28.3.13

três palavras sobre o regresso de Sócrates.

11:36

Muito haveria a dizer sobre a entrevista de Sócrates ontem na RTP. Para não chover no molhado, destacarei da minha leitura apenas três pontos. Oxalá a paciência do leitor chegue para tanto.

1. Sócrates, na sua missão (oportuníssima) de desmontar a narrativa única, ajuda a clarificar o calendário da sua governação e, do mesmo passo, o calendário da crise. O conjunto dos seus governos teve três fases. Na primeira fase, entre 2005 e 2008, antes da crise internacional desencadeada pelos crimes cometidos no Lehman Brothers, o governo do PS foi dos mais bem sucedidos em democracia quanto à combinação de crescimento, reformismo e contenção orçamental: o mais baixo défice orçamental do regime democrático (a partir da situação catastrófica deixada pelo PSD) e os resultados, excelentes, hoje traduzidos claramente nos indicadores internacionais, por exemplo em sectores como a educação e a energia. Na segunda fase, a crise internacional atacou forte e toda a Europa decidiu gastar gastar gastar para aguentar o barco pela via da procura interna; Portugal fez o mesmo, enquanto a oposição dizia que era tudo culpa de Sócrates. Manuela Ferreira Leite, por exemplo, então líder do PSD, dizia que a crise internacional era apenas uma constipação. Passado um ano, e aí entra a terceira fase, a Europa muda de agulha e a crise muda de natureza: entramos progressivamente na crise das dívidas soberanas, agora mais centrada na Europa. Esta é a fase que culmina com o drama do PEC IV. É nesta fase que a explicação de Sócrates é menos clara. Por quê?

A razão pela qual o drama do PEC IV continua mal explicado é, a meu ver, a seguinte situação com vários vectores. Em primeiro lugar, como Sócrates ontem começou a desvendar, as instituições da República viviam uma situação anómala: o Presidente da República era um conspirador activo contra o governo. Além de nos ter caído o mundo em cima, o governo tinha de se defender de quem devia ser o seu principal aliado: o PR. Essa é a verdadeira explicação para Sócrates não ter dado conhecimento antecipado a Cavaco Silva do PEC IV: o governo sabia que Cavaco iria aproveitar qualquer informação privilegiada, não para ajudar, mas para tentar enterrar ainda mais depressa o governo. Em segundo lugar, a Europa estava (como ainda hoje, no essencial) sem saber muito bem como lidar com a crise. Às apalpadelas. O que Sócrates conseguiu no Conselho Europeu foi convencer os seus pares, que estavam inclinados a entregar-nos ao FMI, de que seria melhor, com o apoio do Banco Central Europeu, evitar esse passo. Com o projecto de PEC IV, Sócrates convenceu a própria Merkel a aderir a esta tese. Em terceiro lugar, essa estratégia foi derrotada pela pressa do PSD em provocar uma crise para ir para o governo (lembrem-se de que o PSD mentiu descaradamente, nessa altura, dizendo que só tinha sido informado do assunto pelo telefone, quando na véspera Passos Coelho tinha passado horas a discutir isso mesmo com Sócrates).

Posto isto, algo, neste ponto, continua mal explicado por Sócrates: Sócrates acredita demasiado na bondade do PEC IV e na bondade da “Europa”. O PEC IV era uma fase ainda benigna de uma estratégia europeia errada e insuficiente. Portugal não tinha outra opção que não fosse tentar o maior apoio possível da Europa, quanto mais não fosse tentando ganhar tempo – daí a inteligência do PEC IV, daí a gravidade de o ter chumbado. Mas, e tem faltado coragem para dizer isso aos portugueses, Portugal não pode tentar afrontar sozinho o mundo: Portugal tem, de facto, necessidade de mostrar que está a fazer o seu melhor para ultrapassar as dificuldades. Isso não chega, mas isso é indispensável. As oposições não podem ignorar isso: não o deviam ter ignorado no tempo de Sócrates, não podem ignorá-lo hoje. Infelizmente, enquanto Sócrates se bateu para responder a gregos e a troianos (satisfazer a Europa com o menor sangue possível para os portugueses), este governo quer fazer o máximo possível de sangue (“ir além da troika”) por ideologia e por desprezo pela realidade que vivemos quotidianamente fora dos palácios governamentais. O PEC IV podia não ter resolvido os nossos problemas, mas era a única via (estreita) para tentar uma saída. Estaríamos como Espanha ou como a Itália, não estaríamos em soberania limitada: mas não se pode ignorar que os sacrifícios seriam, mesmo assim, muitos, porque a estratégia da Europa, tendo melhorado, continua deficiente. Uma das minhas críticas à entrevista de Sócrates ontem foi não ter conseguido explicar isto com a devida clareza, deixando no ar uma crítica à austeridade que não se percebe bem a colocar nesta perspectiva.

2. Num ponto, Sócrates reconheceu um erro fulcral da sua estratégia política, mas não foi até ao fim no que há a dizer sobre isso. Reconheceu ter sido um erro ter formado um governo minoritário no seu segundo mandato. Nunca é tarde para reconhecer um erro crasso. Mas deu uma desculpa esfarrapada para isso: parece que ainda não tinha percebido bem a gravidade da crise. Ora, aí é pior a emenda do que o soneto: ele era quem mais tinha obrigação de perceber o que estava a acontecer no mundo. E os seus apoiantes andavam há meses a desmontar a tese da direita segundo a qual a crise seria apenas uma constipação. Até eu, longe de qualquer centro de poder, escrevi nessa altura que esse erro se pagaria caro. Ele não poderia ter falhado aí: bastava ter-se lembrado de Guterres. Se calhar confiou demais em si próprio, o que também é criticável. De qualquer modo, para escrever a história desta questão, espero que algum dia seja contado como outros partidos foram convidados a coligar-se com o PS no governo e se escusaram. Justiça estará por fazer enquanto essas facturas não forem apresentadas preto no branco ao povo português, que tem o direito de saber quem, criticando, fugiu com o rabo à seringa no momento da verdade.

3. Finalmente, há um ponto decisivo no qual a entrevista de Sócrates ontem me pareceu claramente insuficiente. A governação de Sócrates falhou redondamente num plano essencial para qualquer resposta política aos desafios de uma sociedade, especialmente se essa resposta pretende ser de esquerda: a mobilização de um bloco social de apoio às grandes linhas da governação. E Sócrates parece não se aperceber de que isso seja um problema.

Claro, dirão muitos, imediatamente: o governo teve de enfrentar muitos interesses instalados; a conflitualidade social resultou da tentativa de bloquear as reformas; houve uma aliança objectiva entre a esquerda e a direita para mobilizar o país contra mudanças essenciais. Tudo isso pode ser verdade. Aliás, em certa medida tudo isso é verdade. Contudo, mesmo sendo isso verdade, toda essa verdade só torna mais evidente um facto: os governos de Sócrates não souberam lidar com isso. As culpas estão mais do seu lado ou mais do lado de outros parceiros? É discutível. Mas é indiscutível que esses governos do PS não souberam encontrar a boa equação para esse problema – e é preciso tentar perceber isso, coisa que não parece interessar muito a Sócrates.

Ora, nem tudo foi igual. Por exemplo, a reforma mais duradoura, mais profunda e, provavelmente, a de consequências mais graves para a generalidade dos portugueses, foi a reforma da segurança social, levada a cabo por Vieira da Silva num clima tenso mas, dadas as circunstâncias, de notável controlo da conflitualidade potencial associada. Já Maria de Lurdes Rodrigues, uma ministra da educação com uma visão claríssima do que o país precisa, com uma visão claramente de esquerda na defesa da escola pública e com um enfoque muito objectivo na qualidade e na exigência, que obteve resultados que os números das instâncias internacionais espelham continuamente, foi, no entanto, incapaz de montar uma estratégia eficaz para lidar com os professores e os sindicatos. Como escrevi na altura (eu que defendi a ministra publicamente até ao ponto de ter tido na altura os meus momentos mais complicados como blogger), a forma atabalhoada como foi gerida a questão dos professores titulares, deixando em muitos dos melhores o amargo de boca de um processo injusto, alienou aqueles que deveriam ter sido os seus principais aliados no resto do processo e quebrou a força moral dos que combatiam justamente pelo futuro das gerações a formar. Toda a gente se lembra das gigantescas manifestações de professores, enquanto a reforma da segurança social se fez sem estragos de maior.

Houve, portanto, erros na percepção do que havia a fazer para manter coeso um bloco social de apoio às políticas do governo. Que Sócrates continue a não perceber que isso foi um problema, é pena e é grave. A menos que se queira cair na conversa cavaquista das forças de bloqueio e se alinhe na retórica anti-sindical, é preciso ir mais fundo na compreensão do problema.

Dito tudo isto, tomara Portugal poder contar com muitos políticos com a preparação, a força e o patriotismo de José Sócrates. Fazem-nos tanta falta políticos desses como não nos fazem falta nenhuma quaisquer excessos de sebastianismo positivo ou negativo.



27.3.13

imaginação política é isto.


JSD vai à sede da RTP entregar factura a José Sócrates.

Imaginação é isto: quem está no poder é que faz "grandoladas" aos outros (mas sem Grândola, neste caso). É, aliás, coerente: as "esperas" a dirigentes políticos começaram tendo como alvo membros do anterior governo do PS, quando até reuniões partidárias eram assaltadas por "populares assanhados". Há quem consiga estar sempre na oposição, mesmo quando está no governo (e não é só Paulo Portas, pelos vistos). Espero que a JSD leve também a factura da crise política que assanhou definitivamente "os mercados" e acabou de vez com qualquer possibilidade de escapar à troika. Ou estes não passam factura?

saltar o muro da vergonha.

14:18

No dia em que um judeu ou uma judia, que escreve e fala publicamente como tal, colocar um ex-primeiro-ministro do Portugal democrático no mesmo plano de um Hitler para desenhar um "argumento político", esse judeu ou judia passou a estar ao nível de qualquer fascistóide de pacotilha. Já aconteceu a alguns. É este o caso.

26.3.13

foi por isto que Juncker deixou de ser presidente do eurogrupo?


Nuno Teles:
O resgate a Chipre está a ser vendido como o castigo europeu a um paraíso fiscal no seio da zona euro. Luxemburgo (banca com balanços 23 vezes o seu PIB) e Malta (banca com balanços 8 vezes o seu PIB) são os próximos?

No Ladrões de Bicicletas.

estórias de heróis que viram o monstro e sobreviveram para contar.

os efeitos da saída do euro sobre a esquerda económica.

15:33

Um dos factos interessantes dos últimos anos da política e da cultura portuguesas consiste no surgimento de um grupo, sólido embora plural, interveniente e ouvido, de economistas de uma esquerda alternativa que colocam muitos pauzinhos na engrenagem do discurso oficialista e cordeirinho acerca do que está certo e errado na economia-realidade e na economia-ciência. Outro facto, lateral mas também interessante, é que esse arquipélago de economistas de esquerda, que tem algumas das suas ilhas mais relevantes no blogue Ladrões de Bicicletas, "invade" quer o espaço do Partido Socialista, quer o espaço do Bloco de Esquerda, alargando-se ainda para espaços mais excêntricos ao sistema político-partidário, como seja um grupo importante de intelectuais católicos que são bem simbolizados por Manuela Silva. Nessas condições, este arquipélago poderia (poderá ainda?) ter consequências políticas relevantes, sem requerer nenhuma espécie de jogo partidário, apenas pela força das ideias partilhadas.

Dizer isto não implica concordar sempre com o que dizem esses (ou alguns desses) economistas de esquerda alternativa. Um dos aspectos em que mais discordo deles é na questão do euro. Passam de um ponto relativamente consensual (o euro foi desenhado de modo que favorece os fortes e entala os fracos) para uma conclusão arriscada: o melhor é sair do euro. Assim cometem o erro capital de outros economistas a que se opõem: desligam o argumento económico do argumento político. Que a desagregação do euro possa arrastar a desagregação da própria União Europeia, com consequências incalculáveis, não parece ser coisa que lhes passe pela cabeça - ou, então, que os preocupe. Estão, alguns deles, assim, no caldo de cultura anti-europeu que alimenta desde sempre uma certa esquerda da esquerda.

Isto quer dizer que não se reconhecem erros enormes na orientação política da Europa? Não quer dizer nada disso. Só que a Europa tem a orientação política que os seus cidadãos lhe dão. Votando, pois. O euro foi criado desta maneira e não doutra - por obra e graça do Espírito Santo? Não; o euro foi criado assim porque Delors fez um pacote de propostas e os governos europeus aceitaram parte do pacote e deitaram outras partes para o lixo. Agora, saímos de uma comunidade política quando discordamos das decisões da maioria? Um país sai da UE por estar contra a maioria que a governa? Os Açores devem abandonar Portugal por terem um governo que discorda das políticas da República? O Algarve deve pedir a independência quando se sinta injustiçado pelo governo central? Não me parece que isso seja forma de resolver os problemas. E está por demonstrar que a "jangada de pedra" separada do resto do continente seja mais viável do que integrada na Europa.

Um ponto interessante deste debate é, já há largos meses, a posição de Francisco Louçã contra a saída do euro, pelo menos na forma em que ela seria possível nas actuais circunstâncias. Já o livro A Dívidadura, editado a quatro mãos com Mariana Mortágua, era muito esclarecedor nesse ponto. Agora, Louçã volta ao tema (vejam o ponto 4 neste texto: Os defensores da saída do euro têm uma boa razão para refletir). O ponto, que Louçã explica muito melhor no livro do que no post, é que ficaríamos ainda mais pobres com a saída do euro do que estamos agora. Entretanto, alguns dos membros mais relevantes da tal novíssima esquerda económica, ficaram escaldados com a posição de Louçã e reagem. Isso é bom para o debate - mas também mostra as dificuldades essenciais que existem para um entendimento entre o PS e a esquerda da esquerda para qualquer governação viável do nosso país.

Nesse aspecto, Louçã é, como se sabe, muito mais político e, como bom trotskista, pensa no futuro: pensa no que o futuro pensará da sua acção política. E sabe que, se um dia Portugal tiver de sair do euro, a desgraça social vai ser tanta que a factura a pagar pelos que tenham defendido essa solução será uma factura abrasadora. Nessa altura, o resto da esquerda económica que anda por aí a defender a saída do euro terá de emigrar para as Berlengas, sob pena de lhes cantarem a Grândola à porta do quarto de dormir. E de essa grandolada ser mais violenta do que as dirigidas a Relvas. Louçã, que não deixa a sua ciência económica perder o tino da vida política real, estará a salvo dessa enorme vassourada à esquerda económica. Infelizmente, se sairmos do euro ficaremos com pouco fôlego para apreciarmos devidamente as consequências da imprudência política dessa esquerda novíssima que não será eterna se a realidade seguir os seus conselhos.

um resumo sobre Chipre.

10:00

Sabemos que há certos assuntos que são difíceis de seguir se não passarmos o dia a ler a imprensa internacional. Quando o assunto é mesmo importante, temos de nos agarrar a quem sabe e sabe dizer as coisas sem rodriguinhos. Para estes assuntos de finança global, entre os meus amigos não encontro melhor do que Jorge Nascimento Rodrigues, que, tendo opinião, nunca a mistura com informação. Por isso deixo aqui o que ele deixou ontem à noite na sua página do FB:

Confusão total sobre os "30%" em Chipre -- as TVs repetem até à exaustão, e os comentadores comentam em cima de asneira sobre asneira.

1- O imposto extraordinário sobre os depósitos acima de 100 mil euros é APENAS aplicado no caso dos depositantes do Banco de Chipre; não de todos os bancos que operam em Chipre;

2- O número dos "30%" nesse caso surgiu porque o porta voz do governo referiu que essa era a base que foi falada tendo em conta o acordo do governo com a troika, mas o valor desse imposto vai depender do estudo técnico que vão fazer; na realidade, de momento esses depósitos acima de 100 mil estão pura e simplesmente congelados, à espera da decisão final;

3- No caso do banco Laiki que vai ser liquidado, os depositantes com depósitos acima de 100 mil euros nem vão sofrer imposto nenhum, pois esses montantes acima de 100 mil vão ser considerados tóxicos e vão transitar integralmente para um bad bank onde logo se verá que rendem;

4- A reestruturação e recapitalização é apenas destinada a estes dois bancos, aliás os principais na ilha, não a todos.

E é isto. E depois venham dizer-me que as redes sociais não servem para nada. Para pouco servem muitos jornais que por aí andam.

25.3.13

afinal, a sra. Merkel é comunista?

21:44

A senhora Merkel descobriu agora que "os bancos é que devem pagar a crise". Magnífico. Pena só ter descoberto isso depois de ter posto os bancos alemães a salvo, quando os outros fogos (designadamente o grego) começaram a arder.
Entretanto, a senhora Merkel, mais os "líderes" europeus que inventaram esta "solução" cipriota, concretizam aquela ideia de "os bancos que paguem a crise" desta maneira: metendo accionistas dos bancos, grandes "investidores" especulativos E DEPOSITANTES no mesmo saco. Sim, começaram por querer taxar toda a gente, depois deixaram os depósitos até cem mil euros de fora, mas, mesmo assim, há uma diferença entre, por um lado, um depositante com 200 ou 300 ou 400 mil euros e, por outro lado, um profissional da especulação em larga escala. Meter tudo no mesmo saco é uma espécie de "os ricos que paguem a crise" destinado a mascarar os seus verdadeiros interesses em toda esta história. Será que "afundar" a ilha faz parte do plano para "comprar" mais facilmente umas reservas de gás e petróleo que podem valer uma grossa fatia das necessidades de toda a União Europeia? Ou "afundar" a ilha é apenas uma tolice que vai fazer com que a Europa fique a ver navios quando chegar a hora de partilhar as vantagens desses recursos naturais, como se defende aqui? De qualquer dos modos, Merkel numa coisa é muito parecida com Barroso: ambos estão sempre em campanha eleitoral, pelo que cometem sistematicamente todos os erros que servem para piscar o olho ao eleitorado no momento.

o CDS sabe pedir.

16:44


O grande título de hoje do Público é, outra vez, sobre a biografia de um partido que gostaria de ser o que não é e de parecer o que ninguém o deixa ser.

Há uma alínea do acordo de coligação entre PSD e CDS que reza assim: "O PSD tem de arranjar maneira de dar satisfação a alguns divertimentos do CDS que resultem da necessidade de este partido fazer de conta que tem uma valia própria no seio do governo." Esta clásula, se não existe preto no branco, deve existir em algum acordo de cavalheiros. E o CDS exercita essa faculdade com absoluta falta de pudor: tem os seus ministros no governo, onde se aprovam as políticas, mas vai para o Largo do Caldas dizer que o governo devia ir por acolá e não por acoli. E diz isso no Largo do Caldas na presença dos seus ministros e secretários de Estado - que, claro, podiam tratar de dizer isso mesmo no próprio governo.

Desta vez, parece que pedem a remoção de dois ministros: Relvas e Álvaro. Parece que Relvas coordena pouco. É mentira: ele coordena mais do que ninguém. Há mesmo quem diga que, querendo que alguma coisa "de todos os dias" se decida no governo, é preciso ligar a Relvas para desempatar. Relvas tornou-se foi inconveniente, porque está demasiado à vontade a fazer aquilo que todos os outros membros do governo querem que ele faça. Tornou-se inconveniente porque derrama o chá, mostrando que está pouco habituado a chá. Por outro lado, parece que Álvaro não trata da economia. Não trata ele nem tratará nenhum que Gaspar, assessorado por Passos, trate de minimizar à partida. Gaspar e Passos cedo trataram de explicar ao mundo que Álvaro não mandava nada e ainda era gozado por cima (lembram-se do episódio "qual foi a parte que não percebeu" soprado cá para fora?). Enquanto isso for assim, Álvaro 1 ou Álvaro 2, tanto faz. Em resumo: o que o CDS "pediu" é nada. E, decerto, como é nada, vai tê-lo. Trata-se, mão que pede e mão que dá, de "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma".

E, quem sabe, agora que o PS anunciou uma moção de censura para depois da Páscoa, talvez o pedido do CDS até venha a calhar para fazer uma remodelação que atrapalhe um pouco a moção do PS. Como se a moção de censura pudesse ser respondida por nada ou coisa nenhuma.

(O assunto do salário mínimo é diferente: o CDS, por incrível que pareça, é menos ideológico do que o PSD; por isso, sabendo que isso só custa dinheiro aos privados, e não acreditando que menos uns euros em cada ordenado muito baixo faça qualquer diferença à competitividade, não vê razão para esta batalha e quer virar a página. O CDS, aliás, já tinha mostrado essa inteligência quando estava na oposição.)

Should Bush, Blair be charged over Iraq?

24.3.13

a imaginação dos esclavagistas.



Certo, a notícia não é nova, mas desculpem-me se já a conheciam.
O caso é este. Há jogos em linha, na internet, envolvendo muita gente à volta do mundo. Por exemplo, variantes múltiplas de algum tipo de jogo de guerra. Esses jogos muitas vezes envolvem a necessidade de conseguir certos "bens virtuais" para se atingirem certos objectivos, como subir de nível. Em alguns casos, um jogador pode comprar esses "bens" a outros jogadores. Então, se isso pode ser um jogo, também pode ser... um trabalho. E, mais, pode ser... uma forma de escravatura moderna. Relatado pelo The Guardian: na China, alguns prisioneiros são obrigados a jogar intensamente para acumular "ouro virtual", que depois é vendido a outros jogadores, em troca de dinheiro real - que, claro, não vai para os prisioneiros-jogadores, mas para os seus exploradores corruptos.

(notícia original no The Guardian)