22/02/13

maus exemplos.


"D. Januário Torgal Ferreira diz não ter elementos que contradigam as acusações de assédio sexual que recaem sobre D. Carlos Azevedo."

Suspeito que a campanha eleitoral (subterrânea, mas campanha eleitoral mesmo assim) para a eleição do próximo Papa explica o aparecimento agora de uma capa da Visão sobre a sexualidade do bispo Carlos Azevedo, incidindo sobre putativos factos que não são de todo recentes, segundo a própria informação da revista em causa. O bispo Carlos Azevedo, sendo muito próximo de um dos papabili, pode servir para atingir o seu "candidato" (para já não falar nas suas opiniões sobre a necessidade de um novo método de eleição do Papa, que, segundo declarações que terá proferido, não deveria caber apenas aos cardeais, mas às conferências episcopais, bispos, de todo o mundo).
De qualquer modo, aquela "reportagem" da Visão teve já efeitos notáveis. Um deles consiste em fazer confundir, na opinião pública, mais uma vez, homossexualidade com pedofilia, isco em que caíram alguns mata-frades mais apressados. Outro efeito notável, mas talvez mais raro, consistiu em dar a perceber melhor a finura do pensamento do bispo das forças armadas, Januário Torgal Ferreira, que, de uma penada, coloca de pernas para o ar um princípio básico de qualquer sistema judicial num estado de direito, quando sugere uma inaceitável inversão do ónus da prova. É que não interessa nada se o senhor bispo tem ou não tem "elementos que contradigam as acusações de assédio sexual que recaem sobre D. Carlos Azevedo"; o que interessa é se ele tem elementos de prova de algum crime ou acto censurável de alguém; se não tem, o que devia era, no mínimo, calar-se - mas, em todo o caso, o que nunca devia era colocar o ponto de esforço na necessidade de contradizer as acusações. As acusações é que têm de ser provadas, não é a respectiva contradição que tem de ser sustentada.
Claro, alguns acham que isto é coisa "de padres, eles que se entendam". Não acho: isto é mais um tijolo do apodrecimento da palavra no espaço público.

6 comentários:

Francisco Clamote disse...

Mau exemplo, sem dúvida. Quem muito gosta de se ouvir, dificilmente tem tempo para pensar.

Anónimo disse...

parece que ele diz coisa bem diferente, e que o link remete para um subtitulo que não encontra respaldo no corpo da notícia...

Anónimo disse...

parece que ele diz coisa bem diferente, e que o link remete para um subtitulo que não encontra respaldo no corpo da notícia...

Porfirio Silva disse...

O link remete para uma frase que vi citada em vários órgãos de comunicação.

Anónimo disse...

bem, a mim o que me faz confusão (e creio que este post continua nessa senda) não é a confusão entre homossexualidade e pedofilia, mas sim a reacção completamente estafúrdia dos vários quadrantes da igreja católica que se pronunciaram sobre o caso: o pecado do bispo não é a sua sexualidade mas a sua homossexualidade. e eu a pensar que o seu pecado seria a sua sexualidade e o assédio sexual. parece que se a vítima de assédio tivesse sido uma mulher estaria tudo bem e não haveria pecado...

Porfirio Silva disse...

O anónimo que diz que este post continua na senda da confusão entre homossexualidade deveria aprender a ler. Ou, no mínimo, ler antes de comentar. Há coisas suficientemente sérias para exigirem de qualquer comentador que, já que aprendeu a escrever, aprenda também a ler. Ou isso, ou bengaladas.