23.3.13

o Papa Francisco e a ditadura argentina.


Como é sabido de quem vai acompanhando o que escrevo, não sou crente, nem enquadrado em qualquer religião, nem sou religioso por conta própria, mas interesso-me pelas questões da presença da religião na sociedade. Interesso-me, em particular, pelo catolicismo, dada a sua dominância na nossa região cultural. O novo Papa interessou-me, pois.
Logo após o primeiro aparecimento público do Papa Francisco manifestei o meu agrado pela sua simplicidade e pelo possível significado de ele falar sempre como "mero" bispo de Roma, descartando qualquer atitude mais imperial. Logo a começar, também, outros vieram logo com a tese de que o cardeal Bergoglio tinha as mãos sujas do tempo da ditadura argentina. Numa rápida investigação imediata conclui que essa questão tinha sido suscitada sem que, alguma vez, algo de concreto tivesse sido evidenciado contra ele. Os que nunca passaram pelas dores de uma ditadura, nunca tendo tido oportunidade de mostrar a sua clarividência e coragem, são muitas vezes demasiado expeditos a julgar os que passaram por tal situação, sendo que estes, por vezes, não encontram a melhor solução para cada momento. Aquela dúvida sobre o passado de Francisco era, portanto, apesar de parecer claro que não havia ali mãos sujas, uma dúvida que queria ver melhor esclarecida.
Pensando que talvez outros que por aqui passam tenham o mesmo interesse, deixo um excerto das declarações de Leonardo Boff, um teólogo brasileiro que personifica exemplarmente as correntes mais progressistas do catolicismo, tendo pago caro por essa condição face à intolerância dos mais conservadores na hierarquia. É, pois, a meu ver, insuspeito nesta questão.

Inter Press Servia: Na Argentina, a eleição de Bergoglio foi criticada por sua suposta cumplicidade no sequestro de dois sacerdotes jesuítas durante a ditadura.

Leonardo Boff: Sei que, em geral, a Igreja argentina não foi profética em denunciar o terrorismo de Estado. Apesar disto, houve bispos como (Enrique) Angelleli, que morreu de maneira terrível, (Jorge) Novak, (Jaime) De Nevares e Jerónimo Podestá, entre outros, que claramente foram críticos. Com referência a Bergoglio, prefiro acreditar em Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, e na ex-integrante da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Graciela Fernández Meijide), que qualificam essa acusação de calúnia. Não encontraram nem uma vez o nome de Bergoglio em documentos ou denúncias. Pelo contrário, salvou muitas pessoas escondendo-as no Colégio Máximo de San Miguel. Além disso, vai contra seu caráter já conhecido, de homem forte e também terno, pobre e que continuamente denuncia as injustiças sociais existentes na Argentina e a necessidade de justiça e não de filantropia. Por fim, o que interessa não é Bergoglio e seu passado, mas Francisco e seu futuro.

IPS: Por que o senhor passou por alto neste tema em suas declarações iniciais?

LB: É um assunto polêmico e se deve conhecê-lo bem. As versões são contraditórias. Não falo de coisas sobre as quais não tenho clareza. E me pergunto: qual é o interesse de alguns grupos em levantar esta questão e não discutir a grave crise da Igreja e seu sentido diante da crise da humanidade. Talvez, isto eu concebo, poderia ter sido mais profético, como foram no Brasil o bispo Hélder Câmara e o cardeal Paulo Evaristo Arns. Mas aqui o Estado é laico e separado da Igreja. Na Argentina, o catolicismo é a religião do Estado, o que dificultou, mas não impediu, que houvesse resistência e denúncias de uma parte da Igreja.

IPS: Omissão não é pecado?

LB: A questão não é responder se é, ou não, pecado. Isto é assunto de religião. A questão é política, e para mim é de que lado está a pessoa: do lado dos pobres, dos que sofrem desigualdades perversas? Ou do statu quo que quer o crescimento ilimitado e uma cultura de consumo? Em 1990, havia 4% de pobres na Argentina. Agora são 33% (segundo dados não oficiais). Bergoglio ficou do lado dessas vítimas e vive cobrando justiça social. Se não entendemos isto, estamos nos desviando do ponto central.

Esta entrevista na íntegra aqui.

alguém viu este gorjeio sobre Barroso?

22.3.13

o bloco central apresenta o seu programa de governo.


Este é o meu comentário político para os próximos meses. Não me perguntem pelo chumbo do orçamento no Constitucional, nem pela moção de censura do PS, nem pela fórmula governativa que se segue, nem pelo canal estreito entre a Grécia e Chipre. Não me perguntem mais nada, apenas vos deixo com esta antecipação do bloco central a apresentar o seu programa de governo. Ouçam com atenção.




cozido à portuguesa.

10:29

O grande problema da política à portuguesa? Toda a gente pensa que os problemas são fáceis de resolver. Por isso, toda a gente acha que faria melhor, "se lá estivesse", do que quem lá está. E é sempre tudo "de caras". Quando digo "toda a gente", não digo só políticos, economistas, filósofos de serviço, comentadores encartados ou improvisados, ou banqueiros; digo, mesmo, toda a gente, incluindo qualquer comentador anónimo de qualquer jornal online. Por que é que isto é um problema? Por, na realidade, não haver problemas simples no mundo de hoje; os problemas políticos são todos complicados e complexos. Logo, estamos a enfrentar isto com a atitude colectiva errada. E, em cada turno (em cada ciclo político) alguém promove a atitude errada, por conveniência de momento, só para apanhar com os estilhaços no turno seguinte.
Se fossemos capazes de perceber que todos os problemas em cima da mesa são difíceis, podiamos agir em conformidade: dar prioridade à necessidade de encontrar os mecanismos para pensar em conjunto. A todos os níveis. Conversar para perceber o problema. Concertar para fazer o levantamento das hipóteses de saída. Negociar para construir uma via de solução, de preferência pouco a pouco e com monitorização constante de que cada um está a fazer a sua parte e de que estamos a obter os resultados pretendidos. E, obviamente, dividindo o esforço e divindo os benefícios. E preservando sempre o rosto e a palavra do outro, por mais que discordemos dele. Porque o adversário é o melhor aliado se temos de viver juntos.
Em suma: uma democracia para os nossos tempos. Coisa tão simples de dizer e, aparentemente, tão impossível de fazer. Será que as democracias só se regeneram pela ditadura ou pela guerra?

21.3.13

De repente somos todos cipriotas?

15:07

Chipre recusou o ultimato da “Europa” e nenhum deputado votou a favor de talhar os depósitos. E o povo aplaudiu. O povo cipriota e o povo que está farto desta democracia musculada à europeia onde alguns são senhores e outros são servos. As autoridades da ilha começaram a mexer-se para tentar encontrar uma alternativa, sendo que uma das tentativas passou por seguir os passos do anterior presidente comunista rumo a Moscovo. De momento, não parece ter dado grande resultado, mas as diferentes forças políticas ainda tentam alguma coisa que trave a guilhotina, guilhotina que só está suspensa pelos feriados bancários que mantêm fechado à chave o que há-de voar proximamente para bem longe. Terá saído dessa concertação interpartidária este “Fundo de Investimento de Solidariedade” que, embora não se saiba ainda muito bem como, se destina a reunir internamente os montantes necessários a coadjuvar o resgate internacional. Quer dizer: o que faz de Chipre o herói de quem sonha com a resistência improvável é o bater o pé e juntar ideias de forças diferentes para tentar uma escapatória ao destino.
Foi isso precisamente que foi negado a Portugal, quando, estando a Europa disposta a tentar a quadratura do círculo para evitar a troika ao nosso país, Passos Coelho, por interesses estritamente partidários, decidido a apressar a hora de “ir ao pote” (expressão sua) e reuniu uma coligação da direita da direita com a esquerda da esquerda para abrir uma crise política e tornar inevitável o “resgate”. Deve ser a isso que se referem os que falam das responsabilidades de quem nos trouxe até aqui.
Não, de repente não somos todos cipriotas. Já tivemos um momento para o sermos, mas passámos ao lado.

até já há uma petição.

11:55

José Sócrates será comentador na RTP.


Por acaso, eu até acho uma estupidez que um ex-PM, cujo "julgamento pela história" está longe de estar feito, se apresente ao país como comentador político. Mostra que a ideia de "sirvo na minha vez e depois vou à minha vida" está longe de ser compreendida. Ou, até, aproveitada para felicidade pessoal dos envolvidos.

De qualquer modo, deliro com a quantidade de "brados aos céus" que vão por aí a propósito da notícia. Até já há uma petição contra essa eventualidade, dirigida, em primeiro lugar, aos deputados da Assembleia da República - mostrando o quanto vale para esses peticionários a ideia de que os políticos não têm de interferir na programação. Certo é que muitos pensavam que o homem tinha sido banido e parecem saudosos das fogueiras da inquisição.

Também há quem diga que é capaz de dar um bom comentador: pelo menos não será tão mal informado e tão cabeça no ar como muitos comentadeiros que por aí andam. Mas sempre vale outro lado da questão: pelas reacções que podemos ver "por aí", parece haver pouca gente capaz de ouvir Sócrates; alguns começam logo a praguejar, outros começam logo a babar, nem uns nem outros chegam a ouvir o que ele diz. Neste caso, "o boneco" chega antes das palavras. Esse é, aliás, um sinal da histeria colectiva em que andamos caídos.

Acho que está na hora de olhar para o passado com olhos de ver, ou ainda é cedo?

um robô pode cuidar de nós?


O robô RIBA foi construído para ser capaz de retirar e voltar a colocar uma pessoa numa cama ou numa cadeira de rodas. É suposto servir, assim, para apoiar no cuidado de pessoas doentes ou idosas. Deixo para pensar: que questões éticas levanta o uso deste robô? Podemos ser "cuidados" por máquinas?



20.3.13

é bela, a política, não é?

18:12

Tribunal impede Fernando Seara de ser candidato às eleições autárquicas.


O debate autárquico vai ser transferido para os tribunais. A disputa sobre o acesso aos debates televisivos vai ser transferida para a disputa sobre o acesso à barra do tribunal. O debate "constitucional" é vendido como uma diferença entre "de" e "da" (presidente "de" câmara ou presidente "da" câmara), como se a política nacional se decidisse nos revisores linguísticos da Imprensa Nacional. Os dinossáurios argumentam que têm o direito inalienável de fugir da sua sorte cósmica migrando para outra câmara, já que, como gostariam de ter podido fazer os genuínos dinossáurios, não podem candidatar-se noutro planeta. E, entretanto, esquecem que talvez as pessos pensem mais na "moral" de haver autarcas eternos do que no direito que eles têm de se eternizar. Nesta peça, aplaudo a figura do PS, que decidiu não incorrer nesta tentação - e, se me desgosta a atitude do PSD, que abusou dos dinossáurios emigrantes, ela não chega a ser tão má como a do CDS (que "modulou" a sua posição para facilitar a coligação em Lisboa) ou a do PCP (que decidiu apanhar a boleia da direita no que toca a legalismo e falta de apreço pela matéria política substantiva de sermos ou não a favor da renovação dos eleitos).

Enfim, vai bonito o enterro. Nem as flores disfarçam o odor.

19.3.13

Chipre.

12:07

Chipre provocou alguns fenómenos curiosos.
Um deles é, sem dúvida, que aqueles que tanto bramam contra os bancos, como se não houvesse mal algum em que eles tombem, parecendo por vezes preferir que as autoridades públicas não se incomodem com a sua saúde, de repente se preocupem com a confiança: criticam as decisões em Chipre por elas minarem a confiança nos bancos. Excelente: perceberam de repente que os bancos têm uma função no mundo em que vivemos, porque seria muito pouco prático, com as casas pequenas, andar a reservar colchões para esconder o pecúlio. E, tal como as coisas estão, uma pequena retaguarda, sendo possível, é conveniente para não estarmos sempre à mercê da intempérie.
Outro fenómeno inédito é a extremosa preocupação com as "poupanças" dos oligarcas russos e outros "pequenos e honestos aforradores" que se abrigaram à pequena ilha, talvez pelo clima. Os grandes bandidos têm, hoje, a habilidade de se esconderem nas costas de gente comum para protegerem os seus interesses - e nós, sempre que confundimos as situações, ajudamos essa habilidade. Afinal, andamos a gritar contra os abusos da globalização financeira, do capital sem pátria e do dinheiro sujo, mas alinhamos na discordância contra qualquer acto que contrarie esses abusos.
É claro que o que se está a passar em Chipre é lamentável a todos os títulos: a soberania parece não valer nada (começam a aplicar-se decisões antes de as mesmas serem legitimadas pelo parlamento); o Eurogrupo toma decisões precipitadas e sem qualquer respeito pelas pessoas que vão sofrer as consequências (cortar em qualquer depósito) e recua em pouco tempo depois da contestação (afinal querem poupar os depósitos até cem mil euros); cria-se a ideia de que na Europa tudo pode ser feito em nome da crise e ninguém está a salvo de coisa nenhuma. Mas, ao mesmo tempo, não podemos tratar situações complexas como se elas fossem simples: o capital, quanto mais sujo mais esperto; certamente não se podia mandar uma carta aos "investidores" tubarões em Chipre a avisar que, se não se acautelassem, poderiam sofrer algumas perdas. Porque, com esse simplismo, escorados na nossa ingenuidade, são sempre os tubarões a levar a melhor. Pena é que, por vezes, o façam com o aplauso do "povo".
O mundo é complexo; fazer de conta que ele é simples não ajuda nem a compreender nem a agir.


ACRESCENTO: Aparentemente, as agências internacionais pertinentes consideram que em Chipre não há branqueamento de capitais. Sendo correcta esta informação, uma parte do que escrevi acima contém sugestões abusivas. De qualquer modo, o capital especulativo que opera a nível internacional pode fazê-lo de forma perfeitamente legal - sem deixar de ser especulativo e sem deixar de causar danos à economia real.

18.3.13

para quem acha que os alemães são sempre os maus da fita.

13:46

Para quem acha que os alemães são sempre os maus da fita: no caso de Chipre, a Alemanha queria que tivesse sido respeitada a garantia dos depósitos até 100.000 euros e que o "saque especial" só atingisse os depósitos mais gordos. O governo de Chipre, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu é que decidiram espetar o ferro em toda a gente. O povo de Chipre (mais um, portanto) fica a saber os grandes amigos que tem no seu governo (outro que quer "ir além da troika") e nos dirigentes da Europa.

Conferir aqui: Germany would have protected insured deposits.