6.9.12

ai as liberdades.

11:34

Já anteriormente me insurgi neste espaço contra a tendência para ver os grupos de hackers que por aí andam como uma espécie de fazedores da justiça que falta neste nosso mundo. Já perguntei "quem nos salva dos salvadores?", afirmando que essas multinacionais anónimas não andam muito longe da lógica das "milícias populares" que se reclamam da "justiça por suas próprias mãos", num estilo em tempos muito incentivado por Paulo Portas e quejandos. Já fiz notar hackers acusando outros hackers de serem puros criminosos escondidos sob a máscara de puras intenções políticas. Já relatei notícias de como esses grupos são vulneráveis à infiltração pelas polícias, tornando o entornar do caldo muito difícil de acautelar. Já aqui escrevi que a lógica das milícias populares leva sempre ao abuso: embora o abuso possa parecer mais romântico por ser praticado em nome da democracia, da anarquia, ou da transparência, não deixa de ser abuso por isso.
Contudo, se há coisa que os tempos actuais nos pedem é que sejamos capazes de fazer distinções mais finas do que aquelas a que estávamos habituados.
Esta notícia – Hackers acusam FBI de recolher dados sobre utilizadores de iPhones e iPads – dá conta de uma acção hacker que me parece perfeitamente conforme aos ideais de cidadania. Segundo a notícia, “o Antisecurity Movement divulgou na Internet 1.000.001 identificadores únicos de equipamentos da Apple, que podem dar acesso a dados pessoais dos utilizadores (nome, morada, número de telefone, etc.) e à sua localização geográfica – através das chaves utilizadas pelo Twitter, Facebook ou Instagram, por exemplo, cujas aplicações "perguntam" aos utilizadores onde é que eles estão num determinado momento, para que possam publicar fotografias, vídeos e texto com a indicação do sítio em que esses ficheiros foram criados e/ou partilhados”. O AntiSec roubou esses dados do computador de um agente do FBI para poder demonstrar a veracidade da acusação: o FBI usa esses meios para controlar pessoas fora daquilo que legalmente deveria estar ao seu alcance. Trata-se, pois, de um roubo que considero justificado e proporcionado ao fim justo em vista. O AntiSec teve o cuidado de “limpar” a informação para que ninguém seja capaz de identificar a propriedade daqueles equipamentos, excepto exactamentr os legítimos proprietários. A acção terá provavelmente ferido a legalidade, mas sem ferir os direitos de outras pessoas e instituições, na medida em que tocou cirurgicamente (até ao momento) no podre que estava escondido.
Os tempos são perigosos. Temos de estar alertas contra aqueles que se dizem nossos protectores para melhor nos fazer mal. Mas temos de saber reconhecer aqueles que nos ajudam a combater a tirania dos candidatos a serem órgãos do novo Big Brother. Reconheço que, em geral, não será fácil fazer as boas distinções. Estaremos, também aí, sempre em risco de errar. Mas não podemos, simplesmente, descansar como tontos à sombra de antigas distinções que já não explicam o mundo em que vivemos.

litigância de má-fé.

10:35

O jurista Pedro Lomba escreve hoje na última página do Público para defender o ministro Crato, por este, supostamente, "continuar a partir muita falsa porcelana do nosso ensino". Ares do tempo: a qualidade dos governantes, na cabeça de alguns, mede-se pela quantidade de louça partida. Fraca medida da boa governação, diria eu, que parto facilmente copos e terrinas e, contudo, sou péssimo cozinheiro. Mas, enfim, há quem se sinta na obrigação de defender os correlegionários com qualquer arma (retórica).

O tópico de Pedro Lomba hoje é o ensino "fora da via única": profissional, vocacional, "artes e ofícios", como ele diz em título. Já ontem aqui escrevi que só a ignorância permite falar de via única no nosso sistema educativo. Discutir se a diferenciação deve ser antes ou depois do 9º ano, e em que moldes, é um outro debate. Tentar misturar as questões é tentar enganar o pagode.

Contudo, os passes de ilusionismo retórico de Pedro Lomba ultrapassam, neste caso, o aceitável - mesmo que, em vez de estar a discutir assuntos de grande impacte na vida das pessoas e do país, estivesse apenas a fazer literatura. É que Pedro Lomba quer falar da "via única até ao 9º ano" e, para isso, usa metade do artigo a invocar o exemplo de Matthew Crawford, que foi muito feliz na América com uma oficina de reparação de motas - exemplo, segundo o nosso articulista, das maravilhas "do trabalho com as mãos", do "conhecimento real das coisas", da "aprendizagem de ofícios", do "ensino prático". E Crawford ainda hoje "divide o seu tempo entre a filosofia e as motas".
Entre a filosofia e as motas?! Filosofia?! Então, mas isto não era tudo sobre mandar os meninos antes do 9º ano para vias castigadoras do respectivo insucesso, chamadas, sem mais nem quê, vocacionais ou profissionais?!
É que Matthew Crawford fez um doutoramento em filosofia em Chicago, fez investigação durante algum tempo... e depois não gostou do trabalho e dedicou-se às motas. Matthew Crawford não foi ganhar a vida a reparar motas aos doze ou treze ou quatorze anos; Matthew Crawford doutorou-se em filosofia, começou a fazer investigação e depois decidiu arejar - e pensar filosoficamente sobre a relação entre teoria e prática na nossa vida de humanos. E escreve sobre isso. E publica sobre isso. Matthew Crawford não é exemplo nenhum para argumentar acerca da suposta uniformidade do ensino não superior em Portugal, nem é argumento a favor de castigar os meninos com vias vocacionais, nem deveria servir para arroubos mal informados acerca da uniformidade da nossa escola.
Se Pedro Lomba quer abrir janelas aos nossos jovens, acho muito bem. Sugestões para aumentar a pluralidade dos mundos acessíveis aos jovens antes do 9º ano: deixem-nos aprender música a sério; deixem-nos fazer desporto a sério; dêem-lhes reais oportunidades de se dedicarem às artes: à pintura, à escultura, ao teatro, à dança. Ou essa pluralidade de mundos, Pedro Lomba, só é boa para doutorados em filosofia, como Matthew Crawford?

Em assuntos sérios, que têm a ver com a qualidade da vida das pessoas, e com a qualidade da democracia, misturar alhos com bugalhos é litigância de má-fé. Gastar meio artigo a falar do doutorado em filosofia Matthew Crawford para servir como ilustração e defesa das vias profissionais ou vocacionais antes do 9º ano cabe, a meu ver, nessa categoria: litigância de má-fé.

Se Matthew Crawford pode ver a maravilha que é a prática, isso não resulta de o terem enterrado desde menino e para toda a vida numa oficina de reparação de motas. Isso resulta de lhe terem dado janelas variadas para ver o mundo. Quem não perceba isso, não percebeu mesmo nada.

arte de rua.







Liqen, in Miami. «Wall Street bankers trapped in a maze, unable to escape the encroaching flames. This took 12 days to paint.»

5.9.12

um professor universitário a quem eu recomendaria uma escola profissional.

10:19

Carlos Fiolhais, em artigo hoje no Público, intitulado "Uma herança do PREC", vem fazer um confrangedor exercício de ignorância e de ideologia barata sobre "ensino profissional", talvez para relativizar os disparates que o ministro Crato tem dito sobre a matéria.
Sem me alongar, porque isso não aproveitaria muito a Fiolhais, que parece definitivamente ter-se desinteressado pela verdade ou inverdade das coisas que escreve, direi apenas duas ou três coisas.
Primeiro: comparar aquilo que muitos escrevinhadores chamam "a abolição do ensino técnico a seguir ao 25 de Abril" com o ensino profissional que actualmente existe em Portugal, ou é ignorância ou má-fé. Ou as duas coisas. O ensino profissional que hoje existe não é um beco destinado a encaixar as "classes baixas", é um ensino de qualidade, que dá acesso a profissões qualificadas e muitas vezes bem remuneradas, com uma formação de espectro largo que não separa os que podem e os que não podem ir para o ensino superior, que não fecha portas, antes as abre. Isso faz toda a diferença, tanto em termos de qualidade da democracia, como em termos de qualidade do ensino. Ignorar isso e misturar alhos com bugalhos, como faz Fiolhais logo desde o título do seu artigo, é estar enganado ou querer enganar-nos.
Segundo: escrever, como faz Fiolhais, que a oferta educativa existente em Portugal é "como as lojas de souvenirs na antiga União Soviética onde só havia bustos de Lenine", porque é completamente unificado até ao 9º ano "e com poucas escolhas depois dele", é estar num Portugal diferente daquele em que vivemos aqui a leste do cabo da Roca. Se Fiolhais não conhece a oferta de ensino profissional, informe-se em vez de dizer disparates. Vá, por exemplo, à procura da lista de Escolas Profissionais e dos cursos que elas oferecem por todo o país. Informe-se em lugar de se engasgar com ideias feitas. É o mínimo que deve aos leitores do jornal em que escreve, o qual pago para ler.
Terceiro: a "via única", "instituída em nome da igualdade", a que Fiolhais atribui a fonte do insucesso do sistema educativo, só existe na cabeça de ideólogos mal informados. Que Fiolhais deteste a igualdade, mormente a igualdade de oportunidades, não nos custa a crer; mas podemos pedir que confronte as suas preferências com a realidade, ou isso é demais para si, Carlos Fiolhais? É que já existem mais de 40% dos jovens no ensino profissional ao nível secundário - como pode, mesmo assim, falar de via única? Nem no papel, nem na realidade. Só na cabeça destes propagandistas. E a "nova meta" dos 50% dos jovens do nível secundário a frequentar o ensino profissional, propalada pelo ministro Crato, é uma "nova meta" desde os anos 90 do século passado.

Tanta ignorância será devida a más escolas frequentadas por tamanho professor doutor, à falta de tempo para preparar os seus escritos, ou simplesmente à deficiente formação cívica de quem não cura de falar verdade quando se mete a fazer propaganda? Estou certo que um curso de uma das muitas Escolas Profissionais deste país evitaria ao Professor Doutor Carlos Fiolhais estas falhas deontológicas, e mesmo de carácter, porque muitas Escolas Profissionais oferecem, além de excelente formação, um ambiente propiciador de uma relação saudável com a vida, assim fazendo também educação, além de ensino.



4.9.12

«Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.»

17:52

Encontrei no Entre as brumas da memória um texto que Mário de Carvalho divulgou hoje no Facebook. O título é: "Denegação por anáfora merencória". Quer o escritor, quer o texto, quer o blogue, quer a autora do blogue - todos me merecem respeito. Convido-vos a lerem esse texto na sua inteireza.
E depois convido-vos a lerem uma versão retalhada por mim, que vem a seguir. As partes em itálico e a vermelho são pedaços intercalados por mim. A minha intenção não é desrespeitar o texto, nem o autor - nem as vítimas. Mas, apenas, fazer pensar. Por me parecer que pensar não passa necessariamente por extremar posições - ou, pior ainda, confundir as oposições, porque nem todas as oposições se recortam do mesmo modo nem com as mesmas fronteiras.

***

Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores».

Mas muitos, por essas repartições e empresas deste país, são hoje obrigados a lamber o cú ao patrão ou ao chefe, sob pena de irem para o olho da rua ou de terem de assear a latrina com o paninho de limpar os óculos.

Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor.

E os camaradas na URSS e na RDA e em outros países das amplas liberdades, que participavam de libérrima vontade nas respectivas “organizações de petizes”, como os pioneiros, ou em outras organizações de juventude, ou em outras organizações de massas, em nome do progresso da humanidade, ou da revolução, ou dos proletários de todos os países que deviam unir-se, tinham muito mais sorte porque levavam outras coisas à cintura em vez do S de Salazar. E contudo ninguém pretende que na URSS ou na RDA havia fascismo.

Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado».

Nisso tive imensa sorte, porque hoje em dia, quase 40 anos depois do 25 de Abril, o que há mais é o culto do chefe, do chefão, do chefinho, do senhor doutor, do senhor prior, do senhor director-geral, do menino assessor e de toda a catrefa de pequenos caciques que nos podem tramar, mesmo que ainda por cima tenhamos de lhes dar palmadas nas costas e pagar-lhes um café de vez em quando para eles amansarem aos intervalos, porque a senhora que vende os jornais no meu bairro me trata por senhor doutor quando vou de gravata e nem bom-dia me diz quando vou de t-shirt, porque a porra da veneração escusada é uma coisa tão espalhada entre o carneiral humano que de tanta veneração até parece uma transmissível doença venérea.

Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família».

Mas eu já fui “descontratado” pela Universidade Católica Portuguesa, depois de ter ganho um concurso para recrutamento de professores, porque tinha assinado uma petição contra a pouca vergonha do Cavaco e outros “altos dignitários” confundirem as suas pessoas privadas com as suas funções de Estado no acolhimento ao Papa em Portugal – e recebi, sobre isso, o comentário de um blogueiro muito-muito de esquerda-da-esquerda que isso não tinha mal nenhuma porque a Católica sendo privada faz o que quer e o que lhe apetece e ninguém tem nada a ver com isso.

Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça».

E no entanto o actual Presidente da República já disse num 10 de Junho estar a comemorar o dia da raça. E o que não falta por aí é racismo. Racismo prático, não apenas teórico.

Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo.

E agora já não preciso disso, basta ligar a televisão e ouvir os governantes fazerem esses mesmos apelos e recomendações. O (nosso) empobrecimento é agora a ideologia da classe dominante, se ainda não deu conta disso.

Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar».

Eu, pessoalmente, também não, mas há muita gente por aí que conhece outras realidades: por exemplo, “bons colégios” que só admitem meninos e meninas que cumpram os requisitos da santa madre igreja (sabemos qual a igreja a que me refiro).

Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti à miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai.

Eu também não, mas a censura à criação está, hoje em dia, entregue ao mercado da cultura, seja ao mercado da comunicação social, onde os temas políticos relevantes para merecerem destaque editorial dependem da linha política dos donos, seja ao mercado do livro e de outros bens, onde as mais das vezes se paga para escrever ou para compor, em vez de se ser pago para criar.

Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intérprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua.

Eu também não: tenho a sorte de essas liberdades estarem, no essencial, protegidas na democracia imperfeita que temos hoje. Tenho a sorte de alguns terem tratado disso por mim. Mas, ao mesmo tempo, tenho consciência da tendência crescente para criminalizar a dissidência, o que se nota quando a polícia “dispersa” uma “manifestação” de três ou quatro pessoas, quando a prática de actividades culturais com a população de um bairro numa escola antes abandonada é perseguida com a mesma brutalidade com que se perseguiria um bando de ladrões, como se destruir e construir fossem coisas iguais só por não se estar dentro do regulamento, como se os direitos fundamentais e os regulamentos tivessem a mesma dignidade.

Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas,

… já eu, embora não encontre o termo jurídico apropriado para falar disso, não posso impedir-me de ver as “eleições” jardinistas como eleições falsificadas desde há não sei quantos anos a esta parte, ainda por cima toleradas por todos os poderes…

nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina.

(Uma declaração a precisar de revisão um destes dias, apesar de os métodos já não serem, de modo nenhum, os mesmos.)

Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais.

(Anda a ir pouco a manifestações ultimamente – ou então está desatento aos sinais. É que os regimes mudam e nem sempre mudam por golpe de Estado.)

Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos.

Eu, se não tivesse olhos, não veria que hoje em dia se é julgado sem ir a tribunal, pela “comunicação social”, ou que se pode ir a tribunal por ter roubado um quilo de arroz no supermercado para matar a fome, sem perder de vista que a malvadez de um tempo não desculpa, nem sequer explica, a malvadez de outro tempo.

Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado.

Eu, o telefone vigiado, suponho que também nunca tive – mas isso é por eu ser um tipo irrelevante quer para as pequenas quer para as grandes potências deste mundo, mas, por outro lado, seria capaz de jurar que muita gente, nos tempos que correm, é ilegalmente vigiada por gente que abusa dos meios especiais que o Estado lhes põe à disposição. Por exemplo, super-espiões. Ou talvez por smartphones que trabalham por conta própria.

Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único.

Eu também não, por ser mais novo. Por ser mais novo escapei a coisas horríveis que se fizeram neste país no tempo da outra senhora. Por isso continuo a festejar o 25 de Abril. Com mais entusiasmo do que aquele com que festejo outros feriados nacionais, mesmo alguns feriados que estão a deixar de ser feriados. E dou muito valor a isso tudo. E repugna-me que alguém tente fazer do salazarismo um jardim das delícias, um tempo de passarinhos a chilrear, uma modorra quase epicurista. Repugnam-me os que tentam branquear o “fascismo português”; repugnam-me, também, os que falam ou escrevem por meias palavras para fazer passar por fascista qualquer interpretação desse regime que, sem esconder as suas malfeitorias, o interprete no contexto do seu tempo. Sem relativismos, porque abomino o relativismo, mas também sem absolutismos interpretativos, que também me causam urticária. Por exemplo, não gostei de ver ridicularizado um historiador por defender a tese, talvez hoje minoritária, de que o fascismo português é comparável ao fascismo italiano. Porque não quero confundir debates historiográficos com debates de sociedade.

Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

E eu nunca tive a infelicidade de sofrer na pele outros regimes hediondos, como, apenas por exemplo, largos períodos da história de Angola independente onde a política oficial foi inseparável do crime. E, no entanto, acredito realmente que nem todos os regimes hediondos devem ser classificados de fascistas. E que é possível reconhecer a natureza repressiva e totalitária do salazarismo sem evitar uma comparação com outros regimes considerados fascistas. E que discordar sobre alguns aspectos da caracterização de um regime como fascista ou não fascista não é a mesma démarche que alinhar com ou contra o fascismo. Mas isto sou eu a dizer, que não sou nem historiador nem escritor e era novo quando “se deu” o 25 de Abril e devo, portanto, estar calado e não me intercalar nas vozes das autoridades na matéria.




os competentes.


Não é preciso muito para o efeito, mas a notícia do Público sobre O fabuloso destino dos jovens assessores do Governo Passos levantou "na rede" mais um dos enésimos coros de comentários jocosos e/ou desabridos sobre a incompetência dos políticos e a sabujice dos assessores e demais pessoal de acompanhamento.
Como é claro, nenhum dos competentíssimos comentadores se sente no dever de mostrar quais os grandes feitos - ou apenas esforçada experiência - acumulou na sua própria pessoa, em termos de poder com propriedade criticar a falta de merecimento ou currículo dos demais.
Se o currículo de dizer mal dos outros bastasse para ser uma luminária, o mundo haveria de temer-nos. Mas não: quem verdadeiramente nos deve temer, somos nós próprios. Tão-somente.

as rendas excessivas.

12:03


Passo a citar:

«Assim, de uma penada, o Governo reconhece que toda a sua campanha anti-renováveis e, sobretudo, anti-Sócrates não passa de mistificação propagandística e desonesta manipulação. A verdade é que as eólicas mais caras e que mais pesam na tarifa são as anteriores aos Governos Sócrates. E que, a partir de 2005, o custo da energia eólica passou a ser significativamente mais baixo. Tanto que o atual Governo não vê necessidade de rever a remuneração atribuída às centrais eólicas de 2005 a esta parte.»

Indo à fonte - Rendas excessivas? E de quem é a culpa, afinal? -, está lá tudo explicadinho.

3.9.12

depois das guerras da história de portugal em fascículos.

23:45

A generalidade das postas que tive oportunidade de ler, nos últimos dias, sobre a polémica entre Rui Ramos e Manuel Loff em torno da obra de História de Portugal que em boa hora o Expresso se lembrou de oferecer ao povo, mostram algo que me parece extremamente grave: a maioria dos comentadores que, em blogues, tocaram nesse tópico têm em muito má conta a "História" como disciplina científica. Quer dizer: partem do princípio que investigar história é um exercício necessariamente dominado pela ideologia.
Isto quer dizer que eu penso que a investigação histórica pode ser higienizada, separada do resto do pensamento de um investigador? Não. Quer dizer que eu penso que um historiador que só ande à procure de confirmação dos seus pre-juízos, ou que só escreva para público o que tenha esse condão, não é um historiador, é um aldrabão. Isto quer dizer que eu penso que a ideologia é má para a investigação histórica? Não. Quer dizer que só reconheço o nome de investigador a quem, partindo do ponto que partir, por exemplo das suas convicções, aceite submeter a duras provas as suas teses e corra o risco de procurar o que as pode mudar. Atacar, ou defender, este ou aquele historiador principalmente por causa das suas convicções políticas, em vez de criticar ou suportar as suas teses enquanto historiador, é tratar a investigação histórica como um mero subproduto da ideologia.
É por causa do tipo de espectáculo que tem sido dado por alguns dos intervenientes nesta novela, designadamente por aqueles que entraram na questão antes de tudo como uma guerra política insusceptível de ser travada no plano histórico, e por causa de muitos espectáculos parecidos que se vão dando ao longo do tempo em disciplinas das ciências sociais e humanas, ou das humanidades, que há quem trate estas disciplinas como "ciências moles". Conversa fiada, afinal.
Condição na qual estão sempre em risco de cair. Mas risco que não constitui uma inevitabilidade.

(Isto não é um texto de epistemologia. É apenas um desabafo.)