16/12/13

pequenos deuses patronais.


O Público de ontem relata o seguinte caso:

"Duas médicas dos serviços de saúde da TAP que trabalhavam para a companhia aérea há mais de 15 anos foram informadas pelos seus directores que o seu horário de trabalho seria aumentado em dez horas, mantendo-se o salário inalterado. Opuseram-se. A partir desse momento, começaram a marcar-lhes doentes para as horas em que não estavam, informando os seus pacientes que tinham faltado sem avisar; quando estavam no consultório, mantinham-nas sem doentes para atender. Isabel Aureliano e Maria Irene Prayce acabaram por ser diagnosticadas com depressão." (Duas médicas despedidas ilegalmente processam TAP por assédio moral)

Os despedimentos das médicas foram já considerados ilegais pelos tribunais, mas elas querem ainda que os tribunais condenem a entidade patronal por assédio moral. E fazem muito bem. Note-se que não se trata de uma empresa de vão de escada, gerida por um tonto qualquer sem formação para empresário, movido pelo apetite de ser patrão - como há tantos por aí. Estamos a falar de um trabalho assalariado desenvolvido na órbita de uma grande empresa (ainda) pública. E, no entanto, se forem verdadeiros todos os factos relatados (não me antecipo aos tribunais), aconteciam coisas como as assim relatadas:

"As médicas de clínica geral, que seriam as mais velhas do serviço, respondem que lhes é impossível cumprir o horário proposto. A partir daí os seus superiores dão ordem para que lhes sejam marcadas consultas para os dias em que sabem que estão ausentes. Nos dias em que estão no consultório dizem aos pacientes que as médicas faltaram.
Começam a chover reclamações dos utentes contra as médicas. Nas respostas aos doentes descontentes, o serviço responde que não se podem responsabilizar por ausências não justificadas: “O dia e a hora a que a paciente se refere corresponde ao período do horário da Dra, a qual faltou sem aviso ou explicação”, lê-se.
A situação arrasta-se durante cerca de três meses, a cada mês são-lhes descontadas as ditas ”faltas injustificadas”. Às clínicas acabam por ser abertos processos disciplinares que servem de fundamento aos seus despedimentos por “justa causa”, que têm lugar nesse ano. São afastadas do serviço."

Se isto fosse a excepção... Infelizmente, isto é o retrato de uma mentalidade muito espalhada entre nós, nos mais diversos locais de trabalho: a gestão de pessoal é gestão do terror, do arbítrio, do puro desmando. A selva. O capitalismo que temos é isto. Em inúmeros casos. E quem fala de "competitividade", "produtividade" e coisas que tais, fazendo de conta que os trabalhadores é que têm a culpa de tudo, esquecendo a tacanhez de muitos grandes e pequenos "chefes", comete um crime social contra a nossa dignidade.

E calamo-nos?

2 comentários:

Anónimo disse...

Calamos e continuaremos a calar. Se as médicas fossem jogadores de futebol ou actrizes de novela ainda poderíamos esperar alguma reacção, mas como não são...Este país feneceu faz tempo!

Baltazar Garção disse...



Este País não feneceu, não. Foi apenas atordoado e continua sedado, para que a sangria que lhe fazem possa prosseguir indolor e, sobretudo, impune.


Contudo, todos sabem que não há sono que sempre dure, nem sedativo que nunca se acabe.


Todos sabem, mas esquecem-no muito. E é aí que entra a famosa história do escrever direito por linhas tortas.


Tortas e bem tortas, por vezes!