4.1.26

A guerra de Trump

15:37




Com a tradução (por IA, sem revisão) de um excerto, chamo a vossa atenção para um texto publicado on-line, na The New York Review of Books, com data de 3-01-2026 e o título original Trump’s War, da autoria de David Cole. David Cole é Professor Visitante Samuel Rubin de Direito na Universidade de Columbia e antigo Director Jurídico Nacional da American Civil Liberties Union. 
O texto completo, no original, pode ser lido aqui: Trump’s War.

***

“Foi, na verdade, uma operação brilhante”, afirmou Donald Trump ao início desta manhã... 

(...)

A escalada de ataques militares de Trump contra a Venezuela não são inteiramente sem precedentes. Afinal, está longe de ser o primeiro presidente a atacar edifícios — ou mesmo a matar pessoas — no estrangeiro com base em alegações de legítima defesa. Em 1998, Bill Clinton ordenou o bombardeamento de uma fábrica farmacêutica no Sudão, alegadamente para impedir que Osama bin Laden tivesse acesso a gás nervoso, depois de a al-Qaeda ter atacado as embaixadas dos EUA no Quénia e na Tanzânia. (A alegação de Clinton de que a fábrica teria qualquer ligação a gás nervoso nunca foi provada.) Após o 11 de Setembro, George W. Bush autorizou ataques militares contra presumíveis militantes da al-Qaeda em vários países estrangeiros, matando muitas vezes civis inocentes no processo. Barack Obama ordenou o assassinato de bin Laden no Paquistão, bem como numerosos ataques por drones contra outros supostos terroristas noutros locais, incluindo Anwar al-Awlaki, cidadão norte-americano morto no Iémen. Estas acções suscitaram muitas questões jurídicas difíceis ao abrigo do direito internacional e do direito da guerra, algumas das quais abordei nestas páginas. Em muitos casos, os ataques foram ilegais e, em certa medida, abriram caminho ao assalto de Trump à Venezuela.

Mas, noutros aspectos, a “operação brilhante” de Trump não tem paralelo na história moderna dos Estados Unidos. Esses ataques anteriores ocorreram em resposta a ataques efectivos, ou ameaçados, contra os EUA. Em contraste, as acções unilaterais de Trump contra a Venezuela foram inteiramente não provocadas. A implicação do raciocínio da administração é a de que os países podem recorrer à força militar sempre que estejam descontentes com a forma como outro país regula — ou deixa de regular — condutas dentro das suas fronteiras que possam ter efeitos lesivos noutros lugares. Mas isto é absurdo. Pela lógica da administração, o Canadá poderia começar a alvejar norte-americanos suspeitos de transportarem drogas através da fronteira entre os EUA e o Canadá, ou bombardear edifícios nos EUA que alegasse estarem a ser usados para fabricar essas drogas. O México poderia fazer o mesmo relativamente a fabricantes norte-americanos de armas que são rotineiramente utilizadas na violência de gangues, que mata muitos milhares de mexicanos todos os anos. Em Junho, o Supremo Tribunal dos EUA decidiu que uma lei federal impedia o México de processar a Smith & Wesson e outros fabricantes de armas norte-americanos pelas mortes e ferimentos que as suas armas facilitaram. Mas, se o raciocínio de Trump fosse válido, o México nem teria de se ter dado ao trabalho de observar a formalidade de intentar uma acção judicial. Poderia simplesmente fazer desaparecer a Smith & Wesson através de um bombardeamento, a título de “legítima defesa”.

(...)

O precedente mais próximo para as últimas acções de Trump poderá ser a captura e o julgamento de Manuel Noriega, no Panamá, em 1989. Também aí invadimos outro país para levar o seu pretenso líder a julgamento. Mas essa actuação foi amplamente condenada como ilegal — não um precedente de que nos devamos orgulhar, muito menos a repetir. E a situação no Panamá era materialmente diferente em vários aspectos. O Panamá tinha declarado um “estado de guerra” com os Estados Unidos e matou um fuzileiro norte-americano, e nós tínhamos no país uma enorme base da Força Aérea e milhares de cidadãos norte-americanos que alegámos estar em risco.

A Venezuela, pelo contrário, não se envolveu connosco em quaisquer hostilidades, nem conduziu quaisquer hostilidades contra nós — mesmo depois de termos matado mais de uma centena de civis em execuções sumárias ilegais a partir do ar, bloqueado os seus petroleiros e destruído um cais de carregamento no seu país. Em retrospectiva, é claro que Trump estava a provocar Maduro, tentando arrastá-lo para a guerra. Ele nunca mordeu o isco. Mas isso não travou Trump. Agora “mandamos no país” — e parecemos prestes a controlar o seu petróleo. Brilhante, de facto.


David Cole

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   Porfírio Silva, 4 de Janeiro de 2025
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2.1.26

40 anos de adesão e um governo de falsificadores da história


O ministério de Paulo Rangel, a que oficialmente se chama Ministério dos Negócios Estrangeiros, reincide.
A canhestra manobra já foi ensaiada há uns meses: falsificando a história, tentam fazer crer aos incautos (ou aos ignorantes) que a adesão de Portugal à União Europeia (então, Comunidade Económica Europeia) foi obra do PSD ou, mesmo, de Cavaco Silva. É essa mistificação que fica ilustrada pela publicação cuja imagem parcial ilustra este apontamento. Mas não foi isso que aconteceu. A adesão europeia foi obra do PS, foi obra da visão de Mário Soares - e também da sua determinação. Claro, abrangendo muitos outros europeístas, também do PSD, mas com uma clara liderança de Mário Soares.
Cavaco Silva, nesse processo, teve dois papéis: o papel mesquinho de tentar adiar a assinatura do ato de adesão, depois de estar marcado para Lisboa palco da Europa, o que deixaria Portugal atrás da Espanha, apenas por puro interesse pessoal (nem sequer partidário, porque o PSD estava no governo, mas um governo que ele tinha decidido derrubar); o papel de beneficiar da torrente de fundos europeus para facilitar a sua futura governação, apesar de nada ter feito para os obter (como a actual AD quer fazer com o PRR, mas, ainda assim, com muito mais incompetência do que Cavaco ao tempo).
Alguns meses atrás andou Paulo Rangel nesta campanha. Tive, na altura, ensejo de lhe sair ao caminho, com um artigo no Público, motivado por ter assistido pessoalmente à sua oratória mistificadora. Nessas ocasião, dezenas de pessoas que conheciam, até por dever profissional, o que se tinha passado, ficaram boquiabertas com a desfaçatez do ministro Rangel nessa sessão. Agora, reincide. Não é, pois, que esteja momentaneamente a tresler: está numa campanha de falsificação da história.
É triste que Portugal tenha chegado ao ponto de ter um governinho de falsificadores da história.
Deixo imagem do meu artigo no Público (17/06/2025), que também pode ser lido clicando aqui: Mário Soares, a adesão europeia e os revisionistas.




Porfírio Silva, 2 de Janeiro de 2026
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30.12.25

As Presidenciais de 2026




1. Nas eleições presidenciais de janeiro de 2026 está em causa eleger um Presidente da República que cumpra e faça cumprir a Constituição da República Portuguesa, que garanta o regular funcionamento das instituições democráticas - e, para isso, não esteja sempre a inventar teorias próprias (até por falar demais) que, depois, o arrastam para intervenções que resultam no abalroamento dos demais órgãos de soberania, na interrupção avulsa dos ciclos governativos e na progressão das forças antidemocráticas que se têm alimentado da campanha eleitoral constante.

2. Para atingir tal objetivo, acredito ser importante que não seja eleito nenhum dos candidatos que se limitariam a reforçar a atual coligação informal no poder: Montenegro, Nuno Melo e André Ventura. O próprio AV poderia querer ir além disso, mas, apenas, reforçando o seu peso no saco global da atual direita, onde o atual PSD e o atual CDS estão subjugados à logica da extrema-direita. Marques Mendes faria o mesmo papel de reforço da coligação informal no poder, embora pesando mais do lado daquela que foi em tempos a direita tradicional. O candidato Henrique Gouveia e Melo gostaria que acreditássemos que ele seria um bom Presidente: talvez ele tenha razão, talvez ele até pudesse vir a ser um bom Presidente, mas, para o bem e para o mal, nada do que tem dito ou feito desde que se apresentou como candidato nos tem dado garantias sólidas do que seria no cargo – e o país não está para aventuras. Por isso, também nós não devemos estar para aventuras.

3. Neste contexto, o importante, para já, é que na segunda volta não tenhamos apenas candidatos da direita. O objetivo que me fixo é que haja escolha na segunda volta e que nessa escolha caiba alguém que, claramente, tenha provas dadas de fidelidade à Constituição. 

4. E não há outra maneira de alcançar esse desiderato a não ser votando em António José Seguro, votando em número suficiente para o fazer passar à segunda volta.

5. Não vai, nesta análise, nenhuma falta de consideração por outros candidatos de esquerda, como António Filipe, Catarina Martins ou Jorge Pinto. Apesar das discordâncias com algumas coisas que têm dito, são estimáveis – mas não estão em condições de contribuir para evitar que a segunda volta seja entregue apenas a candidatos de direita. 

6. É um erro pensar que a primeira volta não interessa e que na segunda volta logo pensamos o que fazer. É à primeira volta que temos de garantir que as nossas opções não ficam limitadas a escolher entre dois (diferentes ) candidatos de direita. É o nosso voto na primeira volta que vai definir o que estará ao nosso alcance no resultado final.

7. Por isto, apoio o candidato António José Seguro.

8. O meu voto em António José Seguro não tem nada a ver com lutas passadas dentro do PS. Dentro do PS, nunca apoiei António José Seguro (nem ele me apoiou a mim!). Do mesmo modo que, em 2014, apoiei António Costa, mesmo sendo igualmente verdade que, antes, nunca o tinha apoiado em nada de partidário (e vice-versa). Não estamos a escolher ministros, nem primeiros-ministros, nem secretários-gerais, nem líderes de facção: estamos a escolher um Presidente. Não confundamos as coisas.

9. Não tenho da política a visão romântica que espera pelo cavaleiro andante das virtudes. Não voto para santidades, nem para heróis. Voto para certas pessoas, concretas, reais, de carne e osso, em certas circunstâncias, desempenharem certos cargos – e voto para evitar que outros lá cheguem. Nesta Presidenciais, antes de elas efetivamente começarem, o meu candidato preferido seria Mário Centeno, por me parecer que era o que, partindo da esquerda democrática, mais potencial tinha, à partida, para alargar o seu campo eleitoral. Mas essa candidatura não está em cima da mesa, nem no boletim de voto. O meu voto é para escolher na circunstância que se nos apresenta, como se apresenta. Para evitar que isto seja um passeio de variantes da direita, para garantir que não tenhamos de escolher entre direita e direita, voto António José Seguro. Não será um santo, nem um cavaleiro andante, mas será, de todos os que se apresentam, o que dá mais garantias de cumprir e fazer cumprir a Constituição, de assegurar o regular funcionamento das instituições e de não dar alimento aos fascistas – nem aos que caem nos seus cantos de sereia.



Porfírio Silva, 30 de Dezembro de 2025
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29.12.25

História das Declarações de Princípios do Partido Socialista



No passado dia 17 de dezembro (de 2025), na sede nacional do Partido Socialista (Largo do Rato), teve lugar a apresentação em Lisboa do meu livro História das Declarações de Princípios do Partido Socialista.

Um dos apresentadores nessa sessão foi Eduardo Ferro Rodrigues, o Secretário-Geral do PS que tomou a iniciativa da actualização da Declaração de Princípios em 2002. O texto resultante dessa actualização é o que está ainda hoje em vigor.

Na sua intervenção, Ferro Rodrigues explicou as razões para a sua tese de que é preciso voltar a actualizar a Declaração de Princípios.

Ferro Rodrigues foi líder do PS num momento muito difícil do partido, exerceu o lugar com grande dignidade (apesar do contexto adverso, esteve quase a derrotar Durão Barroso) e tem, desde então, mantido uma intervenção cívica de elevado nível, pautada por uma coragem moral a toda a prova - que merece o nosso aplauso e gratidão. É alvo frequente da caravana de aldrabões, mas isso só demonstra a valia do seu contributo para a vida pública e a sua verticalidade.

Já tive oportunidade de divulgar a sua intervenção nessa ocasião, quer no Facebook, quer no Youtube (pode ser vista clicando aqui).

Divulgo hoje a intervenção de José Pedro Castanheira, jornalista de renome que, além disso, tem sido um grande constructor de conhecimento comum sobre as últimas décadas de Portugal, quer sobre a fase de construção da democracia, quer sobre o tempo da ditadura e da resistência. É, entre muitas obras de relevo, autor de uma monumental biografia de Jorge Sampaio, cobrindo com grande rigor toda a vida pública do antigo Secretário-Geral do PS e Presidente da República.


Acredito que a visualização desta intervenção de José Pedro Castanheira seja uma boa preparação para a leitura integral da obra, que inclui documentos que, hoje, são de difícil acesso. Boa escuta e boa leitura!


Porfírio Silva, 29 de Dezembro de 2025
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26.11.25

26 de Novembro de 2015 / 26 de Novembro de 2025



Há dez anos, dia por dia, tomava posse o primeiro governo constitucional resultante da capacidade do conjunto da esquerda parlamentar para traduzir politicamente uma urgência nacional.
A urgência nacional era ultrapassar a profunda divisão dos portugueses provocada pelo radicalismo "além da troika" alardeado por Passos Coelho. Traduzir esse desiderato na prática passava por demonstrar que a "austeridade", como empobrecimento programado da imensa maioria dos portugueses, não resolvia problema nenhum, nem das finanças, nem da economia, nem da sociedade.
Esse Governo, liderado por António Costa, deu ao país uma nova respiração, tendo sido um dos governos mais bem acolhidos pelo povo nas décadas mais recentes.
Nunca me aborreceu muito que lhe chamassem "Geringonça", porque esse epíteto apenas denotava a incapacidade da direita para dar uma resposta capaz aos anseios das pessoas comuns. Mas sempre preferi a designação "Esquerda Plural", mais fiel ao essencial e mais transparente quanto às possibilidades... e, também, quanto às dificuldades.
Vale a pena lembrar que o Primeiro-Ministro desse Governo foi sempre, de eleição para eleição, aumentando a votação recolhida em eleições livres. António Costa não foi derrubado pelo voto popular, nem sequer pelo voto dos deputados, mas apenas por um golpe judicial com a cumplicidade de Marcelo Rebelo de Sousa.


Porfírio Silva, 26 de Novembro de 2025
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