28.4.12

finalmente o PSD confessa.

18:28

Jorge Moreira da Silva, número dois do PSD, uma espécie de primeiro vice-presidente do partido, o homem que toma conta das hostes em nome de PPC, explica a razão pela qual o seu partido foi o grande responsável pela vinda da troika para Portugal, chumbando um PEC que dizia desnecessário, derrubando o governo, abrindo uma crise política no turbilhão de uma crise financeira e económica.
Moreira da Silva está preocupado com as posições do PS (parece que o PS não concorda completamente com a magnífica governação de Relvas, Passos e Gaspar), por causa da mensagem que assim é transmitida para o exterior, onde é valorizada a capacidade de entendimento e o amplo consenso que foi alcançado em Portugal. E, por isso, Moreira da Silva, adverte o Partido Socialista: «que este “tenha noção” de que tudo o que é dito em Portugal será analisado pelas organizações internacionais e pelos mercados, entre os quais subsiste “um escrutínio muito apertado”».
Pois. Foi mesmo isso - tramar o país no cenário internacional - que fez o PSD quando isso lhe deu jeito. Em nome de quê? Em nome da promessa de que não eram necessários sacrifícios nenhuns, que os sacrifícios eram devidos à maldade do governo do PS, que um governo do PSD pouparia o país à mais leve austeridade. E, com essas redondas mentiras - tem feito tudo o contrário do que disse então - empurrou o país para as bondosas mãos do FMI, do BCE e da CE, com as consequências que estão à vista.
Deste modo, as declarações de Moreira da Silva só poderiam ser um gesto, humilde, para reconhecer a maldade que o PSD fez ao país atraindo sobre nós o olhar castigador dos tais mercados. Reconhecemos que não são isso, mas antes, apenas, mais um acto de "faz o que eu digo, não faças o que eu faço", quando traz de volta à grande política nacional uma conversa de quem busca grandes consensos com o PS, declarando o “PSD não pode andar com o PS ao colo” e “muito menos fazer o papel de babysitter”. Vê-se mesmo que são palavras de quem procura entendimentos com o PS... É preciso ter uma grande lata.

A CONTROVÉRSIA DE VALLADOLID.



A Comuna - Teatro de Pesquisa faz 40 anos e vai ao S. Luiz Teatro Municipal comemorar.
A Controvérsia de Valladolid (texto de Jean-Claude Carrière, 1992) restitui-nos a possibilidade de um diálogo histórico entre Frei Bartolomé de las Casas e o filósofo Sepúlveda. Em discussão, o direito de decidir, não apenas da vida dos povos conquistados no Novo Mundo, mas da sua pertença à humanidade. Os índios, afinal, têm alma ou não?

Fomos ver ontem; fica até dia 6 de Maio; aconselho uma ida. Mas não é fogo de artifício: é um texto que vive do próprio texto, o drama está nas ideias, o teatro é a nossa história e isso nos interroga. Os portugueses daquele tempo histórico também entram no argumento. Carlos Paulo (Frei Bartolomé de las Casas) e Virgílio Castelo (o filósofo Sepúlveda) têm excelentes interpretações. Os demais também se desempenham bem do que lhes cabe. Ontem estava menos de meia sala, um desconsolo.

27.4.12

chegou a vez de atacar os bolseiros.


Ministérios avaliam isenção de IRS a bolseiros.

Os bolseiros de investigação científica não são aumentados para aí há dez anos, não têm direito à segurança social dos trabalhadores, são precários altamente qualificados - e, se tiverem azar com os responsáveis pelas instituições que os acolhem, são pau para toda a obra sem qualquer tipo de garantias. Quando se candidatam às bolsas comprometem-se perante o Estado a respeitar uma série de regras, mas o Estado (as Finanças) viram-se agora para eles para chupar o que resta, contrariando um Ministério o que diz outro Ministério. A insegurança soma-se à precariedade, o que, como é sabido, incentiva imenso a produtividade científica. Vamos ficar a ver se o Ministro Crato vai, mais uma vez, assobiar para o lado.

robôs cá da casa.


Robôs de salvamento (em manobras).


AS PALAVRAS.


Redacção de uma menina de Lisboa, de nome Mariana, aluna da quarta classe de um estabelecimento de ensino dirigido por religiosas

AS PALAVRAS

Há palavras boas e palavras más, palavras bonitas e palavras feias. A palavra Portugal é muito bonita, mas a palavra Trancos não é. Há palavras que não dão com as coisas para que servem, Lua, por exemplo, dá, não podia ser outro nome porque não era essa coisa, mas caderno não dá. Lembra inverno e inferno e os cadernos dependem, nem todos são horríveis, só o de matemática para mim. Folha também dá para coisas de mais, tem de ser folha disto e daquilo, do livro, a árvore, e de felandres, senão não se sabe, não se pode ser folha sozinho.
As palavras também servem para dizer e consolar ou sofrer. Essas não são uma a uma, como as que eu escrevi antes, são em frases, isto é, todas de seguida.
Boa, por exemplo, é uma palavra boa, parece macia, mas se a pessoa nos diz «a menina não é boa», a abanar a cabeça, isso pode afligir muito. Há palavras que postas assim saem ao contrário – por exemplo, fresca. Se for fruta é bom, se for para pessoas não. A palavra triste, por exemplo, é uma palavra azul, porque quase todas as palavras têm cores, e parece que está a pedir que se calem e a palavra riso é amarela, só por si não dá para a gente se rir. A palavra mãe é grosso de mais para o que é e a palavra pai é muito clara e leve de mais.
E agora vou inventar a palavra desinteligente que é o que eu acho que sou por causa da confusão que me fazem as palavras e de estar sempre calada. A escrever as palavras são feitas de letras e só se ouvem na cabeça. Fim.

Mariana
22/6/71

*

in Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972 (reedição de 2010, edição anotada, organização de Ana Luísa Amaral, Dom Quixote)

as actualidades do Público.


Hoje, às nove da manhã, o Público tinha esta notícia na página de entrada do seu sítio da Web:


Nomeação de Mário Monti? Agora, assim? Que se passara? Temi que o excesso de trabalho me estivesse a distrair da actualidade europeia.
Mas não: clicando e seguindo a ligação, vê-se que é uma notícia de Novembro do ano passado, chamada à primeira linha da actualidade (actualidade...do Público, claro).

(O assunto estava resolvido passados uns minutos, com novas notícias em linha. Mas não seria possível fazerem os ensaios de outro modo, sem ser à vista de toda a gente?)


26.4.12

para me distrair depois de um jogo que estive a ver.


Estive a actualizar o meu CV, uma versão electrónica no sítio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Tive de inserir o dia exacto da conclusão dos vários graus académicos que obtive. Descobri, para grande surpresa minha que, pelos registos oficiais, conclui a licenciatura - numa Universidade pública - conclui a licenciatura no dia... não, não vou dar a data exacta... conclui a licenciatura... num Domingo !!!

Que escândalo.

Vou abrir um inquérito.

"LEITURAS DE PORTA ABERTA", de Alexandra Mesquita.




Inaugura Sábado, dia 28 de Abril de 2012, às 15.30, na Galeria Arte Periférica, no Centro Cultural de Belém- Loja 3, Lisboa, a Exposição “LEITURAS DE PORTA ABERTA”, de Alexandra Mesquita.
Ficará patente até ao dia 24 de Maio de 2012, todos os dias, das 10h às 20 horas.

Eu não irei à inauguração, por razões que já aqui foram faladas, mas deixo a informação.


Texto que acompanha o convite:


Leituras de porta aberta

Diz-nos a ciência, confirmando o bom senso, que o ar é um elemento essencial. Ventila, areja, e em suma, permite-nos respirar… Depois, para além disso, o ar faz mais, na sua circulação e se estiver associado a uma corrente, ou seja, se o ar estiver a formar uma corrente de ar, este poderá activar um sistema de renovação. O ar traz a descoberta. O ar em corrente pode trazer a surpresa, desarrumando faz-nos descobrir algo. Uma corrente de ar introduzindo a desordem, permite a formação, consequentemente, de uma nova ordem… Aqui mostro, deixando claro, que sempre quisemos buscar a harmonia, até ao dia, em que por puro esquecimento, deixamos a porta aberta. Isto permitiu a entrada súbita de uma corrente de ar, oportunista que tudo recriou a seu belo prazer…

Enquanto a porta se manteve fechada, tudo estava equidistante e ordenado.

E assim, também a cabeça estava fechada, muito fixa, mesmo a pensar. Depois, nós reparamos que estava tudo simétrico e a uma distância constante.

Mas eis que subitamente, a porta abriu-se. O ar entrou, começou a circular por tudo. O ar fez com que tudo respirasse de pulmão bem aberto. Tudo se dispersou, pulsando. Algo começou a pairar, a movimentar-se espontaneamente. Isso era a força motriz da imaginação solta, liberta. Depois a cabeça nunca mais se fechou, nada foi o mesmo. Eu fiquei para sempre aberta, disponível. Quando assim se está, tudo pode entrar, o que também significa que tudo também pode sair em liberdade.

Pensar ajuda-nos a sermos mais conscientes e organizados. Mas, só a imaginação faz subir, ou seja, só ela faz voar.

Nunca fechemos essa porta. Vivo de tampa aberta e escuto. Para melhor ver. É com a imaginação que melhor observo e absorvo.

Se abrimos a porta, tudo pode entrar. Até as moscas, ou as pessoas, e também coisas abstractas, como ideias: tudo o que puder atravessar a porta, entrará.

A mosca tem coisas para dizer, transporta recados, uma espécie de etiquetas ou rótulos. A mosca pensará? Contudo, a mosca aqui é quem escuta tudo.

Um ascensor em manutenção, um telefone já desligado, um ralador ralado, estão aqui também reunidos uma série de objectos meio adoentados ou em vias de terem problemas. Eles estão juntos e expostos a uma problematização sobre o seu estado inoperante… E deu-lhes o vento, a corrente de ar entrou, eles deslocam-se. Será que ficarão cá todos, para os vermos?

Alexandra Alexandra, Abril de 2012

Feira do Livro de Lisboa.


Já abriu a Feira do Livro de Lisboa. E venho aqui com as notícias que me competem.

Estarei a dar autógrafos no meu mais recente livro - Podemos matar um sinal de trânsito? Um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano - no próximo sábado, dia 28, entre as 15 e as 17 horas.
Nesse dia, o "sinal de trânsito" será livro do dia na Esfera do Caos, podendo ser adquirido com 40% de desconto sobre o preço de capa.

A Esfera do Caos está na Feira associada à Civilização Editora, nos pavilhões A13-A14-A15-A16-A17-A18 (entre a Babel e a Porto Editora).
Quem sobe do Marquês, é do lado esquerdo, logo no início da Feira (ver plano abaixo).

Nunca vou ser Nobel, o meu autógrafo não vos vai render; mesmo assim, não me me deixem lá só e abandonado...





25.4.12

duas noites numa só noite; uma brilha, a outra perdura.


24 de Abril. A caminho do 25 de Abril. Miguel Portas partiu.


Como escrevia o Luís Assunção no FB, comentando esta fotografia de uma imensidão de que nos lembramos: "que outros se sentem ao lado para ouvirem falar sobre: princípios, valores e respectivas causas".

24.4.12

testemunho de uma noite mágica.

A Júlia Matos Silva teve a enorme amabilidade de me dar a ler este seu "testemunho de uma noite mágica", a noite de 24 para 25 de Abril de 1974. Um testemunho na primeira pessoa, de uma gente e de um tempo em que a "primeira pessoa" era sempre uma enorme partilha com outras pessoas. Gostei do texto, achei-o relevante e bonito, apeteceu-me que fosse partilhado - e a sua autora, gentilmente, autorizou que aqui o publicasse. Faço da prenda de 25 de Abril, que a Júlia me endereçou, a vossa e nossa prenda de Abril, graças à Júlia Matos Silva. Daqui lhe agradecemos, Júlia - e passo-lhe imediatamente a palavra.

***  

A minha noite de 24 para 25 de Abril de 1974 foi «a noite mais bela de todas as noites que me aconteceram», citando Ary dos Santos. A par dos muitos e outros deslumbramentos da minha vida, eu tive o privilégio de viver uma noite inigualável, na qual eu pude conjugar os valores da exigência utópica com o exercício fulcral da luta contra a ditadura. Esta é a memoria de um jornada particular, incrivelmente única.
Às cinco da tarde, o Fernando, o meu marido e cineasta Fernando Matos Silva, telefonou-me para o emprego e disse: «Júlia, não te esqueças que hoje temos o tal jantar. É muito importante. Convinha que viesses cedo.» Esta era a frase de código que havíamos combinado entre ambos para significar aquilo que ambos sabíamos que iria acontecer nessa noite.
No meu emprego, eu estava a viver uma situação profissional particularmente difícil. Desempenhava uma função, desde o princípio de Abril, que me recusara explicitamente a aceitar no início do ano, quando fora nomeada. Ameaçada de despedimento por desobediência à entidade patronal, eu vi-me forçada a assumir essa função, com uma promessa de ser transferida logo que houvesse um lugar compatível. Entretanto, durante os três meses anteriores, o meu dia-a-dia na empresa multinacional onde trabalhava há oito anos, decorrera de uma forma humilhante: sem função, nem telefone, nem gabinete e secretária, cumpria o horário de trabalho, de uma forma totalmente precária e insultuosa: sentada numa cadeira de uma sala pertencente a outra divisão. Estava totalmente proibida de entrar nos andares ocupados pela divisão de marketing. Com o ingresso de um novo diretor da divisão de marketing, um português torna-viagem vindo do Canadá, fora nomeada «assistente de marketing», cujo desenho de funções significava substituir-me ao serviço de pessoal e ser «os olhos e os ouvidos do rei», segundo as suas palavras. O meu papel seria controlar todos os cartões de ponto e contabilizar todos os minutos e segundos de não cumprimento do horário de trabalho, bem como relatar por escrito todas as conversas telefónicas que não fossem de serviço, ou controlar a produtividade dos vendedores, com critérios absolutamente subjetivos. Tinha ainda a missão de medir a produtividade do novo «pool» de dactilografia (formada por secretárias despromovidas a dactilógrafas), nomeadamente na contagem de linhas dactilografadas por pessoa. «Se for caso disso, quero um relatório da receita do sal e da batatinha e do nome de quem a deu ou o nome de quem anda a «brincar» fora do casamento e com quem», afirmava o diretor, para mim e para as outras duas pessoas que haviam sido nomeadas. No meu caso, nunca ele recebeu qualquer nota. De castigo, passei aos dias a imprimir rótulos com uma máquina de «dymo» para classificar as pastas do arquivo de todos os departamentos de vendas, segundo uma lógica totalmente determinada pela sua assistente pessoal.
Assim, imediatamente a seguir ao telefonema, fechei a minha secretária e abandonei o gabinete que partilhava, sem passar cavaco a ninguém. Naquele preciso momento, eu tive a certeza de que nunca mais iria sofrer uma tal humilhação. Saí simplesmente, sem falar com ninguém e ansiosa por chegar a casa.
O Fernando Matos Silva fazia parte de um pequeno círculo de civis, ligado ao MFA, completamente mobilizado para desenvolver várias ações. O centro dessa mobilização passava pelo jornal «República». Na qualidade de cineasta, o seu desígnio seria o de testemunhar e registar de câmara na mão, desde a primeira hora, todos os acontecimentos que se iriam suceder – e foram muitos de sua autoria. Admitia-se, no entanto, em várias reuniões clandestinas, a possibilidade de o Fernando e outros terem que ir para a televisão, no caso de os oficiais do MFA responsáveis pela ocupação da televisão, virem a enfrentar uma total resistência dos profissionais nucleares que nela trabalhavam (o que felizmente não aconteceu, embora as equipas de televisão só tivessem começado a sair na manhã do dia 25 de Abril.)
Quando cheguei a casa, já lá estavam o Fernando Matos Silva e dois importantes jornalistas do Jornal «República»: o Álvaro Guerra e o José Martins Garcia. E assim, fiquei a conhecer toda a cronologia de acontecimentos militares que iriam desencadear-se, a partir de uma determinada hora. Num outro prédio, numa rua perpendicular à nossa casa, estavam o cineasta João Matos Silva e uma equipa, juntamente com todos os equipamentos necessários.
Então, o cenário em minha casa, simultaneamente ansioso e temerário, era composto por quatro adultos, absolutamente convictos e dispostos a arriscar a alma e o físico. Para além deles, estavam os meus pais, dois antifascistas convictos que haviam vindo a Lisboa para uma consulta médica e um bebé de onze meses, a minha filha Cristina.
Na sala, que era, ao mesmo tempo de estar e de jantar, sentámo-nos à volta da mesa onde comemos bastante cedo, de uma forma rápida e nervosa. Quase ninguém comeu e quase ninguém falou, porque no meio de nós estavam dois adultos que não deviam ser envolvidos, por razões óbvias.
«Então não se pode ligar a televisão?», perguntou o meu pai, muito surpreso, por não se ouvir o telejornal. «Hoje não, pai! Eles precisam de trabalhar. Têm uma reunião.»
Levantámos a mesa rapidamente e no centro dela, foi posto um rádio ligado, perfeitamente sintonizado e pronto a fazer soar as surpreendentes senhas musicais. Entretanto, sentámo-nos à volta da mesa, embora, cada um de nós, com o nervosismo, se levantasse e sentasse repetidamente. Fumavam-se cigarros, uns atrás dos outros e pouco se falava, para que os meus pais não fossem envolvidos.
Antes da hora marcada, a campainha da porta tocou por duas vezes, com a diferença de alguns minutos. Naquele preciso momento e sem se conhecerem mutuamente, visitavam-nos dois amigos, totalmente estranhos ao que estava a suceder: o publicitário António Reis, com quem o Fernando estava a fazer um filme de publicidade e o meu primo Vicente Trindade, bailarino no Teatro S. Carlos. Nenhum deles percebeu o que acontecia, nem foi, envolvido de qualquer maneira. Guardou-se total segredo, porquanto tinham que ser protegidos de algo que não se sabia ainda como iria acabar. No dia seguinte, cada um deles manifestou a forma como tinham ficado surpreendidos com o facto de ninguém ter desenvolvido uma conversa de jeito e de terem achado estranho que um rádio a tocar dominasse a atenção de todos nós.
Assim, à hora marcada, os quatro adultos implicados, ouviram, num silêncio de bronze e sem poderem manifestar-se, o som gritante da 1ª senha. Para dar início às operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armada. João Paulo Dinis, aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa dizia:
«Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, “E Depois do Adeus...”».
E assim, a voz de Paulo de Carvalho inundou a sala e dominou os olhares, a voz contida e o frio na espinha de todos aqueles que a aguardavam, sofregamente, como um banho de luz no meio da maior escuridão.
Felizmente que os dois visitantes decidiram ir-se embora. Quando ficámos sós, entre abraços e sorrisos, saltámos todos num desconcerto. Havia que saborear aquela imensa alegria tão contida. E, excitados, ali ficámos todos, debruçados sobre o rádio, aguardando a hora da 2ª senha.
Sinalizando a continuidade das ações militares do MFA, no programa Limite da Rádio Renascença, ouviu-se a canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso, gravada por Manuel Tomás e posta no ar por Leite de Vasconcelos. À meia-noite e vinte, Leite de Vasconcelos lê a primeira quadra da Grândola Vila Morena, marcando a leitura com o som dos passos arrastados que iniciam a canção: «Grândola, vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade. //»
E o timbre inconfundível e arrebatador de Zeca Afonso espraiou-se naquelas quatro paredes, desarrumando os gestos daqueles que a aguardavam como o signo de todas as liberdades. Já não pudemos ouvir com atenção a leitura de poemas que se seguiu da autoria do jornalista da República Carlos Albino, que era colaborador naquele programa e que, a pedido de Álvaro Guerra e do Comandante Almada Contreiras, havia sido desafiado a enviar mais e prodigiosos sinais.
Naquela altura, era vital avisar outras pessoas significantes do Jornal República. Foi decidido que seríamos eu e o Fernando a fazê-lo. Antes de sair e muito seriamente, o Fernando dirigiu-se ao meu pai e à minha mãe – que já tinham, entretanto, sido informados de tudo o que estava a acontecer – e explicou o que íamos fazer.
«Pai Barata, Mãe Amélia, nós vamos avisar umas pessoas. Se nos acontecer alguma coisa tomem bem conta da nossa filha.»
E aqueles dois avós, antissalazaristas e antifascistas ferrenhos, ali ficaram calma e generosamente aguardando os factos, ao mesmo tampo que uma criança dormia serenamente, no quarto ao lado.
Quais namorados (ah! e tão amantes verdadeiramente!) saímos os dois num carro que não era o nosso, para cumprir um trajeto pré-definido: num prédio nas Amoreiras, avisámos o jornalista Alberto Arons de Carvalho; num outro prédio, na Av. Duque de Ávila, à porta do qual estava estacionado um carro, com dois homens com um ar pidesco, entrámos abraçados num longo beijo, para avisar o Belo Marques, responsável comercial do Jornal República; terminámos a ronda, num andar alto de um prédio na Avenida de Roma, onde morava o jornalista José Jorge Letria.
Destas investidas aventurosas, ficou-me a lembrança de uma noite anormalmente deserta e árida, como se a cidade numa paralisia excruciante estivesse já a pressentir o som áspero e cavernoso da queda do regime.
Quando regressámos a casa, sobraram, em todos nós, as horas sonâmbulas de uma expetativa insana. O telefone de casa já tinha sido cortado. Multiplicando-se em gestos e olhares e tremendamente ansiosos, cada um de nós aguardava, nervosamente, o grande sinal, simultaneamente pacificador e significativo de que o golpe vingava.
E às 04:20 da madrugada do 25 de Abril, fomos tocados pelo alcance de uma voz séria e ritmada, que significava, para todos nós, ou o início de todos os perigos ou o princípio da redenção:
«Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.
As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua ocorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária.»
E assim na madrugada desse dia «inteiro e limpo», tal como o cantou a poeta Sophia, cada um de nós viveu as mais intensas e rútilas memórias da sua geração.
Pouco tempo depois, os jornalistas Álvaro Guerra e José Martins Garcia partiram para o Jornal República cumprindo a sua missão nuclear: dar vida à voz da liberdade. O Fernando Matos Silva e a equipa partiram pelas ruas de Lisboa, captando as imagens grandiosas da expressão generosa de uma aliança entre as armas e o povo. E são muitas dessas imagens que ainda hoje prevalecem para documentar o gesto grandioso de um país que venceu a ditadura, sem lágrimas de sangue. O olhar e a câmara do Fernando Matos Silva – que tinha visto o seu primeiro filme «O Mal-Amado» totalmente proibido pela censura – hão-de ficar indelevelmente livres, testemunhando os atos e as emoções dos militares e do povo.
Eu, perdi-me nas ruas do bairro, batendo às portas dos amigos, a maior parte deles convencidos que era um golpe do Kaúlza de Arriaga. Nem o relato da minha noite os conseguiu convencer totalmente sobre o que estava em andamento!
Teixeira de Pascoais dizia que «a saudade é a velha lembrança gerando um novo desejo». E da saudade que eu tenho desse tempo, só me resta o desejo de que o povo português se mantenha fiel à liberdade que conquistou no 25 de Abril. Nesta terrível liquefação dos valores vinculativos e estruturantes das sociedades democráticas do pós-guerra, aqui e na Europa, regressam os vampiros como se fosse uma festa!

Júlia Matos Silva

Filosofia e condição tecnológica.

23.4.12

25 de Abril: a rua e o parlamento.

22:20


A Associação 25 de Abril anunciou que não participará na cerimónia de comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República. Vasco Lourenço disse que a Associação não vai porque “a linha política seguida pelo actual poder político deixou de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril”. Mário Soares, em solidariedade, diz que também não vai.

Respeito Vasco Lourenço e respeito Mário Soares. Mas julgo que estas posições são politicamente irresponsáveis. E condenáveis, em alto grau.
Podem ler-se estas atitudes como um mero gesto de oposição ao poder actual, aproveitando o 25 de Abril para tanto. Se o caso é esse, trata-se de um aproveitamento quasi-partidário da data, o que só se pode lamentar. Mas julgo que o gesto da Associação 25 de Abril, apoiado por Mário Soares, é menos circunstancial e mais profundo. Suponho que se trata de querer marcar uma fronteira entre os fiéis ao espírito do 25 de Abril e "os outros". E é aí, precisamente, que as coisas se tornam graves.
Confundir as divergências dentro da democracia com divergências acerca da democracia é perigoso, porque torna os democratas inimigos uns dos outros. Podia dar-se o caso de sermos governados por políticos que quisessem recuperar o autoritarismo pré-Abril, mas não creio que seja esse o caso. Há perigos para a democracia na corrente situação? Há. Há uma degradação da qualidade da democracia nestes tempos que correm? Há. Este clima de agressão social, de ataque aos direitos das pessoas, pode abalar a democracia? Pode. Os governantes, os actuais e outros, têm responsabilidades nisso? Têm. Mesmo assim, os desafios que enfrentamos hoje não são os mesmos a que o 25 de Abril quis dar resposta. Pensar que o 25 de Abril de 1974 tinha, ou tem, resposta para tudo o que se passa no mundo, e que, portanto, o mundo actual pode ser lido em paralelo com o 25 de Abril de 1974, é uma ingenuidade perigosa. Pretender que o "espírito do 25 de Abril" seja uma cartilha de acção política para qualquer momento histórico, ou, pior ainda, pretender que quem "fez o 25 de Abril" é intérprete privilegiado desse espírito, é não perceber nada do que se está a passar. E é uma espécie de apelo aos "teólogos laicos" da democracia como fonte de autoridade política, o que é risível. Perigoso na situação actual é que as ameaças são novas, os riscos vêm de sítios diferentes, as forças em presença têm configurações sem precedentes.
Os perigos do mundo actual assentam em dois pilares. Primeiro, na fragmentação do laço social, com um individualismo sem horizontes, conjugado com a fragmentação generalizada dos espaços de participação, a empecilhar enormemente a capacidade de auto-governo das pessoas aos vários níveis da coisa pública. Segundo, a passagem das alavancas do poder para esferas extra-territoriais desligadas de qualquer poder propriamente político, numa escala sem precedentes. Para lá das maldades domésticas deste ou daquele, é daquelas duas fontes que brotam as nossas aflições correntes, aqui e em muitos lados do mundo. Ora, basta pensar um pouco para compreender que esta situação é muito diferente da situação que o 25 de Abril reverteu (fechamento do país sobre si mesmo, poder político concentrado, encaixotamento social das pessoas em categorias, economia dominada por uns quantos da mesa do poder doméstico, guerra real com mortos e feridos, o Estado como patrocinador de uma linha moral apoiada na hierarquia eclesiástica); e que as respostas necessárias aos problemas de hoje não são as respostas que as nossas belas utopias caseiras queriam dar aos problemas de então. Por isso é que não faz sentido continuar na atitude "quem tem um martelo na mão só vê pregos".
Aquelas atitudes mencionadas acima fazem um corte entre a comemoração do 25 de Abril e as instituições democráticas, disparando contra o próprio parlamento, que é o cerne de tudo o que de essencial a Revolução nos trouxe. É um gesto pesado e perigoso, que não terá nenhuma boa consequência e só pode cavar a distância entre os que vivem na saudade e os que tratam dos vivos. A beleza do 25 de Abril esteve na conjugação da rua e das instituições; este gesto desvitaliza esse nervo vital da memória viva da Revolução dos Cravos. É, por isso, lamentável.

Dia Mundial do Livro.


Já que hoje é Dia do Livro (por decisão da UNESCO, assim é desde 1996), ofereço-vos uma página do meu último livro (último apenas em data, espero).
Aviso que esta não é a página mais divertida: a página mais divertida será encontrada por quem compre um exemplar e o leia na íntegra...


27. É difícil de engolir esta ideia de haver uma diferença entre a coisa (o código da estrada, o poema Os Lusíadas) e o suporte material dessa coisa? Certamente não nos confrontamos diariamente com exemplos dessa distinção. Mas ela, a distinção, existe. Nunca ouviram falar do “xadrez às cegas”? Usualmente associamos a cena de um jogo de xadrez a decorrer com a presença de um certo número de dispositivos materiais. No mínimo, um tabuleiro, peças; para encontros de torneio costuma haver relógios para controlar o tempo usado por cada jogador. Ora, no xadrez às cegas os jogadores não usam nenhum desses dispositivos materiais. Não há sequer tabuleiro, nem peças. Cada jogador limita-se a declarar verbalmente, na sua vez, qual a sua jogada. Os jogadores mantêm apenas na mente a situação actual do jogo, que peças existem, onde se encontram, certos elementos históricos da partida (por exemplo, para saber se um jogador pode ainda fazer ou não um dos movimentos designados por “roque”, pode ser preciso conhecer certos aspectos da história da partida). Por vezes, para acentuar dramaticamente o carácter puramente intelectual desta actividade, o xadrez às cegas é jogado com os jogadores de olhos vendados, havendo testemunhas que realizam num tabuleiro de xadrez convencional os movimentos sucessivamente anunciados pelos contendores, proporcionando assim uma forma de controlo material do processo. O jogo, um processo que começa num certo estado inicial bem determinado, que prossegue de acordo com certas regras que diferenciam exactamente se uma jogada é ou não legal, que termina com um certo resultado de acordo com regras que especificam quando se atinge um estado final e qual o seu significado (vitória, derrota, empate) – tudo isso existe independentemente dos suportes materiais usualmente empregues para facilitar a vida aos jogadores e aos espectadores. O jogo pode existir, exactamente com as regras que o caracterizam, apenas na mente dos jogadores e de quantos compreendam e sejam capazes de acompanhar o que eles estão a fazer. Eu, pessoalmente, apesar de ser capaz de jogar xadrez (pessimamente, diga-se de passagem), não seria capaz de seguir de forma puramente mental mais do que duas ou três jogadas de uma partida “às cegas” – mas isso não faria com que o jogo não existisse. Apenas sublinharia a minha incapacidade para seguir esse jogo naquelas condições. O jogo existe independentemente do suporte material usual: quem perdeu no xadrez às cegas, quem ganhou no xadrez às cegas, perdeu ou ganhou sem tabuleiro e sem peças de qualquer material em que pudessem estar feitos. O resultado, os lances, os erros e as soluções originais relativamente à história do xadrez, tudo isso existe nesta versão imaterial do xadrez, podendo depois ser registado, estudado, analisado, reproduzido em bases de dados de partidas, representado num programa de computador que reproduz partidas. O jogo existe, aquela partida concreta existe, em todo o esplendor da sua objectividade, mesmo antes de lhe ser dado qualquer suporte material, quando estava apenas na mente daqueles jogadores de olhos vendados e de quantos tomassem conhecimento da sequência de jogadas. Experimentem assistir a uma partida destas: é um espectáculo para o espírito se pensarmos bem no que se está a passar. Pois, também assim o poema Os Lusíadas e o código da estrada: existem independentemente dos seus suportes materiais.

Está aí a chegar a Feira do Livro de Lisboa...

Câmara Corporativa.


Faz hoje uma semana que o mais odiado dos blogues deixou de ser actualizado. Sendo o blogue que era, não há dois diagnósticos possíveis. E terapia, nenhuma. Foi, sem dúvida, um fenómeno. O "Corporações", mais o "Miguel Abrantes", foram/são um caso. Que será estudado. Um ponto que haverá de ser esclarecido é este: que comunicação social temos nós neste país para se dar o caso de um blogue ter tido o papel que teve o Câmara Corporativa. Os candidatos a estudiosos do fenómeno não se esqueçam de ir lá registar a evolução da longa lista de comentários ao último post, que é uma espécie de sobrevivência para além da morte: o corpo já não mexe, mas andam bichos a roer-lhe nas entranhas indiferentes. E o Pedro Adão e Silva é que ficou na montra!


R.I.P.




presidentes.

22.4.12

uma aldeia das mulheres.


Para fazer um intervalo num fim-de-semana fechado em casa a trabalhar... fui ao cinema. (Porque a reprodução da força de trabalho, indispensável à sustentabilidade da exploração do trabalho pelo capital - !!! - passa por comer e beber, mas também por aliviar o espírito em doses mínimas.) Concentrado em escolher uma sala próxima (para ir caminhando) e a horas convenientes, acabei por ser empurrado, pouco convencido, assustado pelas poucas estrelas dos críticos, para E Agora, Onde Vamos?, de Nadine Labaki.
Valeu a pena. (Se não quer saber aspectos do enredo, fique por aqui na leitura.)

É a história de uma aldeia libanesa onde cristãos e muçulmanos vivem há alguma tempo numa certa paz, contra a corrente de todo o mundo que os rodeia, mas sempre em perigo de voltarem (as armas estão lá, embora enterradas) ao mesmo turbilhão de violência que assola as relações entre essas duas comunidades nessa parte do mundo. E é, fundamentalmente, a história das mulheres dessa aldeia, que estão fartas de enterrar os seus maridos e filhos por causa dessa disputa e, por isso, estão dispostas a tudo para evitar esse cenário negro. Trata-se, portanto, para esta realizadora e para nós, de voltar ao tema do outro olhar das mulheres e da sua força e inteligência para lidar com as situações de uma maneira inesperada para as convenções. É um filme de utopia, portanto.
Contudo, não é um filme que nos faça sermões, nem que abuse das nossas emoções. Joga mais na parte de comédia que todas as tragédias comportam. Aspecto que me agrada neste filme é que a utopia vai de mãos dadas com o pragmatismo: os recursos que as mulheres da aldeia usam para levar a água ao seu moinho são o que está à mão, não aquilo que grandes teorias ditariam que se fizesse. Claro que as ideias do filme para a estratégia das mulheres colocam as coisas num plano de irrealidade (exemplo é o uso de uma combinação de ucranianas e haxixe para afastar os homens de pecados mais guerreiros), mas, de qualquer modo, um traço essencial da utopia foi instalado na história desde o início, com o isolamento quase total da aldeia do resto do mundo. É que só pode haver utopias na Terra cortando com o mundo - e aí morrem todas as utopias que queiram ser mais do que isso.
Há um aspecto escondido na trama lógica da história, que não aparece imediatamente ao espectador, mas que é uma bonita mensagem. A forma que as mulheres encontram para bloquear a violência inter-religiosa dos seus homens, depois de tanta coisa terem tentado, é uma conversão da noite para o dia à outra religião local: as cristãs amanhecem muçulmanas, as muçulmanas cristãs. Assim, deixam os seus maridos no dilema de esquecerem o critério religioso para a violência ou de terem de começar a agressão pelas suas próprias mulheres. Ora, esta solução é um prémio à mulher que andava a namoriscar um homem da outra comunidade: se até aí se viam impedidos de concretizar o seu mútuo interesse, esta manobra geral coloca-os agora do mesmo lado da barreira religiosa. É um prémio aos que tinham avançado para o outro lado da barreira por sua própria conta e risco. (E, claro, é uma mensagem que fica muito bem até por envolver a lindíssima Nadine Labaki, a realizadora que também participa como actriz.)
Apesar da sua dureza, o filme é uma história de encantar, com a sua carga de irrealismo (talvez, de todas, a maior seja os dois líderes religiosos, o imã e o padre, serem os mais tolerantes de cada uma das comunidades). Mesmo assim, a realizadora mostra que não é ingénua, até pela forma como constrói a cena final, quando os aldeões, de repente, depois daquela "conversão geral" das mulheres, já não sabem onde enterrar o rapaz, na parte muçulmana ou na parte cristã do cemitério. Não há remendo que cure o mundo, pois, de forma assim tão milagrosa. Estão sempre a abrir novos rombos no casco e faltam as forças para acudir uma e outra vez. Sabemos disso. Mas há quem tente, fora dos filmes. Também por isso valem a pena os filmes que rendem homenagem aos que não se rendem, com a poesia e a sabedoria deste E Agora, Onde Vamos?.