
12.11.21
Sair da crise

2.11.21
Questões ao PCP.

27.10.21
Pedido de esclarecimento. Ao PCP
Deixo aqui, para registo, a minha intervenção, ontem, no debate na generalidade sobre o Orçamento de Estado para 2022.
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Senhor Presidente, Senhor Primeiro-Ministro, Senhores membros do Governo, Senhores Deputados,
Senhor Deputado Duarte Alves,
No dia 5 de dezembro de 1989, Jorge Sampaio dizia daquela tribuna: “Socialistas e comunistas conhecem as suas divergências como ninguém. Traçaram mutuamente uma fronteira que é mutuamente assumida. E são raianos. Ninguém conhece as fronteiras como os raianos.”
Nesse momento histórico, Jorge Sampaio liderava uma coligação de socialistas e comunistas à Câmara de Lisboa, que tão bem-sucedida foi. Nós somos dessa escola, que não disfarça as divergências, mas une forças para fazer à esquerda o que falta fazer. E é por aí que vão as minhas perguntas.
Este documento, “Balanço do Trabalho Parlamentar, XIII Legislatura”, do GP do PCP, faz uma lista das provas concretas de que a legislatura anterior foi, e cito, “um tempo de recuperar e conquistar direitos e rendimentos com inúmeros avanços e conquistas”. Embora assumidamente não exaustiva, é uma lista extensa, que se espraia por três páginas. Será que o PCP de hoje desvaloriza essas conquistas de direitos e rendimentos?
Depois, evidentemente, o documento diz que não vamos suficientemente longe. Que todos queremos mais, é certo. Mas será razoável chumbar o aumento extraordinário de todas as pensões até 1.097 euros? Vamos travar a universalização das creches gratuitas? Travar o aumento do investimento público? São questões que acho que nos deviam preocupar em nome do país – e creio que o PCP também se preocupa com isso.
Mas, Senhor Deputado, queria fazer-lhe especificamente a seguinte pergunta.
O PCP sempre disse que não misturava OE com outras matérias. Ainda em julho o líder parlamentar do PCP dizia que não era responsável nem digno misturar Orçamento com matéria laboral. Agora, mudou: o PCP explica o seu voto, contra o Orçamento mais à esquerda de sempre, com variadas matérias extraorçamentais.
Então, se a ideia era exigir um acordo abrangente, porque é que o PCP inviabilizou à nascença a possibilidade de acordos escritos de legislatura à esquerda, que, mesmo num formato mínimo, tão bons resultados deram na legislatura anterior?
Senhor Deputado, estão lá fora milhões de eleitores de todos os partidos de esquerda, PS, Bloco, PCP, que se entusiasmaram com o que conseguimos fazer em conjunto na legislatura anterior, que agora se perguntam: não terá o PCP dado um mau passo quando se apressou a dizer que não voltava a haver papel nenhum assinado à esquerda?
Não deveríamos, todos, reforçar esforços na recuperação da crise social e económica provocada pela pandemia, para que essa recuperação seja solidária e progressista?
E faço esta pergunta por uma razão muito simples: é que nós achamos que o PCP é fundamental nessa resposta. Era por isso que gostávamos muito de ouvir a vossa resposta, para sabermos se vamos continuar a poder discutir o orçamento da especialidade, para dar a resposta que o país precisa, ou se ficamos por aqui.

27.9.21
Autárquicas 2021: lições e ilusões
Depois de uma noite eleitoral mais longa do que aquilo a que temos estado habituados nos últimos anos, proponho-me deixar aqui alguns elementos de leitura das eleições autárquicas de ontem, em seis apontamentos, com os quais tento olhar tanto para a direita como para a esquerda.
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1. Lisboa enche o olho – e isso não é estranho: também nós gostávamos de ter ganho Lisboa. Não obstante, as eleições autárquicas são 308 eleições. E é indiscutível que, hoje, o PS continua, de longe, a ser o maior partido autárquico: a presidir a muito mais câmaras e a muito mais freguesias do que qualquer outro partido. O PS continua a liderar cerca de mais 40 câmaras do que o PSD. Nas autárquicas de 2017, o PS teve um resultado histórico, sem precedentes – sendo, por isso, praticamente certo que teria de perder algumas posições desta vez. No entanto, face às 159 câmaras que ganhou em 2017 (161, contando com as coligações), o balanço de perdas e ganhos de ontem significa que perdemos umas 10 câmaras, em todo o país (das quais, 5 nos Açores, por arrastamento da dinâmica da recente mudança governativa regional). Dos mais de 2050 mandatos que estavam em jogo nas câmaras, o PS perdeu um pouco mais de 60. Não há como fazer com que isto deixe de ser uma grande vitória nacional dos autarcas do PS.
2. Aquilo que a direita tradicional (PSD e CDS) ganhou foi, praticamente apenas, o efeito das coligações: aproveitaram melhor os votos que já tinham, não avançaram praticamente nada de substantivo. Em Lisboa, a diferença entre Medina e Moedas não chega a 1% dos votos. Como de costume, a Direita é, na aritmética eleitoral, mais pragmática – e a Esquerda perde sempre com isso, porque tem excessivos pruridos. Mesmo assim, o PSD procura colocar todos os ganhos no seu cesto, mesmo quando isso é abusivo – por exemplo, Coimbra não é uma vitória da direita tradicional, mas antes um “(quase) todos contra o PS”, abrangendo um daqueles fenómenos de “independentes” que Rui Rio parece abominar quando não lhe dá jeito. (As aspas em “independentes” seriam de Rio.)
3. A ilusão de que ganhar a Câmara de Lisboa é ganhar o governo do país é uma ilusão com antecedentes – mas é uma ilusão. Caso de escola: Jorge Sampaio ganhou Lisboa em 1989, com 49% dos votos e uma maioria absoluta de vereadores para a Coligação Por Lisboa. Cavaco Silva era primeiro-ministro e primeiro-ministro continuou durante mais 6 anos. Carlos Moedas tem 34% dos votos e fica em minoria na Câmara. Pode ser útil à Direita alimentar a ilusão, mas a realidade não autoriza excessiva extrapolação.
4. Rui Rio e a actual direcção nacional do PSD estão aliviados com os resultados. É compreensível: não foram apeados de supetão. Acaba por ser interessante para o país, na medida em que permite que Rui Rio complete o ciclo legislativo e leve o seu projecto às próximas legislativas, travando, talvez, o excessivo entusiasmo de alguns sectores mais radicais do PSD. Sublinhe-se, a propósito, que há muitos PSDs no PSD: seria muito pior para o país que a vitória PSD da noite fosse alguém com o posicionamento da candidata extremista da Amadora, em vez de ser alguém com o perfil do candidato de Lisboa, que não parece ter tendência para imitar o protofascista de serviço. Na perspectiva da saúde da democracia, faz muita diferença – desde que o próprio PSD o entenda (designadamente, na relação com o partido do dito protofascista).
5. O antigo presidente da IL, num debate na Rádio Observador, dizia esta manhã que as ideias liberais ajudaram o PSD a ganhar Lisboa, porque Moedas é um liberal – acrescentando que o PSD tem de encontrar o seu Moedas a nível nacional. O problema (para a Direita) é que, do ponto de vista eleitoral, essa descoberta não leva longe: Moedas repete Passos Coelho em 2015, Moedas tem 7 em 17 vereadores em Lisboa. Dá para governar, graças às especificidades da nossa lei autárquica. A nível nacional, já percebemos como isso funciona desde 2015: a Direita coligada ficou à frente, mas quem teve maioria foi a Esquerda e foi a Esquerda que governou.
6. Outra lição para o futuro: aqueles que, à esquerda do PS, e designadamente em Lisboa, disseram que o perigo era uma maioria absoluta do PS, mostraram, outra vez, que escolher mal os alvos é politicamente perigoso – ou, até, irresponsável.

10.9.21
Jorge Sampaio, o anti-herói




