22.9.12

Um governo infantilizado.

12:24

Passos Coelho foi ao Palácio de Belém para lhe explicarem, em substância, o seguinte: a TSU tem de ser atirada para o lixo, porque insultar as pessoas pode dar péssimo resultado; quando o governo tiver de fazer novas punções aos meios de vida dos portugueses, deve tratar primeiro de negociar com os parceiros sociais e outras forças que contam para definir condições mínimas de aplicação. Demoraram 8 horas nisto. Não sei o que demorou mais: ou os conselheiros a perceber por que PPC não tinha feito isso antes deste disparate, se PPC a perceber o que lhe estavam a dizer e a escrever no caderninho dos TPC o que lhe cabia da peça.

Como escrevi ontem, antes do encontro de Belém: «Se, pelo contrário, for o Presidente e o Conselho de Estado a conseguirem mudar o rumo da política anunciada, Passos Coelho terá sido a vítima de uma mudança de regime: o primeiro-ministro ficará reduzido, como em França, a um impedido do Presidente. O governo terá mudado de palácio e, nos próximos pacotes de medidas, o "povo" pedirá que o Conselho de Estado reúna de novo e volte a emendar a mão de PPC.»

Entretanto, o "efeito comunicacional" de tudo isto traduz-se em estarem, de novo, dominantes na rua e nas televisões as vozes que apregoam que tudo se resolve com a queda do governo, um governo de salvação nacional, novas eleições, mandar a troika embora, etc. etc. etc. Em suma: o "não pagamos" voltou a estar na moda. Voltaram as ilusões de que o dinheiro cai do céu; voltou o esquecimento do pequeno detalhe de que sem financiamento externo temos de fechar a loja.

O menino Pedro foi a casa dos avós levar um raspanete e apontar os trabalhos de casa. Infantilizado como chefe de governo, deitou fora a paciência dos que acreditam que Portugal não deve tornar-se um pária na cena internacional e deu folgo aos que são incapazes de pensar uma equação com mais do que uma variável.

um encontro com Manuel Cargaleiro.



No passado dia 11 de Setembro encontrámos Manuel Cargaleiro em Ravello.

Já tínhamos visto que estava bem presente na zona: em Amalfi deparámos com um grande painel seu, implantado em espaço público, com uma placa a explicar que o artista português tinha realizado aquela obra nas oficinas de cerâmica tradicional de Vietri sul Mare (ali perto, para o lado de Salerno).


Naquele dia, visitando a Villa Rufolo, em Ravello, observámos com pena que tinha lá estado uma exposição de Cargaleiro, mas que teria encerrado há poucos dias, a 8. Afinal, vendo bem, a exposição continuava acessível - e, surpresa nossa, o artista encontrava-se nesse espaço a trabalhar.



Mostrou-nos simpaticamente o trabalho que estava a terminar. Garantiu-nos, de pincel na mão, que tinha de o terminar até ao dia seguinte. E contou-nos a pequena marotice que estava a planear: num painel dedicado a famosos frequentadores de Ravello (painel encomendado) preparava-se para incluir Fernando Pessoa, apesar do literato nunca ter posto os pés em Ravello. Vamos ver se ainda um dia conseguimos ir verificar se se concretizou essa piada de artista.




21.9.12

o que é uma crise política para Cavaco?

14:34

Cavaco Silva considera “ultrapassada” hipótese de crise política.

Se para o actual PR a crise são os arrufos de Paulo Portas, talvez possa dizer que passou a tempestade num copo de água. Tudo graças ao "comité central da coligação": tal como na antiga União Soviética, em vez de serem os órgãos de Estado a deter verdadeiramente o poder, são comités, desenhados fora do Estado para acomodar a elite da elite partidária, que definem o rumo. Em vez de se tratar de que o governo funcione (reúna, discuta e decida o que compete decidir) e o parlamento legisle e controle, e nesse regular funcionamento das instituições a maioria se exerça e faça o seu trabalho, cria-se um monstrinho inter-partidário para tomar conta dos ministros e dos deputados. Um politburo à PPC.

Se era essa crise que mencionava, Cavaco tem razão: o arrufo de Portas terá passado. Embora à custa de uma incontornável vitória do CDS: se foi preciso fazer esta complicada manobra para melhorar a coordenação entre os parceiros de coligação, é porque essa coordenação antes estava mal. E, então, o CDS tinha razão. E levou a sua avante. Embora sem que isso tenha muito a ver com o que realmente preocupa o país.

De qualquer modo, mal vai o Presidente se pensa que a crise é essencialmente feita de pó da maquilhagem de Paulo Portas. A verdadeira crise política é o corte entre os cidadãos e os órgãos de soberania - e essa está para durar. Cavaco, ao convocar deste modo o Conselho de Estado, criou a expectativa de poder mudar o rumo. Se, da reunião de hoje, não obtiver mais do que magros resultados, não escapará também ele a essa crise. Se, pelo contrário, for o Presidente e o Conselho de Estado a conseguirem mudar o rumo da política anunciada, Passos Coelho terá sido a vítima de uma mudança de regime: o primeiro-ministro ficará reduzido, como em França, a um impedido do Presidente. O governo terá mudado de palácio e, nos próximos pacotes de medidas, o "povo" pedirá que o Conselho de Estado reúna de novo e volte a emendar a mão de PPC.

O anúncio da ultrapassagem do cenário de crise pode, pois, ser exagerado.


20.9.12

bodas de prata esta semana, bodas de ouro na próxima, de diamante na outra.


O governo português devia negociar melhor com a Troika, para evitar que a Troika deixe o governo português fazer todos os disparates que ele quer.
O governo português devia ter uma diplomacia mais activa dentro da União Europeia, para reforçar as tendências mais atentas ao fracasso da linha austeritária e à necessidade de agir na frente do dinamismo económico.
Devia aproveitar que o presidente da Comissão Europeia seja um português (mas não sei se ainda é vivo, porque há séculos que não se sabe nada de Barroso).
Mas não. Nada disso. Para ter qualquer coisa que negociar, o governo português negoceia consigo mesmo: PSD convida CDS a renovar apoio ao acordo de coligação (renovam o casamento, com festa de bodas de prata, ao fim de um ano; se calhar para o mês que vem já celebram as bodas de ouro; espero que ainda sobrevivam até às bodas de diamante). Para se encontrarem com alguém, mesmo que não com aqueles com quem de facto deviam conversar, os ministros e dirigentes dos partidos da maioria encontram-se uns com os outros: PSD e CDS-PP reúnem-se às 19h sem Passos e Portas.
Entretanto, para se orientarem, podiam pegar nos programas que submeteram ao eleitorado no ano passado. Sempre dava para se lembrarem do que falta cumprir. Seria talvez preferível a este PNIEC (Processo Negocial Intestino em Curso).

leituras para o conselho de estado.






da caridade.

12:14

S. Martinho corta o manto com a espada para o dividir com o pedinte (El Greco, 1598).


O debate entre a “caridade” e a “caridadezinha” tem tido, nos últimos tempos, picos de aquecimento na blogosfera e nas redes sociais. Até cantores de esquerda foram acusados de envolvimento em iniciativas pintadas com as cores da caridadezinha, mas a intervenção de Isabel Jonet nessa questão tem sido mais focada. O tema importa, não apenas pela sua relevância política, mas por dizer directamente respeito a pessoas que precisam de não serem deixadas à sua sorte, bem como a pessoas que por isso se interessam. Ora, então, vamos lá por partes.

Ponto 1. Eu não sou contra a caridade. Não sou contra as pessoas que, livremente e para lá de quaisquer direitos ou deveres legais, dão coisas e/ou tempo e/ou dedicação a outras pessoas, gratuitamente. Não sou contra isso, nem na forma individual, nem na forma organizada. Pelo contrário. Por exemplo, acho meritório o trabalho dos Bancos Alimentares contra a Fome. Como instituição e na pessoa dos colaboradores que concretizam a sua acção. Mesmo que eu não partilhe algumas das suas ideias, acho meritório. Há, de facto, seres humanos concretos que obtém, mesmo que momentaneamente, algum tipo de alívio para os seus sofrimentos por causa de acções que costumam designar-se como caridade. Não podemos ser indiferentes a isso.

Ponto 2. No plano de uma comunidade política civilizada, as pessoas têm direitos. Para falar genericamente, direito a uma vida digna. Os direitos não são oferecidos pela boa vontade de alguém, são uma bagagem inalienável de cada pessoa. Os direitos não devem depender de que apareça alguém com disponibilidade para os concretizar, devem ser assumidos por uma comunidade organizada. Uma comunidade onde a caridade é precisa, de forma sistemática, para atender a direitos básicos que deviam estar assegurados, é uma comunidade doente. O "Estado social", tal como o entendo, é necessário para que ninguém precise da caridade. O projecto de tornar a caridade o caminho principal, a via real, relegando para segundo plano a solidariedade organizada e a garantia dos direitos, é um projecto para uma sociedade de pedintes e servos. É que os direitos não podem depender das boas vontades, enquanto a caridade é, por natureza, arbitrária: ninguém pode ser obrigado a ser caridoso, o caridoso é caridoso quando quer, como quer, com quem quer. Esse elemento de discricionaridade, sempre presente na caridade, não é tolerável como elemento central de uma comunidade de cidadãos.
Por isso acho intolerável a ideologia de Isabel Jonet sobre este ponto, quando diz: «Eu sou mais adepta da caridade do que da solidariedade. A caridade é muito mais. A palavra está desvirtuada por ter uma conotação religiosa, mas para mim a caridade é a solidariedade com amor. Com entrega de si mesmo. A grande diferença é que caridade é amor e solidariedade é serviço.» (fonte)
Colocar os direitos, e a solidariedade organizada como meio de os fazer valer, em segundo plano face à caridade, é ideologicamente um regresso ao salazarismo. Que recuso liminarmente.

Ponto 3. Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, tem-se colocado sistematicamente, de há algum tempo a esta parte, numa linha claramente ideológica, política no sentido mais parcial do termo, assumindo teses muito antigas e muito claramente posicionadas no tabuleiro da luta político-partidária. Quando alerta para os «efeitos perversos» do Estado Social; quando defende que o novo pacote de austeridade de Setembro (incluindo o Robin dos Bosques invertido, mais conhecido por TSU) é um «mal menor»; quando afirma: «As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. Muitas vezes, preferem ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago, porque sabem que vão ter a prestação social no final do mês.» (fonte). Entretanto, se alguém ataca as declarações da senhora, há logo umas vozes escandalizadas porque a senhora é muito boazinha e não pode ser criticada. Ora, nada disto é caridade: isto é política de uma tendência bem determinada.
Saberá Isabel Jonet, por exemplo, que quase metade dos desempregados em Portugal não recebem nenhuma prestação de desemprego? Misturar toda essa gente, em geral, com os que se encostam e não fazem nada (que também existem, sim) é pura ideologia. E é um velho argumento, que vem sempre do lado dos que culpam os aflitos pela sua aflição. Isabel Jonet tem insistido, nos últimos tempos, em fazer ideologia, em falar demasiado genericamente. Fica-lhe mal e, se o que ela quer mesmo é fazer caridade, está a prejudicar essa mesma caridade com esta insistente agenda ideológica. Infelizmente, até já a caridade serve para fazer currículo que depois se usa no combate político (um Fernando Nobre de saias?). O que é uma pena: há pessoas que admiro apesar das divergências, mas também há pessoas que nos fazem perder o respeito pela sua acção quando confundem os carrinhos todos e se metem em guerras a que se deviam poupar.

Ponto 4. Usar a caridade para promover certas ideias políticas é repugnante. Moralmente repugnante. Mesmo em termos cristãos, é contra o Evangelho, que manda que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita (quer dizer, que não se apregoe, não se faça propaganda da caridade praticada). Não sou contra a caridade como caridade, mas tenho muito contra a intrusão da caridade na luta ideológica, como arma de arremesso política. Infelizmente, a Isabel Jonet que assim entra no combate ideológico, sem luvas nem nada (de uma forma quase partidária, pelo tom da sua vinda a terreiro neste momento), lança desse modo uma sombra sobre um projecto (os bancos alimentares contra a fome) que, apesar das discordâncias com as tintas ideológicas, considerávamos meritório. E continuamos a considerar: meritório e necessário. Infelizmente necessário.

Ponto 5. Uma última palavra sobre a solidariedade que vai para além do “Estado social”. Nem toda a caridade é caridadezinha, mas anda por aí muita caridadezinha disfarçada de caridade cristã. Gostaria de saber se todos os entusiastas de Jonet seriam igualmente entusiastas de associações operárias de socorros mútuos, que certamente não beneficiariam de tanta benevolência de certos meios, nem de tantas bênçãos. E, contudo, têm tradição e fizeram muita obra: mas com uma ideologia muito diferente. Aliás, é pena que a esquerda, em tantos países, tenha perdido essas tradições, tornando-se demasiado estatista: mas essa é outra conversa. Entretanto, aos que fazem ideologia e política de facção do alto dos seus tronos de caridade, digo, usando ainda outra expressão do Evangelho, que são "túmulos caiados de branco". E que, como tal, não me merecem o respeito que presumem ser-lhes devido.

(Acrescento este link, por conter alguma informação relevante de enquadramento.)

19.9.12

postal para Maria Teresa Horta.

11:41

Maria Teresa Horta, respeito a sua decisão de recusar ir receber o prémio literário D. Dinis, pelo seu monumental romance “As Luzes de Leonor”, das mãos de Passos Coelho. Respeito integralmente: tem o direito a esse gesto, esse gesto tem um significado, as pessoas devem estar no mundo com os gestos que transportem os significados que para si valem a pena.
Quero publicamente dizer-lhe, mesmo assim, que preferia que tivesse decidido ir à cerimónia, receber o prémio das mãos do primeiro-ministro, e aproveitasse para fazer um discurso sobre as suas razões acerca do país neste momento.
Tenho duas bases para esta minha preferência.
Primeira: sendo as instituições aquilo que distingue a civilização da selva, prefiro sempre que tratemos os lugares institucionais como coisa de todos, não como coisa de quem os ocupa no momento. Não é o senhor Pedro que conta, não seria o senhor Pedro a entregar o prémio; seria o primeiro-ministro do nosso país. Não deveria engrandecer Passos Coelho, tratando-o como se ele estivesse lá por direito pessoal (numa cerimónia literária, ainda por cima). Temos de lidar com o actual primeiro-ministro como primeiro-ministro, um a seguir a outros e antes de outros, não como se ele fizesse o cargo (não tem, parece, estatura para fazer o cargo). Este Pedro não usurpou o cargo: chegou lá pelos nossos erros colectivos, que ele lá continue ou não é coisa nossa, não dele, não de qualquer entidade mais alta. É isso que faz a importância dos lugares institucionais: nem são dos indivíduos, nem são dos deuses. Não são dos indivíduos, porque as posições (em democracia republicana) não estão reservadas a nenhum indivíduo ou casta; não são dos deuses, por quem ocupa as posições é responsabilidade nossa, não de "alguém lá de cima".
Segunda razão: ao publicitar a recusa em ir, teve a sua oportunidade de explicar as suas razões. Mas de forma breve, porque o que passa para o espaço público, nessas condições, é pouco. Passa a recusa e uma frase condenatória de PPC, apenas. Se tivesse ido, poderia ter garantido o direito a um discurso mais articulado, mais aprofundado, mais reflexivo, mais capaz de nos fazer pensar. E precisamos disso: precisamos que os intelectuais falem do país, se debatam com esta realidade dura que temos, mas o façam com mais sumo e seiva do que a mera repulsa pelo erro. E digo isto estando, muito provavelmente, de acordo com a sua repulsa. Precisamos, hoje, de gente de cultura que vá mais ao osso do que apenas dar bofetadas na cara dos maus governantes. Se a Maria Teresa Horta tivesse ido, tivesse discursado, poderia ter feito uma magnífica peça que tocasse os nossos corações e a nossa inteligência, porventura mais do que a nossa raiva e a nossa angústia.
Como digo, respeito integralmente a sua decisão de não ir. E não tenho a arrogância de lhe dizer que seria seu dever ir. Apenas lhe digo, pelas razões aduzidas, que preferia que o tivesse feito e tivesse aproveitado para cravar um espinho mais consistente na nossa consciência colectiva.


18.9.12

grafitos napolitanos.










o que eu partilho com Romney.

18:42

Fiquei a saber, pelo noticiário das 7 da manhã, que Mitt Romney tinha dito, num discurso para apoiantes, que os Republicanos não podiam à partida contar com os votos de 47% (ou 49% ?) dos americanos, os que recebem prestações do Estado. A ideia era que esses estavam "comprados" pelos Democratas, ou pelo governo, ou pelos malditos estatistas, que na cabeça dele é tudo mais ou menos a mesma coisa. Um discurso que entre nós é sobre os subsídio-dependentes (os que sejam pobres ou remediados, porque os ricos têm direito a todos os subsídios que consigam recolher e nisso só têm mérito, claro está).

Confesso a minha fraqueza: embora achando que o "racismo ideológico" da declaração era abominável, pensei que o homem teria razão numa coisa: os que beneficiam da protecção da sociedade seriam mais de "esquerda" do que de "direita".

Pois, numa coisa acompanho o candidato republicano à presidência dos States: na ignorância. Aquela minha convicção é demonstração de ignorância: talvez menos grave em mim do que num candidato a presidente daquele país, mas, de qualquer modo, ignorância. É que, como se explica neste artigo, o retrato do recebedor de prestações nos EUA é mais deste tipo: republicano, idoso, branco e diplomado. [The people who receive the disproportionate share of government spending are not big-government lovers. They are Republicans. They are senior citizens. They are white men with high school degrees.]

Os preconceitos são tão estúpidos, não são? Lá e cá, bem entendido.

(Agradeço ao Paulo ter indicado este caminho de ataque à minha ignorância.)

a tomada da pastilha.

14:00

~bucz, sem titulo

Lendo algumas opiniões disponíveis na blogosfera e nas redes sociais acerca das manifestações do passado dia 15, duas coisas me espantam.
A primeira: há quem julgue que não aconteceu nada, ou que o que se passou foi uma mera passeata de portugueses irresponsáveis. Sobre isso não há muito dizer: todos os governos têm os seus tolinhos de serviço, capazes de matar o pai e a mãe e os irmãos em lugar de reconhecer quando se fazem disparates e as pessoas se cansam.
A segunda: há quem julgue que os portugueses detestam a troika, os credores, o equilíbrio orçamental, que são partidários do "não pagamos" e de optarmos pelo estatuto de pária na economia internacional, marimbando-se para os compromissos assumidos por Portugal em troca de dinheiro fresco. Acho completamente errada essa leitura: creio que a maioria esmagadora dos portugueses acredita que temos de pagar o que nos emprestaram, que temos de endividar-nos menos e só para o que seja importante. E creio que a esmagadora maioria dos portugueses "apenas" exige que não haja filhos e enteados, que o governo tenha juízo e não se sinta livre para fazer o que lhe der na real gana, que a manta não seja curta só para alguns, que se gira com muito cuidado o produto dos nossos sacrifícios.
Afinal, já toda a gente o disse: as pessoas querem equidade.
Confundir isso com o apoio da maioria dos portugueses ao "não pagamos", é um abuso. E, sejamos claros, as pessoas estão tão fartas dos abusos dos "austeritários" como dos abusos dos "revolucionários" que interpretam as nossas dores como vermelhidão e vontade de tomar de novo a Bastilha.
Há que não confundir as dores da "tomada da Bastilha" com as da "toma da pastilha"...

o trânsito na rotunda.

10:52



Entraram ontem em vigor as alterações ao trânsito na rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa (regime experimental). Há vários aspectos do folclore associado que merecem ser analisados por quem se interesse pelo funcionamento das nossas sociedades.
Desde logo, mexer nos hábitos e rotinas é muito complicado: nós não somos máquinas de calcular, não computamos com uma racionalidade furiosa os prós e os contras de cada uma das alternativas de comportamento que se nos apresentam a cada momento, a maior parte do tempo fazemos aquilo a que estamos habituados. E ainda bem: seguimos hábitos e rotinas para deixar o nosso "pensamento" dedicar-se a outras coisas. É essa a principal razão para estas mudanças em aspectos rotinados da nossa vida comum serem difíceis de entrar em funcionamento.
Prever as dificuldades práticas de tal adaptação é difícil. A Câmara de Lisboa, mesmo tendo passado meses a estudar a alteração, não previu, por exemplo, que as pessoas teriam tendência a ir pela rotunda exterior, mais lenta, mesmo que fossem para os principais destinos, servidos pela rotunda central, porque achavam estar assim a proceder com mais cautela. Mesmo sendo difícil prever, até com aturado estudo, há sempre quem tenha sentenças a ditar desde o primeiro minuto: ouçam-se as declarações dos sábios do costume, ao volante da sua viatura, antevendo novo terramoto em consequência de um esquema que, dizem, está fadado a fracassar. É assim: há sempre quem tenha visões miraculosas, instantâneas e precisas, de tudo e mais alguma coisa ao cimo da Terra; há sempre quem suponha saber tudo do mundo, de todos os recantos do mundo, em todas as especialidades e sub-especialidades. (Como aquele pescador, ontem no Prós e Contras, que criticava que, onde antes estava a escola de pesca, estivesse agora a Fundação Champalimaud, que, dizia ele, toda a gente sabe que não serve para nada. Sem que ninguém, excepto o tímido esboço de protesto da apresentadora, lhe sugerisse que não confundisse o mundo com o redondo da sua barriga e lhe pedisse para não expandir a arrogãncia opinativa para lá da fronteira do ridículo.) Mas estas mudanças são sempre pasto para o "achismo", onde toda a gente, quanto menos estudou o assunto mais se acha dotado de saber prático para achar isto e aquilo.
Finalmente, falo por mim: somos frequentemente preguiçosos e deixamos para depois o que se podia fazer antes. É verdade que, praticamente não usando carro em Lisboa, como conduzir no Marquês é assunto que não me toca muito. Mesmo assim, só ontem, perante a constatação do caos, voltei a olhar para os esquemas explicativos para perceber o essencial: vamos pela rotunda interna para os três grandes destinos ali servidos, vamos pela rotunda externa para os demais. O resto virá da experiência, quando lá tiver de passar. Não custava nada ter pensado nisso há mais tempo...
Convicção minha: António Costa, pragmático e focado nos resultados, vai levar mais esta alteração a bom termo, continuando assim o trabalho de formiga, que tem melhorado muita coisa com contenção de custos e com intervenções que parecem localizadas mas, realmente, mostram um conhecimento do quotidiano concreto das pessoas e uma atenção às pequenas coisas da qualidade de vida.

17.9.12

no que vai de Setembro.

09:26




No que vai de Setembro, o primeiro-ministro de Portugal aviou uma receita sem ler a posologia - e vai ter a oportunidade, oferecida pelo Presidente da República, de perceber o que isso significa. (Não é de excluir que Cavaco Silva tenha convidado Vítor Gaspar para dar explicações no Conselho de Estado para garantir que Passos Coelho saiba realmente o que se está a passar: "eles" querem ver o PM ouvir a história bem contada, para saberem que ele a ouviu contar pelo menos uma vez. Não acredito que o PR simplesmente tenha convidado Gaspar por este ser melhor a usar o powerpoint do que PPC, quando o próprio PPC estará no Conselho de Estado. De qualquer modo, PPC transforma-se assim, oficialmente, num pau-mandado do ministro das finanças.)
No que vai de Setembro, o povo saiu à rua: mesmo o povo que deu um crédito de confiança a este governo está cansado da ligeireza com que o PM apresenta as facadas como se fossem uma espécie de acupuntura pós-moderna. (Esse facto, notável, de ter ido meio milhão para a rua tugir e mugir contra o estado a que isto chegou, não torna menos grave o seguinte facto: muitos dizem que há alternativas a esta austeridade cega, mas nenhuma força política ainda apresentou com clareza, e contas, um caminho alternativo. Se isso não é muito grave no caso do BE e do PCP, no caso do PS está chegada a hora de demonstrar como se pode ter um rigor progressista, em vez do despesismo que só enche os bolsos a alguns, e em vez de querermos viver com o dinheiro dos outros e ao mesmo tempo querermos ter uma soberania impossível.)
No que vai de Setembro, Portas abriu o jogo que vem a jogar há muito tempo: quer entrar no carrinho de este plano resultar (dirá que fez parte da solução) e ao mesmo tempo entrar no carrinho de tudo isto acabar mal (dirá que sempre alertou para os perigos de fazer as coisas desta maneira). Confirma-se aquilo que se sabe há muito tempo: Portas é um actor brilhante a fazer figura de homem de Estado, mas isso é só pose, porque realmente está sempre a fazer contas à sua popularidade e aos votos que possa ganhar na eleição seguinte. É pornográfico que PSD e CDS nos governem como têm estado a governar e ainda por cima nos queiram entreter com o seu processo de contabilidade interna.
No que vai de Setembro, os empresários que merecem a designação (e não os patrões que andam sempre a tentar roubar os trabalhadores) dizem que estar a tirar mais a quem trabalha só dá cabo das empresas que vivem do bom desempenho de quem lhes dá vida. E alguns até dizem (ver notícia na foto sobre o sector do calçado), lá por Milão onde vendem como melhores entre os melhores, que pensam como "devolver" aos trabalhadores aquilo que os gasparzinhos querem roubar ao trabalho para entregar ao capital.
No que vai de Setembro, o país está quente e não vai ser fácil resfriar as cabeças só com declarações de circunstância.