10.10.09

esquerda quimicamente pura?

18:38

Jorge Bateira (JB), em artigo no Público (6 de Outubro, republicado no Ladrões de Bicicletas, onde o li), trata da questão “Tornar possível a esquerda necessária”. O texto merece reflexão. E comentários.

Há dois pontos de partida no texto de JB. Primeiro, “as esquerdas” não souberam entender os anseios do seu eleitorado e construir uma solução governativa estável, face a um cenário político (o actual) que há muito era previsível. Segundo, é necessária uma “esquerda socialista” que não se limite a fazer a gestão do capitalismo (para usarmos uma expressão antiga, que não é de JB). A proposta de JB para dar uma resposta a essa situação é “a criação de um grande partido que se reivindique do reformismo transformador”.

Há, neste balanço e proposta, vários pontos que merecem consideração.

Em primeiro lugar, dada a forma como coloca a questão das esquerdas, JB é equívoco quanto ao Partido Socialista. Está a propor que se tente implicar o PS numa renovação das esquerdas ou está a propor que se tente destruir (e/ou vencer) o PS? Se está a propor que se tente destruir o PS, mais valia assumi-lo com clareza. Nesse caso partiríamos para o debate sabedores de que há quem, falando à esquerda, não seja capaz de uma avaliação correcta do papel do PS na construção da democracia portuguesa e na configuração de muitas soluções sociais progressistas que ela incorporou. Seria lamentável que JB fosse apenas mais um herdeiro do velho ódio leninista contra a social-democracia, um ódio que tem razões históricas muito concretas que não deveriam poluir o debate da esquerda em Portugal no século XXI. Até por se dar o facto de esse ódio histórico estar intimamente ligado à dualidade entre revolução e liberdade, uma dualidade que teve muitas consequências liberticidas.

Em segundo lugar, numa coisa JB não é equívoco: parece que todos os males da esquerda se devem aos partidos socialistas, ao PS e aos seus congéneres. Os partidos “socialistas” (entre aspas, como coloca JB) são denunciados como estando distraídos de tudo o que é essencial. Contudo, JB não tem uma linha para reflectir sobre o peso de outros problemas da esquerda: as esquerdas que perderam o respeito à liberdade, as esquerdas com concepções extremamente centralistas e controladoras acerca da relação entre o Estado e a sociedade, as esquerdas moralmente repressivas e retrógradas, as esquerdas que perderam a noção da eficiência social, as esquerdas cúmplices do militarismo e do nacionalismo, … Será necessário dar exemplos, JB? É certo que há erosão, ou talvez mesmo decadência, em certos partidos da Internacional Socialista, como JB menciona: mas não se poderá dizer o mesmo, ou pior, de outras forças da esquerda europeia e mundial? Das duas uma: ou JB só acha interessante aquela esquerda que não tenha qualquer enraizamento na história dos séculos XIX e XX, e procura uma esquerda quimicamente pura – ou, se pelo contrário quer contar com a experiência e a história de todas as esquerdas que realmente têm existido, não pode fazer um balanço tão enviesado e parcial. Talvez por ver as coisas deste modo não consiga JB ser mais equilibrado a distribuir responsabilidades quanto à actual (quase) impossibilidade de uma solução governativa estável à esquerda.

Em terceiro lugar, JB parece demasiado simplista a elencar os pecados dos partidos “socialistas” (com aspas, a seu gosto), dando de barato que esses partidos, enredados na gestão do capitalismo, não se interessam por questões como a democracia no seio da empresa, o equilíbrio de forças na negociação salarial, o pleno emprego como prioridade da política económica. Acho que, simplesmente, é factualmente errado que os partidos socialistas não se interessem por essas questões. Concordo que é preciso levar os partidos socialistas a serem mais agressivos na promoção dessas questões estruturantes, pelo menos em alguns casos, e até no caso português. Aí pesou o pensamento único, concordo. Mas acho completamente equivocado supor que todos aqueles temas sejam estranhos ao ideário social-democrata, trabalhista e socialista. Não vejo bem que tipo de estratégia possa servir a criação desse “homem de palha socialista” – para melhor tratar de o queimar. A não ser que se trate, efectivamente, do mero objectivo de destruir o PS.

JB coloca questões essenciais, que outros colocaram antes e que têm de continuar a ser colocadas. Por exemplo, quanto à necessidade de não continuar a tratar o trabalho e a natureza como mercadorias. Contudo e este é o meu quarto e último ponto – parece -me redutor sugerir, como faz JB, que para isso seja necessário criar um novo partido “agregador”. Essa forma de colocar as questões tem, a meu ver, dois problemas fundamentais. Primeiro, é uma forma de poluir a utopia: transfere a questão política para a questão da organização, naquela velha ideia da esquerda quimicamente pura: fazer um exército de anjos que não estejam contaminados pelos pecados do mundo. Tentativa de descontaminar a esquerda da sua história, em vez de assumir a história. (Se calhar isso faz falta a quem só vê defeitos na história dos socialistas, mas não vê problema nenhum no passado de outras esquerdas.) Segundo, centrar os esforços no “novo partido puro e limpo” será um álibi, uma desculpa esfarrapada, para não fazer o que realmente há a fazer: encontrar uma forma útil de convivência entre as esquerdas que existem. Que existem agora, que estão no terreno. É que o país e o mundo não param à espera desse exército de anjos despoluídos. E mais um atalho para fugir aos desafios que aí estão – seria puramente lamentável.

vistas







Praia da Barra (Ílhavo), Setembro 2009

9.10.09

vozes a ouvir



Leio Luís Moita:
Tenho dificuldade em compreender a mera postura de combate do Bloco e do PC contra o PS, justamente numa conjuntura em que teriam condições para condicionar positivamente as orientações políticas dominantes. Tanto mais quanto, à escala mundial, a crise do neo-liberalismo parece representar a oportunidade de alguma inflexão política no sentido favorável aos sectores que têm sido críticos em relação à globalização selvagem e ao “capitalismo desorganizado”. Não sei se seria possível uma “política de esquerda” (tanto mais quanto hoje parece difícil definir todos os contornos dessa alternativa), mas deveria tentar-se em Portugal “uma política um pouco mais à esquerda”, em correspondência com a vontade da maioria do eleitorado.

No Cão como tu, sob o título Notas soltas.

para que serve o Nobel?



Nobel da Paz para Barack Obama.

Mais do que admiração, tenho respeito por Obama. Ele tem uma atitude correcta face a um mundo esquisito. Contudo, que se entregue o Nobel da Paz a uma promessa, mais do que a uma realização bem sucedida (que Obama ainda estará para produzir), diz bem da tempestade que este nosso mundo atravessa. Os sinos dobram: mas será baptizado, casamento ou funeral?

rescaldo das legislativas / o PS e a esquerda

10:10



Para quem saiba ler os últimos anos, e sem prejuízo de nada do que entretanto escrevemos, parece claro que o PS precisa de uma esquerda. Uma ala, uma corrente, um sector, uma tendência, uma sensibilidade. Chamem-lhe o que chamarem. O PS precisa de uma esquerda. Porque o socialismo - português, europeu, mundial - andou demasiado tempo preso do pensamento único. Preso do consenso... dos outros.
Só que, neste partido (como noutros, embora talvez menos do que noutros) desconfia-se muito de quem não lê pelo livro.
Agora, o que o PS precisa é de uma esquerda que não viva pendente das ambições presidenciais (ou quaisquer outras ambições pessoais) de qualquer "figura". E isso é que tem mantido em estado comatoso a esquerda do PS. Que la hay, la hay...

pudera

prémio para a sandice / falta de lógica / do quotidiano i



O quotidiano i coloca como manchete hoje que "o Ministério Público quer punir o autor das denúncias anónimas contra Sócrates", explicando depois no miolo que se trata de tornar exemplar (pela negativa) um caso de perturbação da investigação por via do soprar de informações objectivamente falsas. Correcto, a meu ver. Pode ser que ainda se chegue a mais uma condenação por conspiração entre gente da política, da comunicação e das "forças da lei e da ordem" para prejudicar um líder político. Não seria a primeira neste caso, como se sabe e alguns fazem por olvidar.
Entretanto, o mesmo i tem um apontamento na secção Semáforo que termina com a seguinte frase:
Se as denúncias são falsas como pode isso perturbar o trabalho da PJ e do MP?

Sendo a coisa rubricada com A.C. - alguém pode dar a A.C. umas lições elementares de lógica? Ou, alternativamente, alguém no i pode impedir os A.C. deste mundo de andarem por aí a escrever sandices? Ou será que A.C. tem alguma máquina universal da verdade que lhe permita - e à PJ e ao MP - discriminar sem mais o que é verdadeiro e o que é falso, assim impedindo qualquer falsidade de influir nos caminhos da justiça? É que, nesse caso, o trabalho da Justiça ficaria imensamente facilitado. E a gente agradecia.

8.10.09

ANOS 70 ATRAVESSAR FRONTEIRAS



Dia de inaugurações no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (F.C. Gulbenkian). Delas destaco a da exposição ANOS 70 ATRAVESSAR FRONTEIRAS. Fica até 10 de Janeiro de 2010. Claro que lá voltaremos, para o olhar mais atento que não está disponível em inaugurações, mais para ver os artistas e outras pessoas do que as respectivas obras.
A rua também festejou: reviveu uma intervenção de 1974, que aqui fotografei com telemóvel, à falta de melhor preparação. (Não, o telemóvel não fotografa nada: eu é que fotografei.) Dizem-me que a intervenção foi criada então, e recriada agora, por Clara Menéres. Mas, aí, fio-me no que me dizem, que eu não sei. (Ou, pelo menos, não sei se sei. Se está certo o que me disseram, sei. Mas, sem saber se está certo o que me disseram, não sei se sei. Ou estou errado?)
Nova vida para o Centro de Arte Moderna? Suspeito que sim. Que bem merece.

Esta exposição, que ocupará praticamente a totalidade do CAM, visa mostrar a produção artística portuguesa da década de 70, época particularmente fecunda para a história da cultura e das artes visuais em Portugal. Será dada ênfase a obras que traduzam a assunção de uma ideologia de experimentação (estética, plástica, formal), uma enorme variedade de orientações (materiais e plásticas) e linguagens, desde as tradicionais pintura e escultura, até à performance, à instalação, bem como à consagração da fotografia e da imagem em movimento. Pretende-se também dar alguma visibilidade a um núcleo de documentação histórica, realçando o cartaz como suporte de comunicação global.
Actualização [12/10/09]

Pode ler-se no Grão de Areia: «O Grupo Acre, em Agosto de 1974, surpreendia pela manhã os habitantes das cidades de Lisboa e Porto, pintando, durante a noite, as ruas e passeios com padrões abstractos. Até a Torre dos Clérigos foi alvo desta liberdade de criar.»
A foto abaixo vem desta fonte, completando o que fora escrito acima.


Acção Cultural elaborada pelo Grupro Acre, Rua do Carmo, Lisboa, Agosto de 1974

Bella Ciao





Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l'invasor.

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l'ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Mi diranno «Che bel fior!»

«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano,
morto per la libertà!»



asfixia democrática



Lisboa: Posição sobre António Costa foi enquanto "cidadão", realça Carvalho da Silva.

Se toda esta novela em torno do apoio de Carvalho da Silva a António Costa para presidente da câmara de Lisboa se passasse no PS, andaria meio mundo (à esquerda e à direita do PS) a dizer que se vivia um clima de asfixia democrática. Como não é, todos os disparates são permitidos. Até Carvalho da Silva tem de vir lembrar que é um cidadão. Parece que alguns julgam que ele é apenas um militante.

EGO * teatro * cérebro / consciência / espírito




EGO, de Mick Gordon e Paul Broks, uma peça sobre o cérebro e a mente, sobre "o que é ser um eu". O texto não é um grande texto de teatro. A interpretação não parece no seu conjunto fazer jus à gravidade do assunto, mas é suficiente (a intérprete de Alice, Catarina Lacerda, é a mais convincente). A encenação é eficaz e dá o mais possível ao texto e à problemática. Espectáculo curto, perfeito para entrar como exercício num curso de filosofia das ciências, de psicologia, de Inteligência Artificial. É conveniente ir para lá com alguma informação prévia; alimenta uma boa discussão colectiva posterior.
O problema está mesmo nos "mitos científicos e filosóficos" enraizados no texto. Fala-se de coisas que não passam de ficção científica (teleporte) como se fossem factos indiscutíveis. E são endossados todos os sofismas principais de uma visão estreita sobre o assunto, como se fossem "ciência pura". Este texto serve bem um certo "materialismo barato" sobre a mente. Claro, acho que ninguém com um módico de informação científica duvida disto: não existe nenhum processo "espiritual" dissociado de algum processo cerebral. Mas a ideia de que a mente humana não é mais do que a actividade cerebral - essa já é outra tese e há muitos e bons argumentos contra ela. Ah, não se enganem: não é preciso acreditar na alma, nem em entidades míticas, para dizer isto. Embora a retórica da peça seja a mesma retórica das posições científicas que se arrogam ser as únicas detentoras do ponto de vista correcto sobre os factos: ou isto, ou os mitos. Tretas, digo eu.
Mas, enfim, vale a pena passar pela Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, até Domingo 11 de Outubro. Pode ser que vos aconteça como a mim: passei o espectáculo todo a imaginar o que eu diria se no fim houvesse ali mesmo um debate. Apeteceu-me até tirar notas...


Trap of illusive sensations (Andrew Polushkin)








7.10.09

passarola

ler Louçã

comunistas de sacristia



Depois de Carvalho da Silva ter declarado hoje de manhã, após uma bica com António Costa, que “é preciso para Lisboa e para os lisboetas que António Costa ganhe as eleições", temos da LUSA a informação de que o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, afirmou hoje:
"Estou autorizado pelo meu camarada Carvalho da Silva, que acaba de mandar uma mensagem à Comissão Coordenadora da CDU a informar das condições em que fez uma declaração sobre a situação de Lisboa mas também a transmitir a sua posição de apoio claro e inequívoco à CDU, pois entende que o país precisa de um reforço da CDU."

Não tarda nada, o Avante! vai começar a insinuar que Carvalho da Silva teve uns problemas com a Casa Pia.
O Câmara Corporativa chama a isto assassinato no Comité Central. Eu, a isto, chamo comunistas de sacristia. Da sacristia do inferno, claro.

(Nem vale a pena mencionar o português em que Jerónimo se exprime. Não é só nisso que ele anda de mãos dadas com a dra. Manuela.)

Carvalho da Silva apoia António Costa.

Santana Lopes desvaloriza apoio de Carvalho da Silva a António Costa.

Ruben de Carvalho diz que apoio de Carvalho da Silva a Costa não fragiliza campanha.



as esquerdas



Carvalho da Silva apoia António Costa.

Pode ter-se a opinião que se entender sobre Carvalho da Silva. Mas fazem mais "pelas esquerdas" estes gestos, de um certo desprendimento partidário, do que aqueles que berram muito por compromissos à esquerda mas, enquanto falam, vão dando chancadas por baixo da mesa aos demais parceiros. É que apelar a compromisso à esquerda e, ao mesmo tempo, usar os implícitos da guerrilha contra o PS, afinal a principal força a que se apela para esse compromisso, parece hipocrisia política. Parece.

cavernas interiores nas cidades dos homens



Andrew Polushkin, In Passing Sketches (street photography), 2004-2008


meias verdades são mentiras



Ao acordar, ouvi hoje na TSF (noticiário das 7 da manhã), que a Presidência da República tinha emitido uma nota a esclarecer que o procedimento de Sua Excelência Cavaco nas recentes comemorações do 5 de Outubro tinha sido conforme os precedentes de anteriores primeiros magistrados aquando de outros períodos eleitorais. O locutor lembrava os ditos do PM no 5 de Outubro e interpretava que esta era uma espécie de resposta. Fiquei zangado: o PM não pode andar por aí a lançar remoques ao PR sem estar bem informado.
Vejo, agora, por serviço público do Câmara Corporativa, que fui levado pelas meias verdades de Sua Excelência Cavaco. Lê-se lá: «Acontece que, nas ocasiões em que as eleições foram em Outubro, os presidentes da República se abstiveram de comparecer, mas não foram em seguida a correr para os jardins de Belém discursar. E não o fizeram pela simples razão de que o que estava (e está) em causa não é o local em que discursam, mas o que possam dizer nos discursos.»
Aborrece-me, sabe-se lá por quê, aborrece-me a ideia de a Presidência da República acobertar uma espécie de mentirosos que são aqueles que para tanto usam as meias verdades. Espero estar errado. Que alguém me ilumine.


6.10.09

vidas







Le chant des partisans

Ami, entends-tu le vol noir des corbeaux sur nos plaines ?
Ami, entends-tu les cris sourds du pays qu’on enchaîne ?
Ohé, partisans, ouvriers et paysans, c’est l’alarme.
Ce soir l’ennemi connaîtra le prix du sang et les larmes.

Montez de la mine, descendez des collines, camarades !
Sortez de la paille les fusils, la mitraille, les grenades.
Ohé, les tueurs à la balle et au couteau, tuez vite !
Ohé, saboteur, attention à ton fardeau : dynamite…

C’est nous qui brisons les barreaux des prisons pour nos frères.
La haine à nos trousses et la faim qui nous pousse, la misère.
Il y a des pays où les gens au creux des lits font des rêves.
Ici, nous, vois-tu, nous on marche et nous on tue, nous on crève…

Ici chacun sait ce qu’il veut, ce qu’il fait quand il passe.
Ami, si tu tombes un ami sort de l’ombre à ta place.
Demain du sang noir sèchera au grand soleil sur les routes.
Chantez, compagnons, dans la nuit la Liberté nous écoute…

Ami, entends-tu ces cris sourds du pays qu’on enchaîne ?
Ami, entends-tu le vol noir des corbeaux sur nos plaines ?
Oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh…

[Deveria ser dado que morrêssemos]

10:58


Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.


Nuno Rocha Morais, Últimos Poemas, Quasi, 2009



5.10.09

[Não nos deixeis cair na curiosidade dos outros]

19:51


Não nos deixeis cair na curiosidade dos outros,
Na piedade dos outros ou, pior, de nós mesmos.
Livrai-nos de sermos eternamente jovens,
Mas também nados-velhos, mortos-vivos.
Livrai-nos sobretudo de nos jactarmos.
Não nos deixeis cair nas ciladas
Daqueles que só se desculpam ou nunca se desculpam.
Não nos deixeis cair na tentação de corrigir a vida
Quando tantas coisas nos morrem
E morrem às nossas mãos ou pela nossa memória.
Livrai-nos de falarmos em nome dos outros,
Dai-nos cada dia a lembrança de também sermos outros
E não nos perdoeis nunca se o esquecermos.

Nuno Rocha Morais, Últimos Poemas, Quasi, 2009