23.10.09

vídeos que Cavaco anda a ver

15:55

O antigo jogador de futebol jugoslavo Stojkovic, actual treinador da equipa japonesa Nagoya Grampus, teve uma saída que nos faz lembrar qualquer coisa. Durante um jogo do campeonato japonês, o guarda-redes da equipa adversária chutou a bola para fora, para que um colega pudesse ser assistido, e Stojkovic aproveitou o momento: "marcou um belo golo", espontâneo. Levou, por isso, com um cartão vermelho.
O jornal Público titula assim a notícia: «Treinador marca golo e acaba expulso».
A estas horas, já devem ter explicado este enredo todo a Cavaco.



temos tido muitas madrugadas destas

Galileu e Saramago

10:25


Sob este título, Galileu e Saramago, Carlos Fiolhais escreve hoje no Público um texto de opinião, do qual respigo:
«Saramago falou sobre a Bíblia de uma maneira que, seja-se ou não crente, não é intelectualmente séria. Não foi apenas chamar-lhe "manual de maus costumes" e "catálogo de crueldades". Foi também ter dito que o Génesis tinha "coisas idiotas", exemplificando: "Antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?". A pergunta é que não tem nenhum sentido! É o grau zero da crítica religiosa ou mesmo literária. O que não seria dito se alguém analisasse O Memorial do Convento desta maneira tão tosca? Tão errado é levar a Bíblia à letra, aceitando o que lá está, como levar a Bíblia à letra, recusando o que lá está. Francamente, não consigo distinguir entre a teologia básica dos que condenaram Galileu e esta antiteologia igualmente primitiva de um escritor contemporâneo
Certíssimo. O significado cultural (e até político) do que Saramago tem andado a fazer, que é reaccionário, e não progressista como alguns parecem pensar, vê-se melhor com a ajuda deste ponto avançado por Carlos Fiolhais.

(Nota 1.O negrito na citação é meu, não de Fiolhais.)
(Nota 2. Para governo dos leitores, a título de declaração de interesses: eu não sou crente.)

22.10.09

governo

19:29

Aí está o novo governo. Uma questão que se coloca ao país é se o esforço de reforma feito em algumas áreas da governação será sacrificado às novas realidades de uma maioria relativa. A substituição de figuras à frente de certos ministérios torna legítima a pergunta. O futuro dirá se se trata apenas de refrescar os titulares, para manter essencialmente o mesmo rumo; de mudar de política para poupar as baterias para futuras batalhas eleitorais; ou de manter as políticas mas sofisticar as abordagens, para melhorar as condições de aplicação. Nem o programa de governo, se mantiver a tradição PS de ser o mesmo programa apresentado ao eleitorado, vai desfazer esta dúvida. Talvez as primeiras intervenções de Sócrates no novo Parlamento o façam. Ou, eventualmente, só a governação em velocidade cruzeiro fará luz sobre esse ponto.

Uma nota específica, numa pasta que julgo crucial, por razões que já aqui apresentei: a nova Ministra do Trabalho, Helena André, vice-presidente da Confederação Europeia de Sindicatos, tem o saber, a experiência e a visão política que poderão fazer dela uma peça chave da governação. Ela sabe o que valem os sindicatos - ou, pelo menos, o que deveriam valer. E não partilha nenhum dos cinismos que, acerca disso, abundam entre nós. Sabe como os sindicatos são importantes para a democracia, sabendo que a democracia na empresa é indispensável a qualquer democracia decente. E sabe como maus sindicatos podem ser os piores inimigos dos trabalhadores. Como será, com o peso de vir da liderança sindical europeia, ver o mundo do lado do governo? Acredito que Helena André dará uma excelente resposta a esta pergunta.

Nota final. Escrevi aqui antes que ficaria a contar quantas ministras teria o próximo governo do PS. São (além do PM) 11 ministros e 5 ministras. Podia ser pior. Mas também podia ser melhor (para quem acredita no valor do simbólico, como é o meu caso).

[Produto A Regra do Jogo]

Saramago e os monstros


Desde a Antiguidade Grega e Romana até, pelo menos, ao século XV, grandes autores da cultura ocidental davam por certa a existência de raças fabulosas. No Oriente, na mítica Índia. Estavam errados, parece. Contudo, não é por isso que desqualificamos todas as suas realizações. De certo, num futuro talvez menos distante do que pensamos, saber-se-á como estão erradas algumas das nossas actuais crenças científicas e filosóficas. Só nos acharão por isso tolos, no futuro, se forem tão canhestros a apreciar os contextos históricos e culturais como tem sido Saramago a falar do texto bíblico. Saramago fala como se ele próprio acreditasse que a Bíblia foi escrita mesmo por Deus. Ou como se acreditasse em deuses e gostasse mais deste ou daquele. Como se não percebesse que as religiões são fenómenos humanos.
Claro, a propositada ignorância de Saramago, gizada para vender livros, não justifica as fogueiras dos inquisidores que por aí andam. Mas a ignorância exibida sempre deu oportunidade de algum brilho funesto aos que empregam o seu saber contra a liberdade de expressão. É triste que estejam bem uns para os outros. Mas estão.




20.10.09

já percebi o que Saramago anda a ler












outro Lara?

proposta paralela

Expectativas. O Pacto para o Emprego.

09:10


1. Os governos do PS têm adoptado uma prática, no tocante à definição da sua linha de rumo, que consiste em traduzir o programa eleitoral do partido no programa de governo após uma vitória eleitoral. Nada de mais transparente. Desta vez, sendo embora minoritário o governo, é expectável que seja seguido o mesmo método - já que nenhum partido da oposição, aparentemente, quis ter qualquer coisa a ver com a definição do rumo da governação. Deste modo, é interessante voltar a ver o programa com que o PS se apresentou às eleições do passado dia 27 de Setembro.

2. Um dos pontos que mais me interessou no programa eleitoral do PS foi o tocante ao Pacto para o Emprego. O agora (quase) partido de governo propunha-se avançar com esse Pacto "enquanto instrumento dirigido a promover a manutenção e a criação de emprego, bem como a criar condições para a sustentação da procura interna", capaz de criar "um novo consenso social de resposta à conjuntura". O que se podia ler no programa, relacionado com este Pacto para o Emprego, parece indicar existir a consciência da necessidade de alterar significativamente o equilíbrio dominante no mundo do trabalho, articulando várias mudanças: aumentar o emprego, reduzir a precariedade, melhorar a produtividade e a competitividade, elevar as qualificações, promover a melhoria sustentada dos salários, reduzir mais as desigualdades. Essa mudança articulada é, aliás, muito necessária: tanto por razões de eficiência económica como de justiça social. Concretizá-la, sem estatizar a economia nem mercantilizar a sociedade, tem de passar pelo reforço do diálogo social, da contratação colectiva e da participação dos trabalhadores.

3.Entendido deste modo - e acho que o programa do PS aponta para este entendimento - o Pacto para o Emprego seria uma das principais linhas estruturantes de toda a acção do próximo governo. Até por relançar um processo de mobilização social como base para o desenvolvimento socialmente equilibrado do país. Essa seria, aliás, uma excelente resposta a uma crítica absurda que certos sectores das direitas fizeram ao PS. Escreviam durante a campanha eleitoral, quer fontes partidárias quer fontes jornalísticas, que o programa do PS era estatista porque daria "pouca atenção ao papel das empresas". Ora, o que isso denuncia é uma pobre operação: reduzir a sociedade às empresas, ou mesmo apenas a certas funções das empresas. Há muito mais sociedade do que as empresas. E há muito mais do que interesses económicos dentro das próprias empresas. Por elas serem feitas de pessoas, que não podem ser reduzidas ao papel de produtores (nem de consumidores). O Pacto para o Emprego, como processo social, seria muito mais do que "intervenção do Estado". E, assim, apelaria a muitas responsabilidades que têm andado um tanto diluídas - ou distraídas.

4. Confessamos a nossa expectativa acerca do futuro deste vector da acção do próximo governo. E "andaremos por aqui" a dar atenção a isso mesmo.


[Produto A Regra do Jogo]

19.10.09

devem andar mal as finanças de Saramago


Já aquando da publicação d'O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), um livro menor (contrariamente a outros do mesmo autor, que considero excelente literatura), José Saramago mostrou um grande desconhecimento da história do cristianismo e dos seus debates. Achava ele que criava algo de novo acerca do que poderia ter sido "a verdadeira história" da peça central do cristianismo - quando não fazia mais do que repetir uma pequena parte da imaginação que a própria história da teologia cristã comporta. Muito mais e melhor do que ele, as múltiplas heresias cristãs sempre inventaram belas histórias e interpretações alternativas face à ortodoxia de cada momento. Sabendo todos que a história de um "deus" é sempre um grande romance. Para um divertimento teológico, mais valia ler uma boa história do pensamento cristão do que ler Saramago.
Ainda não peguei em Caim, o novo livro do homem. Mas vou ler. Leio cada Saramago logo que sai. Mas temo o pior. O barulho do chorrilho de tolices que têm constituído as suas declarações sobre a Bíblia, a mostrar uma atroz ignorância sobre esse objecto cultural, prenuncia um mau livro. É que se o autor acha necessário fazer assim o pino, com risco de entorse, para o vender - deve ser que ele próprio acha que a coisa, enquanto leitura, não presta. Temo o pior.

Líder da comunidade judaica diz que Saramago não conhece a Bíblia.


rescaldo das autárquicas: os independentes. uma proposta

17:22


Os míticos "independentes" nas candidaturas a órgãos do Estado democrático não correspondem à encomenda. Como em todos os mitos, aliás. Os "independentes" são foragidos dos partidos, nos casos em que os partidos eram a última barreira contra a indecência. Quando os partidos foram capazes de impor a sanção política, que tem de ir para além da sanção judicial por mor da causa pública, e correram com quem mostrava um currículo impróprio - os foragidos tornaram-se "independentes". Com o aplauso de "gente de bem", como Otelo Saraiva de Carvalho que veio a terreiro defender o Isaltino de Oeiras.
Esta situação defrauda todos aqueles que esperavam que as candidaturas independentes fossem uma porta aberta para cidadãos vindos de fora dos recintos partidários poderem refrescar a vida pública. Não devemos, pois, fechar essa porta. Mas devemos impedir que ela se torna uma fronteira sem lei.

Proposta: só pode candidatar-se como independente nas eleições autárquicas quem não tenha exercido mandato em qualquer órgão autárquico, em representação de algum partido, num dado período imediatamente anterior à apresentação da candidatura. (Sugere-se que esse período corresponda a mandato e meio em velocidade cruzeiro.)

Propostas de alteração?

Aditamento. Entretanto, surgiu esta notícia:

PS prepara expulsão de militantes que se candidataram como independentes.
Por mim, acho perfeitamente normal que a um jogador do Leixões não seja permitido virar-se a meio do jogo para começar a defender as cores do União de Leiria. Para fazer isso, terá de mudar de clube, segundo as modalidades previstas. Ninguém é obrigado a pertencer a qualquer partido - mas essa pertença tem de ter regras. Por muito que isso desagrade aos individualistas de pacotilha que acham que tudo o que seja colectivo, grupo ou instituição pode ser achincalhado pelo puro egoísmo e irresponsabilidade individual.

18.10.09