20/09/12

da caridade.


S. Martinho corta o manto com a espada para o dividir com o pedinte (El Greco, 1598).


O debate entre a “caridade” e a “caridadezinha” tem tido, nos últimos tempos, picos de aquecimento na blogosfera e nas redes sociais. Até cantores de esquerda foram acusados de envolvimento em iniciativas pintadas com as cores da caridadezinha, mas a intervenção de Isabel Jonet nessa questão tem sido mais focada. O tema importa, não apenas pela sua relevância política, mas por dizer directamente respeito a pessoas que precisam de não serem deixadas à sua sorte, bem como a pessoas que por isso se interessam. Ora, então, vamos lá por partes.

Ponto 1. Eu não sou contra a caridade. Não sou contra as pessoas que, livremente e para lá de quaisquer direitos ou deveres legais, dão coisas e/ou tempo e/ou dedicação a outras pessoas, gratuitamente. Não sou contra isso, nem na forma individual, nem na forma organizada. Pelo contrário. Por exemplo, acho meritório o trabalho dos Bancos Alimentares contra a Fome. Como instituição e na pessoa dos colaboradores que concretizam a sua acção. Mesmo que eu não partilhe algumas das suas ideias, acho meritório. Há, de facto, seres humanos concretos que obtém, mesmo que momentaneamente, algum tipo de alívio para os seus sofrimentos por causa de acções que costumam designar-se como caridade. Não podemos ser indiferentes a isso.

Ponto 2. No plano de uma comunidade política civilizada, as pessoas têm direitos. Para falar genericamente, direito a uma vida digna. Os direitos não são oferecidos pela boa vontade de alguém, são uma bagagem inalienável de cada pessoa. Os direitos não devem depender de que apareça alguém com disponibilidade para os concretizar, devem ser assumidos por uma comunidade organizada. Uma comunidade onde a caridade é precisa, de forma sistemática, para atender a direitos básicos que deviam estar assegurados, é uma comunidade doente. O "Estado social", tal como o entendo, é necessário para que ninguém precise da caridade. O projecto de tornar a caridade o caminho principal, a via real, relegando para segundo plano a solidariedade organizada e a garantia dos direitos, é um projecto para uma sociedade de pedintes e servos. É que os direitos não podem depender das boas vontades, enquanto a caridade é, por natureza, arbitrária: ninguém pode ser obrigado a ser caridoso, o caridoso é caridoso quando quer, como quer, com quem quer. Esse elemento de discricionaridade, sempre presente na caridade, não é tolerável como elemento central de uma comunidade de cidadãos.
Por isso acho intolerável a ideologia de Isabel Jonet sobre este ponto, quando diz: «Eu sou mais adepta da caridade do que da solidariedade. A caridade é muito mais. A palavra está desvirtuada por ter uma conotação religiosa, mas para mim a caridade é a solidariedade com amor. Com entrega de si mesmo. A grande diferença é que caridade é amor e solidariedade é serviço.» (fonte)
Colocar os direitos, e a solidariedade organizada como meio de os fazer valer, em segundo plano face à caridade, é ideologicamente um regresso ao salazarismo. Que recuso liminarmente.

Ponto 3. Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, tem-se colocado sistematicamente, de há algum tempo a esta parte, numa linha claramente ideológica, política no sentido mais parcial do termo, assumindo teses muito antigas e muito claramente posicionadas no tabuleiro da luta político-partidária. Quando alerta para os «efeitos perversos» do Estado Social; quando defende que o novo pacote de austeridade de Setembro (incluindo o Robin dos Bosques invertido, mais conhecido por TSU) é um «mal menor»; quando afirma: «As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. Muitas vezes, preferem ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago, porque sabem que vão ter a prestação social no final do mês.» (fonte). Entretanto, se alguém ataca as declarações da senhora, há logo umas vozes escandalizadas porque a senhora é muito boazinha e não pode ser criticada. Ora, nada disto é caridade: isto é política de uma tendência bem determinada.
Saberá Isabel Jonet, por exemplo, que quase metade dos desempregados em Portugal não recebem nenhuma prestação de desemprego? Misturar toda essa gente, em geral, com os que se encostam e não fazem nada (que também existem, sim) é pura ideologia. E é um velho argumento, que vem sempre do lado dos que culpam os aflitos pela sua aflição. Isabel Jonet tem insistido, nos últimos tempos, em fazer ideologia, em falar demasiado genericamente. Fica-lhe mal e, se o que ela quer mesmo é fazer caridade, está a prejudicar essa mesma caridade com esta insistente agenda ideológica. Infelizmente, até já a caridade serve para fazer currículo que depois se usa no combate político (um Fernando Nobre de saias?). O que é uma pena: há pessoas que admiro apesar das divergências, mas também há pessoas que nos fazem perder o respeito pela sua acção quando confundem os carrinhos todos e se metem em guerras a que se deviam poupar.

Ponto 4. Usar a caridade para promover certas ideias políticas é repugnante. Moralmente repugnante. Mesmo em termos cristãos, é contra o Evangelho, que manda que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita (quer dizer, que não se apregoe, não se faça propaganda da caridade praticada). Não sou contra a caridade como caridade, mas tenho muito contra a intrusão da caridade na luta ideológica, como arma de arremesso política. Infelizmente, a Isabel Jonet que assim entra no combate ideológico, sem luvas nem nada (de uma forma quase partidária, pelo tom da sua vinda a terreiro neste momento), lança desse modo uma sombra sobre um projecto (os bancos alimentares contra a fome) que, apesar das discordâncias com as tintas ideológicas, considerávamos meritório. E continuamos a considerar: meritório e necessário. Infelizmente necessário.

Ponto 5. Uma última palavra sobre a solidariedade que vai para além do “Estado social”. Nem toda a caridade é caridadezinha, mas anda por aí muita caridadezinha disfarçada de caridade cristã. Gostaria de saber se todos os entusiastas de Jonet seriam igualmente entusiastas de associações operárias de socorros mútuos, que certamente não beneficiariam de tanta benevolência de certos meios, nem de tantas bênçãos. E, contudo, têm tradição e fizeram muita obra: mas com uma ideologia muito diferente. Aliás, é pena que a esquerda, em tantos países, tenha perdido essas tradições, tornando-se demasiado estatista: mas essa é outra conversa. Entretanto, aos que fazem ideologia e política de facção do alto dos seus tronos de caridade, digo, usando ainda outra expressão do Evangelho, que são "túmulos caiados de branco". E que, como tal, não me merecem o respeito que presumem ser-lhes devido.

(Acrescento este link, por conter alguma informação relevante de enquadramento.)

7 comentários:

maria disse...

estou de acordo. vou linkar pela pertinência e justeza dos argumentos.

Jaime Santos disse...

Ora toma... Não conheço as posições que Isabel Jonet tem sobre a Caridade em pormenor, mas parece-me que ela nem sequer se lembra que o termo Ágape implica uma intencionalidade de acção que, portanto, poderia ter dois causas: ou o interesse próprio do indivíduo (enlightned self-interest) ou a noção de uma Obrigação que este tem que cumprir (como é o caso). Nesse sentido, a Caridade Cristã deriva mais da Obrigação (obediência à Lei de Deus) do que a Solidariedade, que poderia ser pensada em termos de puro interesse racional do indivíduo (eu procedo assim agora de modo a que procedas de forma igual para comigo no futuro). Mas mesmo este raciocínio requer implicitamente que consideremos que o Outro não só pensa como nós, mas que é igualmente dotado de um sentido de Equidade (de nada valeria agir de forma altruísta numa sociedade de 'cheaters'), ou seja é Igual a nós. Mas não conheço ninguém que justifique um sistema de valores em bases puramente egoístas, tirando os discípulos da Sra Rand, e não é certamente neste sistema de valores que eles acreditam. As pessoas de Esquerda (e muitas de Direita) acreditam na Igualdade (inc. o Direito a uma Vida Digna, o que nos obriga a sermos Solidários) porque acreditam que só ela garante plenamente a Liberdade de Todos de Participação no Governo da Pólis e fazem-no por convições morais (religiosas ou seculares)...

João Ferreira Dias disse...

A propósito deste texto deixo o link para o meu post sobre o assunto, enquadrado à questão doutrinária religiosa: http://joaoferreiradias.net/blog/?p=855

Porfirio Silva disse...

Só para colocar o link deixado acima por JFD num formato mais amigável e aconselhar que se leia o post respectivo: Da Caridade.

Rita Casqueiro disse...

De facto, há gente que fala muito, só sabe acusar e nada faz! Esta Senhora está à frente de uma grande obra e tenho a certeza que quem mais a defende é quem tem beneficiado dessa mesma obra ao longo de tantos anos! Quem está a criticar pura e simplesmente nunca passou privações e só quer mesmo é destruir o que está feito, tendo como lema o já sobejamente visto "dividir para reinar"!!!

Rita Casqueiro disse...

Há gente que, de facto, fala muito, só sabe acusar e nada faz! Esta Senhora está à frente de uma grande obra e tenho a certeza que quem mais a defende é quem tem beneficiado dessa mesma obra! Quem está a criticar pura e simplesmente nunca passou privações e só quer mesmo é destruir o que está feito, tendo como lema o já sobejamente conhecido "dividir para reinar"!!! Apoio a Isabel Jonet, os criadores do Banco Alimentar e toda a grande comunidade que dele beneficia, 100%!

Porfirio Silva disse...

Rita,

O seu comentário quer dizer que quem faz coisas úteis está acima da crítica? Quer dizer que uma pessoa caridosa tem direito a ter qualquer opinião e essa opinião não pode ser contrariada?

Se leu o texto acima (duvido, para escrever o que escreveu) verá que eu não ataco o BA. Critico uma opinião política e sustento que tanto alarde público de uma opinião política por parte de uma dirigente do BA pode até ser mau para o BA.

Assim, por favor, use a caixa de comentários para falar do que aqui se escreve, não para criticar o que aqui não se escreve.

Quanto a essa coisa de quem faz e quem não faz, só lhe digo: a arrogância moral é muito pouco evangélica. Já não se lembra de que o Evangelho manda que não saiba a mão direita o que a mão esquerda faz?