17.1.08

Apuleio, O Burro de Ouro - Manara, A Metamorfose de Lúcio


O que queremos hoje destacar é uma leitura que nos aconteceu ao contrário. Não intrinsecamente às avessas, mas que seguiu caminhos tortuosos face ao caminho normal (embora "normal" apenas no sentido estatístico).
O caso é a leitura, já em finais de 2007, da obra O Burro de Ouro, de Apuleio, tra[du]zida directamente do latim para português por Delfim Leão (Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), publicada na Cotovia. Só que, e aí é que as coisas andaram um pouco de lado, o nosso contacto com essa obra do "último grande autor da Antiguidade pagã" aconteceu pela mão - ou pelo lápis - de outro grande pagão, o desenhador Milo Manara. Esse mestre de Banda Desenhada, admirável apesar de alguns desvios de oportunismo (explico-me acerca disso aqui), adaptou com grande fidelidade esse clássico no seu álbum A Metamorfose de Lúcio (faltando-lhe, dos grandes episódios do original, "apenas" o conto de Amor e Psique). Fizemos, então, o exercício de ler os dois livros, com uma mesma matriz apesar de serem objectos muito diferentes, ao mesmo tempo. E não damos aqui notícia disso: apenas deixamos alguns traços dessa experiência "ilustrativa", por assim dizer.

A obra, que se teria chamado originalmente O Burro de Ouro ou Metamorfoses, é um rosário um tanto desconexo de histórias variadas - o que levou Jorge Luis Borges a escrever, no Prólogo à novela La invención de Morel, de Adolfo Bioy Casares, acerca de "el temor de incurrir en la mera variedad sucesiva del Asno de Oro". Contudo, o fio central da história é como segue.

Lúcio, o protagonista, andando de viagem, acolhe-se à hospitalidade do avarento Milão na cidade de Hípate. Pânfila, a esposa de Milão, conta entre as suas habilidades (além de degustar moços) com o exercício de práticas mágicas que lhe permitem transformar pessoas em animais. Uma aplicação particular desses poderes é presenciada por Lúcio, quando Pânfila se transforma ela própria em coruja. Entusiasmado, Lúcio convence Fótis, a escrava de Milão e Pânfila com quem andara a entreter-se sexualmente (começa a perceber-se o interesse de Manara pela história...), a roubar a Pânfila o filtro para o transformar em pássaro. Mas Fótis dá-lhe, por engano, um unguento que o transforma em burro. Fica, assim, lançada a dinâmica central da narrativa: o antídoto para aquele filtro, a solução para reverter aquela metamorfose, até era simples: comer rosas devolveria a forma humana a Lúcio. Só que, peripécia atrás de peripécia, com a época do ano a jogar contra a possibilidade de encontrar pelo campo rosas para comer, o suplício de Lúcio-burro prolonga-se numa vida de montada.
O episódio central da metamorfose inicial é apresentado por Manara em quatro pranchas, que podemos ver abaixo (numa versão francesa, que aliás coincide com a edição que eu próprio uso).





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Dada a fama - e o proveito - de Manara quanto à sua tendência para carregar forte nos elementos sexuais de qualquer história,ficamos convencidos, ao ler o álbum A Metamorfose de Lúcio, que ele acrescenta nessa direcção muitos pontos à obra original de Apuleio. Por exemplo, julgámos desse modo a cena em que Lúcio-burro mantém relações "carnais" com uma dama (prancha reproduzida aqui de seguida). Mas, afinal, Apuleio é mesmo o autor de tal cena. Afinal, Manara até é um leitor bastante respeitador...



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O jeito próprio de Manara (mulheres e sexo como grande tema) evidencia-se bem, de qualquer modo, quando valoriza de forma desproporcionada - relativamente ao original de Apuleio - certos elementos da obra inspiradora. Vejamos, por exemplo,esta simples frase d'O Burro de Ouro, na p.82: "E em boa verdade, quando eu estava já cansado, Fótis ofereceu-me, com a sua generosidade, os deleites de um rapazinho." Manara faz uma página inteira (prancha 15, que não reproduzimos) à custa desta única frase. E, ainda na mesma linha, a orgia ilustrada na prancha 17 (reproduzida abaixo) não aparece verdadeiramente em lugar nenhum da obra de Apuleio, embora responda bem a um certo imaginário.



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E nisto andamos: o grande Manara, com o seu grande traço e as suas obsessões permanentes. Apesar de tudo, uma leitura paralela bastante interessante - e ilustrativa.




(Ilustração de Manara para a aventura com os sacerdotes da deusa Síria.)
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15.1.08

Mais um acto na peça do BCP...

... oferece uma derrota aos que pretenderam partidarizar aquela instituição financeira. Os accionistas fizeram orelhas moucas aos tontos úteis, que andavam a rebuscar nos bolsos dos integrantes da lista de Santos Ferreira a ver se encontravam cartão partidário, e votaram esmagadoramente em quem, pelo que demonstrou no passado, oferece a esperança de tirar o banco do buraco em que se meteu. Entretanto, o ex-ministro Cadilhe, ladeado pelo ex-ministro Bagão, faz declarações à saída da Assembleia Geral como quem vem de um congresso partidário: a fazer lembrar a tradição do PCP "a derrota que vocemessê viu não foi uma derrota, foi uma vitória, tendo nós cumprido todos os objectivos". Se o descaramento manchasse o nariz de tinto, pareceriam dois borrachos à saída da adega.
Esta é a verdade do capitalismo: em geral, os accionistas de qualquer coisa grande até se sentem mais confortáveis com gestores de direita, quanto mais não seja para poderem partilhar as mesmas anedotas. Mas, quando a tolice já foi longe demais, até se engole um socialista ou dois se esse for o óleo de fígado de bacalhau necessário para curar a maleita. Talvez seja esse o caso. E agora esperamos ansiosamento o momento em que Luís Filipe Menezes proponha quotas para o PSD na administração dos bancos privados.

Clonagem animal comporta riscos, sim senhor


(Cartoon de Marc S.)

14.1.08

Pérolas...

... logo duas, no Expresso de sábado passado:

(1) Na página 5 escreve-se: "Armando Vara tem um lema de vida: ser ambicioso não é brincar com o fogo e trepar na carreira não é correr riscos. Quando trocou Vinhais pelo lugar de deputado na Assembleia da República, não se desvinculou do lugar de bancário que ocupava num balcão transmontano." Certos jornalistas, que provavelmente nunca fizeram nada que os autorize a dar lições acerca do que é correr riscos, parece que confundem carreira profissional com lugares políticos: de outro modo, porque é que alguém havia de deixar o seu lugar de carreira profissional por ir desempenhar um lugar de representação política? Afinal, sempre são a favor dos políticos sem carreira profissional? Vale tudo, pelos vistos, desde que o escriba esteja sentado na redacção lisboeta de um jornal de costas quentes e o criticado tenha vindo de um "balcão transmontano" e tenha singrado na vida.

(2) Na página 7, Miguel Sousa Tavares escreve (só li o destaque): "A liberdade é um assunto de todos e demasiado sério para ser confiado a dois directores-gerais que ninguém elegeu e cuja autoridade para decidir como é que devemos viver não reconheço". Tanta teoria política perigosa em tão poucas palavras! Os directores-gerais deviam ser eleitos? Ou os directores-gerais deviam ser servos dos eleitos, em vez de cumprirem e fazerem cumprir a lei? Ou o que MST escreve significa apenas que toda a organização, incluindo o Estado, devia ser banida - uma vez que para que exista organização tem de existir sempre quem desempenhe funções por incumbência do colectivo? O que MST defende é um regime de "sovietes", comités em que cada "bairro" ou "profissão" decide o que fazer? Pelos vistos MST conta-se entre aqueles que até não se importam que existam más leis, desde que não se cumpram. Porque quando a administração faz cumprir a lei, coisa que é o seu trabalho, o que se culpa são os "servidores do Estado" que fazem o que lhes compete. Porque, é claro, é muito mais apetecível um país de bandalheira em que cada um cumpre as leis que lhe caem no goto, e só essas.

13.1.08

De regresso


Aeroporto de Barajas, Janeiro de 2008. (Foto de Porfírio Silva)