7.6.10

lavar as mãos em água suja


Stephen Adams, The Impasse

Fernando Nobre salienta que se distingue por nunca ter feito parte do sistema.

Nobre não tem responsabilidades nenhumas na situação. Andou por aí estes anos todos e não tem responsabilidades nenhumas na situação. Critica o que existe mas diz que não pregou prego nem estopa no que existe. Nobre só pode ser, então, uma de duas coisas: cego ou irresponsável. Cego, se andou por aí e não viu por onde a coisa ía. Irresponsável, se viu por onde a coisa ía e não falou em tempo. Em alternativa, isto pode ser apenas demagogia anti-política. Quanto a pecados que detesto, venha o diabo e escolha. Só me admira que haja gente, daquela que sabe o que é a política, que dê a sua voz por isto. Especialmente quando vêm de "lados" que nunca pactuaram com os toscos disfarces da não-política - mas que, agora, infelizmente, parece terem ficado encravados num impasse. Não mesmo nada quando a política do dia fica presa das pequenas raivas do passado.




6.6.10

o erro de Vieira da Silva

23:51

Parece que Cavaco Silva apelou a que os portugueses passem férias "cá dentro", que “férias passadas no estrangeiro são importações e aumentam a dívida externa portuguesa”.
Vieira da Silva diz que isso é verdade (realmente "a procura interna pode ajudar o sector do turismo, tendo em conta as dificuldades que enfrenta") - mas, MAS... “Só espero que os presidentes de outros países não façam o mesmo apelo, caso contrário perdemos uma fonte de receitas importante para o país. Há muitos turistas estrangeiros que vão a Portugal", acrescentou o ministro da economia.

Qual é o erro de Vieira da Silva? Será pensar que mais algum chefe de estado teria o mesmo sentido das prioridades que o nosso Aníbal? Ou será pensar que alguém "lá fora" ouve as brilhantes ideias do nosso Presidente e se põe a imitá-lo?

de regresso a Lisboa


(Ilustração retirada de Laid, pauvre et malade, de Chomet & De Crecy)


Regressado a Lisboa, com prazer, exercito prazeres de sempre: cinema ("Vencer", uma seca que não se safa por causa da história), teatro ("Olá e Adeusinho, de Athol Fugard, primeira encenação de Beatriz Batarda, no Teatro da Cornucópia; e "Hot Pepper, Air Conditioner, and The Farewell Speech", do japonês Toshiki Okada, no âmbito do Alkantara Festival, no TNDMII); comer com a família; andar a pé pela cidade; passar ao lado sem parar pelo piquenique de despedida da selecção de futebol de partida para o mundial da África do Sul; comprar livros de poesia de autores portugueses recentemente editados. Coisas simples. E, também, deveres higiénicos: tomar conhecimento, por vias travessas, de que na blogosfera continua a haver répteis que escrevem, mas respeitando a decisão de não os visitar nem os ler; censurar sem pensar duas vezes os comentários de moluscos que vêm cá fazer publicidade às suas diatribes e dizer que, enquanto eu chupo o dinheiro do povo, eles se levantam às sete da manhã (deve ser gente jovem, porque, caso contrário, saberiam que, na minha idade, já se dorme pouco e sete da manhã nem sequer é muito cedo); acabar de ler o livro do Carlos Brito e perceber como são pequenos os répteis e os moluscos de agora, se comparados com a coragem dos adversários dos tempos difíceis. Enfim, regressar ao de sempre.

o que mudou?

15:46

Ora aqui está uma afirmação a merecer reflexão:
«O atraso de Portugal é grande. A economia é deficitária. Mesmo que se eliminassem todos os lucros da grande burguesia e se procedesse a uma melhor distribuição da riqueza, o produto nacional não asseguraria, ao nível actual, a acumulação necessária para um desenvolvimento rápido e uma vida desafogada para todos os portugueses. Para o melhoramento das condições de vida gerais será necessário aumentar a produção em ritmo acelerado. E isso obrigará não só a investir como a trabalhar mais e melhor.»

Álvaro Cunhal, discurso ao VII Congresso do PCP, Outubro de 1974, citado por Carlos Brito em Álvaro Cunhal, Sete fôlegos do combatente, Ed. Nelson de Matos, Maio de 2010, p. 112

1.6.10

ciência (e) política



Passo a citar:
Michael Lind, um cientista político da New American Foundation, afirma, muito a propósito:
Um amigo meu que faz criação de cães conta-me que não se consegue compreender aqueles animais a menos que se tenha meia dúzia ou mais. O comportamento dos cães, quando reunidos em número suficiente, é sujeito a uma alteração espantosa. Formam instintivamente uma matilha disciplinada. Os filósofos políticos tradicionais têm estado na posição de estudantes do comportamento canino que observaram apenas cães domésticos individuais.
Está na altura de começarmos a estudar a matilha.
Philip Ball, Massa Crítica, Gradiva, p. 394