2.6.12

o PCP no mundo.

20:54

O PCP, na sua tomada de posição sobre a Síria, é fiel a si mesmo em questões internacionais: não percebe que acabou a União Soviética e continua a reagir como se continuasse obrigado, por "internacionalismo proletário", a colocar-se sempre sempre ao lado de toda a espécie de ditadores e assassinos que supõe que seriam aliados do Partido Comunista da União Soviética se este ainda governasse o gulag. Se tiverem que inventar coisas, do género de os autores dos massacres não serem os autores dos massacres, mas malandros da NATO, ou de qualquer forma de "Ocidente", disfarçados, não hesitam em inventar o que seja necessário. Politicamente, além de julgar que nos pode tratar a todos como idiotas, o PCP tem as mãos sujas em política internacional. E isso é grave.


retratos.


um inconsciente, ou um criminoso, ou um inconsciente-criminoso, pode querer fazer-nos engolir a patranha de que a informação publicada pelo Expresso sobre o escândalo das secretas é mera guerra entre empresas. Algumas pessoas pensam que podem reduzir a gravidade do caso - um verdadeiro golpe de Estado na forma tentada - a uma questão de estética da capa. Posts destes ilustram o grau zero de responsabilidade em que se transformou alguma da nossa blogosfera. Nem lhes falta, claro, o argumento salazarento de que estas politiquices não interessam nada o povo.

matar o tigre.

13:07

A maior parte das famílias prezam a segurança de que necessitam para levar a sua vida em liberdade. Sim, a segurança é necessária à liberdade. Algumas optam por reforçar as portas e as janelas; outras por um sistema de alarme; outras por um guarda-nocturno partilhado com a vizinhança. Outras compram um cão.
A família Silva optou por um cão. Para delícia das crianças, escolheu um pequeno cachorro, lindo de morrer com apenas uns dias, de uma raça meiga com os conhecidos mas feroz com os intrusos, lindo e possante ao mesmo tempo. Compraram o cachorro num fornecedor tido por idóneo e fiaram-se nos seus conselhos - mas, passado pouco tempo, o cachorro começou a crescer numa linha de desenvolvimento inesperada. Rapidamente perceberam que o bicho era um tigre - e não podia viver-se com um tigre naquela vivenda familiar. Entretanto, hesitaram: não queriam chamar um especialista para confirmar o desvio, ou o erro, ou o logro; tinham receio de estar a apreciar mal a situação, devido aos seus poucos conhecimentos daquela raça rara; chegaram a pensar, quando se convenceram de que era mesmo um tigre, que afinal talvez um tigre criado em família e com muito carinho pudesse ser um animal doméstico e viver num bairro urbano em harmonia com a vizinhança. Consultaram peritos em domesticação de animais selvagens, em psicologia animal, em psiquiatria de felinos, estudaram métodos de meditação trans-espécies para tentar mudar a natureza do animal.
A situação foi-se arrastando e toleraram umas mordidelas e uns arranhões até ao dia em que o tigre, já suficientemente esfomeado e poderoso, mostrou todo o seu potencial...

(Um país precisa de serviços de informação. Isso: espiões. Não acreditem naqueles que dizem que isso são resquícios da PIDE: um Estado democrático não pode simplesmente estar à mercê dos que o atacam pela calada, de fora ou de dentro. Mas há remédios que são perigosos, têm de ser (ad)ministrados com toda a cautela. E quando o equilíbrio químico do remédio/veneno se altera, normalmente a única solução é deitá-lo fora. Tendo chegado onde chegaram as coisas com os nossos serviços secretos, minados por interesses privados e por abusos escandalosos que nem as mais altas instituições foram capazes de detectar e contrariar, não há solução de recurso que transforme um serviço secreto corroído pela deslealdade organizada num futuro departamento de defesa da democracia. A República precisa de serviços secretos, mas isso já não existe, como mostram as últimas notícias. O cancro corroeu a estrutura numa extensão impossível de compreender: os que, de dentro, podiam ser vozes limpas, foram calados pelo controlo dos fiéis à manobra, não se sabendo até que ponto isso pode ter acontecido. Resta cortar o mal pela raiz: extingam-se estes serviços secretos, criem-se outros, com outra gente, com outro controlo democrático, longe desta teia de conivências no poder político, no poder económico e em interesses pouco escrutináveis. Portugal, como qualquer democracia, precisa de serviços secretos. Para isso, tem de acabar com "isto" que actualmente faz de conta que presta esse serviço, para depois poder começar sem os tecidos contaminados que hoje só nos podem causar medo do pior. É preciso matar o tigre e comprar o tal cão, que era o que queríamos desde o princípio. E isto não é ser radical: é perceber que com a liberdade não se brinca.)


1.6.12

A Madeira e o preço da impunidade.



Por Daniel Oliveira:
Acontece que a degradante vida política madeirense não nasceu do nada. Nasceu da impunidade que a República garante, há décadas, a este deprimente "elite" local. Nasceu de uma cultura antidemocrática que o presidente regional alimenta e as instituições do país toleram.

Na íntegra aqui.

31.5.12

quem são os pornógrafos, afinal.




June 30, 1922, Washington policeman Bill Norton measuring the distance between knee and suit at the Tidal Basin bathing beach after Col. Sherrill, Superintendent of Public Buildings and Grounds, issued an order that suits not be over six inches above the knee.

Fonte: The Official Houston Police Department Blog.

30.5.12

retratos de Portugal.


Está no sítio do Público esta notícia: Ministério Público pede destruição das escutas telefónicas que envolvem Sócrates.

De momento, essa noticia tem os seguintes comentários:

Devem ser publicadas e não destruidas
SE o MP manda destruir significa que são irrelevantes e não ofendem o atingido, assim e não havendo qualquer problema e para acabar de vez com as desconfianças da generalidade dos Portugueses as mesmasDevem ser publicadas com grande divulgação e transparencia e não destruidas nem manipuladas.

Porquê?
O Ministério Público pediu agora a destruição das escutas telefónicas feitas no âmbito do processo Face Oculta envolvendo o ex-primeiro-ministro José Sócrates, que escaparam à ordem de destruição do presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Esta atitude não retira a ninguém que fiquem suspeitas sobre alguns actos imputados ao ex-primeiro-ministro, e que parece existir interesse que isso seja uma lamentável realidade. Alias, isto só vem provar que qualquer caso como este da Face Oculta nunca irá ter outro desfecho senão a prescrição, ou por outras palavras, nunca serão descobertos. É pena.

Onde está a democracia?
Não se deve fazer isso. Todas as pessoas envolvidas em crimes devem de ser punidas de igual forma. Que país, onde se protege pessoas obsoletas e hipócrita. Façam uma petição para se julgar os criminisos políticos, gestores entre outros, deste país. Vão para a praça pública. Reevindiquem pelos direitos de um verdadeiro estado democrático.

Vergonha
A procissão passa, e os malandros ficam... Qual o motivo da destruição das escutas???? contêm algum segredo de Justiça???? contêm elementos/informações confidenciais??? quais os motivos de não as quererem divulgar??? são portadoras de linguagem menos propria???? porque tantos segredos a volta destas escutas e destes SMS que envolvem o Face Oculta... Tenham vergonha e façam aos acusados politicos, para variar, um pouco de justiça...

(Foi preservada a qualidade literária dos comentários, bem como o "acordo ortográfico" praticado em cada caso.)

É um retrato bastante aproximado da democracia que temos, do povo que somos, da cultura democrática que foi pelo cano há muito tempo. Vivemos na completa inversão de valores, numa terra onde a noção dos direitos e dos deveres é uma questão de opinião pessoal e de ocasião, onde ladra quem quer e morde quem pode. E tudo isso tem sido alimentado por todos os poderes. Todos.


se querem participar, vão para fora da sala bater nos vidros das janelas.

19:10

Nuno Crato foi dar uma aula a uma escola de Évora, ensinando a construir um relógio de sol (que classificou como o 'Magalhães' do antigamente !!!) e foi bem recebido, em seu entender.

Um aspecto desse bom acolhimento é assim descrito pelo "Sol": «A visita de Nuno Crato suscitou protestos de alguns alunos, concentrados à porta do estabelecimento, com cartazes. A essa altura, já o ministro estava no interior da escola e apenas ouviu protestos quando, a meio da aula com a turma envolvida na construção do relógio de sol, estudantes gritaram do lado de fora e bateram nas janelas.»

Ora, Nuno Crato, que já foi um cientista, mas aprendeu depressa a hipocrisia que muitos consideram (erradamente) intrínseca à política, explicou a coisa assim: «Nuno Crato (...) considerou "óptimo" o "acolhimento" dos alunos: "Vivemos em democracia e é bom que haja participação cívica, das mais diversas maneiras".»

O que Nuno Crato devia ter dito, a meu ver, é que bater às janelas durante uma aula não é uma forma de participação cívica, mas antes uma selvajaria.

Percebe-se, contudo, que a capacidade do ministro Crato para discernir o que é participação cívica e o que é selvajaria é uma sua capacidade que anda muito embotada por esta altura. É que aplaudir protestos que perturbam uma aula e, ao mesmo tempo, enxotar os estudantes da vida cívica própria da escola, como fez ao querer excluir os alunos dos conselhos pedagógicos, é realmente uma baralhada indigna de um ministro, especialmente quando é suposto ser ministro da educação.


Passos Coelho dá aula de música, mas não arrisca cantar.


Se fosse só em música-música-mesmo que Passos Coelho dá a teoria, mas sem prática a condizer, não faria assim muito dano. O pior é quando o desacerto entre a pauta e a música que realmente se ouve acaba por chegar tão manifestamente ao governo do país: Passos rejeita em absoluto nebulosa entre PSD, secretas e privados. Como dizia a minha avó, "quem não tem vergonha, todo o mundo é seu". Passos Coelho escolheu ficar enterrado na mesma lama que o espião abelhudo e o seu amigo ministro; ele lá sabe das suas escolhas, mas não me parece que isso seja bom para o país - e nem sequer para o governo.

espiões em família.

13:32

Grupo de personalidades defende “limpeza” nos serviços secretos.

Parece que o país está a perceber que há importantes podres na nossa vida comum. Mas, como de costume, muitos de nós continuamos a pensar o país como se se tratasse de uma espécie de família alargada, uma doença paralela àquela outra de julgar que o orçamento de Estado é uma espécie de orçamento familiar da grande casa portuguesa. Exemplo desta forma de pensar é o facto de algumas daquelas personalidades, preocupadas com o que se anda a fazer nos serviços secretos, julgarem que o que é necessário é apostar em espiões com "elevado nível ético". Estamos tramados se o nosso descanso em relação ao que andam a fazer os nossos espiões depende da nossa confiança em relação à ética dos ditos e das ditas.
O que precisamos é de instituições que funcionem. Neste caso, que o conselho de fiscalização tenha os meios necessários para fiscalizar - e que o próprio conselho de fiscalização seja efectivamente fiscalizado pelo Parlamento, para que se saiba se faz o seu trabalho. A vida de uma nação pode ser muito melhorada por uma ética pública adequada, bem como pela acção consequente de pessoas privadas com a ética adequada. Mas isso não chega, temos de insistir em que as instituições funcionem.
A fiscalização dos serviços secretos pelo Parlamento é uma função essencial numa democracia e essa função tem de ser garantida. O descuido permanente em relação a assuntos deste melindre tem muito a ver com o facto de certos partidos (do chamado "arco da governação") terem tomado conta do assunto e terem excluído "as franjas esquerdistas" do acesso à função de fiscalização efectiva. Ficaram, desse modo, livres para um certo relaxamento da vigilância, que nunca devia esmorecer. Trata-se de uma sobrevivência do espírito da guerra fria, que teorizava que os comunistas não podiam aceder a segredos de Estado no Ocidente para não irem bufar aos seus camaradas soviéticos. Esse tempo já lá vai, mas a democratização da fiscalização das partes mais secretistas do Estado continua a deixar muito a desejar.
Se a democracia não souber resolver esta questão de forma cabal, ganharão terreno aqueles que acham que um país pode dispensar serviços secretos: outra versão dos que pensam o Estado como espécie de família alargada que vive da boa vontade dos seus membros.



fazer o pino por um prato de lentilhas.


São tão liberais, tão liberais, para afinal venderem a alma por tão pouco. (Nem sei se "eles" sabem o que quer dizer "alma", mas, enfim...)

29.5.12

Corpos racionais mastigam-se melhor.

Visto o corpo pelo olhar da racionalidade, por que razão não há-de ele ser susceptível de partição, de decomposição em partes - talvez segundo um critério funcional, segundo a razão de ser de cada um dos seus subsistemas? Tal como num computador podemos, por exemplo, separar os dispositivos de comunicação com o exterior (teclado e monitor, nomeadamente) da unidade central de processamento e da memória - porque não haveremos de poder desconstruir o corpo, cada peça para seu lado, segundo o uso padrão que lhe conferimos? Quem diz desmontar, diz re-montar; partir/compor; descontruir/reconstruir. Isto se, como foi dito, virmos o corpo pelo lado da racionalidade. Porque não haveremos de fazer humanos segundo a receita de Cindy Sherman? Chegará essa receita a ser um algoritmo? Ou haverá qualquer coisa que falha numa leitura do corpo que vai só pela racionalidade, mesmo que ela seja tecnologicamente dotada?


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Cindy Sherman nasceu em New Jersey em 1954. Foi antes de qualquer outra coisa fotógrafa. Em muitas das suas obras ela é o seu próprio modelo. "Ela", quer dizer, transfigurada de muitas maneiras. Nos anos '90 do século passado fez uma série de "bonecas": entre elas a que se vê abaixo.




Cindy Sherman, Untitled # 250

28.5.12

mal "acomparado"...


Cabe ao Parlamentar fiscalizar a actividade do governo e zelar pela coisa pública. Mas «O deputado do PSD, Nuno Encarnação, garantiu no Fórum da TSF que assim que o ministro Miguel Relvas se mostrar disponível os social-democratas dão luz verde para uma audição parlamentar no caso das secretas.» Quer dizer (salvas as distâncias, claro está), que o polícia só interpela o ladrão quando o ladrão gritar "oh da guarda, que quero um polícia que me interpele e nenhum se presta a isso".

lógica e natureza.

«É impossível, só com a lógica, ultrapassar a natureza! A lógica prevê uns três casos, mas existem milhões deles! Como é? Deita-se fora o milhão de casos e reduz-se tudo ao problema do conforto! É a solução mais fácil do problema! É sedutoramente clara e não obriga a pensar! O principal é não ser preciso pensar! Todo o mistério da vida cabe em duas folhas de papel!»

Fiodor Dostoiévski, Crime e Castigo (1866)

lococentrismo.


(O sol da manhã sobre o betão de Shinjuku, Tóquio. 8-11-2005.)
(Foto de Porfírio Silva.)


«Segundo a interpretação do historiadores europeus, são os indivíduos que tomam a iniciativa de intervir no curso da história. […] Um acontecimento é, pois, o resultado de uma vontade. Ora, segundo a análise de Maruyama [Masao Maruyama, especialista de história das ideias políticas no Japão], nenhum facto histórico no Japão se explica como o produto de vontades individuais. A história é interpretada em princípio como se (a) todas as coisas se formassem por si mesmas, (b) sucessivamente e (c) com força. [Exemplo é o seguinte excerto da] declaração de guerra aos países aliados, e antes de todos aos Estados Unidos, pronunciada pelo imperador a 8 de Dezembro de 1941: […] Chegámos infelizmente ao ponto em que a guerra estoirou contra os Estados Unidos da América e o Reino Unido por uma necessidade que não podia ser de outra maneira. Teria sido assim por minha vontade?»
(Hisayasu Nakagawa, Introduction à la culture japonaise, pp. 19-20)

A este fenómeno chama o autor “lococentrismo”, para significar que, para o japonês, o que comanda e domina tudo é a força do lugar, as forças da terra no sítio onde se está.