1.8.08

e os adeleiros?


José Miguel Júdice escreve artigos no Público. O Público faz destaques dos textos dos seus articulistas no seu sítio. Hoje destaca-se lá a seguinte frase daquele articulista: "Os portugueses acham que os gestores não devem ser remunerados pelo sucesso, palavra maldita da língua portuguesa".

Não li mais nada. Posso, pois, estar a atirar ao lado. Mas, supondo que o senhor só escreveu aquilo, suposição que sei equivocada, perguntaria: E os almeidas, não deviam ser remunerados pelo seu mérito? E os mineiros? E as manicuras? E os manicuros, já agora? E as adeleiras? E os moços de recados? E as domésticas e as que não são domesticáveis? E...
A ideologia do sucesso, como se o sucesso não tivesse circunstâncias, e causas, e parceiros, é uma ideologia triste. A ideologia dos que, por muito que mudem de opinião, só vêem uma cor toda a vida.

31.7.08

duas leituras


Cavaco Silva interrompe as férias para falar hoje ao país pela televisão.


Primeira: Cavaco é um político ao contrário dos outros. Ele interrompe as férias para ir à televisão, os outros interrompem a televisão para ir de férias.

Segunda: a montagem do espectáculo é mais cara do que as palavrinhas a dizer. A ser assim, é como a maioria dos outros.

De qualquer modo, se vier dizer qualquer coisa de profundo, é mais uma glória do Estado social: as férias dão-lhe ideias que não lhe ocorrem durante o resto do ano.

30.7.08

serviço público


D. Maria II: Carlos Fragateiro vai processar Ministério da Cultura.


Estou convencido, pelas razões aduzidas em notas anteriores, que Fragateiro estava a fazer serviço público como director do TNDMII. Exonerado, pelo que se sabe até agora, "porque sim" (o Ministro da Cultura, que parece que nem arranjou tempo para ouvir o director de um teatro nacional, está a esconder a fundamentação da decisão), Fragateiro anuncia que vai processar a tutela. Se o que quer é demonstrar que tudo isto não tem justificação, e que o Ministro da Cultura faz o que não deve em vez de fazer o que é necessário, continua a prestar serviço público. Honra lhe seja feita.
Entretanto, o agora ex-director do TNDMII falou à comunicação social no Palácio da Independência, em Lisboa, por a tutela não ter autorizado o uso para o efeito do espaço onde Fragateiro trabalhava, o D. Maria. Não são só os patrões de vão de escada que se comportam como pequenos tiranos. Alguns ministros também. São os ministros de vão de escada, que, como os maus empresários, estão mais interessados no seu mísero poder pessoal do que na obra que deles se espera. Se é que se espera alguma coisa de tal gente.
Oh, vaidade...

29.7.08

o método madeirense é que paga

temos homem (?!?!)


Director do Teatro Nacional Dona Maria II demitido.


Provavelmente surgirá algum argumento para a decisão. Isso: a decisão existe, existia, devem andar à procura dos argumentos. Mas no fundo a razão parece clara: Fragateiro, quando foi nomeado, levantou um coro de vozes dos que abominavam que se tirasse de lá um intelectual, apesar de ninguém ver grande coisa a ser feita. Tinham-no por demasiado provinciano para dirigir "o Nacional" (de Lisboa). Eis a vingança desses intelectuais. O ministro da cultura começa a fazer currículo.

O ministro da cultura, na impossibilidade de mostrar trabalho, tem de mostrar qualquer coisa. Tem de agitar-se o suficiente para que ninguém pense que está ferido de morte por eventualmente dever o lugar à coincidência de nome e apelido com outro mais capaz para a causa. E então escolhe uma via que muitos neste país ainda acham ser o atalho mais curto para um arremedo de relevância: matar quem trabalha.
Antes de Fragateiro o D. Maria estava às moscas. Agora fervilha, em espectáculos e público. Em projectos vários. Em influência na cena teatral. Mas deve ser culpado de não encenar o que o Olimpo deseja.

Lamento informar que começo a dar razão às vozes da reacção: e não se pode acabar com o ministério da cultura? É que se, por aquelas bandas, "cada cavadela, uma minhoca", se calhar mais vale.

Mais do que isso só lamento que um actor respeitável pareça estar na jogada. O putativo sucessor de Fragateiro já foi anunciando que estava a organizar a vida para a respectiva transferência. Nessas circunstâncias, pelo que isso revela, só o nomeará um ministro abaixo de... comediante.