de 2011.



(continua)

à espera de Gaspar (I).


I've never been so less aroused by so much flesh.


(continua)

a retórica da treta.

10:21

Andam por aí muitos indignados porque o PS não vai votar a favor das moções de censura do PCP e do BE.
Alguns desses indignados não acharam nada estranho que o PCP e o BE tivessem juntado os seus votos aos do PSD e do CDS para estes criarem a oportunidade de chegar ao governo e fazerem o que está à vista.
Mas nem é isso que interessa agora. O que importa é notar a facilidade com que regressam as concepções totalitárias dentro da democracia. O PS (mal ou bem, não é isso que estou agora a discutir), está a tentar representar aquela fatia da população que, se por um lado acha que o governo está a fazer disparate atrás de disparate, por outro lado também está contra o agravamento da crise política (por saber que a pagaríamos ainda mais caro do que já estamos a pagar), acha desejável que o país consiga apresentar-se lá fora como capaz de respeitar os compromissos com os credores, prefere que nos concentremos no debate sério das alternativas concretas às propostas do governo em lugar da mera censura sistemática (ainda por cima quando as moções de censura aparecem como uma liguilha entre dois partidos da esquerda da esquerda a ver quem ruge mais afinadamente).
Afinal, deitaram tanto incenso sobre as manifestações apartidárias contra "o estado a que isto chegou", mas confundem a aflição do país com a sua retórica partidária da via única para fora deste braseiro. Aliás, como poderia o PS juntar-se aos que diabolizam a Europa, quando só com a Europa (agindo de forma diferente) é possível sair deste atoleiro?

maravilhas numéricas.


Enquanto esperamos por Gaspar, entretemo-nos com outros prodígios do raciocínio quantitativo.

Como nesta frase da notícia "Será que é desta que os britânicos vão gostar de Miliband?", no Público de hoje (p. 20): «Por outro lado, a mesma sondagem mostrou que só dois em cada quatro britânicos acha [sic] que Miliband está bem preparado para ser primeiro-ministro. O número sobe para quatro em dez em relação a Cameron.»

Em que sentido é que se "sobe" de 50% (dois em quatro) para 40% (quatro em dez)?


2.10.12

a democracia não serve para nada, pá.



O governo apresenta em Bruxelas, para "visto bom" de Barroso, o que supostamente está a ser conversado "a bem da paz social" cá no burgo.
Afinal, as negociações com os parceiros sociais são só conversa fiada?
Querem o compromisso do PS mas não lhe passam cartão? Talvez queiram dar razão ao estilo PCP e BE...
Há um "Comité Central da Coligação", mas parece que nem a generalidade dos ministros sabem em que ponto estão as decisões que afinal já foram tomadas por alguém.
Entretanto, Relvas alerta-nos contra a falta de credibilidade dos políticos (ele é um especialista nessa matéria) e o primeiro-ministro-sombra António Borges apela aos patrões para que não se esqueçam da luta de classes.

PEDIMOS DESCULPA POR ESTA INTERRUPÇÃO.
O PROGRAMA SEGUE DENTRO DE MOMENTOS.

Esqueceram-se da democracia, foi? Depois queixem-se de que os ursos podem mudar de posição...

Pascal Bernier, Bipolar Perversion, 2000


E não se esqueçam que as coisas perigosas às vezes se aproximam de mansinho...

Pascal Bernier, WWF Luftwaffe, 1996

1.10.12

Durão Barroso voltou a ser PM de Portugal?

22:34

Bruxelas já aprovou medidas alternativas às mudanças na TSU.
«O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, revelou esta segunda-feira que a Comissão Europeia já aprovou as medidas alternativas que o Governo apresentou para compensar o recuo nas mudanças na Taxa Social Única (TSU).»

Parece que as medidas alternativas às mudanças na TSU eram para ser negociadas previamente com os parceiros sociais. Parece que os parceiros sociais não sabem bem de que fala Barroso quando diz que já "aprovou". Parece mesmo que os ministros da República estão mais ou menos na mesma. Será que a mão esquerda de Barroso toma as medidas do governo de Portugal e a sua mão direita aprova como presidente da Comissão Europeia?

a União Soviética vive...

engenharias tipo António Borges como ministro-sombra.

memórias recentes.

12:06

Não é meu costume, mas partilho uma nota que encontrei no Facebook, publicada por António Alberto Silva. Não concordarei talvez com tudo, mas merece reflexão.

Defender, como fazem o BE e o PCP, que a plataforma comum para uma convergência de esquerda é rasgar o memorando com a Troika é risível: antes de haver memorando a divergência era total, a ponto de fazerem cair um governo sabendo que o que se seguia foi o que se seguiu.

Sócrates disse que se recusava a governar com o FMI. Quando o PSD, CDS, BE e PCP o obrigaram a isso, demitiu-se. Pediu ao Presidente da República para ser ele e mediar as negociações com a Troika, e este recusou-se a isso: obrigou o governo a continuar, embora em regime de gestão, e a fazer isso. O governo de Sócrates fez isso obrigado, em regime de gestão e por isso o memorando teve que ser assinado por uma maioria. O PSD e o CDS assinaram.

O BE e o PCP lavaram as mãos como se nada fosse com eles. Mas era. Brincaram com o fogo e queimaram-nos (ao povo e ao país): leviandade oportunista. Obrigaram-nos à Troika e agora querem expulsá-la: incoerência. Não brinquem connosco. Enquanto não souberem o que dizer e fazer, metam a viola no saco.
O PS já meteu a viola no saco. O PS, hoje, não sabe o que dizer ou fazer. Não tem projeto. Não saberia o que fazer se estivesse no governo. Meteu a viola no saco. Mais vale isso, do que dizer asneiras.
Os partidos do governo estão como querem: têm a Troika para servir de desculpa. E têm um projeto: ir além da Troika.

Que desgraça!

Único sinal de esperança: a manifestação de 15 de Setembro.

António Alberto Silva (página do FB)

ponto de ordem à mesa.

10:55

Leio no Público: «O presidente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Manuel Meirinho, anunciou um inquérito disciplinar ao aluno que, na semana passada, insultou o primeiro-ministro durante a homenagem a Adriano Moreira.»

Os tempos que vivemos exigem-nos clareza nestas coisas. Deixo, portanto, a minha declaração sobre a matéria.

(1) Sou, fui (em governos anteriores) e serei contra a perseguição "popular" pessoalizada aos políticos de quem discordamos. Discordo das "esperas" sistemáticas que têm como objectivo impedir os governantes de sair à rua e que transformam qualquer acto público numa pateada. Esses actos são, em geral, falsamente espontâneos. Sou, fui e serei contra o recurso ao insulto para manifestar oposição política. Basta de degradar as condições do debate político, que já são quase inexistentes, com mais ódio apresentado como linha politica. Este clima serve, apenas, para impedir o debate da situação séria e complexa em que nos encontramos. Com este clima só se fazem ouvir as soluções extremas: os austeritários cegos e surdos que justificam todos os disparates com o chavão "não há alternativa"; os loucos da outra ala, que querem fazer-nos crer que há alternativas simples, fáceis e de sucesso garantido, sem sacrifícios, ao virar da esquina. O que esses dois campos querem é que não se ouça mais nada, que não se analisem os outros caminhos, por muito tortuosos que sejam. Este clima de radicalização só serve esses irmãos siameses que são os ódios radicais, distintos nas cores mas simétricos nas consequências degradantes da coisa pública.

(2) Algumas das vítimas destas manifestações de ódio público foram, quando lhes convinha, coniventes com o mesmo tipo de manifestações que visavam então os seus adversários políticos. Poderia, pois, dizer-se que estão a provar do seu próprio veneno. É verdade que estão, mas isso não me move: o que quero preservar, além das pessoas visadas, é um bem comum, a saber: a capacidade de uma comunidade política discutir com razoabilidade o que fazer à nossa vida colectiva. Esse é o bem comum que a estratégia do ódio acaba por matar; por isso estou contra essa estratégia do ódio.

(3) Dito isto, acho estranho que uma escola do ensino superior aceite que a polícia (a segurança de um governante) identifique pessoas (alunos ou professores) dentro das suas instalações e, ainda por cima, exerça a sua autoridade disciplinar académica com base nos dados fornecidos por essa polícia nesse acto de invasão. Todos vimos a atitude desproporcionada que esse polícia teve nessa ocasião, designadamente na forma como se dirigiu a um operador de câmara de uma televisão, com um à-vontade verbal e gestual que faz lembrar as polícias que se sentem acima da lei. Ao mesmo tempo, e por outro lado, acho disparatado que o jornal Público sublinhe que o director da escola foi eleito deputado nas listas do PSD, como se o director da escola pudesse deixar de fazer aquilo que acha que deve fazer só por ser da mesma cor política de um dos intervenientes no incidente (neste caso, o primeiro-ministro).

A vida está difícil e os disparates do governo só têm contribuído para a tornar ainda mais difícil. Contudo, não é acabando com o que resta das condições de serenidade para debatermos as saídas para a crise que podemos chegar a bom porto. Os últimos tempos estimularam os radicalismos apressados a tentarem apossar-se do mal-estar das pessoas, mas não podemos confundir as vozes mais exaltadas com as vozes da maioria. Nem podemos esquecer que todos pagaremos com língua de palmo o que correr mal: os que estão convencidos que o governo é a muralha única a derrubar para chegarmos ao paraíso pós-crise, seria aconselhável começarem a fazer melhor as contas à vida.