04/09/12

«Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.»


Encontrei no Entre as brumas da memória um texto que Mário de Carvalho divulgou hoje no Facebook. O título é: "Denegação por anáfora merencória". Quer o escritor, quer o texto, quer o blogue, quer a autora do blogue - todos me merecem respeito. Convido-vos a lerem esse texto na sua inteireza.
E depois convido-vos a lerem uma versão retalhada por mim, que vem a seguir. As partes em itálico e a vermelho são pedaços intercalados por mim. A minha intenção não é desrespeitar o texto, nem o autor - nem as vítimas. Mas, apenas, fazer pensar. Por me parecer que pensar não passa necessariamente por extremar posições - ou, pior ainda, confundir as oposições, porque nem todas as oposições se recortam do mesmo modo nem com as mesmas fronteiras.

***

Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores».

Mas muitos, por essas repartições e empresas deste país, são hoje obrigados a lamber o cú ao patrão ou ao chefe, sob pena de irem para o olho da rua ou de terem de assear a latrina com o paninho de limpar os óculos.

Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor.

E os camaradas na URSS e na RDA e em outros países das amplas liberdades, que participavam de libérrima vontade nas respectivas “organizações de petizes”, como os pioneiros, ou em outras organizações de juventude, ou em outras organizações de massas, em nome do progresso da humanidade, ou da revolução, ou dos proletários de todos os países que deviam unir-se, tinham muito mais sorte porque levavam outras coisas à cintura em vez do S de Salazar. E contudo ninguém pretende que na URSS ou na RDA havia fascismo.

Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado».

Nisso tive imensa sorte, porque hoje em dia, quase 40 anos depois do 25 de Abril, o que há mais é o culto do chefe, do chefão, do chefinho, do senhor doutor, do senhor prior, do senhor director-geral, do menino assessor e de toda a catrefa de pequenos caciques que nos podem tramar, mesmo que ainda por cima tenhamos de lhes dar palmadas nas costas e pagar-lhes um café de vez em quando para eles amansarem aos intervalos, porque a senhora que vende os jornais no meu bairro me trata por senhor doutor quando vou de gravata e nem bom-dia me diz quando vou de t-shirt, porque a porra da veneração escusada é uma coisa tão espalhada entre o carneiral humano que de tanta veneração até parece uma transmissível doença venérea.

Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família».

Mas eu já fui “descontratado” pela Universidade Católica Portuguesa, depois de ter ganho um concurso para recrutamento de professores, porque tinha assinado uma petição contra a pouca vergonha do Cavaco e outros “altos dignitários” confundirem as suas pessoas privadas com as suas funções de Estado no acolhimento ao Papa em Portugal – e recebi, sobre isso, o comentário de um blogueiro muito-muito de esquerda-da-esquerda que isso não tinha mal nenhuma porque a Católica sendo privada faz o que quer e o que lhe apetece e ninguém tem nada a ver com isso.

Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça».

E no entanto o actual Presidente da República já disse num 10 de Junho estar a comemorar o dia da raça. E o que não falta por aí é racismo. Racismo prático, não apenas teórico.

Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo.

E agora já não preciso disso, basta ligar a televisão e ouvir os governantes fazerem esses mesmos apelos e recomendações. O (nosso) empobrecimento é agora a ideologia da classe dominante, se ainda não deu conta disso.

Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar».

Eu, pessoalmente, também não, mas há muita gente por aí que conhece outras realidades: por exemplo, “bons colégios” que só admitem meninos e meninas que cumpram os requisitos da santa madre igreja (sabemos qual a igreja a que me refiro).

Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti à miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai.

Eu também não, mas a censura à criação está, hoje em dia, entregue ao mercado da cultura, seja ao mercado da comunicação social, onde os temas políticos relevantes para merecerem destaque editorial dependem da linha política dos donos, seja ao mercado do livro e de outros bens, onde as mais das vezes se paga para escrever ou para compor, em vez de se ser pago para criar.

Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intérprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua.

Eu também não: tenho a sorte de essas liberdades estarem, no essencial, protegidas na democracia imperfeita que temos hoje. Tenho a sorte de alguns terem tratado disso por mim. Mas, ao mesmo tempo, tenho consciência da tendência crescente para criminalizar a dissidência, o que se nota quando a polícia “dispersa” uma “manifestação” de três ou quatro pessoas, quando a prática de actividades culturais com a população de um bairro numa escola antes abandonada é perseguida com a mesma brutalidade com que se perseguiria um bando de ladrões, como se destruir e construir fossem coisas iguais só por não se estar dentro do regulamento, como se os direitos fundamentais e os regulamentos tivessem a mesma dignidade.

Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas,

… já eu, embora não encontre o termo jurídico apropriado para falar disso, não posso impedir-me de ver as “eleições” jardinistas como eleições falsificadas desde há não sei quantos anos a esta parte, ainda por cima toleradas por todos os poderes…

nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina.

(Uma declaração a precisar de revisão um destes dias, apesar de os métodos já não serem, de modo nenhum, os mesmos.)

Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais.

(Anda a ir pouco a manifestações ultimamente – ou então está desatento aos sinais. É que os regimes mudam e nem sempre mudam por golpe de Estado.)

Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos.

Eu, se não tivesse olhos, não veria que hoje em dia se é julgado sem ir a tribunal, pela “comunicação social”, ou que se pode ir a tribunal por ter roubado um quilo de arroz no supermercado para matar a fome, sem perder de vista que a malvadez de um tempo não desculpa, nem sequer explica, a malvadez de outro tempo.

Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado.

Eu, o telefone vigiado, suponho que também nunca tive – mas isso é por eu ser um tipo irrelevante quer para as pequenas quer para as grandes potências deste mundo, mas, por outro lado, seria capaz de jurar que muita gente, nos tempos que correm, é ilegalmente vigiada por gente que abusa dos meios especiais que o Estado lhes põe à disposição. Por exemplo, super-espiões. Ou talvez por smartphones que trabalham por conta própria.

Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único.

Eu também não, por ser mais novo. Por ser mais novo escapei a coisas horríveis que se fizeram neste país no tempo da outra senhora. Por isso continuo a festejar o 25 de Abril. Com mais entusiasmo do que aquele com que festejo outros feriados nacionais, mesmo alguns feriados que estão a deixar de ser feriados. E dou muito valor a isso tudo. E repugna-me que alguém tente fazer do salazarismo um jardim das delícias, um tempo de passarinhos a chilrear, uma modorra quase epicurista. Repugnam-me os que tentam branquear o “fascismo português”; repugnam-me, também, os que falam ou escrevem por meias palavras para fazer passar por fascista qualquer interpretação desse regime que, sem esconder as suas malfeitorias, o interprete no contexto do seu tempo. Sem relativismos, porque abomino o relativismo, mas também sem absolutismos interpretativos, que também me causam urticária. Por exemplo, não gostei de ver ridicularizado um historiador por defender a tese, talvez hoje minoritária, de que o fascismo português é comparável ao fascismo italiano. Porque não quero confundir debates historiográficos com debates de sociedade.

Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

E eu nunca tive a infelicidade de sofrer na pele outros regimes hediondos, como, apenas por exemplo, largos períodos da história de Angola independente onde a política oficial foi inseparável do crime. E, no entanto, acredito realmente que nem todos os regimes hediondos devem ser classificados de fascistas. E que é possível reconhecer a natureza repressiva e totalitária do salazarismo sem evitar uma comparação com outros regimes considerados fascistas. E que discordar sobre alguns aspectos da caracterização de um regime como fascista ou não fascista não é a mesma démarche que alinhar com ou contra o fascismo. Mas isto sou eu a dizer, que não sou nem historiador nem escritor e era novo quando “se deu” o 25 de Abril e devo, portanto, estar calado e não me intercalar nas vozes das autoridades na matéria.




1 comentário:

Jaime Santos disse...

Porfírio, mais importante do que saber-se se o salazarismo era ou não fascista (se calhar, teve elementos fascizantes até ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando o oportunismo e o notável sentido de sobrevivência de Salazar o obrigaram a enveredar por outras vias), é saber o que se pode ou não pode dizer do salazarismo sem se cair no revisionismo sobre a natureza profundamente repressiva do Estado Novo (algo que não sei se Rui Ramos efetivamente faz, porque não li a sua História de Portugal). Esse é o aspecto mais importante deste debate e se calhar os seus intervenientes nem se apercebem bem disso. Outro aspecto relevante é que o tirocínio político de uma certa Esquerda foi feito no combate à ditadura, portanto a desvalorização dessa ditadura atua como um ataque à matriz identitária dessa Esquerda e serve simultaneamente para diminuir a má consciência da Direita de não ter combatido o salazarismo, ou ter mesmo sido conivente com ele... Por isso, este debate é profndamente ideológico e tem reflexos no política do Presente...