4.1.10
Cunhal e Camus, ou o século XX que teima em persistir
Álvaro Cunhal
14:48
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A 3 de Janeiro de 1960, Álvaro Cunhal e outros presos políticos fugiram de Peniche, ridicularizando o salazarismo e devolvendo à militância anti-ditadura vários "quadros" de valor. Passaram ontem 50 anos. Como lembrou Irene Pimentel, no Jugular, neste post.
A 4 de Janeiro de 1960, Albert Camus morreu vítima de um desastre de automóvel, um homem que «defendeu, acima de tudo, a liberdade contra todas as formas de totalitarismo», como escreve o incansável camusiano Eduardo Graça, no Absorto, neste post e em outros que se lhe seguem.
Parte importante da tragédia do século XX, o confuso cruzar de cruzadas liberticidas que se reclamavam de libertadoras, viria ao de cima na forma de uma peça dramática se Álvaro Cunhal se pudesse ter cruzado com Camus no dia a seguir ao da fuga de um e dia da morte do outro. Para ajudar a lembrar o enredo, é útil esta cronologia de Camus, que agradecemos ao Eduardo Graça.
Útil para actualizar as nossas perplexidades.
3.1.10
Ágora, o filme
Hipatia
23:52
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Já aqui escrevemos anteriormente sobre o filme Ágora, que está nas salas agora. O trailer é fácil de encontrar por aí. Aduzimos hoje mais um incentivo a ir ver: uma entrevista com o realizador, Alejandro Amenábar, num excerto legendado em português.
Podendo entender espanhol, vale a pena ver a peça mais completa, em três partes a seguir.
a morte da literatura
M.S. Lourenço
13:00
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Ensaio literário de M. S. Lourenço, em Os Degraus do Parnaso(*)
A MORTE DA LITERATURA
A reflexão sobre a cultura está conspicuamente a tomar a forma de uma necrofilia. Esta já tem uma tradição centenária, se pensarmos que a primeira morte foi anunciada há um século quando Zarathustra anunciou então a morte de Deus e nos anunciou a visão do homem do futuro, o super-homem para além do bem e do mal, o qual representa uma transcendência ao mesmo tempo do humano e do divino.
A segunda morte teve lugar já no nosso século [XX], após a Segunda Guerra Mundial, ao ser anunciada a morte do homem e, eo ipso, a inexequibilidade do projecto do super-homem. Estas duas mortes estão entre si relacionadas, uma vez que a morte de Deus foi causada pela ciência e a morte do homem foi causada por um produto da ciência, a máquina. Assim, enquanto a ciência levou à eliminação da percepção mágica do mundo, a máquina eliminou o comportamento mágico do homem e transformou-o num autómato.
Somos contemporâneos da terceira morte, a morte da Literatura, tal como ela é anunciada no ensaio de Hans Magnus Enzensberger com o depressivo título Mediocridade e Loucura. Os algozes da Literatura não são uma entidade abstracta, como a ciência, ou um objecto material, como máquina, eles são antes os consumidores dos meios de comunicação de massas, para os quais Hans Magnus Enzensberger adopta a designação hierárquica de «analfabetos secundários». Estes distinguem-se dos analfabetos primários sobretudo pelo facto de, além de saberem ler e escrever (com erros), estarem limitados a imitar a linguagem dos meios de comunicação de massas.
Assim, enquanto a contradição entre a magia e a ciência dá origem à morte de Deus, e a contradição entre a alma e a máquina dá origem à morte do homem, agora a contradição entre a linguagem da imaginação e a dos meios de comunicação de massas dá origem à morte da Literatura.
Mas a morte da Literatura não pode ser exclusivamente imputada aos analfabetos secundários, e a injustiça desta imputação torna-se mais óbvia se considerarmos os géneros literários tradicionais.
O fim da poesia épica tem de ser atribuído a causas alheias à cultura da audiência a quem o poeta épico se dirige. O sentido do poema épico consiste essencialmente em apoiar a configuração de uma concepção de Estado, já realizada ou a realizar. Mas como os fins que os Estados actualmente propõem aos seus súbditos não podem ser sublimados, porque são manifestamente imorais ou porque são simplesmente mercenários, a degradação da figura do Estado arrasta consigo a obsolescência da poesia épica.
A morte da poesia trágica é também independente da incultura das massas. Ao contrário, é um produto da cultura que está na origem do desaparecimento do género trágico. Este produto da cultura é a doutrina ética conhecida pelo nome de «voluntarismo», uma doutrina segundo a qual a vontade precede e determina a acção. Mas é óbvio que num mundo onde eu só faço aquilo que quero, deixo também de ter qualquer experiência trágica.
Enfim, no que diz respeito à poesia lírica, os temas do sujeito lírico e da sua união com a natureza são inconciliáveis com a catástrofe ecológica. Para o poeta lírico, o mundo não só deixou de ser mágico como se tornou repugnante: os rios, as florestas e a lua já o são, em breve seguem-se os planetas do sistema solar e o espaço cósmico em geral.
É preciso tornar cristalinamente óbvio em que é que consiste a minha diferença em relação às teses de Enzensberger. Sem dúvida que a constituição de uma plebe audiovisual, com um número sempre crescente de participantes, torna a Poesia impossível, uma vez que deixa de haver interlocutor para a asserção poética. Simplesmente a plebe audiovisual, que representa a negação da cultura, está paradoxalmente associada com alguns produtos da cultura, os quais também podem ser vistos como a causa eficiente da morte da Literatura.
Deixando agora de lado os factores de carácter político e económico que estão na origem da decadência da poesia épica e da poesia lírica, voltemo-nos uma vez mais para os factores endógenos da cultura. Além do voluntarismo, a que já aludi acima como responsável pela obsolescência da tragédia, a doutrina de estética literária conhecida pelo nome de «funcionalismo» produz efeitos em tudo idênticos aos do analfabetismo secundário.
Para o escritor funcionalista, o fim da obra literária é a comunicação de uma ideia. E tal como numa comunicação telefónica a forma está subordinada à informação a transmitir, assim também na obra de arte literária a forma é função da mensagem. Nestas circunstâncias, o valor de uma obra de arte literária é o valor da ideia nela representada. Enquanto para Auerbach a narrativa do Novo Testamento é responsável pela queda da doutrina clássica dos estilos, em virtude de uma mesma pessoa ser ao mesmo tempo uma reencarnação do sublime e do vulgar, agora estamos perante uma doutrina para a qual o estilo e a forma deixam de ser o fim da obra de arte literária.
Não é assim de surpreender que ao funcionalismo se viesse juntar aquela forma de cepticismo estético que é representada pelo relativismo, o ponto de vista da estética literária segundo o qual tudo tem igualmente o mesmo valor: não há fronteiras entre o literário e o não-literário, e é indiferente se se lê uma crónica da Bolsa ou uma página de Proust. Mas evidentemente se tudo é igual a tudo, então também não vale a pena dizer nada, e é esta genuinamente a morte da Literatura.
A consequência prática desta doutrina é a abolição da diferença entre o escritor e o analfabeto secundário, caminhando ambos para uma legitimação recíproca e sem conflitos. Os escritores legitimam a plebe audiovisual escrevendo sem estilo e sem forma, sem exigências para consigo ou para com o seu público, o qual, por sua vez, legitima o escritor não fazendo perguntas, porque nem autor nem leitor sabem o que é o ramo de Eneias, o que é que Ariana faz na ilha de Naxos.
Entretanto, cem anos de perplexidade chegaram para mostrar que Deus não morreu, uma vez que a todo o momento os deuses ressuscitam. A segunda prognose também ainda não se realizou e, embora pendurado à beira de um abismo, o homem ainda não morreu. Ambos, Deus e o homem, são uma criação da Literatura, do Logos, que é o princípio por meio do qual as coisas passam a ser. Assim a morte da Literatura é o Apocalipse.
(*) A primeira edição d' Os Degraus do Parnaso é de 1991, por O Independente. A segunda edição, integral, coube à Assírio & Alvim, em 2002. Foi republicada em O Caminho dos Pisões, em 2009, pela Assírio & Alvim, que assim nos dá acesso à obra poético-literária reunida de M.S. Lourenço.
M.S. Lourenço, filósofo, ensaísta e poeta, morreu a 1 de Agosto de 2009, aos 73 anos. É um Professor de que tenho saudade; devia ter aprendido mais com ele, mas é preciso saber muito para aprender com os grandes.
Página de M.S. Lourenço como filósofo da matemática.
carta de amor de Rosa Luxemburgo para Leo Jogiches, 6 de março de 1899
Rosa Luxemburgo
11:54
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I kiss you a thousand times for your dearest letter and present, though I have not yet received it […] You simply cannot imagine how pleased I am with your choice. Why, Rodbertus is simple my favorite economist and I can read him a hundred times for sheer intellectual pleasure. […] My dear, how you delighted me with your letter. I have read it six times from beginning to end. So, you are really pleased with me. You write that perhaps I only know inside me that somewhere there is a man who belongs to me! Don’t you know that everything I do is always done with you in mind: when I write an article my first thought is – this will cause you pleasure – and when I have days when I doubt my own strength and cannot work, my only fear is what effect this will have on you, that it might disappoint you. When I have proof of success, like a letter from Kautsky, this is simply my homage to you. I give you my word, as I loved my mother, that I am personally quite indifferent to what Kautsky writes. I was only pleased with it because I wrote it with your eyes and felt how much pleasure it would give you.
[…] Only one thing nags my contentment: the outward arrangements of your life and of our relationship. I feel that I will soon have such an established position (morally) that we will be able to live together quite calmly, openly, as husband and wife. I am sure you understand this yourself. I am happy that the problem of your citizenship is at last coming to an end and that you are working energetically at your doctorate. I can fell from your recent letters that you are in a very good mood to work […]
Do you think that I do not fell your value, that whenever the call to arms is sounded you always stand by me with help and encourage me to work – forgetting all the rows and all my neglect!
[…] You have no idea with what joy and desire I wait for every letter from you because each one brings me so much strength and happiness and encourages me to live.
I was happiest of all with that part of your letter where you write that we are both young and can still arrange our personal life. Oh darling, how I long that you may fulfil your promise […] Our own little room, our own furniture, a library of our own, quite and regular work, walks together, an opera from time to time, a small – very small – circle of intimate friends who can sometimes be asked to dinner, every year a summer departure to the country for a month but definitely free from works! […] And perhaps even a little, a very little, baby? Will this never be permitted? Never? Darling, do you know what accosted me yesterday during a walk in the park – and without any exaggeration? A little child, three or four years old, in beautiful dress with blond hair; it stared at me and suddenly I felt an overpowering urge to kidnap the child and dash off home with him. Oh darling, will I never have my own baby?
And at home we will never argue again, will we? It must be quite and peaceful as it is with everyone else. Only you know what worries me, I feel already so old and am not in the least attractive. You will not have an attractive wife when you walk hand in hand with her through the park – we will keep well away from the Germans. […] Darling, if you will first settle the question of your citizenship, secondly your doctorate and thirdly live with me openly in our own room and work together with me, then we can want for nothing more! No couple on earth has so many facilities as you and I and if there is only some goodwill on our part we will be, must be, happy.
Róża
(sobre Rosa Luxemburgo, por exemplo aqui ou aqui)


